TED (2012). Um ‘Calvin and Hobbes’ Às Avessas.

Senhores Pais, não levem seus filhos de 11 anos de idade para assistir um Filme Não Recomendado Para Menores de 16. Principalmente este, “TED“. Porque o Ursinho de Pelúcia em questão ganha maioridade, logo fazendo coisas impróprias para menores. Mais ainda! Agindo como um bad boy. E é aí que mora o perigo! Porque é muito divertido! Mesmo tendo ele e “seu dono” levando uma vida politicamente incorreta. Mas uma dupla de amigos inseparáveis!

Quando não se tem amigos reais, está dentro da normalidade de na infância ter um amiguinho invisível. Ou mesmo que ele se “materialize” num bichinho de pelúcia onde o tête-à-tête fique dentro da mente da própria criança. Agora, quando há de fato um diálogo entre dois, mesmo sendo um deles um boneco com vida própria, perdurando até a fase adulta, há o que pensar! Mas não é como em “Uma Mente Brilhante“, pois aí todas as demais pessoas também seriam esquizofrênicas. Eu creio que a mensagem do filme não seria essa. Ou seria!? Já que atualmente há um mundo em outra dimensão tão hipnótico, que mesmo metaforicamente, é como se existisse vida num mundo invisível. Um mundo meio imaginário onde cada um pode ser o que quiser. Seja pela internet, ou até pelos inúmeros e variadíssimos reality shows na televisão. Logo, o ursinho de pelúcia “Ted” ter uma vida real não é tão surreal assim. Mesmo ele ganhando o aval de ser um milagre do Natal, podemos pensar que os ipods, netbook não deixam de ser o bicho de pelúcia da infância.

O solitário e pequeno John (Bretton Manley) amou tanto esse novo amigo, que juntos fizeram um pacto de nunca se separarem. Ted dava asas a imaginação dele, só que extrapolando. Perto de Ted, John era um eterno menino, num mundo de heróis e vilões, como também dos que se consideravam “amigos” de Celebridades. O que para John era o combustível para continuar levando a vida sem muitas responsabilidades. Acontece que John cresceu e… Pode-se também pensar que John – vivido na fase adulta por Mark Wahlberg -, tenha a síndrome de Peter Pan. Mas por um olhar mais romãntico eu diria que ele seria um fã de “Calvin and Hobbes” e quis ter, levar uma vida parecida. Mas Ted não é o Haroldo. Ted foi picado pela mosquinha da fama. Virou uma Celebridade. Mas num mundo onde a novidade é bem efêmera. Onde alguém de “personagem única” acaba não chamando mais a atenção da grande maioria.

Ou a pessoa se adequa a essa nova realidade, ou cairá no esquecimento geral, isso se realmente quer continuar nesse mundo do faz de conta. Um filme que aborda o se projetar num mundo de fama, mas num viés dramático é “Réquiem Para Um Sonho“. Mostrar ao mundo uma falsa realidade. E as fantasias de cada um pode levar alguém a querer e muito a fama do outro. Onde mais do que ter algo dessa celebridade, vai no desejo de tê-lo por inteiro. O que o leva a chamar a atenção desse alguém muito frustado por não ter conseguido nem os “15 minutos de Fama” por méritos próprios. O que leva Ted a correr o risco de ser pego por esse sociapata da era midiática. Um personagem que caiu como luva para Giovanni Ribisi. Ele está ótimo!

Acontece que nesse pequeno Clube do Bolinha de John e Ted tem uma Luzinha querendo entrar, ou se encaixar. Ela é Lori (Mila Kunis), que vai tentar com que John amadureça. Mesmo que para isso a única opção seja tirar Ted da vida de John. Mas aí não seria ela a nova “dona” do John? Querendo ter uma vida previsível. Não vendo que algo absurdo pode ser o começo de uma vida sem script.

Ponto negativo: Confesso que algumas vezes eu pensei em Jason Bateman para fazer o John. Pois Mark Wahlberg ficou meio travado nessa comédia escrachada. Sendo ele salvo pela atuação da Mila Kunis, de Ted e do filme por um todo.

No mais, o filme surpreende até por nos levar atentos até o final. Muito divertido! Onde Ted quase no finalzinho nos leva a uma gargalhada que deixa o sorriso na face muito depois do término do filme. E bem do jeito dele, ou seja: politicamente incorreto. Trilha Sonora ótima! Com algumas participações especiais, como Norah Jones. Um filme que deixou vontade de rever!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Ted (2012). EUA. Direção e Roteiro: Seth MacFarlane. Elenco: Mark Wahlberg, Mila Kunis, Seth MacFarlane (Ted), Joel McHale, Giovanni Ribisi, Patrick Warburton, Matt Walsh, Jessica Barth. Gênero: Comédia, Fantasia. Duração: 106 minutos.

