BODY (CIALO. 2015). Uma Densa Catarse no Final.

body_cielo_2015Por: Carlos Henry.
O ritmo arrastado e lento do longa da polonesa Malgorzata Szumowska, não lhe tira o mérito de levantar o tema do espiritismo com relativa leveza e até algum humor estranho. O roteiro gira em torno de um perito criminal que tem dificuldades em lidar com a filha anoréxica, após a morte da esposa. Com o problema em crescendo, o pai, ainda que cético, lança mão de uma tentativa de contato com a falecida através da terapeuta médium Anna.

Desconfortável, não a ponto de deixar o filme pela metade, a estrutura narrativa cumpre o papel de tratar o tema com respeito sem, contudo, influenciar o espectador que fica livre para tirar suas conclusões por conta de oportunos delírios provocados pelo álcool e medicamentos. Obviamente o Brasil é citado pelo personagem Anna por conta do número de adeptos à crença por aqui. Vale aguentar até o final que é uma densa catarse.

BODY (CIALO. 2015)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Série: PROOF (2015 / ). O Que Acontece Após a Morte?

serie-proof_2015_cartazNa literatura médica há vários relatos sobre o período de se estar “quase-morto” e então depois voltar à vida. Experiências de pessoas a cerca desse momento. Mas que para muitos ainda é tido como se elas tivessem visto um “E.T“. Até para a ciência há explicações para as “luzes, vultos, sons…” que essas pessoas dizem ter vivenciados. Uma delas seria que parte do cérebro pode encontrar um caminho para o que estaria acontecendo realmente em torno dessa pessoa. De qualquer forma a ciência ainda não tem respostas conclusivas sobre as experiências de quase morte. Agora, para aquele que teve essa experiência, e por mais cético que tenha sido antes, há de se ficar mexido com o que vivenciou. E até sem se importar muito se as outras pessoas acreditam ou não nela. A Série “Proof irá mostrar esses relatos a cada episódio e tentar achar como o próprio nome diz uma comprovação até para as experiências extra corpórea, ou mesmo de reencarnação. E creio que deixando para nós tirarmos nossas próprias conclusões do que um duelo entre ciência e fé!

A morte é o fim de tudo ou há algo mais além?

proof_serie-2015_jennifer-bealsA personagem principal é vivida pela atriz Jennifer Beals (Flashdance). Ela é a cirurgiã cardiovascular Dra. Carolyn Tyler, que ficará dividida entre o lado emotivo e o racional ao mergulhar nesse universo com muito mais perguntas do que respostas conclusivas. Exigente demais consigo própria como também com quem trabalha com ela. Sarcástica. Em paralelo ao seu presente no hospital, passa por um drama pessoal: separada do marido, o também médico Dr. Len Barliss (David Sutcliffe), com quem divide a guarda compartilhada da única filha, a adolescente Sophie (Annie Thurman). Uma jovem em conflito ou por pura rebeldia ou por se sentir preterida no coração da mãe. É que o casal perdeu um filho, e que ela ainda o tem muito presente em suas vida. Até porque Carolyn também teve uma experiência de “quase morte” onde parece ter sido ajudada por esse filho a voltar à vida.

“Não importo se não achar prova nenhuma, se as histórias de experiências de quase-morte sejam só isso, histórias. Ou que há realmente outra coisa. Só quero saber ao certo se quando você está morto, está morto. Prova concreta.”

proof_serie-2015_matthew-modinePor conta dessa experiência, do seu ceticismo, como também da sua competência profissional, até porque num eufemismo é alguém que faz um coração bater novamente, enfim ela foi escolhida por alguém a adentrar nesse universo. Ele é Ivan Turing (Matthew Modine), um excêntrico bilionário ligado a área da internet. Ivan foi diagnosticado com um câncer que o deixa com pouco tempo de vida. Não sei se por homenagem ou não, seu personagem não deixa de lembrar de Steve Job: pelo brilhantismo e pela doença. Bem, Ivan vai além de uma rebeldia, parecendo mais capricho: em querer saber o que lhe espera após a morte, é o nada. Não tem tempo, mas dinheiro de sobra para pesquisarem sobre isso. E é por aí que tentará persuadir Carolyn. Primeiro pelo seu chefe, o Dr. Charles Russell (Joe Morton, de Scandal): oferecendo uma bela quantia ao hospital caso ela aceite. Dr. Russel então, que mesmo não controlando as peculiaridade de Carolyn, onde até fecha os olhos por admirar a dedicação e habilidades dela, tenta dissuadi-la pelo muito o que faria ao hospital a tal quantia, mas é em vão.

