Entre o Amor e a Paixão (Take This Waltz. 2011)

Entre o Amor e a Paixao_2011Zapeando a grade de programação da televisão um título me levou a saber mais detalhes do filme. Então encontro que quem assina a Direção é Sarah Poley. O que já seria suficiente para assistir. Mas tendo também como casal de protagonista Michelle Williams e Seth Rogen carimbava de vez. Era assistir e conferir.

Sarah Polley além de conquistar espaço como uma atriz (A Vida Secreta das Palavras) também o faz para um universo ainda dominado por homens: o da Direção de Filmes. Seu primeiro longa “Longe Dela” adentra no universo feminino numa maturidade já avançada pelo olhar de um personagem masculino e por sentir a perda da esposa para um outro amor, mas por conta do Alzheimer. Aí nem da para pesar como traição. Vale muito a pena ver! Se nesse primeiro ela divide o Roteiro. Já em “Entre o Amor e a Paixão” ela ousa e o faz sozinha. E…

Em “Entre o Amor e a Paixão” temos como pano de fundo o drama de jovens e não tão mais jovens donas de casas. Com 5, 10, 30 anos de casadas… cujas histórias se repetem. O que muda é a maneira de encarar o tédio nessa vida de casada. Acontece que tendo Michelle Williams como uma dessas donas de casa a vivenciar esse drama me levou a pensar num outro filme, o Namorados Para Sempre“. Até porque em ambos os filmes os maridos aos seus próprios jeitos são bem resolvidos materialmente, como também emocionalmente. Dai pesou a escolha dessa atriz me levando a pensar se com uma outra se eu também teria feito essa associação. Por ambas as personagens pela insatisfação vividas quiseram achar uma saída. Sem saber do porque escolheram essa atriz era tentar não pensar mais no outro filme e continuar prosseguindo com esse aqui.

Em “Entre o Amor e a Paixão” temos Seth Rogen fazendo um Chef de Cozinha, o Lou, se dedicando a um livro de receitas. Entre Molhos e Anotações Lou acaba não colocando mais, ou o mesmo tempero no relacionamento dos dois. Pior! Tratando a esposa como um biscuit, uma menininha. Acontece que nesse cozimento em banho-maria, tinha uma dona de casa numa panela de pressão e em ebulição. Margot (Michelle Williams) se encontrava sedenta de paixão. Desejando muito ser uma mulher sedutora, mas cuja timidez a impedia de ser essa outra mulher.

Margot sonhava também em ser uma escritora. Não sei se de algum modo fora esse um dos fatores que aproximara os dois: Margot e Lou. Até porque a história do filme a pega às vésperas de completar 5 anos de casamento. Não sei ao certo se o sentimento que lhe pesava por esses dias antes da comemoração das bodas. Se melancolia, tédio, insatisfação consigo mesma. Agravada por nem conseguir imaginar esses fogosos romances para colocar num livro. Nem percebeu um sinal nudez das mulheres no vestiário feminino. Se dedicasse mesmo a pelo menos ao lado prático até teria como válvula de escape o livro desejado. Com observações somado as imaginações alguma coisa teria para escrever. Até com um ingrediente novo: o pecado morando em frente. Com isso nessas Bodas Margot teria que tomar uma decisão: continuar com o casamento ou ir viver a paixão que estava no outro lado da rua.

Ao mesmo tempo que fica parecendo que Sarah Polley leu muitos romances de Barbara Cartland, também fica a sensação de que faltou colocar esses devaneios na protagonista. É que o filme até nos leva a assistir até o final, sem querer desistir, mas não encanta de todo. A mim não deixou uma vontade de rever. Agora, continuarei na torcida para que Sarah Polley siga em frente em Direção. Pois está no caminho certo. Precisamos de mais mulheres nesse universo. Valeu seu trabalho na Direção! Faltando algo mais a Roteirista. Pelo conjunto da obra dou nota 07 para “Entre o Amor e a Paixão“.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Entre o Amor e a Paixão (Take This Waltz. 2011). Canadá. Direção e Roteiro: Sarah Polley. Elenco: Michelle Williams, Seth Rogen, +Cast. Gênero: Comédia, Drama, Romance. Duração: 116 minutos.

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Sinédoque, Nova Iorque (Synecdoche, New York. 2008)

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Por Kauan Amora.