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Amizade Colorida (Friends with Benefits. 2011)

Muito bom quando um filme me surpreende! Pois foi o que aconteceu com esse aqui, “Amizade Colorida“. Confesso que mesmo achando que seria mais do mesmo, eu queria muito assistir um novo trabalho com a Mila Kunis. Amei seu trabalho anterior em “Cisne Negro“. E o filme foi me conquistando logo no início. A partir dai, assisti atenta até o final. Mais! Com brilhos nos olhos, que em algumas cenas se encheram de lágrimas. Mas também houve cenas em que eu ri muito.

Amizade Colorida” é uma Comédia Romântica, logo com todos os ingredientes comuns a todas. O diferencial nesse viria em se espelhar nos relacionamentos familiares. Tenha sido uma união perfeita ou não, às vezes ao fugir com receio de não virar meras cópias, termina sendo. E acaba se desiludindo. Ou o que é pior, sufocando o querer ter, vivenciar uma relação duradoura. A relação dos próprios pais, invariavelmente pesa na avaliação das que os filhos querem para si próprios. Além disso o filme brinca com outros desse gênero, mas mais como uma homenagem a eles, como também a nós fãs de Comédias Românticas.

O título dado no Brasil descaracteriza o que os dois jovens queriam de fato. Já que amizade colorida denota ser meio pueril, sem identificação entre o casal. Eu traduziria o título original assim: Amizade com Praticidade. Sem os eufemismo que tantos amam, o lado prático de uma relação a dois acaba sendo ignorado. Mas seria o ideal com a tal da ponte que comentei em “Comer Rezar Amar“. Uma relação sem cobranças, sem querer anular o outro, saboreando com prazer o momento a dois, respeitando a individualidade um do outro. A responsabilidade com essa união viria de um comum acordo. E o romantismo, por exemplo, na hora da transa, seria nas preliminares, como também no depois. Porque na hora mesmo do sexo é puro prazer da carne. Um satisfazendo o corpo do outro. Claro que não estou falando de sexo doentio.

Vale lembrar também que complica racionalizar um sentimento. Quando a emoção aflora, se tentar pelo controle total, periga perder o vivenciar momentos que poderiam marcar como um capítulo importante na vida de uma pessoa. Então, bom quando alguém ou algo vem com o “Acorda! A vida é curta!“. Por ai que será a caminhada do casal protagonista em “Amizade Colorida“. Eles se conheceram num encontro não por acaso. Dois jovens com talento na profissão que abraçaram, mas desiludidos no lado amoroso. Ambos levaram um fora de seus respectivos parceiros.

Um perfil desse casal principal. São eles:
– Ela é Jamie, personagem de Mila Kunis. Uma caça-talentos, não só de Artistas, mas também de profissionais de outras áreas. Se de um lado é alguém super extrovertida, de outro é alguém super romântica, de sonhar por um príncipe encantado. Por conta da mãe ainda viver nos tempos de Woodstock, ela não sabe quem foi seu pai. E no fundo gostaria mesmo de um relacionamento “careta”.
– Ele é Dylan, personagem de Justin Timberlake. Um Web Designer. Que aceita o trabalho em NY, mas mais por estar meio fugindo de uma barra maior: a doença do pai. Para Dylan que teve que superar tantas limitações, ver o pai com Alzsheimer, algo irreversível, o deixa sem ação. Dylan é o oposto de Jamie, um cara travado fora do ambiente de trabalho. Além dela, terá mais um a lhe apoquentar a sua timidez: um novo companheiro de trabalho.

A princípio Jamie e Dylan vão descobrindo que gostam da companhia um do outro. Com a afinidade em alta combinam transarem sem envolvimento emocional. Tudo parecia ir bem até passarem um feriado juntos com a família de Dylan. Onde as emoções afloraram e o que era doce, salgou…

Agora, um pouco de outros personagens que ora nos diverte noutras emociona:
– Mr. Harper, o pai de Dylan, personagem de Richard Jenkins. Em uma cena faz um solo lindo ao mesmo tempo que machuca na alma. Num momento de lucidez mostra o quanto é cruel o Mal de Alzsheimer, e para alguém que ainda teria muito a contribuir com a sociedade, com os familiares, e até consigo próprio. Essa cena me fez lembrar de uma em “Longe Dela“. Richard Jenkins nesse filme aqui continua mostrando que ele pertence ao topo dos atores. E que quer continuar atuando. Bravo!
– Lorna, a mãe de Jamie, personagem de Patricia Clarkson. Uma porra-loka que encontra na filha um porto-seguro. Meio que irrita Jamie, mas que no fundo entende que ela não conseguiria levar uma vida “certinha” demais. Meu único porém nesse filme foi que pareceu que travaram a Patricia Clarkson. Para alguém bem cuca-fresca sua personagem estava um tanto quanto intimidada. Espero que não tenha sido por recear ofuscar Mila Kunis. Seria infantilidade da Direção.
– Tommy, personagem de Woody Harrelson. Ele faz um Editor de Esportes onde Dylan foi trabalhar. Um homossexual assumido, divertidíssimo, que não apenas encabulará Dylan, mas que depois se tornarão bons amigos. Tommy proporcionará um belo momento de vida numa hora de lucidez para o pai de Dylan. Que me fez lembrar de uma cena do filme argentino “O Filho da Noiva“. E ver Woody Harrelson como um desportivo, me fez querer revê-lo em “Homens Brancos Não Sabem Enterrar” (White Men Can’t Jump. 1992).
Ainda vale destacar as presenças de: Annie (Jenna Elfman) e Sam (Nolan Gould). Irmã e sobrinho de Dylan.

