Habemus Papam (2011)

O medo é defesa natural do homem.
Às vezes é preciso fugir para não enfrentá-lo
(Que idiotice, isso se chama burrice ou covardia)
Que não é a saída
Porque ele sempre vai à nossa procura
E sempre encontra.
Ter medo do novo
De certos obstáculos
De tomar decisões
De falar o que se pensa
De questionar
De perguntar
De dizer “sim” mesmo quando se quer isso
De deixar passar as oportunidades
De se declarar…
Bem, é melhor agora eu me calar.
Silêncio.
Medo de ceder.
O filme é maravilhoso
Uma mensagem dos céus
Ligada a escolhas.
E de quebra, um Tchekhov.
Duas boas ideias.

Karenina Rostov
*
FICHA TÉCNICA
Diretor: Nanni Moretti
Elenco: Michel Piccoli, Nanni Moretti, Jerzy Stuhr, Renato Scarpa, Margherita Buy, Franco Graziosi, Leonardo Della Bianca
Produção: Jean Labadie, Nanni Moretti, Domenico Procacci
Roteiro: Nanni Moretti, Francesco Piccolo, Federica Pontremoli
Fotografia: Alessandro Pesci
Trilha Sonora: Franco Piersanti
Duração: 102 min.
Ano: 2011
País: Itália/ França
Gênero: Comédia Dramática

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Habemus Papam (2011). Esse Papa não usa Prada, mas é Pop!

Nanni Moretti + um Papa em crise de identidade + Comédia = Pronto! Estava carimbado meu passaporte para assistir “Habemus Papam“. Há, sim! Faltou dizer que eu adoro a sonoridade da língua italiana. Conferido! E…

Poder é para quem pode!

Mais do que querer, tem que estar preparado para ele. Às vezes é algo inato, o que complica abdicar. Noutras, vem por alguma hierarquia. No filme “A Rainha” tivemos um exemplo de como estar num poder muda, ou melhor, molda uma pessoa. Em “Habemus Papam” temos com a morte de um, a escolha de um novo Papa. Alguém que irá ocupar o trono. O poder mais alto da Igreja Católica. Tudo dentro dos ditames da Igreja.

No filme teremos também um raio-X desse rito. Outros filmes já mostraram isso, mas Nanni Moretti suavizou todo o ritual. Indo da comicidade que se pode tirar de um cerimonial como esse, a até ironizar todo o luxo que há dentro do Vaticano. O que já levou a algumas pessoas um afastamento da Igreja Católica após visitarem o Vaticano. Até porque não sentiram nenhuma espiritualidade ali dentro, mas sim um puro comércio. De minha parte não precisei atravessar um oceano, daqui mesmo do Brasil, eu constatei isso. Primeiro em criança, depois quando adolescente me dando outra chance, mas fora em vão. Com o tempo me desliguei de toda e qualquer Religião. Já o Diretor Nanni Moretti foi além: é um ateu convicto. O que por si só já o deixa livre para voar nessa história. Ele também assina o Roteiro.

Moretti primeiro dar o ar da graça já na ida dos Cardeais para a sala de votação. Onde eles caminham pedindo pelas graças de todos os Santos. Depois, já na sala secreta, dando asas aos pensamentos do colegiado, e outras coisitas mais. O que ficou hilário! Fora dessa cúpula do Vaticano, um repórter (Enrico Iannello) faz o contraponto com o povão que, na Praça São Pedro, aguarda primeiro pela “fumaça branca” (Que indica que um Papa foi eleito e que aceitou.), depois pela oficialização na varanda central da Basílica. Onde então um Cardeal anuncia o “Habemus Papam” (= Temos Papa). Então o novo Papa chega ao balcão, se apresenta (Com o nome que escolheu.) e dá sua primeira bênção Urbi et Orbi (À cidade, no caso Roma, e ao mundo.).

Bem, até o Habemus Papam do tal Cardeal tudo seguia nos conformes. Depois é que começou a confusão geral, e com o grito de desespero do novo Papa. Como não chegou a escolher um novo nome, ainda com seu nome próprio: Melville (Michel Piccoli). Abrindo um parêntese para falar que a escolha desse ator fora mais-que-perfeita! Michel Piccoli está brilhante! Nos levando a acompanhá-lo nesse seu calvário com brilhos nos olhos. Ora sorrindo, ora a torcer pelo seu personagem.