Sinédoque, NY” é um filme pessimista e realista sobre os fracassos de uma ou de todas as vidas. Passamos a vida inteira ouvindo frases de auto-ajuda como “Todo mundo é protagonista de sua própria história“, e em um certo momento do filme, seu protagonista chega a repetir essa frase, mas só para logo em seguida testemunharmos de que essa não é bem a verdade, haja vista que a vida do diretor teatral Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) parece criar vontade própria e excluí-lo de tudo, assim como fizeram todas as mulheres que o conheceram, até ele se tornar um mero boneco que exerce atividades diárias banais ao som de uma voz que sai de sua cabeça lhe dizendo tudo o que fazer.

Synecdoche_Charlie-KaufmanAlém de ter escrito o roteiro, Charlie Kaufman também estréia na direção e parece bem intencionado em brincar com todas as frases de efeito que costumamos ouvir durante nossas vidas, como: “A vida é um palco“. Em Sinédoque NY, a vida é um palco mesmo, literalmente. Caden Cotard é homenageado com um prêmio que lhe proporciona um orçamento enorme para realizar o espetáculo teatral de sua carreira, de grande magnitude, desde então Caden passa anos tentando realizar a grande obra de sua vida, a sua vida. Tudo se torna tão grande, mas tão grande, que aos palcos sua criação começa a tomar-lhe conta, é tudo muito megalomaníaco, o que cria uma linda ironia ao descobrirmos que sua ex-mulher Adele Lack (Catherine Keener) é uma artista que trabalha com pinturas em miniaturas, que as pessoas só conseguem vê-las completamente usando um óculos microscópico, o que revela a absurda discordância dos dois artistas, tanto na vida profissional quanto na vida amorosa.

O primeiro filme escrito por Kaufman que assisti foi “Adaptação“, há muitos anos, e lembro de ter amado a experiência justamente pela forma sutil como ele trata seus personagens, logo depois vi “Brilho Eterno de uma mente sem lembranças“, e foi outra experiência inigualávelmente bela. Desde então, pensei que Kaufman não pudesse se superar, mas estava absurdamente errado, em Sinédoque NY, ele não só se supera como cria uma outra obra-prima. É um filme completamente autoral, é feito por Kaufman para Kaufman, talvez isso seja o mais incrível na obra, o exercício catártico de um grande escritor, agora também diretor.

Sinédoque NY não é mais um filme, é um evento cinematográfico. Apesar de ter um elenco formidável, desde Catherine Keener (uma das melhores atrizes da cena independente americana) até Philip Seymour Hoffman, passando por Diane Wiest, o filme não é de nenhum deles. Ao acabar temos a sensação de ter presenciado um ato egoísta, é um filme de Kaufman, por Kaufman, para Kaufman, o que só engrandece a obra. Sinédoque NY é obrigatório, lírico, uma aula de cinema e teatro.

“Sete Dias com Marilyn” (My Week with Marilyn, 2011)

O pronome possessivo “meu” no título original se refere a Colin Clark (Eddie Redmayne), um jovem obcessado por cinema, que se torna assistente de  Laurence Olivier ( Kenneth Branagh, perfeito no papel), no filme “ O Príncipe Encantado” (1957). Durante as filmagens, ele se torna o único confidente de Marylin Monroe, depois que o marida da estrela  Arthur Miller ( Dougray Scott) se ausenta.

Portanto, “Sete Dias com Marilyn” não é uma cinebiografia sobre a vida da deusa hollywoodiana, mas um relato do relacionamento de Marilyn com Clark, e consequentemente com Laurence Olivier, enlouquecido com a neurose da deusa.

Claramente, a densidade poética do filme é focada na figura de Marilyn. Michelle Williams faz um excelente trabalho mostrando Marilyn de sua elegância cativante a sua neurose. E, acho que se não fosse Williams, o filme não seria tão gostoso de acompanhar.