Contar mais é cair em spoiler, embora não seja um Thriller essa estória é para ser saboreada aos poucos. Até o desfecho. Estória, Atuações, um convite a visitar Nova Iorque, participar de Flash Mob, a Trilha Sonora… fazem de “Amizade Colorida” um filme Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Amizade Colorida (Friends with Benefits. 2011). EUA. Direção: Will Gluck. Gênero: Comédia, Romance. Duração: 105 minutos.

Cisne Negro (Black Swan. 2010). Qual teria sido a pressão maior a essa me-Nina?

Indo assistir “Cisne Negro”  já estava ciente de que a personagem principal Nina (Natalie Portman) passava por um distúrbio psíquico. A profundidade dele, só vendo o filme. Por ser eu uma cadeirante, logo com certas limitações, e até mesmo adequações frente a uma nova realidade, batia em mim também uma curiosidade em ver o que ela faria, já que galgava o papel principal na nova montagem do “Lago dos Cisnes“. Claro que estou ciente de que limitações motoras não dá para se comparar com as mentais. Diante disso, fui disposta a observar os maiores detalhes que eu pudesse de Nina e todos em sua volta. E irei trazê-los para cá. Com isso o texto terá spoiler. Ficando também a sugestão de que assistam primeiro esse filme. Que o considero uma Obra Prima da performance da Natalie Portman.

Durante as primeiras cenas me veio a lembrança da Phoebe, personagem de Elle Fanning em “A Menina no País das Maravilhas“. Por ambas terem adentrado num mundo da fantasia. Um meio de escaparem das pressões do mundo real. Outro ponto em comum que também me chamou a minha atenção: foram o papel das mães. No sentido de quanto influenciavam na vida das filhas. No conflito interno que padeciam. A mãe de Phoebe retirou a filha das mãos de um Psiquiatra por achar que o problema seria por não ter tido tempo para a filha. Já a mãe de Nina, Érica (Barbara Hershey), mantinha uma dedicação quase integral. Quando não podia estar junto da filha, tinha outros olhos a lhe informar dos passos da Nina no Teatro. Falando em olhar, o da Érica sobre a filha parecia vampirizar a me-Nina. Meio assustador! Excelente atuação da atriz. E até por conta disso, nem lhe passou pela cabeça procurar ajuda por Profissionais da área Psico.

Esse também é um ponto que irei abordar: da busca por uma Terapia. O termo é mais difundido como o de fazer um hobby. Algo para desanuviar a mente ante a uma pressão, ou bloqueio… Enfim, até pode ser. Mas há de se pesar de que cada caso, é um caso. E só quem poderia avaliar com mais precisão seria alguém que estudou para isso. Sendo ele um profissional sério, saberá encaminhar para um especialista. Como leiga no assunto, me pareceu que o problema de Nina poderia ser pelo menos atenuado com medicação prescrita por um Psiquiatra.

Como eu fui com um olhar em buscar pelos sinais do distúrbio da Nina, o de se coçar até ferir, foi um deles. Sendo nas costas, seria outro já adentrando nos ensinamentos de Jung – a Sombra. Como também para quem gosta de Astrologia – a casa 12. A Phoebe também se autoflagelava como uma punição. No caso da Nina, a princípio, ela nem se dava conta disso. Era como se o seu outro “eu” que fizesse isso. Pode até ser que esse coçar… aos olhos de um Profissional já seria um sintoma. Para mim, seria um aviso de que minha filha estaria passando por um problema que a cabecinha dela não estava dando conta do recado. Um diálogo aberto levaria a outros sinais.

No caso de Nina, sua própria mãe é quem nos fornece maiores detalhes. Que para ela eram todos contornados em tratando a filha como uma criança, ainda. Volto a destacar a atuação da Hershey: foi brilhante! Cheguei a ficar com raiva dela com a solução que ela deu. Conto? Contarei sim. Mas antes, já que a mãe via aquele coçar até se ferir como Compulsão, fui pesquisar por um significado. Trouxe esse do site do Dr. Dráuzio Varella:

O comportamento compulsivo se caracteriza por uma pressão interna que, em determinadas situações, faz com que a pessoa se sinta impelida, tomada por desejo muito forte de realizar uma ação que gera prazer principalmente nos estágios iniciais, mas que depois provoca sentimentos de culpa e mal-estar.”

Para mim, não se aplica no comportamento da Nina. Mesmo se tratando de uma compulsão, não seria cortando as unhas que iria resolver. Porque poderia se coçar com objetos que iriam ferir mais. Como a mãe veio com um – “Você voltou a fazer!” -, então era hora para procurar por uma ajuda. Na cena em si cheguei a ficar com raiva dela em tratar a filha como um bebezinho. E vendo o quarto de Nina, via-se ali os sonhos ainda da infância. Ainda uma adolescente. Achei-o sufocante.

