O Amor é Estranho (Love is Strange. 2014)

o-amor-e-estranho_2014É! O amor é estranho por levar a uma decisão que deixará ambos felizes, mesmo tendo consciência que isso terá consequências desagradáveis. Mas pelo momento em si, vai lá e faz assim mesmo! Arrojo, maturidade…? Pode ser… O amor é estranho por levar alguém a ficar de longe admirando a pessoa amada, e que depois descobre que ela fazia o mesmo, e que mesmo assim travou o desejo da aproximação. Timidez, inexperiência…? Poder ser… O amor é estranho por fazer alguém a ser quase coadjuvante na vida do outro até que decide protagonizar a própria vida quando então o outro descobre o quanto esse amor era importante. Seguir em frente? Dar outra chance?… São certezas, dúvidas que permeiam a todos, principalmente em relacionamentos… No fundo é quase um momento de olhar no espelho e dizer amigavelmente: “Olá, estranho!

Muito bom quando se vê uma Hollywood colocando como protagonistas um casal homo e que por décadas levam uma vida plena de amor! Não que isso seja o pano de fundo em “O Amor é Estranho“, mas sim porque isso é que se deveria ver em toda a sociedade moderna. O que o filme traz são as incongruências das e nas atitudes que as pessoas são levadas a fazer em nome do amor. Até pela atitudes destemperadas por falta de um diálogo mais franco. Que às vezes nem se trata de ser por falta de amor, mas sim por acumular coisas mal resolvidas. Até pelo imediato de não pesar prós e contras… Indo por uma boa intenção… Levando então as explosões que poderão deixar feridas… E aí é cada um assumindo de um jeito próprio por mais estranho que isso possa parecer.

o-amor-e-estranho_2014_01Em “O Amor é Estranho” o casal Ben (John Lithgow) e George (Alfred Molina) após décadas de uma relação cheia de amor resolvem oficializar a união. Família e amigos comparecem até para abençoarem o gesto. Acontece que sai das intimidades desses lares… incomodando a Igreja. Tudo porque George dar aulas de Música num Colégio Católico. Todos – pais, alunos, corpo docente – até sabiam da relação dos dois, mas ao colocar num papel… O Diretor da instituição se vê obrigado a seguir a um outro papel: onde o casamento de George e Ben peca contra os preceitos da religião.

Com isso, só a renda da aposentadoria de Ben e somada as aulas particulares de piano dadas por George não dariam para cobrir todos os gastos de onde moravam. Decidem vender o imóvel e comprar um mais acessível aos bolsos dos dois. Mas até lá precisariam ficar de favor na casa de alguém. Ben então vai para a casa do sobrinho Elliot (Darren E. Burrows) e George vai para a casa do filho Roberto (Manny Perez). E é quando se convive sob o mesmo teto com esses familiares que a coisa começa a desandar.

o-amor-e-estranho_2014_02Elliot é casado com Kate (Marisa Tomei) e têm um único filho, o “adolescente” Joey (Charlie Tahan). Kate trabalha em casa: é escritora. Ben dorme numa beliche no quarto de Joey que não gostou nada dessa intromissão. Ben fica sem saber onde passar as horas do dia, sem querer também incomodar Kate que está escrevendo um novo romance… Para piorar essa nova vida dos quatro… Algo vem à tona: um temor de Elliot em relação ao próprio filho. É! Na intimidade de um lar é que se conhece de perto alguém… Mas mais do que uma panela de pressão prestes a explodir… É de Ben que Joey recebe uma real atenção, e mesmo tendo sido tão rude com o tio. Se na outra casa é por demais silenciosa… Na casa de Roberto que vive maritalmente com Ted (Cheyenne Jackson) mais parece uma boate onde todas as noites acabam em festas. Levando George a poucas horas de sono, e acabam deixando-o sem paciência durante as aulas… À primeira vista pode-se achar que Ben e George deveriam ter trocado de casas: um poderia dormir à noite e o outro durante o dia. Enfim, mesmo parecendo terem errado nessa “estadia provisória”… Foi devido a uma dessas baladas noturnas da casa do filho que George conheceu Ian (Christian Coulson) e…

