LUZ SILENCIOSA (2007). A Manutenção da Tradição pela Paixão

Por: Pedro Moreira da Silva Neto.
A ideologia de Luz Silenciosa participa de uma situação eminentemente moderna para uma organização que se determina na tradição. O contraponto entre ordem estabilizada e modernidade em seu abrupto tempo não determinado, não esperado se acondiciona na paixão.

Novamente se estabelece no relacionamento a condição de se petrificar, isto é, de se manter na ordem. Essa aparência é deslocada quando se percebe que é a troca conservadora por outra, a ação de um passe, de situação estruturada para outra é também tradicional no sentido de retificação do sujeito na perda de uma seguridade vivida na tradicionalidade.

Não ser tradicional, não pertencer a uma ordem não conservadora é uma atitude, por assim dizer estritamente tradicional e conservadora já que a tentativa de uma liberalidade de amor está também presa, petrificada no sentido de paixão, isto é, de uma determinação voluntariosa que se organiza na perda. Quero dizer que a perda de uma referência, de uma posição tal frente à comunidade, no caso Menonita (mas poderia ser outra) se encontra nessa dualidade entre ganhos e perdas, legitimação de um bem paixão pela morte. Que mesmo é isso, no sentido cristão que a representação do amor exacerbado se encaminha, à morte, à transmutação.

O que define por fim, essa condição de perda é, portanto, o despojo do amor, o desencontro que ocasiona a irracionalidade e a organização. Nesse sentido, penso que esta necessidade da perda é uma construção de perdas que, sem retorno se encaminha à entrópica situação do sujeito frente ao meio, uma localização geográfica da morte no território da paixão.

Luz silenciosa não é para mim uma luminosidade ascendente, senão a perda da clarificação do estado de ser. A ética amorosa, com ou sem conservadorismo é a lógica da permanência reestruturada e não do corte, da amarra, mas de uma impossibilidade de ascensão cultural do indivíduo, de sua autopercepção enquanto falho, enquanto criador de oportunidade, e relacionado não ao objeto individual do desejo, mas da transmutação do amor paixão pelo amor. O sentido de amor maior que é perdido para uma criatura que não consegue, portanto, se estabelecer.

A aculturação, ou a inversão de valores, ou o racional e emocional num embate de qualificação. A perda da memória afetiva, interna, e a percepção externa de uma realidade sociocultural, entre tudo, filhos, futuro, posição, conhecimento, atividade produtiva, fatores que são substituídos por uma posição diversa, mas muito comum e conhecida: amor paixão, indefinição às ordens culturais, motivações emocionais, pouca percepção ou um individualismo que é levado por outro que apesar de conhecido é indeterminado, contrariedade ao controle social da cultural estabelecida, entre outros aspectos.

O que se percebe que Luz Silenciosa não trata do direito de amar, mas a ocasião da paixão e a perda sim de um olhar referencial ao estado do sujeito em sua comunidade. Uma posição do indivíduo -vestido de mundo, em sua mundanidade- que necessita de uma opção de qualidade para si, de um desejo seu e não de uma relação do sujeito frente a seu universo de conhecimento, ou de pertencimento local, ou de sentido comunitário, e mesmo de realização.

A modernidade implanta um sujeito deslocado do cotidiano da vida relacional num casamento com a fratura do sentido sociocultural. A opção é mais um acontecimento na vida da individualidade frente à ordem familiar e cultural.

Elizabeth Fehr faz o papel da mulher traída por Johan (Cornelio Wall Fehr) menonita (comunidade religiosa que defende o pacifismo radical e rejeitam o progresso) se apaixona por outra mulher. O ator é de fato também um menonita e se espantou em se ver no vídeo. No filme não está em cheque a questão de opção comunitária, mas as esperanças de uma família, de organização apaixonada pela paz ontológica de se realizar bem por reciprocidade. A comunidade onde foi realizado o filme está ao norte do México. Uma comunidade menos radicalizada nos preceitos, mas determinada em prover o sentido comunitário em sua tradição. Apesar de possuírem carros, e outros equipamentos tecnológicos a comunidade de Johan se mantém na direção de sua crença e organização.

