Sinfonia da Necrópole (2014). Diverte com emoção e humor na dose certa

sinfonia-da-necropole_2014-jpgsinfonia-da-necropole_2014_01Por: Carlos Henry.
Juliana Rojas já havia flertado com o gênero sobrenatural no excelente e original “Trabalhar Cansa”. Parece que ela decide trilhar sempre nos trilhos mais complexos da arte. Em “Sinfonia da Necrópole” arrisca pelo dificílimo caminho de contar uma história soturna que tem como cenário principal um cemitério através de um musical. E a diretora e sua equipe se saem surpreendentemente bem!

sinfonia-da-necropole_2014_02Se faltam rostos lindos, corpos malhados ou nomes famosos no elenco, abundam competência e precisão na interpretação de atores somados à segurança da direção e uma ficha técnica que realizou um trabalho irretocável a olhos vistos. O resultado é uma planejada e bem dosada ingenuidade para contar o dilema de Deodato (Eduardo Gomes), um aprendiz de coveiro dividido entre seus melindres de lidar com os mortos e os sentimentos que o afligem com a chegada de Jaqueline (Luciana Paes), agente funerária responsável pela reestruturação dos túmulos para a construção de um cemitério vertical com o fim de atender as demandas de uma grande metrópole, no caso, São Paulo.

sinfonia-da-necropole_2014_03A evidente analogia da vida numa grande cidade com as questões da morte na necrópole dá pano para manga para muitas interpretações profundas, mas o fato é que o filme diverte com muitos momentos de emoção e humor negro na dose certa. O padre bonachão, o velho que acha que vai morrer logo e o próprio personagem principal garantem estes momentos de descontração para quebrar o clima de cenas que podem perturbar os mais sensíveis, como a exumação de cadáveres. E finalmente, números musicais que arrasam, apesar da aparente simplicidade e ausência de efeitos especiais.

sinfonia-da-necropole_2014_04Os produtores deveriam abrir os olhos. Com uma boa adaptação para o palco, faria sucesso certo também no teatro. Afinal, o que faz um bom musical? Boas canções, claro. E isso, o filme tem de sobra: Belos arranjos e letras deliciosas, muitas delas compostas pela própria diretora que realizou uma obra-prima grandiosa digna de se tornar um clássico, se não houver preconceito por conta do tema funesto. Afinal, a dor de qualquer coisa que acaba pode ser bem pior que a própria morte que quase sempre é superestimada. Como diz o coveiro, tio de Deodato, em certo momento: Dói porque estamos vivos.

Medianeras — Buenos Aires na Era do Amor Virtual (2011)

Tem certos dias / Em que eu penso em minha gente / E sinto assim / Todo o meu peito se apertar / Porque parece / Que acontece de repente / Como um desejo de eu viver / Sem me notar.”

Não se trata de saudosismo, mais ainda porque eu gosto de morar em grandes centros urbanos, mas não pude evitar em lembrar da letra da música “Gente Humilde” vendo esse filme. “Medianeras” também me levou a pensar em outros filmes, onde destaco dois: “Edifício Master” e “O Homem ao Lado“. Porque nele há um caráter documental de querer rever outras vezes mais. São tantas as informações que longe de serem apresentadas de um jeito didático, é quase uma poesia moderna desse jeito de viver num tipo de pombal. É um dos preços que se paga por querer aproveitar tudo que uma metrópole tem a oferecer a poucos metros de onde se mora. Um outro fator a se pesar estaria numa proximidade meio sufocante entre um imóvel e outro. Onde também muita das vezes a visão externa é quase dentro de outro apartamento de frente. Mas se pela fachada de um prédio ele meio que identifica a classe social dos proprietários, de outro os deixa sem uma identidade própria, tornando-os de uma mesma tribo: seres urbanos.

O que esperar de uma cidade que dá as costas ao seu rio?