Com algo tão inusitado – esse ataque de pânico no Papa eleito -, decidem chamar o melhor Psicanalista de Roma: Professor Brezzi. Personagem de Nanni Moretti. Que só terá a dimensão do novo caso, já lá dentro. Ele até tenta clinicar Melville, mas fica completamente cerceado não apenas pela presença de todos os Cardeais, como também por ter que pedir autorização para o que pode ou não perguntar ao paciente: sexo, mãe, infância, sonhos… Quando Brezzi comenta sobre um tal de – déficit de dedicação -, ele acaba dando asas aos pensamentos de Melville.

E o Papa foge! Pois consegue dar volta no cerimonialista (Jerzy Stuhr) do evento, como também aos policiais. O personagem de Jerzy Stuhr (Ótima atuação!) corta um dobrado em não deixar vazar a notícia da fuga, inclusive para o colegiado, enquanto aguarda que achem o Papa. Já que tem que encenar que o Papa se recolheu aos seus aposentos. Brezzi, sem poder sair dali, tenta novos caminhos em trazer o Papa à razão, achando que o Papa está recluso, e o faz com as dezenas de Cardeais que também não podem sair daquela ala do Vaticano. Se tem Itália, tem esporte. Mas com mais de “onze”, Brezzi improvisa um campeonato de vôlei entre continentes. É hilário até a comemoração de um único pontinho de um dos times quando já perdia de 15. Merece também os créditos o da Guarda Suiça que se passou pelo Papa, o ator Gianluca Gobbi. Foi ótimo!

Paralelo a isso, o Papa perambula por Roma como um anônimo qualquer. E enquanto é alguém do povo faz um balanço da sua vida. Até chegar a hora de dizer ao Público sua decisão na varanda da Basílica. Dando um fim ao Cerimonial. Ou não!?

E assim como tudo muda, Que eu mude não seja estranho.” (Todo Cambia)

O Papa de Nanni Moretti não usa Prada, mas ele é pop. Gosta do Teatro de Tchekhov e da Música de Mercedes Sosa. Ele vivencia um breve dilema: ao mesmo tempo que aceita ser Papa, se vê impotente para tal missão. Simpático e carismático. Não nos deixa indiferente, ficando numa torcida por ele. Alguns, para que ele siga o seu coração. Outros, que ouça a voz da razão. Assistam a “Habemus Papam” e escolham a sua opção.

O filme é excelente! De querer rever. E eu diria até que é desaconselhável para católicos para lá de beatos.
Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Habemus Papam (2011). Itália. Direção e Roteiro: Nanni Moretti. Elenco: Michel Piccoli, Nanni Moretti, Jerzy Stuhr, Renato Scarpa, Margherita Buy, Franco Graziosi, Leonardo Della Bianca. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 102 minutos.

CURIOSIDADES:
– Do mesmo diretor de “O Quarto do Filho“.

– A canção”Todo cambia” é de 1982. Cantada por Mercedes Sosa. E de autoria de um dos músicos mais significativos do movimento da Nova Canção Chilena: Julio Numhauser. Fala do amor à Pátria e é considerado um hino de libertação e de cidadania.

A Comilança (La Grande Bouffe. 1973)

a-comilancaQuatro amigos enjoados da vida decidem viajar juntos afim de passarem um final de semana servidos de comidas.

Esse filme não faz a menor diferença entre o verbo comer de se alimentar e comer de transar.

Já na mansão, os amigos contratam prostitutas e passam o tempo todo, literalmente, comendo.

A comida dá sabor à vida? Qual sabor ela tem?

a-comilanca_01O prazer de comer é imediato, seja a fome do estômago ou a fome de sexo, a obtenção de prazer e satisfação é intrínseca ao ato. Comer com a boca, com os olhos, com as genitálias… ser comido.

Devora-me ou te decifro!

E nesse tratado suicida de decidir ser “devorado” pela existência e pelo gozo da satisfação oral, os amigos comem, comem, comem, comem e comem… comem… comem…

Uma dica: Assistir a esse filme de estômago vazio é sacanagem da pior qualidade rsrsrs, mas também assisti-lo depois de comer muito… o enjôo é certo. Ao menos pra mim! Eles comem comida demais!!! Passam mal comendo, e continuam comendo… e comem… comem… comem…

Por: Deusa Circe.

A Comilança – La Grande Bouffe

Direção: Marco Ferreri

Gênero: Dizem que é Comédia.