O fato de se apaixonar por outra é antes de tudo um acontecimento humano, mas também é um símbolo de que os fatos exteriores invadem a mais estruturada organização tradicional. Por outro lado se faz como uma definição de que havendo o senso de poder, isto é, o sujeito está em posse de algo que o mobiliza, talvez implícito pela concussão tecnológica, pela impregnação da vontade que o faz redentor, o apaixonado. A vontade de poder então é mais uma presença na vida de todos nós como nos diz Nietzsche e a sua relação com o futuro nos torna vagos e independentes, nos faz a caminho sem direção, mas justificados por aquilo que nos permite realizar a paixão e dentro dela a sua alteração com a morte. Morre com a fé o homem, e nasce do homem a fé em sua condução inexorável à morte.

No espaço estruturado finito não é possível o engano, a mentira e não pode haver perda sem a reposição ideológica presente no outro.

A morte da mulher é o resultado da paixão (alguém deve morrer mesmo que de forma simbólica), morre para que a outra se anteponha à ordem, para que continue a estrutura desejada e amada, para que sublime o amor e retorne à tradição.

A quem assiste ao filme percebe que está inclinado a partir que é em última instância um desejo de permanência que é “obliterado” pela partida.

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Um Amor para Recordar (A Walk to Remember. 2002)

Sou hóspede do tempo, da minha casa, das minhas palavras, das coisas que declaro minhas. Inquilina da vida que me foi dada, portanto, nada ficou na minha bagagem do velho brinquedo que já não ilude… não me ilude” (Z. Duncan).

A sugestão para esse filme surgiu num dos fóruns (Orkut) que iniciei sobre o Bullying. Por ele ser um dos poucos a mostrar uma punição adequada a um jovem ‘rebelde’. Ministrada pelo Diretor da Escola. E apoiada pela mãe do rapaz. Além de fazê-lo suar a camisa em serviços de limpeza nas salas de aula, ele teria também que ensinar a matéria escolar a um grupo mais jovem, além de ter que participar de uma peça teatral na escola. Essa última, à primeira vista nem parece ser uma punição. Acontece que alguns dos que praticam o bullying não gostam de estarem num palco, pois ali seria eles o motivo da zoação.

O filme já começa por mais uma das ‘provas’ estúpidas para que o recém chegado seja aceito pelo grupo. A insensatez é de ambos: quem escolhe como será a prova e quem arrisca a própria vida nisso. E por causa de que? De ser amigo de um desses? Tem algo errado nisso. A vida vale muito mais que isso.

Mesmo sem uma queixa formal por parte do jovem que se deu mal no tal desafio, mas aproveitando que outras reclamações chegaram, o Diretor (David Andrews) resolve agir. Great! Dizendo que já era hora de Carter (Shane West) conviver com outras pessoas. Outras, fora do seu grupinho. É onde o coloca para fazer o que já citei. Pedindo desculpas por esse spoiler, mas acontece que sem abordar o filme por esse lado ele passaria batido por muito. Seria deixado de lado até por educadores. E o filme merece ser passado nas escolas de ensino fundamental, e também ser debatido depois.

Por conta do filme trazer um romance entre dois jovens, as punições só recai em um do grupinho. Tanto que os outros do grupo continuam aprontando. Até com a jovem que desde sempre foi motivo de chacota deles. Mas ela, a Jamie (Mandy Moore), até então não se preocupava com o que os outros pensavam dela. Com a proximidade dela, Carter, muito mais que o castigo, ele nem se dar conta que começou a mudar. Agora, os amigos sim. E eles não gostaram. Por ele estar agindo diferente, o grupo foi mais fundo no ataque a Jamie. Por ela está fragilizada… até por estar gostando de Carter, dessa vez o golpe a alcançou. Era chegado a hora de Carter decidir: ficar com ela publicamente ou voltar ao grupo.

Num encontro casual entre os dois, ela pede que olhe pelo telescópio. Carter avista Saturno. Na Astrologia, Saturno é o Deus do Tempo. Jamie, priorizava o seu tempo. Mas Carter até então só desperdiçava o seu tempo de vida. A partir dessa união, eles tinham que correr com o tempo. Pois o tempo não estava soprando a favor deles.

Enfim, um filme que não deve ser desperdiçado. E a trilha sonora é linda!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Um Amor para Recordar (A Walk to Remember). 2002. EUA. Direção: Adam Shankman. Elenco: Shane West, Mandy Moore, Peter Coyote, Daryl Hannah, David Andrews. Gênero: Drama, Romance. Duração: 102 minutos. Censura: Livre.