Essa verticalização das moradias nas grandes cidades cresce tão sem planejamento, que muita das vezes até se esquecem das grandes paredes laterais. Atualmente, encontraram como uma saída estética, e até financeira, serem usadas com publicidade de algo. Para o morador, ela vem como uma rota de fuga ao seu lar um tanto claustrofóbico: que vem ao colocar nela uma janela, por exemplo. Com ela seu horizonte se alarga, e o sol ilumina seu espaço, o seu pequeno mundo. Essas paredes são chamadas de “Medianeras“. Para quem assistiu “O Homem ao Lado”, viu que na Argentina existe uma lei que proíbe que o morador faça qualquer abertura nas medianeras. Mas viu também que esse problema atinge classes sociais diferentes. Claro que no geral o lado mais prejudicado é para aquele que mora em apartamento do tipo quitinete. Sem poder visualizar um horizonte mais amplo, esse morador se sente muita das vezes mais isolado do mundo ao seu redor.

Cada vez mais esses grandes centros urbanos ficam mais sem espaços. Se há menos espaços disponível, mais o valor do metro quadrado aumenta. Dai, basicamente as construções seguem dois critérios: prédios com unidades maiores cobrando um alto preço, ou unidades cada vez menores onde o lucro viria de uma quantidade enorme delas num único prédio. Mas se em “Medianeras” também há um viés poético, ele está em contar a história de uma construção de um grande prédio por conta de uma vingança pessoal. Há um encanto todo especial dessa história para um dos personagens.

E quem são os personagens desse filme?

Com as devidas proporções, em “Medianeras” é como se o Diretor Gustavo Taretto tivesse dado mais tempo a dois únicos personagens do Documentário do Eduardo Coutinho, mas abrangendo o em torno também. Embora nesse filme aqui há uma certa hierarquia social a diferenciar os dois prédios onde cada um deles mora, com prédios mais baixos entre as medianeras dos edifícios de ambos. A particularidade entre ambos os filmes se encontra no peso de se sentir só em meio a tantos outros moradores. De nem conhecer o próprio vizinho.

Um dos protagonistas é Martin (Javier Drolas). Criador de sites, meio que mergulhou nesse novo mundo, trancando-se do mundo fora do universo virtual. Com ajuda de um Terapeuta consegue voltar a sair de casa. Mas ainda preso a alguns tipos de suporte: como escudos de proteção. A outra personagem principal é Mariana (Pilar López de Ayala). Ela é Arquiteta de formação, que enquanto espera poder um dia ter também um prédio seu em Buenos Aires, trabalha como Vitrinista. Tentando superar o fim de um relacionamento. É pela visão de ambos que também ficamos conhecendo a nova realidade da capital argentina. Um caos arquitetônico visto pelo todo, mas com uma certa beleza se focar trecho a texto. Tão igual a tantas metrópolis. Onde cada um tenta viver mais que sobreviver.

Medianeras — Buenos Aires na Era do Amor Virtual” pode com esse subtítulo afastar muitos. Pensando que irão ver muitos namoros em sites de relacionamentos. Outro grande defeito dele estar em quase um entregar o filme. Mesmo que pareça paradoxal, são microcosmos isolados procurando por intermédio de um macro se sentir de fato integrados neles. Como também sem querer estragar a surpresa, digo que o cartaz do filme tem tudo a ver com todo o contexto, mesmo fazendo parte da vida de Mariana. Essa sim fora uma escolha perfeita!

O filme segue num ritmo ótimo! Como eu já citei, é de querer rever, inclusive logo após o término, ótimo por sinal. Não apenas o casal principal, como também todos os outros personagens pediriam uma análise mais detalhada para cada um deles. Há uma riqueza da personalidade, das peculiaridades intrínseca em cada um, mesmo tendo alguns participações pequenas. Roteiro e Atores numa química ótima. Tudo também num timming exato. Parabéns a Todos, inclusive ao Diretor que também assina o Roteiro!