Fora um jeito do destino tentar reorganizar a vida de todos? Mesmo já tendo abalado alguns dos relacionamentos? Essa nova virada ainda estaria em tempo para aproveitá-la? As feridas se cicatrizaram? Pode até ser… Pois tendo amor no coração ele tambem deixa um convite a fechar um capítulo, tendo novas páginas para seguir em frente até como se nada tivesse acontecido… Afinal, o amor é estranho mesmo!

o-amor-e-estranho_2014_diretor-e-proagonistasO Diretor Ira Sachs merece aplausos pelo conjunto da obra: atuações, trama, trilha sonora…! Um filme que pelo o que consta gerou polêmica nos Estados Unidos até pela “liga da moralidade e dos bons costumes” a MPAA – órgão censor daquele país -, que classificou-o como inapropriado para menores de 17 anos. Caramba! Só por beijos na boca entre homens? Mas enfim, querendo saber mais sobre essa tal MPAA, sugiro o Documentário “Este Filme Ainda Não Foi Classificado“, do Diretor Kirk Dick. Há um porém nesse filme e numa fala que o liga ao Brasil, a um certo estigma, e que eu fiquei sem entender até porque quem também assina o Roteiro é o brasileiro Mauricio Zacharias (de “O Céu de Sueli”). Ele bem que poderia não ter colocado tal estigma. Seria ele um “coxinha”?

No mais, “O Amor é Estranho” é muito bom! Merece ser visto! Quanto a rever, quem sabe algum dia… Nota 08!

O Amor é Estranho (Love is Strange. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Anúncios

Acima das Nuvens (Clouds of Sils Maria. 2014)

Acima-das-Nuvens_2014_01Acima das Nuvens_01Por Eduardo Carvalho.
Toda obra metalinguística reflete seu próprio objeto. Não raro, acaba por provocar reflexão também por outros assuntos aos quais faz referência. Não é diferente o caso de “Acima das Nuvens”, filme de Olivier Assayas, estrelado por Juliette Binoche e Kristen Stewart. Juliette faz Maria Enders, famosa atriz de teatro e cinema, que se vê às voltas com um dilema. Aos 18 anos, fez um papel no palco que foi decisivo para sua carreira. Agora, na maturidade, deverá aceitar o papel de mulher mais velha, vítima da trama?

Acima-das-Nuvens_2014_04A passagem do tempo é atirada na sua face, agravada pela morte de um velho amigo, autor da peça que a projetou. A presença de Valentine (Stewart), sua assistente, que funciona como pára-raios dos problemas do dia-a-dia, é reconfortante. Sozinha, recém divorciada e abalada pela morte do amigo, Maria torna-se dependente cada vez mais da presença e do apoio de Val. Assim como sua antiga personagem no teatro, Val é jovem, cheia de vida, com ideias próprias, querendo ser aceita por suas ideias. Apresenta uma nova visão de mundo contemporâneo a Maria, que não aceita tais mudanças.

Acima-das-Nuvens_2014_05Um jogo de espelhos vai sendo estabelecido na relação entre Maria e Valentine / Helena e Sigi. O vínculo entre a atriz e a assistente é esticado como uma corda tensionada, mas a quebra de expectativa habilmente criado pelo roteiro conduz o espectador a outras camadas e a outros questionamentos. É tal a simbologia das nuvens do título; o passado deve permanecer apenas como lembrança.

Assim como “Birdman”, “Acima das Nuvens” critica e até brinca com a indústria de celebridades em que Hollywood vem se transformando mais e mais, com a entrada em cena das mídias sociais. O filme tem o mérito de fazer um grande recorte do mundo contemporâneo em que muitos estamos imersos, e ainda tocar em questões profundas que sempre acompanharão o ser humano em sua caminhada. Qual meu lugar nesse mundo? Como lidar com o envelhecimento? Aqui, o envelhecer não é visto tanto como sinal de proximidade da morte, mas mostra o quanto a vaidade pode ser algo inútil a manter.

Acima-das-Nuvens_2014_03Embora menos marcante do que em outros papéis, Juliette Binoche dá conta do recado. Sua Maria é feita com algum cinismo, e com um tom menos dramático do que poderia ter saído nas mãos de uma atriz menos tarimbada. Um equilíbrio alcançado apenas pela experiência da idade, e pelo trabalho com tantos diretores diferentes em seus estilos e propostas. De tudo isso, se beneficiam não só o público, mas sua parceira Kristen Stewart. Marcada pela saga juvenil de vampiros, a atriz vem se distanciando desse universo em papéis posteriores, e chegou a este desafio. Parece ter funcionado: Valentine rendeu-lhe o Cesar de coadjuvante, fato inédito com uma atriz americana.