França – Itália – 1973

A Bela da Tarde (Belle de Jour. 1967)

Uma parte de mim é permanente / Outra parte se sabe de repente / Uma parte de mim é só vertigem / Outra parte linguagem / Traduzir uma parte na outra parte…

Após tantos anos rever esse filme ficou com sabor de primeira vez. E me peguei a pensar em como motivar a turma mais jovem que ainda não assistiu e tão acostumado a outro tipo de ritmo. Pela história em si até pode ser que uma versão mais atual dariam mais velocidade. Até porque não seria mais a Séverine de Catherine Deneuve. Bela e elegante! Cujo personagem imortalizou-se na imaginação de homens, como também de mulheres de uma geração. Quem sabe de duas.

O lance maior seria que atualmente as “escapulidas” não têm mais o mesmo peso. Embora em fóruns tenho visto jovens com idéias tão retrógradas, tão preconceituosas, que veriam nisso um pecado. Não que eu concorde também, pois para mim quem tem esse tesão todo por sexo, por orgias sexuais… deveria romper com o casamento. Ir à luta. O que quero dizer é o porque dessa personagem cair no gosto popular e dos eruditos também. Creio que o mérito maior é da atriz. Irradiando charme!

Esmiuçando o filme, mas tentando não revelar tudo. Com pouco tempo de casada Séverine sentia-se mais que entediada, sentia a falta de sexo. Não tinha o menor tesão pelo marido (Jean Sorel). Embora a tratesse com carinho, ele não a satisfazia. Não tinha o gosto de algo proibido. De algo pecaminoso. Não se sabe ao certo se era fruto da sua imaginação ou não, mas por lembranças rápidas ela nos mostra que passou por abusos sexuais, pequenas carícias por um homem adulto. Seu pai? Pode ser. Se não houve de fato, pode ser para tentar dar a si própria uma justificativa para o fogo atual. Um fogo que só tomaria uma outra proporção ao saber uma história de uma conhecida do Clube de Tênis. E é pelo amigo (Michel Piccoli) do marido que conta da Casa da Madama Anais (Geniviève Page).

Séverine então passa as suas tardes transando com vários homens. Ganhando a alcunha de Belle de Jour. (Revendo o filme agora, não deu para não pensar na música do Alceu Valença.) Para ela quanto mais rudes eram mais prazer sentia. Seu humor com o marido melhorava a cada dia. Ele completava um lado seu: o de ter um marido bonito. Pois é! Temos aqui uma inversão de papéis que nesse caso ainda é algo atual: o de marido objeto em vez da mulher. O que não deixa de ter graça perante aos machistas.

Voltando ao marido. Ele nota a mudança dela. Achando que ia tudo bem no casamento lhe fala de terem filhos. Acontece que ser mãe não estava nas fantasias dela. Nem nos planos. Ocasionando novos desconfortos entre o casal.

Tudo caminhava a contento até que um jovem (Pierre Clémenti) se apaixona por ela. Tornando-se obsessivo. Para ela, ele era só mais um homem que a fazia sentir enormes prazeres na cama. Talvez por sentir que estava perdendo o companheiro de tráfico seu comparsa a segue descobrindo sua verdadeira identidade. Mas antes disso, o amigo de seu marido a flagra num dos quartos da casa da Madama Anais. O que a faz pensar em parar por um tempo. É porque desistir de fato ela não quer. O jovem vai a sua casa e faz chantagem. Ela consegue ganhar um tempo.

Louco de amor por ela o jovem resolve a seu jeito dar uma solução. Acontece que o resultado foi pior para o lado dele. Para Séverine veio como uma punição. Peso na consciência. Faltava o tiro de misericórdia. Que veio pelo tal amigo do marido. Alguém que sentia muita inveja do casal.

E no final… não, o certo seria: e o final… pois é, o final poderão alguns ficar sem entender. Para mim o amigo do marido lhe fez foi um grande favor. Tirando-lhe um peso. Dando a ela a chance de voltar a vida dupla; e sem mais barreiras. Livre, leve e solta.

Não darei nota máxima porque senti falta de música. No meu imaginário Paris também tem músicas belas e românticas. Como também quero passar um bom tempo até voltar a assistir. Para sentir o mesmo clima.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Bela da Tarde (Belle de Jour). 1967. França. Direção e Roteiro: Luis Buñuel. Elenco: Catherine Deneuve, Jean Sorel, Michel Piccoli, Geniviève Page, Pierre Clémenti. Gênero: Drama. Duração: 100 minutos. Baseado num livro de Joseph Kessel.