Venho de uma cultura onde não é uma questão de crença. É considerado um fato. Vivemos, morremos, então vivemos novamente. Mas onde também é considerado um fato que a malária é causada por espíritos e a AIDS pode ser curada por estupro. Então não, Dra. Tyler. Como homem de ciência não acredito em vida após a morte. Mas suponho que tudo é possível.”

serie-proof_01O que de fato a leva a aceitar o pedido de Turing é o que acontece durante uma cirurgia no primeiro episódio. Onde após ter feito de tudo para salvar um paciente, e então dizer a hora do óbito, o tal coração volta a bater deixando todos incrédulos. É nessa cirurgia que ela nota o Dr. Zedan ‘Zed’ Badawi (Edi Gathegi, de Justified). Primeiro dando uma bronca nele, depois pela efetiva colaboração de Zed nos procedimentos em tentar salvarem o paciente. Talvez por ter vindo do Sudão, África, ele não se intimidou como os demais em estar numa cirurgia comandada por Carolyn.

_E pelo amor de Deus, não coma essa porcaria. Te matará.
_Esse saco alimentaria uma família de 5 pessoas de onde ele vem.”

Como Carolyn também tem um lado altruísta prestando ajuda aos “Médicos Sem Fronteiras”, receber de Turing o controle de sua fortuna após a morte dele, também pesa em aceitar fazer a tal pesquisa. De início além de Zed ela terá ajuda de Janel (Caroline Rose Kaplan) assistente do Turing. E de tabela Peter Van Owen (Callum Blue) um renomado escritor sobre fenômenos psíquicos e mediúnicos. Até porque ela também irá investigar fenômenos pós-morte como poltergeists e reencarnação.

As pessoas acreditam no que querem acreditar. E acho que isso é o suficiente para a maioria delas.”

Bem, mesmo que “Proof” fique mais como um folhear as páginas de um livro com esses relatos e não se aprofundando muito, mesmo que Jennifer Beals ainda não tenha encontrado o tom certo para sua personagem – de que seria alguém com um esteriótipo mais grave, o de Beals tende mais para uma pessoa meiguinha -, a série deixa um suspense de que pode até vir com fatos ainda não tão conhecidos ao grande público. Início ainda de temporada. No mínimo me deixou com vontade de seguir acompanhando após ter visto o primeiro episódio. É esperar para ver! E “Proof” pode ser vista aos domingos no canal “TNT Séries” às 21 horas.

BIUTIFUL (Biutiful. 2010)

Por: Giovanni Cobretti – COBRA.
Um diretor que acerta em todos os filmes que já participou, deve ser respeitado. Sua característica maior de fragmentação de locações e histórias de outras empreitadas, agora se inverte. Ele torna-se único e uno. Uma cidade, Barcelona. Um ator principal, Javier Bardem. Um tema, a morte. Uma câmera, granulada. Um sentimento, a inevitabilidade – da vida. E a inquietude – da platéia.

Fala de despedida, rapaz na neve, Bardem e ele conversam em primeiro plano, ambos fumam. Apresentam uma certa nostalgia e familiaridade entre si. Cena inicial. Corta. Uxbal (Bardem) está com hematúria, consulta médica, revela seu passado de drogadicto. Close monumental no rosto do ator, que é embrutecido, traços grosseiros, barba por fazer, homem feio à primeira vista, mas sua masculinidade e conjunto; agradam.

Sua vida é coalhada de tragédias, pequenas e grandes. Seu irmão vivo é um idiota que precisa se afirmar (vide seus relacionamentos e profissão) como homem. Pais estão mortos. Filhos em idade escolar, no ensino fundamental em Barcelona. Não aquela da praia, das Ramblas, mas da Ciutat Vella, de Barri del Raval. Eles, apesar de tudo vão à escola todos os dias, fazem tarefa e comem nos horários certos. A mãe? Paciente psiquiátrica, medicada, mas não controlada. Carente e agressiva. Sorridente e triste. Magra e forte. Um poço de contradições, assim como Uxbal.

Ele é médium. Ouve os mortos. E o filme gira em torno dela, a morte. No seu inefável círculo. Ele ganha dinheiro com isso. Também agencia estrangeiros para trabalhar em condições subumanas. Os senegaleses, que ficam na rua vendendo bugigangas que ninguém quer e os chineses, que as fabricam em regime de semi-escravidão.

Um subtexto forte, pois eles também têm famílias, sonhos, dificuldades imensuráveis de sobrevivência, além da óbvia barreira da língua e racial. Uxbal se preocupa com eles, mas não deixa de ser culpado pelos infortúnios que ocorrem. E são muitos, e são graves.