Direção segura, roteiro envolvente e grandes atuações fazem de “Acima das Nuvens” um filme para ficar na memória.

Acima das Nuvens (Clouds of Sils Maria. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

À Procura do Amor (Enough Said. 2013)

a-procura-do-amor_2013_capaPor Pedro H. S. Lubschinski.

a-procura-do-amor_diretora-nicole-holofcener_e-atoresIsso vai soar bobo, mas você partiu meu coração e eu estou velho demais pra essa merda.”

À Procura do Amor é um filme sobre pessoas comuns, como eu, você ou alguma pessoa que conheça. Da mesma forma, as situações vividas por essas pessoas não fogem dessa banalidade: uma adolescente acaba de ser aceita na universidade; marido e mulher vivem o dilema em torno da demissão de uma empregada; e o casal protagonista, divorciados de meia-idade que se conhecem e começam uma relação. Não existe nada de espetacular acontecendo nessa produção de Nicole Holofcener. Por outro lado, por trás de todo esse viés de normalidade, existe algo mágico acontecendo: a vida, ora embalada pela doce música de um riso, ora amargurada por um choro salgado.

Assim, não espere ao longo da narrativa cenas marcantes e frases de efeito. As situações vistas aqui podem até vir a tornarem-se marcadas em sua memória, mas isso será muito mais pela empatia com os personagens do que por alguma abordagem inovadora. Albert (James Gandolfini) e Eva (Julia Louis-Dreyfus) são “gente como a gente”: quando percebem estar se apaixonando mal conseguem esconder o nervosismo ao lado do companheiro, o medo de tropeçar nas palavras que faz hesitar durante a fala e aquela ânsia em finalmente beijar os lábios que estão ao seu lado, finalmente libertando-se de um desejo ainda temeroso de não ser retribuído. Da mesma forma, quando os dois embarcam na primeira transa, muito antes de se preocupar com o prazer daquele ato ou com tornar tudo romantizado e inesquecível: o que preocupa é não deixar o parceiro ver as gordurinhas sobressalentes e arriscar um término pela falta de boa forma. Poderiam ser mais humanos que isso?

a-procura-do-amor_2013_02Os textos a seguir contém spoilers.
Mas me precipito. Antes de falar das figuras que habitam esse À Procura do Amor, vamos às devidas apresentações: Eva é uma massagista que está divorciada há alguns anos e convive com a proximidade da partida da filha para a faculdade. Em uma festa ela conhece o divertido – e não atraente, como diz em um primeiro momento – Albert, que tal qual ela, é divorciado e logo verá a filha viajar para a universidade. Logo eles passam a sair juntos e se interessar um pelo outro, descobrindo-se, finalmente, apaixonados. Porém, logo eles enfrentarão um complicador nessa relação, já que na mesma festa Eva conheceu e se tornou massagista e amiga de Marianne (Catherine Keener), que logo começa a revelar diversos detalhes não-agradáveis sobre o ex-marido – e que logo a protagonista descobre ser Albert.

Nas mãos de Nicole Holofcener, que assina o roteiro e a direção da obra, À Procura do Amor se torna um dos filmes mais agridoces do ano. Rimos com seu casal de protagonistas que tanto valor dá ao riso ao lado da pessoa amada – não são poucos os momentos em que os personagens dizem se sentir bem por rir ao lado do parceiro -, mas também sentimos o gosto amargo que o desgaste das pequenas coisas inflige ao cotidiano daquelas duas figuras. Dito isso, por mais leves e simpáticos – ou exatamente em função disso – que sejam os personagens e situações do longa, não deixamos de sentir o peso que determinadas ações despertam, assim, ver Albert em certo ponto se esforçando para deixar sair as palavras que iniciam esse texto é algo dolorido para os dois personagens principais e para o espectador, que precisa ver aquele sujeito com quem se afeiçoou dizer uma frase que impacta não pela intenção de causar o impacto, mas por revelar um sujeito de prosa simples que faz da própria dor um pequeno lapso de poesia.