Entre as indicadas ao Oscar deste ano, Williams era a minha atriz favorita. Dando uma olhada na sua filmografia, ela se tornou especialista em representar mulheres comuns: sua sofrida Alma em “Brokeback Mountain” (2005), a deprimida Wendy, do maravilhoso drama “ Wendy & Lucy” (2008); a esposa maníaca-depressiva com um olhar de “peixe morto”, no intenso “ Ilha do Medo ( 2010); a infeliz e  mal-humorada Cindy, do triste “Blue Valentine” ( 2010); e a perdida Emily, do belo, em busca de uma metáfora e significado subjacente “Meek’s Cutoff”(2011). Depois desses filmes, eu nunca poderia imaginar Williams fazendo uma mulher sedutora do porte de uma Marilyn Monroe. Honestamente, fiquei surpreendido como ela recriou o ícone hollywoodiano, de uma forma humana, sem tentar imitar-la!.
Quando Michelle está na tela ninguém consegue prestar atenção em mais nada, mas em Marilyn Monroe. Sim, Williams não se parece com Marilyn, mas isso não é um problema, pois ela vai te seduzir como Marilyn sempre faz.

“Sete Dias com Marilyn” é um filme interessante e bem feito, mas satisfaz apenas por ter a figura de Marilyn, pois como um filme em geral fica aquém.

Nota 7,0

Namorados Para Sempre (Blue Valentine. 2010)

Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?

Crises conjugais é algo bem recorrente também fora do mundo da ficção. Mas que cada caso é um caso mesmo nos filmes. O que até sem querer nos leva a pensar em outras estórias interligando-as enquanto se assiste um novo filme. E numa expectativa de que esse trará um diferencial. Nesse uma gravidez interrompe os sonhos de uma jovem por uma carreira. E algo não bem resolvido internamente, chega um dia que virá a tona.

Em “Namorados Para Sempre” a primeira observação recai nos títulos: o dado no Brasil e o original. O escolhido aqui – namorados para sempre -, traduz o desejo de grande parte dos casais: o de manter esse clima no dia-a-dia e por muito anos. Até porque a explosão da paixão tende a esfriar com o tempo. Ele também mostra que esse sentimento fica em alguns casais. Que só mesmo a morte física de um dos cônjuges é que põe fim a uma relação a dois construída com muito carinho ao longo do tempo.

No filme, o Dia dos Namorados, o “Valentine Day” para os norte-americanos pontua duas fases para o casal. Uma, onde ela o apresenta aos seus pais. Onde ele fica conhecendo o clima da casa onde ela vivia. O que vai pesar também como um: casar para sair logo dali. Essa fase ficamos conhecendo por flashbacks. Já que a estória começa às véspera dessa data, mas já com alguns anos de casados. O “Blue” do título original denota a noite. Período meio romântico para se namorar. Também por mostrar uma noite bem especial quando de fato se conheceram. Esse blue também significa a cor predominante do quarto do motel onde foram tentar resgatar o antigo clima do início de namoro. Pelo menos era a intenção de um deles.

A grande pergunta que fica é: O que leva essa sensação/sentimento apagar, e a ponto de se pensar numa separação? Quando há relacionamentos que duram anos, superam momentos de crises, e que só a morte de um deles é que põe fim na relação.

O casal do filme estão vivendo a primeira crise. Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams) caíram numa rotina que deixou um deles impaciente. Para Cindy era como perguntasse a si mesma como sair, e agora não mais da casa dos pais, mas sim da sua. Uma gravidez não planejada precipitara o casamento. Muito mais do que uma paixão por Dean. E ele era o oposto de seu pai. Gentil. Sem ambição. A amava e a respeitava. Nem quis saber de um teste de Dna: amou a ideia de ser pai; amava a filha. Vivia satisfeito com a vida.

Mas Dean percebeu a insatisfação da mulher. Que o levou a reservar um quarto num motel. Achando que longe da casa e das obrigações com a filha conseguiriam reacender a antiga chama. Acontece que no caminho, quando Cindy foi comprar bebidas e algo para comerem, ela encontra com um antigo namorado. Esse sim libera toda a sua libido. A ponto de Dean notar a diferença. E ai, o que antes seria uma noite de amor, termina por também lavarem a roupa suja noite a dentro.

E qual seria o amanhecer desse casal? Como fica uma relação onde para um está tudo bem, enquanto para o outro não? Se a gravidez os levaram a constituir uma família, que peso a filha teria agora? Embora cada caso é um caso, ver um discutir a relação na ficção pode levar a reflexões um casal em crise na vida real.