Antes de prosseguir deixo uma indagação: Por que ainda nos dias de hoje há tanta resistência em se procurar por um profissional da área psi? Hora desses profissionais retirarem esse ranço antigo: de que são só para “loucos”.

A mãe de Nina fazia tudo isso por projetar na filha aquilo que ela não conseguiu ser: uma bailarina de destaque. O fato de ficar sempre como pano-de-fundo, a levou a outros caminhos. No filme não faz referência de como se engravidou de Nina. Se foi algo do tipo: teste de palco. Também não há indícios se houve em algum momento uma figura paterna. Não que seja algo imprescindível, mas no caso de Nina essa ausência terá uma consequência. Conto mais adiante.

Essa transferência – o filho será o que não conseguiu ser -, é algo muito forte na cultura estadunindense. Por polarizar: ou se é um winner, ou se é um loser. Mas também está presente na relação – pais e filhos – de outros países. A mãe de Nina a responsabilizava de que com o seu nascimento teve que abandonar a própria carreira aos 28 anos de idade. Algo que me fez lembrar da personagem principal de “Comer Rezar Amar“, onde às vésperas de completar 30 anos, ainda não se via como mãe. Para muitas das mulheres, atualmente, e que querem ser mãe, deixam para ter filhos após os 25 anos. Até para se dedicarem mais esse novo papel em suas vidas. Por conta disso me peguei a pensar de que a gravidez de Érica fora algo indesejado.

Não sei o quanto pesa na vida de uma mulher o fato de tentar conquistar a posição de 1ª Bailarina numa Grande Companhia de Balé. Desconheço os meandros. Sendo assim parto de supor de que alguém tendo 28 anos de idade se ainda não “aconteceu”, ficará difícil alcançar esse posto. Assim, não há desculpas convincentes para as cobranças da mãe de Nina. E a filha ao soltar as primeiras amarras, diz a mãe que ela sempre faria parte do corpo de balé, nada além disso.

O Lago dos Cisne, ou melhor os dois personagens principais – o Cisne Branco e o Negro – pediam por alguém jovem. Que se tiver condições, uma única bailarina faria os dois. Havia também o fato de que a Companhia passava por uma grande crise financeira. Dai, precisando de uma carinha nova; de sangue novo. Por conta disso aposentam a até então primeira bailarina: Beth. Grande atuação de Winona Ryder.

Nina admirava Beth. Aspirava ser perfeita como ela. Buscava pela perfeição em seus ensaios. Que não passou despercebido pelos olhos da Companhia, no caso, do Coreógrafo Thomas Leroy. Uau! Vincent Cassel me surpreendeu nesse papel. Foi brilhante! Não caiu em estereótipo. Seu coreógrafo não me levou a pensar em seus outros papéis. Pode até ser que essa atuação não seja o seu divisor de água, mas está de parabéns.

Thomas fora um Mentor diferente. Ciente da capacidade de Nina, faltava ingressá-la na Sedução o qual o Cisne Negro exigia. Nina já possuía a candura necessária para o Cisne Branco. Um jeito menina de ser. Lhe faltava descobrir a mulher fatal dentro de si e trazê-la à superfície. Bem, poderia apenas aflorar o poder de seduzir, mas a pressão do momento exigia muito mais.

Thomas faz isso de um jeito encantador. Fica meio difícil acreditar que um Pai, mesmo hoje em dia, daria o mesmo conselho. Dai o vi como um Mentor. Indo além, como um cara de bom caráter que sabe esperar que a jovem também o queira para uma relação íntima. Um cavalheiro à moda antiga. Mesmo que as verdadeiras intenções de Thomas eram fazer dela – de fato e de direito – a 1ª Bailarina da nova versão do Lago dos Cisnes.

Seu conselho foi para se masturbar. O primeiro passo para sentir os prazeres do próprio corpo. E então poder exteriorizar essas sensações até para ajudar no processo de sedução. Pois o Cisne Negro teria que ser bem provocante com a plateia. De modo a surpreender a todos com as duas formas de sedução em cada um dos Cisnes. O angelical, do Cisne Branco. O de mulher fatal, do Cisne Negro.

Com isso a me-Nina cresce. Fazendo uma revolução em sua vida. Que até poderia ter vindo como uma consequência natural de vida: infância -> adolescência -> maturidade… Mas tendo a mãe lhe pressionando a não crescer, talvez para que chegasse ao estrelado ainda com o frescor da adolescência. Essa mãe também deveria fazer uma Terapia.