Sua doença é terminal. Mas o diretor não alisa, as coisas pioram para ele. Onde ficarão meus filhos? E com quem? Não há redenção e nem saídas. A câmera que se movimenta mais do que o normal contribuindo para isso. Além das passagens de cena serem marcadas por mariposas no teto, por lagartixas, por um ambiente sempre degradado e degradante. Como se o tempo todo o filme estivesse suando, nervoso, abafado, tenso. Isso incomoda deveras.

O fim está chegando. Não há um momento de conforto, de cenas claras, de grandes externas, apesar de Barcelona ser linda, assim como toda a Catalunha. O círculo se fecha. Quase um réquiem. Os poucos e breves momentos foram quando ele tentou unir a família, que um dia existiu. As outras famílias apresentadas são todas quebradas, dissociadas, perecíveis, um aspecto de finitude e fragilidade. Não há felicidade, talvez paz. Talvez.

O que há de bom: habilidade de conduzir uma história rica e complexa e nos afetar
O que há de ruim: nenhuma esperança
O que prestar atenção: repare bem no personagem que está pregado no teto, ao final
A cena do filme: ele, a filha, o anel, e o pai

Cotação: filme ótimo(@@@@)

COBRA

BIUTIFUL.(Biutiful. 2010). EUA. Diretor e Roteiro: Alejandro González Iñárritu. Elenco: Javier Bardem, Blanca Portillo, Maricel Álvarez, Rubén Ochandiano. Gênero: Drama.Duração: 147 minutos.

Chico Xavier

“Chico Xavier”, filme de Daniel Filho:  Não consegui vê-lo na estréia e ainda no 3º fim de semana após o lançamento, chegando com pouco mais de uma hora de antecedência do início da sessão, restou-me a 1ª fileira da sala 1 do Artplex, Botafogo(RJ). Se fosse um outro filme certamente não assistiria, implico com os assentos nos chamados “gargarejo”, mas era Chico Xavier, filme que me despertou a curiosidade por saber quais soluções o diretor  teria encontrado para não torná-lo extremamente parado ou mesmo desinteressante e ofuscado tecnicamente como foi para mim, “Bezerra de Menezes, O Diário de Um Espírito” que assisti por ter no elenco Carlos Vereza.  Eu disse solução? Errei. Para haver suma solução é preciso haver um problema e isso é tudo que este filme não tem.

Belas paisagens, interpretações de boas a excelentes, exceção para André Dias que me pareceu burocrático e pouco caridoso como Emmanuel, embora estivesse fisicamente quase que exatamente igual  às figuras do espírito que vemos estampadas nos livros . Uma câmera ágil, com cortes exatos, direção segura sem recorrer aos efeitos especiais – afinal, é um filme espíritos, não é mesmo? Talvez…

Neste filme, vi que Chico Xavier não foi somente um espírita, nem a sua mediunidade foi o que mais me chamou atenção. Vi um homem aprendendo no seu dia-a-dia, entendendo-se conforme os fatos, alguém que tendo algo a fazer não delegava para outro nem adiava para o momento seguinte.

O filme é preciso: é a história de Chico Xavier desde bem menino. Uma criança e seu dom, por muitos da época chamados de “maluquice”.  Bem poderia ser um filme sobre o dom da música, da pintura sobre qualquer dom grandioso que nos deixasse espantados e duvidosos quanto à sua veracidade. Um garoto, muito inocente e poderíamos dizer “azarado” ou incompreendido, lidando com coisas que ninguém ouvira falar em sua pequena cidade, lutando para sentir-se amado e querido sendo tão diferente… Órfão aos 8 anos, cheio de irmãos que foram distribuídos na esperança de se reunirem logo que possível. O menino inocente, indefeso, carente e solitário, literalmente torturado pela madrinha, não causa piedade -comove. Uma história que apesar da sua singularidade é facilmente imaginada por aqueles que conhecem algo sobre as antigas cidades do interior, suas formas de lidar com as crianças,  as famílias, a igreja, as doenças, a morte.

Nélson Xavier recebe, encarna a personagem que parece ter se apossado dele e não é diferente com Angelo Antônio, gerando  uma harmonia interessante entre as interpretações de ambos. Encontramos na tela o bem humorado Chico. Acompanhamos a entrevista do antigo programa de TV “Pinga Fogo”, recriado no filme com Tony Ramos interpretando o diretor do programa, sequencia que nos dá como brinde a experiência de vermos como era transmitido um programa “ao vivo” de antigamente, as escolhas das câmeras, a forma de se trabalhar com tecnologias, hoje pré-históricas e feeling profissional que é também um dom.