a-procura-do-amor-2013_julia-louis-dreyfus-e-james-gandolfiniConduzido com mão leve por Holofcener, que jamais tenta chamar a atenção para sua câmera, À Procura do Amor valoriza os diálogos e os atores que os encenam, sendo assim, é uma enorme vantagem contar com dois atores em tamanha sintonia como Louis-Dreyfus e Gandolfini. A primeira prova que há lugar para seu talento também na telona – vale lembrar que a atriz é colecionadora de elogios e prêmios pela participação em três seriados de comédia: Seinfeld, The New Adventures of Old Christine e Vice -, equilibrando com precisão comédia e drama em uma personagem que, muito em função do carisma gigantesco da atriz, logo ganha toda a empatia e torcida do espectador. Já Gandolfini, aqui em seu último papel no cinema, já que veio a falecer pouco tempo antes da estreia da produção, oferece um belíssimo canto de cisne em um desempenho brilhante, que pode ser menosprezado por o ator não se entregar a muletas dramáticas em um papel à primeira vista simples. Basta olhar atentamente para perceber o quanto Gandolfini valoriza os pequenos gestos e expressões na pele de Albert, da timidez palpável do sujeito nos primeiros encontros às pequenas pontadas de decepção que tomam seu rosto em diversos momentos, passando pelo excepcional trabalho vocal do ator, que utiliza sua pesada respiração como forma de evidenciar os sentimentos do personagem ao espectador. Uma performance bonita e recheada de carisma, que merecia muito mais reconhecimento ao longo da temporada de premiações – e digo isso sem em momento algum me deixar levar pela morte do ator, já que considero seu trabalho aqui muito superior ao de Bradley Cooper e Barkhad Abdi.

Derrapando por vezes em uma ocasional quebra de ritmo e na falta de desenvolvimento dos personagens coadjuvantes – Marianne parece viver apenas para reclamar do ex-marido; a relação de Chloe (Tavi Gevinson) e a mãe encontra uma resolução abrupta e insatisfatória; o casal de amigos de Eva, Sarah (Toni Collette) e Will (Ben Falcone), acaba jamais ganhando a empatia desejada do espectador -, À Procura do Amor é um filme leve e despretensioso, mas que ao seu término deixa o espectador se sentindo bem e com um gostinho de “quero mais”, ansiando por mais tempo ao lado dos simpáticos protagonistas que acompanhara ao longo dos poucos mais de noventa minutos de projeção.

Por Pedro H. S. Lubschinski.

Livro: Divã, de Martha Medeiros.

diva_livro_martha-medeirosPor: Gilberto Ortega Jr.

Eu realmente gostaria de ter um motivo mais inteligente ou diferenciado para comprar, e ler, este livro: Divã. Mas a verdade é que eu não tenho uma justificativa, além da minha clássica: vi um pedaço do filme na televisão, mas como prefiro ler o livro a ver o filme foi o que fiz, o comprei e guardei durante um bom tempo, e somente agora me sobrou tempo pra que eu pudesse ler ele.

Mercedes é uma mulher, de quarenta e poucos anos, que decide fazer análise, isso a leva e pensar e repensar sua vida e condição, o que resulta sempre em mais dúvidas do que respostas. Porém é como se ela passasse a se descobrir mais, a tirar o conforto da prioridade… É com se ela decidisse pensar isso é confortável, não machuca ninguém, mas me faz feliz?

O que me ajudou muito a gostar facilmente do livro é que há uma empatia muito grande entre o texto de Martha Medeiros e o leitor, não no sentido de sei como uma mulher de 40 anos se sente, mas no de muitas vezes pensar isso é tão simples e comum que poderia ter acontecido comigo ou com qualquer um.

Nunca assisti a um atropelamento. Nunca fui cantada por um amigo de um filho meu. Nunca fui assaltada. Nunca ganhei um concurso. Não saberia dizer qual seria minha reação diante disto tudo. O que eu vivi até hoje foi o que costuma ser vivido por todos…” (Página 167)

Todos os capítulos são curtos de no máximo quatro páginas, e vão desfilando acontecimentos que vão desde lembranças do casamento dela, passando por perda de virgindade, morte de pessoas próximas, amantes, relacionamentos com parentes que ela não se dá muito bem, e tudo isso vem mesclado com reflexão e bom humor.