Por estar sempre cobrando o seu nascimento me veio a impressão que ficou no subconsciente de Nina uma aversão a uma relação hétero. Nina passa isso quando um carinha em uma boate a leva para um cantinho. Com o Thomas não foi um desejo carnal, mas em aprender rápido o que ele queria na interpretação do Cisne Negro. Como se não bastassem as pressões: uma doença em evolução, a mãe, a posição de Primeira Bailarina, o sentimento de culpa pela “aposentadoria” da Beth, o querer ser perfeita na carreira, não conseguir se enturmar, o coreógrafo lhe cobrando numa mudança para então fazer também o Cisne Negro… Enfim, se não fosse tantas pressões, o próprio Thomas lhe traz mais uma: uma bailarina para ficar como substituta. Já que “o show não pode parar“… a Companhia precisava ter alguém à altura do espetáculo.

Ela é Lilly (Mila Kunis). Se Nina pudesse raciocinar com calma veria que ali dentro não teria concorrência. Nem Lilly lhe tiraria a vaga. Já que ela não trazia o porte elegante de Nina. Lilly pendia mais para a vulgaridade. Tinha talento sim, mas para se encaixar na disciplina do Balé Clássico, Lilly precisaria de muito treinamento.

Inocentemente, Nina busca em Lilly tudo aquilo que não consegue ser por si mesma. A carência por uma amizade a leva a se entregar de corpo e alma a Lilly. Onde realidade e fantasia se misturam em sua mente. Mas essa por sua vez cerca Nina de todos os modos. Esperando os momentos certos para atacar. A maldade em Lilly lhe era tão natural que cegava a visão de Nina. Não vendo que o que Lilly pretendia mesmo era destronar Nina. Ela só descobrirá já um pouco tarde.

Nina que antes tinha a lhe assombrar o Cisne Negro… direciona a sua limitação em aprender com essa nova amizade. Sem ter consciência da sua nova realidade, no caso, de ter uma outra personalidade, a faz também um objeto de desejo. Ao se masturbar, Lilly se materializa. Onde eu não vi como sendo a descoberta de uma homossexualidade. Era o seu outro “eu” querendo ser provocativa. Me fazendo lembrar de “Uma Mente Brilhante“, onde o “colega de quarto” do personagem principal, o Nash (Russel Crowe), também era o seu contraponto. Mas esse teve alguém que lhe amava e conseguiu ver a real situação do marido. Diferente de Nina que não teve ninguém que pensasse nela como uma pessoa, e que precisava de ajuda. Só pensavam neles. Quando a então notaram… já era tarde demais.

Cisne Negro” também aborda uma outra mudança atual. Até um tempo atrás era muito comum ver menininhas em uniforme de Balé. Fazia parte do sonho infantil: ser bailarina. Até as com tendências a engordarem eram encorajadas numa tentativa em mudarem seus hábitos alimentares. Além disso, elas também ganhavam as primeiras noções dos Clássicos: Música e Dança. Eu não sei se a intenção do Diretor era em mostrar o total desconhecimento dos Clássicos pelos jovens de hoje. Muitos dos quais buscam em serem Celebridades sem o menor esforço, e com muito menos estudos. Um pouco de Cultura não faz mal a ninguém. Aronofsky leva isso nos dois jovens que Nina e Lilly conhecem na boate. Ambos sequer tinham ouvido falar do “Lago dos Cisnes”.

E qual teria sido a pressão maior a essa me-Nina?

Para mim a grande vilã dessa história foi a mãe de Nina. Que a conduziu até a borda daquele precipício. Final emocionante. Para ficar na História do Cinema.

Ao fechar as cortinas…

Bravo Natalie Portman! Sua Nina entrou para a Lista das Grandes Personagens Femininas! Aplausos também a todos! Desse excelente filme.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Ilha: Uma Prisão Sem Grades (Boot Camp, 2008)

Neste final-de-semana assisti a um filme que não chega a ser sensacional, porém é chocante. Se não fosse os dizeres “Este filme é baseado em fatos reais” talvez passaria despercebido por mim. Entretanto, após chegar ao término, fui investigar mais a fundo e descobri que coisas muito piores do que as relatadas no filme acontecem ainda hoje.

O filme se chama Boot Camp (que pode ser traduzido como Acampamento de Recuperação em português) e segundo o site Choveu ele sairá por aqui, a partir do dia 16/07/2008, direto em DVD, com o nome de A Ilha – Uma Prisão sem Grades.

Segue a Sinopse:

Boot Camp é um Thriller psicológico sobre um grupo de jovens rebeldes que são enviadas para uma casa de reabilitação em um remoto campo das Ilhas Fiji. Mas o que seus pais acreditam ser uma respeitosa e artística instituição de luxo em um lugar calmo e perto da natureza se torna uma prisão onde esses jovens são levados a um pesadelo. E é neste verdadeiro campo de batalha que eles serão submetidos a diversos abusos e lavagens cerebrais. Submetidos as situações extremas e com a sanidade mental ameaçada, estes jovens deverão enfrentar o diretor militarista e sua utópica visão de ordem, para conseguirem escapar.

O filme é um show de tortura psicológica e física, e assemelha-se bastante ao que acontece nos campos militares, com uma exceção: os torturados são crianças enviadas pelos próprios pais na expectativa que os filhos aprendam a lhes obedecer. Para eles pararem de serem torturados, precisam torturar os outros. Só assim podem subir de nível,  numa espécie de hierarquia onde quanto mais alta, mais direito a regalias.