Opitei em não trazer spoiler. No entanto me alonguei um pouco mais para motivar a um número maior que assistam a esse excelente filme. É o Cinema Argentino em alta. Com mais um Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Medianeras — Buenos Aires na Era do Amor Virtual. 2011. Argentina. Diretor: Gustavo Taretto. Elenco: Pilar López de Ayala, Javier Drolas. Gênero: Drama, Romance. Duração: minutos.

Curiosidade: O filme é o desdobramento do curta homônimo realizado em 2005 pelo mesmo diretor, Gustavo Taretto (Que com esse filme tem sua estréia em dirigir longas), e com o mesmo ator principal.

Menina dos Olhos (Jersey Girl. 2004)

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Antes é um filme de Kevin Smith. E ele gosta de falar de pessoas comuns dentro do universo que conhece bem: Nova Jérsey. Algo como morar na periferia, mas de olho na cidade grande. Logo suas histórias tem o gosto de lugar-comum. Quem mora, ou morou em subúrbios, se identifica. Por que disso? Porque eu gosto de seus filmes. Mais um pouquinho! Creio que essa frase – “Aviso: se alguém tentar encontrar um tema nesta narrativa, será processado; se tentar encontrar uma moral, será banido; se tentar encontrar um enredo, será fuzilado.” – de Mark Twain (Em relação ao seu livro: Hucklerberry Finn.) cairia bem a Kevin Smith dizer sobre esse filme. Ou, dizer sobre seus filmes a aqueles que desconsideram seu trabalho.

Agora sim entrando no filme. Além da relação pai/filho há também algo implícito no personagem principal por conta de não ter superado uma perda. Simplesmente a sufocou. E quando ela vem à tona, saiam de baixo! Porque as cobranças não serão nada agradáveis.

O personagem de Ben Affleck é um RP (Relação Pública) de sucesso. Mora em NY e tem suas raízes em New Jérsey; e lá que vive seu pai. A quem apenas visita. Mas fica no ar que tem vergonha dessas raízes. Algo também sufocado. Ao apresentar o pai a futura mulher, mais que obter dela uma aprovação, creio que no fundo ele quis encaixar o pai em sua nova vida. Mas vida só há uma. Nela temos as experiências vividas e que não dá para voltar atrás. Muito menos com a chegada de uma filha. Não é um brinquedinho.

Com a morte da mulher no parto ele fica perdidaço. Pior! Ele surta perdendo aí o emprego que tanto amava e todo o stastus quo. Então volta a casa paterna com a filha, e desempregado. Mas numa de que o seu pai é que seria um pai para a sua filha. O tempo passa, mas em sua cabeça só o voltar a ser o que era.

Sendo um filme de Kevin Smith há: uma locadora de filmes, um balconista – nesse uma balconista -, conversas sobre sexos (transas)… e em New Jersey. Aqui que entra a personagem da Liv Tyler em sua nova via. A tônica está nas falas.

A atriz mirim é um encanto! Salva o Ben Affleck. Outro que rouba a cena, é o George Carlin. E Will Smith é ele mesmo. Mesmo sem maiores pretensões, o filme traz um certo encanto. E emociona! Confesso que chorei no final. A Trilha Sonora é ótima!

Em relação a algo sobre o Will Smith no filme, na cena que culminou com a perda do emprego do personagem do Ben Affleck, me pareceu que foi uma ironia do Kevin Smith aqueles que desdenham alguém em início de carreira.

Peguem a pipoca, e curtam o filme! Nota: 7,5.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Menina dos Olhos (Jersey Girl). 2004. EUA. Direção: Kevin Smith. Com: Ben Affleck, Liv Tyler, George Carlin, Raquel Castro, Jason Biggs. Participação especial: Will Smith, Jennifer Lopez, Jason Lee, Matt Damon. Gênero: Comédia, Drama, Romance. Duração: 113 minutos.