De uma hora pra outra, meu corpo mudou, fiquei mais matrona e menos temperada. Eu que dormia de cobertor em fevereiro, passei a sonhar com frigoríficos e excursões pela Sibéria.” (Página 140)

Ouvi muito falar que ele dava pra ser lido em uma sentada, mas eu preferi ler alguns capítulos e tomar um ar pra que tudo fosse se encaixando de forma calma e natural em mim. Como se fosse constantes mergulhos na alma de alguém, e assim como mergulhar na água exige que voltemos para respirar, tive que sair de fora do livro para ir tomando fôlego e deixando tudo se encaixar em mim.

Por: Gilberto Ortega Jr. Blog Ler Até a Exaustão.

O Maravilhoso Agora (The Spectacular Now. 2013).

the-spectacular-now_2013_filmePor Francisco Bandeira. (O texto contém spoiler.)
Um Estudo das Imprevisibilidades que Nos Cerca.

Já deixo avisado a todos que não se trata de um simples filmes sobre os adolescentes de hoje! Encare ‘The Spectacular Now‘ como um estudo de personagem cada dia mais presente em nossa sociedade: um jovem adolescente, com muitas perguntas jogadas ao vento, sem a mínima noção de como respondê-las, sofrendo pressão de amigos (as), namorada, da família, e na escola, com seus professores que, ao contrário do que a imaturidade nos faz pensar, querem realmente extrair o nosso melhor e nos preparar para as imprevisibilidades do inevitável futuro que nos cerca.

Dito isso, somos apresentados à Sutter Keely (Miles Teller), um jovem popular da escola que, após terminar o namoro com Cassidy (Brie Larson), sai para a noitada em busca de aventura, regada com muita bebida. Ao amanhecer, deitado no gramado, o jovem conhece a encantadora Aimee Finecky (Shailene Woodley), uma jovem estudiosa e apaixonada por ficção científica. A partir daí, os dois começam um inusitado relacionamento, passando a refletirem duramente sobre seus papéis na vida dos outros e na deles mesmos.

miles-teller_the-spectacular-now-2013Já no começo do longa-metragem, nos são jogadas uma enxurrada de questões sobre vida, amadurecimento e futuro. E o protagonista tenta de início, tenta responder tudo de uma só vez, nos mostrando sua vida até o momento. Numa sequência extremamente bem montada, somos jogados à rotina do adolescente, até o surgimento de forma fantástica do título: The Spectacular NOW. Apenas com isso, o diretor já nos mostra muito do personagem principal: um jovem que só pensa no agora, sem ligar para as consequências do amanhã, tratando o futuro como algo ameaçador à sua “plena felicidade”.

O grande mérito do filme é nunca subestimar nossa inteligência, revelando de maneira sutil alguns fatos sobre o personagem principal. Por exemplo, em determinada conversa com sua mãe, logo descobrimos que seus pais são separados e, ao ser comparado com o pai, Sutter tem uma reação negativa. Mas, logo à frente, descobriremos que o protagonista não ver seu pai a um longo tempo e não entende o motivo de sua mãe evitar esse encontro, sempre dando um tom de vilão ao homem no qual o jovem tem boas lembranças de sua infância. Ou seu alcoolismo, tratado de maneira irreverente por Ponsoldt (virando especialista no assunto) como uma brincadeira adolescente, sem sequer notarmos tal vício, passando quase despercebido, assim como seus problemas pessoais.

O elenco, extremamente promissor, conta com ótimas participações de Brie Larson (talvez uma das melhores atrizes dessa nova geração) como Cassidy, a ex-namorada confusa, em busca de garantir seu futuro e Mary Elizabeth Winstead, como a irmã bem resolvida do jovem, que mesmo com pouco tempo em cena, concebe um desempenho impressionante, digna de aplausos por seu alcance dramático. Já os veteranos Kyle Chandler e Jennifer Jason Leigh pontuam com correção seus trabalhos como os pais do protagonista. Mas é inegável que o longa-metragem encontra na dupla principal seu maior trunfo.