Enfim, só vendo o filme para se sentir chocado ao ver crianças, que muitas vezes não cometem nem ao menos um crime, sendo enviadas para verdadeiros campos de concentração. Porém eu, em minha ingenuidade, achei que o filme era exagerado e o inicio que dizia que “Este filme é baseado em fatos reais. Há atualmente mais de 20.000 acampamentos de recuperação ou com regras similares ao chamado Amor Duro, abrigando milhares de crianças no mundo. Eles operam virtualmente sem nenhuma regulamentação ou fiscalização do governo.” fazia parte da estratégia de instigar a curiosidade do público. Porém, no fim, os produtores do filme insistem na questão e complementam os dizeres iniciais com os seguintes: “Desde o começo do movimento Amor Duro de reabilitação em 1970, centenas de milhares de crianças têm sido enviadas para programas iguais ou similares a este. Tem sido relatados mais de 40 mortes nos acampamentos. Não há estatísticas de quantas vidas têm sido irreparavelmente danificadas.”

Fiquei com isto na cabeça, muito incomodado pela possibilidade do real, e fui investigar a veracidade dos eventos demonstrados. Segundo o Wikipedia, Boot Camps fazem parte do sistema de correção de jovens que cometeram o primeiro delito como substituição ao tradicional sistema de carceragem no EUA, ainda que diversos países adotem sistemas semelhantes. O modelo deste tipo de punição é baseado nos mesmos moldes de campos de recrutamento militares e o objetivo é fazer com que eles sejam re-educados, aprendam a obedecer regras e respeitar hierarquias para serem re-inseridos na sociedade. O tempo de tratamento varia entre 90 e 180 dias e caso o programa não seja completado, o jovem volta para o sistema tradicional de punição e é encarcerado. Estes campos de recuperação podem ser empresas privadas ou do próprio governo.

Neste caso, temos uma espécie de Febem paulista, porém com regras mais rígidas para os criminosos de primeira viagem, o que, em teoria, seria válido como forma de tentativa, pois assim estes jovens não retornariam a cometer outros crimes quando voltassem para as ruas. A punição segue o princípio de agir antes, ainda que com certo rigor,  do que tentar fazer alguma coisa quando não tiver mais o que fazer. O problema é que no comando destes lugarem estão homens, e sabemos que o poder corrompe os homens, então surgem episódios como a do garoto Martin Lee Anderson, que no início de 2006 teve um colapso e faleceu enquanto era obrigado a continuar correndo mesmo sem aguentar e visivelmente fatigado, durante um exercício. Vídeos flagaram toda a ação e a negligência em atender o garoto mesmo após ele estar esparramado no chão – demoraram cerca de 20 minutos para chamarem o socorro médico. No julgamento pela morte de Anderson, todos os envolvidos foram inocentados. Toda a ação, vídeos e afins podem ser acessadas no site oficial do menino, para isto, clique aqui.

Porém, embora exista polêmica, assim como no tratamento da Febem, não era exatamente isto que eu vi no filme. O que eu vi foram jovens enviados para campos de recuperação privados apenas com o consentimento dos pais. Estaria os criadores do filme equivocados?

Como sempre faço ao terminar de assistir qualquer filme, fui avaliar o mesmo no imdb e dei nota 8 de 10 possíveis. Ao ler a parte de discussões do filme, vi dois tópicos que me chamaram a atenção: Este filme é realmente inspirado em fatos reais? e Estes lugares existem. O primeiro levanta uma questão que estava dentro de mim e o segundo responde.

Para sintetizar a discussão, a resposta é sim, caros amigos, estes lugares existem até os dias hoje. Tem preço, endereço, telefone, fotos, vídeos e depoimentos de quem passou por lá. No próprio imdb existem relatos de quem teve parentes e conhecidos colocados nestes lugares e a coisa parece ser bem pior do que as demonstradas no filme. Um membro relata que a sua ex-namorada foi agredida e molestada por funcionários. Um destes lugares é conhecido como Tranquility Bay, que é o local que inspirou o filme. Se trata de uma ilha isolada na Jamaica que, segundo o próprio site da empresa, a especialização é no tratamento de jovens e adolescentes problemáticos, entre 11 e 19 anos de idade.

Na web, estão centenas de artigos e depoimentos denunciando os maus tratos e abusos desta instituição, onde caminha a própria Besta e a Crueldade entre as crianças. Os pais pagam até o equivalente a R$ 5000,00 por mês para terem os seus filhos tratados nestes campos e muitas vezes não sabem o que acontecem por lá, visto que ligações e visitas são geralmente proibidas.

Alguns depoimentos podem ser conferidos através de movimentos como o TBfight.com e o cafety.org, que lutam pelo fim destes tipos de instituições. É barbaridade o que acontece. São recorrentes cenas de abuso, estupro, tortura psicológica e agressão física. Uma garota chegou a ficar três meses sem poder falar com alguém, isolada num quarto. As vezes são obrigados a comer uma “comida estranha”, que eles mesmo não sabem distinguir e são horríveis. Um garoto apanhava de chinelo e ficou sem as suas medicações – sendo que ele tinha sérios problemas para respirar.