A história do Chico vai surpreendendo mesmo quem já a conhece. Na sua primeira semana, este filme levou 590 mil espectadores aos cinemas. Os que foram ver o mito não se decepcionam. Os que buscam assistir o médium, não se desapontam. E se a busca for por diversão, o programa não é frustrante. Os espíritas podem se esbaldar, no farto material para reflexão, os pais também.

Letícia Sabatella, mãe de Chico prefere que ele fique com a madrinha por esta ter mais condições financeiras e o por isso o garoto sofre castigos pavorosos. O melhor amigo de Chico durante a sua infância, pasmem, é um padre, deliciosamente vivido por Pedro Paulo Rangel que nos mostrar a dificuldade de compreender-se uma alma, ser bom e tolerante sendo um líder religioso de uma instituição como a igreja católica. Cássio Gabus Mendes, com aquele eterno rostinho infantil, vive a face da intolerância religiosa levando o povo à uma ignorância cada vez maior onde a caridade, esperança e fé ficam cada vez menores. A bela Giovanna Antonele numa participação significativa que dá o tom do que Chico poderia realizar no futuro- conquistar simpatias e credibilidade se não pela fé, mas através do seu caráter e postura.

Muitas dúvidas e desconfianças foram lançadas sobre essa personalidade, sem que no entanto, jamais fossem comprovadas, muito pelo contrário, o filme mostra uma pessoa que modificou alguns conceitos daqueles que naquela época, transitavam na esfera dos centros espíritas.

Chico não seguiu ninguém, além da sua própria luz e orientações dos seus mentores espirituais e suas tarefas iam se avolumando na medida em que ele criava entendimento e aumentava sua fé.

Segundo o filme, jamais se prestou a um trabalho de conversão, nem se exasperou por defender-se das acusações que lhe faziam. Prestava a sua caridade dentro das limitações dos próprios necessitados, não necessariamente carentes de recursos materiais como ilustra o casal Tony Ramos e Cristiane Torloni. Enfim, mais do que a espiritualidade, o mistério de Chico Xavier é ter tido fé e vivido de acordo com o que acreditava, ainda que tivesse medo de morrer e de medo de avião.

No mercado estão o livro “Chico Xavier – A história do filme de Daniel Filho” e o DVD do programa Pinga Fogo que em determinado momento serve como linha condutora para a narração.
Existem algumas passagens divertidas, como quando o pai de Chico Xavier o leva a um bordel para ter a sua 1ª vez ou quando finalmente é revelado o mistério da inseparável peruca que o médium usava. Também é mostrado os relacionamentos do médium com o seu guia espiritual Emmanuel (André Dias) e com a mídia. Chico chegou a permanecer cerca de 20 anos sem nenhum contato com a imprensa o que podemos entender com perfeição assistindo ao filme, que bateu recorde na semana de lançamento, em 10 dias de exibição levou 1,3 milhões de pessoas ao cinema. É o longa com a maior bilheteria de abertura do cinema brasileiro dos últimos 15 anos. Realizado por 3 ateus, conta a história de um homem predestinado a reunir multidões: pesquisei na internet sobre o programa Pinga Fogo e descobri que a entrevista do Chico atingiu a marca de 75 pontos, o maior índice da televisão brasileira!

Neste filme me pareceu ser Chico Xavier um homem que viveu para o que acreditou, independentemente da crença foi uma pessoa, fiel e sincera e talvez por isso desperte interesse e atraia atenções. Escreveu mais de 400 livros, não reconheceu autoria de qualquer um deles. Dizia que Emmanuel havia lhe revelado que ele morreria no dia em que todos os brasileiros estivessem felizes. Chico faleceu no dia 30/06/2002 quando o Brasil comemorava seu pentacampeonato mundial.

Chico Xavier. 2010Baseado no livro As Vidas de Chico Xavier, do jornalista Marcel Souto Maior. Direção: Daniel Filho. Roteiro: Marcos Bernstein. Gênero: Drama. Elenco: Nelson Xavier (Chico Xavier 1969/1975)  Ângelo Antônio (Chico Xavier 1931/1959)  Matheus Costa (Chico Xavier 1918/1922), Tony Ramos (Orlando), Christiane Torloni (Glória), Giulia Gam (Rita), Letícia Sabatella (Maria), Luis Melo (João Candido), Pedro Paulo Rangel (Padre Scarzelo), Giovanna Antonelli (Cidália), André Dias (Emmanuel) , Paulo Goulart (Saulo Guimarães), Cássia Kiss (Iara), Cassio Gabus Mendes (Padre Julio Maria), Rosi Campos (Cleide), Carla Daniel (Carmosina), Anselmo Vasconcellos (Perácio), Via Negromonte (Dora)