O filme é muito bom! Os atores estão em sintonia. A Trilha Sonora é ótima. Mas não me deixou vontade de rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Namorados Para Sempre (Blue Valentine. 2010). EUA. Direção: Derek Cianfrance. +Elenco. Gênero: Drama, Romance. Duração: 112 minutos.

ILHA DO MEDO: A Volta do Melhor Scorsese

Por: Roberto Souza.
Após uma série de obras decepcionantes ou insatisfatórias para um realizador do seu nível, Martin Scorsese salda uma dívida com seus admiradores no extraordinário thriller psicológico ILHA DO MEDO (Shutter Island), realizado em 2010.

Quarta associação do diretor com o astro Leonardo DiCaprio, a dupla acerta em cheio após os medianos GANGS DE NOVA YORK (2002), O AVIADOR (2004) e OS INFILTRADOS (2006), exemplos adequados de filmes de qualidade “onde falta alguma coisa”.

Não tive a oportunidade de assistir ao filme na telona, mas o recebi há dois dias em Blu-ray e, sem maiores expectativas prévias, senti o prazer de perceber um cineasta de volta à melhor forma, manipulando a expressão visual e os elementos autenticamente cinematográficos no seu caldeirão de poções mágicas, em doses precisas.

O roteiro exemplar de Laeta Kalogridis adapta o magistral romance Paciente 67, de Dennis Lehane (autor, entre outros, de Sobre Meninos e Lobos). No enredo, sem dar maiores detalhes para não estragar as reviravoltas da narrativa, DiCaprio é Teddy Daniels, um agente federal que se dirige a uma afastada ilha, utilizada como clínica-presídio para criminosos com problemas mentais de gravidades diversas.

Sua missão, ao lado de outro investigador (Mark Ruffalo), é desvendar o paradeiro de uma paciente que parece ter se “evaporado” de sua cela, apesar de trancada a sete chaves. Porém logo surgem dificuldades com os diretores do estabelecimento (os veteranos Ben Kingsley e Max von Sydow), que não parecem muito dispostos a colaborar na investigação, parecendo querer controlá-la qual uma sessão terapêutica.

Por outro lado, a maior barreira à solução do enigma reside no próprio Teddy, que carrega consigo traumas emocionais oriundos de sua experiência na Segunda Guerra, além da repentina perda da esposa num recente incêndio doméstico. Em contrapartida, a atmosfera lúgubre da ilha é propícia para exacerbar seus problemas, trazendo-lhe dolorosas lembranças, agudas dores de cabeça e pesadelos recorrentes.

Não foi casualmente que Lehane situou seu romance no ano de 1954. Os EUA viviam ao máximo a insegurança da Guerra Fria com a União Soviética, do Macartismo que caçava comunistas por todos os lados ou do temor de um conflito nuclear devastador.

Assim, a paranóia individual do atormentado investigador anda de mãos dadas com a paranóia coletiva, moldada pelas injunções políticas e ideológicas do período. Ao revirar sua mente em busca de respostas, Teddy realiza uma descida ao inferno interior, percebendo o risco e a temeridade que assolam aqueles que buscam uma verdade, seja de qual tipo possa ser.

Nesse sentido, a direção de Scorsese é absolutamente perfeita, tornando o décor parte integrante do processo, quase um personagem vivo, como já ocorrera na maioria de seus melhores trabalhos (TAXI DRIVER, TOURO INDOMÁVEL, OS BONS COMPANHEIROS e A ÉPOCA DA INOCÊNCIA). Ao transformar o concreto dos muros inexpugnáveis em carne e a atmosfera pesada dos sombrios corredores em sangue, o público é induzido a enveredar numa espiral onde, na melhor tradição do gênero, nada parece ser o que aparenta.

Contudo, ao invés do esperado recurso da surpresa ou de espantosas revelações finais, Scorsese distribui na força de suas imagens a resposta dos mistérios propostos, a chave que abriria todos os cadeados, a ponto de mais tarde o espectador se perguntar: como eu não percebi isso na hora?

Acrescente ao caldeirão ecos da obra-prima literária O Som e a Fúria, de William Faulkner, ou do clássico filme B Vampiros de Almas, de Don Siegel, retratos díspares da incomunicabilidade e dos pavores coletivos, e você se verá diante de uma pura, obra de arte. Uma experiência que o fará enveredar por labirintos e becos sem saída, que lhe negará a luz do sol, numa estilização que conjuga o universo pessimista de Schopenhauer e o conceito fugaz de realidade de Edgar Allan Poe, constituindo um assustador buraco negro ao qual se é atraído indelevelmente.