Veja algumas fotos do local encontradas na web:

Numa discussão, os próprios pais relatam os abusos e demonstram arrependimento ao terem optado em colocar os seus filhos nestes locais. Um deles diz que assim que ele ficou sabendo que seu filho era mal tratado, ele o transferiu para um outro local. Então um outro participante da discussão disse: “Por acaso o problema não seriam vocês, pais que colocam os seus filhos em verdadeiras prisões?”. A resposta é comovente: “Não diga isto! Quando você for pai você irá entender o que é querer fazer de tudo para que seu filho ande por vias normais e as medidas desesperadas que muitas vezes tomamos. Jamais deixamos de amar os nossos filhos!”.

Estes são os fatos. A verdade nua e crua sem maiores detalhes ou ornamentos. Para mim, uma coisa que parecia somente ficção mostrou que a realidade é pior do que qualquer filme, por pior que seja. Sim, vivemos numa comunidade de monstros que querem ganhar dinheiro a qualquer custo moral ou ético, sem se importar em ferir valores, histórias ou tradições que um ser humano possa ter.

Pois estes Boot Camps são apenas empresas que visam o dinheiro e desprezam totalmente o homem, os tratando como lixos, com nojo e repugnância, como se fossem insetos miseráveis.

Quanto mais eu vejo, mais eu sinto vontade de desistir de tentar mudar alguma coisa. É duro, porém, devemos continuar. O caminho é a luta e a persistência,  só assim poderemos nos manter seres íntegros e que respeitam o direito e as escolhas dos outros.

Por: EvAnDrO vEnAnCiO.   Blog: EvAnDrO vEnAnCiOUniverso Hiper-Real.

O Livro de Eli (The Book of Eli. 2010)

Num mundo pós-apocalipse, onde o sol é tão intenso que obriga as pessoas a cobrirem diversas partes do corpo, além de protegerem os seus olhos para não ficarem cego, Eli peregrina por entre becos e locais destruídos rumo ao Oeste, carregando consigo um livro a qual lê todos os dias. Em sua jornada, Eli se depara com inúmeras aventuras, em parte devido a um mundo habitado por homens desnudos de honra, ética e moral – em sua natureza mais selvagem, cujo objetivo de vida é apenas sobreviver ao término do dia.

No decorrer da história, sabemos que Eli carrega consigo o único exemplar do livro sagrado de Deus – a Bíblia – que sobrou após a destruição em massa de todas as outras edições, consequência de uma guerra que provavelmente deixou o mundo como nos é apresentado no filme: sem vida, acinzentado e caótico. A Bíblia, na visão de Eli, não representa somente a salvação do mundo através da propagação da fé, nem somente a ordem tão necessitada nestes dias tenebrosos, mas significa também o compromisso com a sua própria crença, afinal foi uma voz que lhe pediu para percorrer esta empreitada.

Eli, interpretado pelo excelente Denzel Washington, é um profeta de Deus. É o instrumento do divino para salvar uma vez mais a humanidade, assim como já fizeram tantos outros – segundo registros bíblicos. Eli é o grande herói de seu tempo, protegido pela alcunha do mestre dos mestres. A sua história representa o primeiro capítulo de uma espécie de novíssimo testamento, uma parte jamais escrita da Bíblia que relata as proezas divinas desta época. Até nisto o título do filme vem muito a calhar.

Através do título, muito interessante pela proposta que eu observei em particular percepção, entendo que os idealizadores trabalharam com a ideia que se trata de uma versão filmada de um livro bíblico jamais escrito, que viria logo após o apocalipse de João, que supostamente teria sido escrito há muitos anos e que retrata como Deus salvou a humanidade através de sua palavra, carregada pelo profeta Eli. O Livro de Eli, portanto, não é somente o título do filme, mas o título do que poderia ser um livro bíblico.

Imagine se a história do filme fosse escrita em papiro, com o devido estilo bíblico aplicado, e encontrado numa região remota, num local inusitado, daqui a 1000 anos. Qual seria o efeito da obra? Se tornaria um objeto de adoração global? Se tornaria um evangelho apócrifo? Não temos como saber, porém creio que, no mínimo, haveria pessoas que acreditariam na história, talvez a igreja católica – se existisse no ano 3010 – até canonizaria o Santo Eli. Talvez se tornasse uma história a ser contada nas igrejas, dos dias em que Satã habitou na Terra e como um homem tocado por Deus conseguiu expulsá-lo somente com a fé nas escrituras.

Em determinados versículos do Livro de Eli talvez houvesse sermões sobre como o conhecimento excessivo – típico da sociedade da informação – trouxe o mal ao homem, cuja ganância fez com quisesse ser Deus para controlar a humanidade, lição encontrada nas passagens sobre Carnegie. Material para que os líderes espirituais formulassem os seus sermões é o que mais encontrariam no Livro de Eli.