Milles Teller entrega uma das melhores atuações do ano, na pele de um jovem cheio de problemas, seja em casa (ausência do pai em sua formação), na escola (um aluno totalmente desinteressado em terminar os estudos) ou na vida amorosa (foi chutado por uma menina que ele gostou de verdade e ainda tenta manter laços com ela). O ator oferece um leque de nuances, que vai do garoto extrovertido ao debochado, passando pelo melancólico até o apaixonado, soando sempre convincente. Beneficiado por diálogos brilhantes, Sutter se transforma no perfeito representante de sua geração: egoísta, desinteressado, que procura ajudar os outros para preencher seu vazio existencial, sempre buscando, de forma inconsciente, uma retribuição involuntária, sendo o possível motivo para seguir em frente.

spectacular-now_filmeA grata surpresa fica por conta de Shailene Woodley, que vive Aimee Finecky com imensa simpatia e ternura, encarando tudo com um honesto sorriso em seu lindo rosto, totalmente desprovido de vaidade, mostrando a jovem como figura devota a mãe (entrega jornal, faz as compras, cuida do irmão menor, estuda) e que pensa até em abdicar de seus sonhos (ir para uma boa faculdade, morar em uma grande cidade), pois não pode deixá-la sozinha! Aqui, a jovem simboliza a esperança nessa nova geração, onde acreditamos na pureza de seu amor por Sutter e em sua doce inocência, e quando nos damos conta, já estamos encantados com sua personagem, torcendo sempre pelo seu melhor.

No terceiro ato, o roteiro nos brinda com cenas memoráveis, destacando-se a conversas altamente reveladoras entre o jovem e seu professor e posteriormente com seu chefe, onde sem sutilezas, o adolescente se abre sem medo, rendendo momentos de verdadeiro impacto! A película ainda dá espaço para um belo simbolismo: quando tudo parece estar indo ladeira abaixo, onde Sutter se afunda de vez na bebida, o diretor foca no carro do protagonista, voltando para casa, mostrando o pneu caminhando sobre a linha, mostrando de forma absolutamente perfeita a situação que vive o rapaz. Um verdadeiro achado no cenário adolescente atual. Assim como seu desfecho, simplesmente corajoso, mostrando o total comprometimento de Ponsoldt em retratar de forma honesta esse período nada fácil, mas muito prazeroso em nossas vidas.

Melancólico, trágico e até poético, “The Spectacular Now” pode não ser um grande exercício cinematográfico, mas é, sem sombra de dúvidas, um filme essencial para sua geração, pois mostra algo que poucos jovens compreendem atualmente: o agora é realmente espetacular, mas nunca podemos descartar a hipótese de nos surpreendermos com as incertezas da vida, afinal, quem sabe o que pode acontecer? Final feliz ou não, nunca saberemos responder determinadas perguntas se deixarmos as oportunidades passarem diante de nossos olhos sem fazermos parte delas, pois VIVER O MOMENTO pode se transformar numa experiência interminável e devastadora, ao percebermos que já é tarde demais para se construir o futuro.

Avaliação: 8,5.

O Cinema Mergulha no Universo Feminino E Sai Revigorado!

because-i-said-soQuem diz que nós mulheres somos o sexo frágil por certo não aguentaria a tripla jornada de trabalho que não apenas executamos bem como também ainda com um sorriso face a face. Pois é! Nosso giro cinematográfico será com personagens femininas. De dondocas às que pegam no pesado. Doidivanas ou centradas. Amadas ou não. As que romperam seus próprios limites. Mas acima de tudo com orgulho em ser mulher. Enfim, um pouco de cada uma delas. Vem comigo!

Entre tantos filmes para iniciar acabei optando por um que apesar da crítica ter crucificado, eu gostei! É o “Minha Mãe quer que eu case“. E por que? Não apenas por eu ser fã da Diane Keaton. Mas até por uma passagem do filme (Durante a cena da foto.) onde ela confidencia algo para a sua filha. Algo que era raro de acontecer entre as mulheres de gerações passadas. Não apenas de confidenciar a própria filha sobre relações sexuais, como também o fato de nunca ter sentido orgasmo. Cena belíssima que não deu para segurar as lágrimas. Mas o filme também foca em uma preocupação nas gerações atuais: o casamento. Ou a preocupação por uma filha que focou mais na carreira profissional esquecendo o lado pessoal. Agora, traçando um paralelo com um outo filme, o “Sex and the City – O Filme” – o qual eu resumiria nisso: ‘as-patricinhas-de-beverly-hills-agora-são-quarentonas‘ -, onde o em comum seria procurar por um marido, eu prefiro muito mais o com a Diana Keaton por já escrachar de vez a situação. Ah sim! O ‘quarentona’ não tem um sentido pejorativo. Ok? É apenas um registro da mudança de idade.