Imperdível.

Por: Roberto Souza.
– Blog Cal&idoscópio.
– Blog Lanterna Mágica.

A Emoção Reprimida em O Segredo de Brokeback Mountain (2005)

Neste texto busca-se analisar o filme ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ a partir da reflexão do ‘lugar’ da emoção tanto na ciência como na sociedade. Sabendo-se tratar de um tema fundamental para o indivíduo que é obscurecido pela vida social, a emoção passa a ser uma das temáticas mais recorrentes na Arte – como no cinema. Ela (Arte) expõe e desenvolve temas importantes, e inconvenientes, sem a obrigatoriedade de ampliação de questionamento e busca de solução – já que o que é exposto pode ou não ser tomado para si, podendo-se pensar na Arte como importante instrumento dessa significação no mundo.

Porém, especialmente no cinema, é na própria maneira de se apresentar ao espectador que a obra impacta emocionalmente e mostra sua força comunicativa. Em ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ a emoção é trabalhada e tratada de maneira refinada. Trata-se basicamente de um filme de amor – romance como convém à classificação do cinema – porém a dificuldade da própria sociedade em absorver um romance homossexual o faz ser classificado como drama – talvez o grande drama esteja na própria constatação desse amor pelo público e na obrigatoriedade em aceitar aquilo que ali é posto.

Essa questão poderia, inclusive, ser alvo de maiores investigações, já que a emoção é construção (ou constitutivo) social e, neste caso, o medo existente em lidar com determinadas emoções pode ser relevante para a compreensão de quais emoções são valorizadas para o homem do nosso tempo.

Este romance expõe a história de amor entre dois típicos cowboys do interior dos Estados Unidos. A tomada inicial do filme nos apresenta uma paisagem erma e desoladora, tamanha a potência natural e a pequenez do homem e de sua ocupação. Todas as imagens causam um grande impacto na ‘subjetividade’ do espectador, atingindo suas necessidades cognitivas (de leitura de imagem) e provocando suas emoções.

As paisagens naturais são recorrentes durante todo o filme, estão presentes como cenário dos momentos românticos ou de conflito do casal central, já que seus encontros são sempre escondidos entre as montanhas de Brokeback. Esse cenário tornasse incrivelmente versátil, o que inicialmente nos provoca uma leitura de solidão total, ao longo do desenvolvimento da história passa a nos provocar emoções variadas como aconchego, paz, esperança, como se fosse o único local no mundo a possibilitar a realização de necessidades fundamentais à existência, onde se pode ser o que é – assim como aos protagonistas.

Após a primeira tomada que nos torna pequenos diante do que está por vir, os protagonistas (Jack e Ennis) se encontram em uma procura por serviço, ambos se olham disfarçadamente, mas não se cumprimentam. Somente na saída, após o empregador (Aguirre) confirmar o trabalho para ambos cuidando de um rebanho de ovelhas em Brokeback Mountain, Jack toma iniciativa e se apresenta a Ennis que, sem muita energia, diz seu nome e retribui o aperto de mão.

Podemos observar já na vestimenta e na postura dos dois cowboys diferenças relevantes, Jack tem uma aparência mais sofisticada, combinando suas roupas e procurando reforçar um estilo de peão de rodeio, cheio de iniciativa e élan se expressa com maior desenvoltura. Ennis é mais simples no seu vestir, humilde e tímido mantém seu olhar sempre baixo e não toma iniciativa.

Pensemos então no corpo como vitrine da identidade, confunde e carrega o sujeito de preconceitos e conceitos de si mesmo. Sendo o corpo e a alma partes indistintas de mesma matéria é no corpo que estarão materializados as emoções do sujeito.

Portanto, as diferenças (entre eles) que aparece ao longo de todo o filme, como características de personalidade influenciarão na sua maneira de lidar com os sentimentos e com as situações apresentadas pela vida. É em Brokeback Mountain, durante a execução do trabalho que os dois passam a se conhecer. Após uma grande emoção de medo e de perda, imposta por um urso, Ennis recusa violentamente os cuidados de Jack, mas passa a falar mais sobre si.