Mas será que o roteirista, ao escrever a história, queria passar uma mensagem religiosa, sobre a necessidade de redenção e sobre a necessidade de ter fé no Deus Uno para termos uma vida organizada e, principalmente, feliz? Será que o homem, por si só, não obteria os valores éticos e morais para organizar-se sem a necessidade de Deus dentro de si, e por isto mesmo este reencontro com o divino era totalmente necessário? Nos dias atuais cada vez mais dispensamos a fé para nos apegarmos às explicações materiais, seria o filme uma crítica a esta afirmação? Ultima questão: será que o filme realmente é uma espécie de pregação religiosa?

Eu, felizmente para alguns e infelizmente para outros, não veja desta forma. Sobre a minha ótica a mensagem pode ser ligada diretamente ao problema conhecido como a origem do mito. Da mesma maneira que o Livro de Eli foi escrito, outros livros épicos da Bíblia também, como a história de Noé, Moisés, Abraão, José, Jó e Jesus Cristo. Sabemos que o Livro de Eli não passa de ficção, portanto onde reside a credibilidade dos outros livros presentes na Bíblia? A credibilidade, obviamente, reside na fé. A mesma fé que levou Eli a crer que jamais poderia ser ferido em sua jornada – e quem assistiu ao filme sabe que ele foi gravemente ferido.

Além disto, a fé é incondicional e indiscutível, afinal se trata de um sentimento relacionado com uma certeza que não sabemos de onde vem. É ela que nos guia quando não sabemos para onde ir. Ou seja, a fé é cega e Eli é cego. Desde o início do filme temos evidências para acreditar nisto, porém somente no final temos uma revelação conclusiva. A questão é: a cegueira de Eli é uma dádiva ou uma maldição para as pessoas que estão ao seu redor? Com Eli não tem diálogo, quem cruza o seu caminho e tenta lhe impedir acaba sendo morto impiedosamente – entretanto a culpa pelo assassinato nunca foi um sentimento presente e nem mesmo empecilho nos profetas de Deus. Estamos diante de uma crítica ao fanatismo religioso?

Talvez não, talvez isto seja apenas um delírio provocado por minha mente agnóstica, porém relembremos que no passado houve uma guerra devastadora, cujo se acreditava que todas as Bíblias haviam sido queimadas. Entretanto aqui temos uma importante e insolúvel questão: as Bíblias foram queimadas antes ou depois da guerra? O teor do filme sugere que o mundo ficou caótico por que as pessoas se afastaram e perderam a fé em Deus, porém esta é apenas uma sugestão. Numa outra leitura podemos dizer que a guerra foi tão destrutiva e tão cruel com as pessoas, a maioria delas provavelmente não tinham nada a ver com o conflito, que elas mesmos perderam a fé. Neste contexto, Deus não lhes protegeu, logo eles se rebelaram ou perceberam que era tudo uma farsa. Em paralelo Eli, que é cego (sua cegueira pode ser considerada uma metáfora para o que estou dizendo) continuou a acreditar.

Além disto, quando Eli chega ao término de sua jornada, ele entrega e traduz o livro, que está em braile, para uma pessoa que conserva outros livros, em tese, conserva o conhecimento. Ao fim, esta pessoa imprime diversos exemplares, o que poderia simbolizar a renovação da esperança, porém ao pegar uma destas edições e inserir entre dois outros importantes livros para a religiosidade, a Torá e o Alcorão, o roteirista abriu novas questões: se eles já tinham a Torá e o Alcorão em mãos, por que o mundo continuava imoral, visto que estes livros também trazem consigo mensagens do mesmo Deus (vide Pentateuco)? Será que apenas a Bíblia Cristã seria distribuída entre as pessoas?

Ou a Bíblia seria apenas mais um livro na prateleira? O que garante que a distribuição da Bíblia iria tornar aquele um mundo melhor? Se você achou o final do filme uma alternativa otimista para um filme que retrata uma realidade pessimista, saiba que este sentimento veio do tema-mor da história: a fé. A fé é mágica, fascinante e também elabora opiniões. Para aqueles que possuem fé no divino, a história trará uma excelente lição de moral, e ficará satisfeito com o resultado. Para os mais céticos, como eu, o filme trará uma série de dúvidas sobre o seu propósito, e este também ficará satisfeito. Já aqueles que não possuem fé nenhuma, o filme poderá ser lido como uma excelente ironia sobre como surgem os mitos e, assim como os outros, também estará satisfeito com o resultado final.

A possibilidade de múltiplas interpretações, sem precisar exigir muito do telespectador, cria um diálogo tão interessante entre sujeito (aquele que assiste – nós) e o objeto (aquele que é assistido – o filme), que não há como não inserir esta obra na minha lista de prediletas da sétima arte. Estamos diante de uma joia rara, daqueles que permitem uma série de debates. Há pessoas mesmo que ainda discutem se a personagem principal era mesmo cega, conforme insinuado ao término do filme.