Eu vejo que você é uma mulher protagonista, mas por algum motivo está agindo como a melhor amiga. Você deve ser a protagonista da sua própria vida!

Ainda em cima de casamentos, no “Vestida para Casar” tem algo como o que disseram (Frase acima.) no “O Amor não tira Férias“. Onde a personagem em questão (Do primeiro filme.) estava vivendo o ser uma ‘dama-de-honra-oficial’ nos casamentos de outras mulheres esquecendo até de si própria. Aceitando apenas o fantasiar em sua vida. Até curtia um amor platônico pelo chefe. Enfim, como as duas personagens do segundo filme, ela também não estava protagonizando a própria vida. E as três mesmo indo bem profissionalmente, não iam bem no lado pessoal. Quem assina a Direção e Roteiro do segundo filme é Nancy Meyers que mete o dedo na ferida nesse tipo de questão: amar e não ser correspondida.

intolerable-crueltyA protagonista de “O Amor Custa Caro” faz do enlace um meio de vida. Ela e um tal ‘clubinho’ por lá, vivem da pensão advinda do divórcio. Se nome de Diretor pesa em não torcer a cara para alguns tipos de filmes, saibam que quem dirige esse é Joel Cohen. O que poderá motivar alguns. Só que eu confesso que o que me motivou mesmo a assistir esse filme foi o ‘colírio’ George Clooney. Gente! As mulheres desse filme chega a assustar, mesmo tendo muitas delas também no mundo fora da ficção.

Agora, também tem aquelas que após anos de casada de repente se veem sozinhas, tendo que arcar não apenas com as despesas, mas também com dívidas que ficaram. Entre tantas sugestões escolho um filme até por ser de um gênero que eu amo: Comédia. Pois a personagem desse filme encontrou um jeito bem peculiar de quitar a dívida deixada pelo marido, e que a levaria a perder a própria casa. E foi ajudada pelo ex-jardineiro. Precisam ver o “O Barato de Grace” um filme de ver e rever. A Grace é ótima! Até porque precisou pegar um atalho para então voltar ao caminho certo.

Acreditariam que um cara abandonou a esposa por ela ser uma pessoa boa demais? Onde até o Padre a induz que cometa um pecado. Mas para alguém que nunca pecou fica difícil sentir que está pecando. Afinal, o que é pecar? Teria apenas um peso para a Religião? Mais! Sexo é algo tão pecaminoso assim? Mesmo sendo “Sexo por Compaixão“? Pois é! O título do filme é mesmo esse, e que vale muito a pena vê-lo. E o grande barato é que essa personagem só fez o que fez para recuperar o marido. E por tabela, acabou salvando muitos casamentos já com longa quilometragem. Onde também só uma esposa muito mais jovem mostrou-se ser a mais radical.

irina-palm-3Agora, entre ficar rezando por um milagre, uma senhorinha resolveu agir. Para conseguir custear o que seria a última chance de salvar seu netinho internado num hospital, essa personagem arregaçou as mangas e pôs a mão na massa, literalmente. Dona de casa até então, sem nenhum preparo profissional, ela teve que superar o que a sociedade prega como viver dentro da moral e dos bons costumes. Mas seria algo tão imoral assim? Seria o fim justificando os meios? Para ela o que pesava na balança era ter a grana para o tratamento do neto. Ela é “Irina Palm“. E que encarou o único emprego que lhe daria um retorno rápido em dinheiro. Como também lhe deu alma nova. O tal empregou a revigorou. O filme é ótimo!

Como se encara uma traição? Dar um tempo indo para longe e vendo se assim esqueceria mais rápido? Ou tentar pagar na mesma moeda?