Outro momento marcante é quando resolvem mudar de posto, pois um sempre tinha que passar a noite no alto das montanhas junto às ovelhas enquanto o outro permanecia no pé da montanha cuidando do acampamento e da alimentação, e Ennis passa a noite sozinho. O isolamento faz Ennis tomar uma postura mais falante ao retornar; Jack até exclama que ele nunca havia falado tanto, Ennis responde: “Falei mais agora do que em todo o último ano.”. O carinho, admiração, consideração de um pelo outro já atingira grandes proporções, sempre havendo, de ambas as partes, uma certa ansiedade pelo encontro.

Naquela noite Ennis não volta para o alto da Montanha, apesar do frio insiste em ficar fora da barraca de Jack, este acorda durante a noite e ouve os gemidos de frio do companheiro, o chama para dentro, este vem correndo cai no colchonete e dorme. Jack acorda novamente durante a noite, pega a mão de Ennis e tenta masturbar-se. Ennis se afasta violentamente, Jack tenta fazer carinhos no rosto de Ennis, colando seus rostos e permanecendo assim. Com respirações ofegantes e se contendo em emoção pura, Jack tira sua calça e Ennis o vira de costas, eles transam violentamente, essa cena lembra mais uma luta – a luta interna de Ennis frente a emoção que se escancarava naquela situação.

No dia seguinte, Ennis olha ao redor, sai da barraca e monta em seu cavalo, não se dirige a Jack, ninguém saberá o que houve entre eles. Mas, ele viu, ouviu e sentiu, tem a certeza de que nunca mais será o mesmo. O seu julgamento interno e possível julgamento social é maravilhosamente representada por Ang Lee: Ennis sobe até a Montanha e encontra uma ovelha morta, dilacerada, com suas víceras reviradas, é assim que Ennis se sente?

Jack está olhando a paisagem, Ennis chega e senta em sua frente, não se encaram, o único comentário a ser feito: não são “veados”, e o que ocorreu só foi vivido ali e permanecerá ali em Brokeback Mountain.

A partir desse momento os dois se permitem viver o grande amor de suas vidas apenas naquele cenário. Os momentos que seriam os mais valiosos e verdadeiros de sua existência se passam ali, por 20 anos. Ambos constroem famílias, Ennis casa-se com Alma (como planejava antes de encontrar com Jack) uma mulher carinhosa, tímida, ‘caipira’, simples e com sonhos pequenos. Jack casa-se com Lureen, uma mulher forte, poderosa e cheia de iniciativa.

É interessante perceber como esses homens encontram mulheres que representam tão bem a sua própria personalidade, elas são seus alteregos mais perfeitos. Quando aparecem em sua vida cotidiana de homens casados, trabalhadores estão sempre infelizes, sozinhos – mesmo quando cercados de pessoas. Sempre aparecendo em ambientes fechados a solidão dos protagonistas é mais evidente e a pequenez de sua existência se faz mais clara do que na imensidão da montanha.

Desde o início Jack propõe a Ennis uma vida feliz em um rancho na montanha, porém o medo e a repressão social em Ennis são tão fortes que ele não vê esta vida como possível. Tornando a sua vida e a de Jack uma eterna espera por Brokeback Mountain. Os encontros são sempre curtos e inesquecíveis por sua potência.

Acreditando na ideia de que o bom é relativo ao sujeito – já que está ligado ao que é desejado e capaz de aumentar nossa potência de ação –, o único julgamento que caberia à sociedade é o do aproveitamento da potência de ser (ou do ser) e não o julgamento moral baseado em valores menores ligados ao medo do desconhecido e do diferente que atinja o conhecimento religioso vigente. Mas, no filme, é o medo do julgamento social que paralisa Ennis e o impede de ser e fazer feliz, sendo neste caso um mau sentimento, pois diminui a atuação do indivíduo e gera tristeza.

A questão central de ‘O Segredo de Brokeback Mountain’, que serve como questionamento até aos mais conservadores, é a dificuldade em expressar a emoção. Essa é uma questão essencial e, até agora, sem resposta já que a manifestação emocional é uma construção social e, em cada cultura, a possibilidade expressiva é diferente. Parte daqui, então, uma abertura para reflexões independentemente da compreensão e identificação com a história do filme. Ou seja, esta história não se finda com o aparecimento dos créditos finais.

Por: Carol Marola.