Foi meio por ai que a personagem de “Um Beijo Roubado” fez ao por o pé na estrada: tentar diminuir a dor pela traição sofrida. Onde nesse percurso conheceu outras desilusões amorosas. Outras formas de tentar reter um amor que já se foi. Num aprisionamento dolorido para ambos. Ou mesmo os que sufocam a queixa de um amor que não era o que esperavam. Um filme lindo! E do mesmo Diretor de “Amor à Flor da Pele” que também fala dessa dor. Sendo que nesse outro há o encontro dos cônjuges traídos, mas pensando em dar um troco. Uma gravata masculina que fez a ponte. Outro filme belíssimo!

Mas quando se descobre que a traição está dentro da própria família? O que faria se soubesse que o marido a está traindo com sua irmã caçula? O que pesa também o se sentir trocada por alguém mais jovem. Você iria mesmo querer saber? Seguindo a máxima: “O que os olhos não veem, o coração não sente.”. Ou você iria preferir fingir que não está sabendo? Numa de: “Ruim com ele, pior sem ele.”. Essa opção é meio complicada em aceitar nos dias de hoje. Mas para gerações passadas era até bem comum. Numa de dizer: “Prefiro as mentiras de meu marido, a ouvir as verdades dos outros.” Quem disse isso, já na velhice, passou seus últimos dez anos inerte numa cama, e teve do marido, tantas vezes infiel, o mais carinhoso, o mais paciente companheiro. Que não demorou muito a falecer depois dela. É algo a se pensar!

hannah-and-her-sisters1Voltando na história onde o marido a trai com a irmã caçula, é no filme “Hannah e suas Irmãs“. Essa personagem, de toda a família, ela é a mais centrada. O que irrita um pouco alguns. Que não esperam dela chiliques, nem muito menos o “rodar a baiana“. Onde mesmo que inconscientemente todos a têm como um porto seguro, e deles próprio. Ela é uma atriz de sucesso. E que nos deixa em suspense se a sua melhor atuação fora em fingir que de nada sabia. Vale muito a pena ver esse filme de Woody Allen.

Mas na busca por prazeres sexuais tem também aquela que trai o marido. Por querer vivenciar o que não sentia em seu casamento. Um Clássico com esse tipo de história é “A Bela da Tarde“. Onde a bela Catherine Deneuve consegue envolver não apenas a platéia masculina, mas a feminina também. Um lado prostituta de ser por gostar muito de fazer sexo, e sexo selvagem. Mas que queria que esse lado ficasse na clandestinidade. Ou seria na sombra? Até porque gostava de todas as mordomias que a vida de casada lhe dava. E um acidente do destino ouviu suas preces, deixando-a livre para levar as duas vidas: dona de casa e  prostituta.

Falando em Clássicos um filme que nos deixou uma outra personagem feminina marcante, e às vésperas dos 80 anos de idade, é “Ensina-me a Viver“. Onde ela mostra que se pode escolher sair de cena com dignidade. Ela, a Maude é eletrizante até seus últimos dias de vida. Levando a um jovem a ver que ele estava desperdiçando a própria vida. E que nos leva a refletir também em cima desse lance: a eutanásia. Belíssimo filme!

awayfromher1Mas como bem diz a canção “mas eis que chega a roda viva e carrega o destino pra lá…“, há também um tentar sair de cena, não da vida ainda, mas do relacionamento, com dignidade quando ainda terá um pouco de noção de seus próprios atos. Até em libertar o marido do peso que a doença (Alzheimer) trará na vida do casal. Essa personagem além disso também preferiu não dizer que sabia das escapulidas (traição) do marido ao longo do casamento. Levando-o a amá-la mais por isso, mas até por isso se vê obrigado a respeitar essa decisão dela. Em aprender a viver “Longe Dela“. Ela é especial até por isso.

Com certeza voltarei a esse tema. Até porque em minhas críticas costumo salientar que há muito mais filmes que mostram com muita sensibilidade o universo masculino. Onde também há muitos que costumam esteriotipar o universo feminino. Sendo assim, farei questão de trazer mais e mais personagens femininas. Por hora, fico por aqui. E parodiando a canção: “Não as provoque, essas rosas choque!“.

A vida se contrai e se expande proporcionalmente à coragem do indivíduo.” Anaïs Nin.
See You!

Por: Valéria Miguez (LELLA) (Um texto de uma coluna em um outro site… Publicado lá em: 11/07/08)