Sob o Mesmo Céu (2015). Um Romance dos Tempos Modernos

sob-o-mesmo-ceu-2015_cartazPor Valéria Miguez (LELLA).
mito-do-sagradoHá uma lenda que diz que quando os Homens das Ciências alcançarem o topo do mundo encontrarão lá esperando por eles os Grandes Mestres da Mãe Terra. Num tipo de távola redonda. Juntos, irmanados em ajudar ao Planeta a se recompor. Talvez até diriam aos que os procuraram pelo poder maior, que voltassem e eliminassem tudo do que fizeram e que deixara o mundo com mais desunião, com mais muros, com mais desigualdades, com mais riqueza para pouquíssimos habitantes. Enfim, tudo que o deixara mais destruído e destituído de humanidade. Mito ou não… Por certo que nosso Planeta tem contado também com aqueles que pelo menos tenta frear os que não se importam com ele. Com isso é preciso estar atendo aos sinais advindos dos céus em conjunção com o que está acontecendo ao redor para então agir.

Bem, esse é o pano de fundo em “Sob o Mesmo Céu” – de que certos avanços tecnológicos têm mesmo o intuito de aniquilar o mundo. Mesmo que só fiquem na ameaça para indicar quem é que dá as cartas. De qualquer forma é preciso pesar muito mais os contra antes de impor ao mundo mais tecnologia. Mais danos ao Planeta que leva tempo para se recompor. O que deu ares de modernidade onde heróis e heroínas de agora pilotam caças ou mesmo filmadoras, mas que respeitam as tradições antigas. Nesse contexto o Diretor Cameron Crowe conta duas histórias de amor, aliás três: porque dois deles irão passar a limpo uma história antiga. Crowe também assina o Roteiro o que o deixa mais livre para lidar com tudo e todos. Em destaque na trama: um discutir a relação. Será que as conjunções celestes também estariam favoráveis para essas questões?

aloha-2015_filme_havaiO local não poderia ser mais significativo para o desenrolar dessa história: Havaí. Tradições culturais e religiosas seculares. Como também o peso de se serem agora uma “colônia” e com a sensação de serem usados e logo descartados. No filme “Os Descendentes” se tem o lado da especulação imobiliária em terras havaianas como também do Turismo que “esconde” a pobreza do local. Já em “Sob o Mesmo Céu” temos as bases militares por lá. Onde em ambos os filmes um sentimento que ainda são levados a aceitarem “bugigangas” nos acordos com o Tio Sam. Como se ainda vivessem na era dos grandes descobrimentos. Além disso, Cameron Crowe também faz uma crítica a invasão do céu: num congestionamento de satélite. Para que tantos satélites?

E quem seriam os donos desses corações cujo destino levou uns num reencontro e outros a se conhecerem?

Começando pelo personagem de Bradley Cooper, o não menos encantador Brian Gilcrest. É que até achando que tem pela frente um grande e de curta duração evento – supervisionar o lançamento de um poderoso satélite -, tenta ser gentil, mas de modo a não dar impressão de estar aberto as novas amizades. No fundo, mesmo de uniforme militar, se sente um mercenário dos tempos modernos. Não importa para quais os fins, e sim cumprir as ordens.

sob-o-mesmo-ceu_2015_01Acontece que tão logo desembarca na ilha se depara com Tracy, personagem de Rachel McAdams. Era o passado de volta. Treze anos se passaram. E agora a encontra casada e mãe de dois filhos: o caçula Mitchell (Jaeden Lieberher, de “Um Santo Vizinho”) de câmera em punho filmando tudo e a adolescente Gracie (Danielle Rose Russell)
curtindo a dança havaiana. Tracy mais parece saída da escola de “O Sorriso de Mona Lisa”. Nada contra o querer ser dona de casa, mas focar a casa onde mora como desculpa por não querer o fim do casamento, denota superficialidade. Assim, a volta de Brian a levará a ir mais fundo em si mesma. O grande barato disso tudo fica por conta de seu marido Woody, personagem de John Krasinski, pois numa de quase entrar mudo e sair calado, ele rouba as cenas: está impagável! Woody não precisa de muitas palavras. É Tracy quem tem que parar de falar muito e com isso se dá um tempo para ouvir a si mesma.

Designada para acompanhar Brian durante sua permanência na ilha temos a Capitã Ng, a Allison. Personagem de Emma Stone. De cara se sente atraída por ele. Força uma barra para que fiquem amigos e com isso ficar mais tempo perto dele. Por conta de uma ascendência havaiana ela quis conhecer mais as tradições da ilha. Mais até! Passando a aceitar e a respeitar. Até por conta disso não gosta de algo que vê num dos vídeos de Mitchell. Com isso seu amor por Brian fica balançado: de herói ele passava a ser um vilão. E pelo fato em si, mesmo já estando apaixonada ficava difícil de engolir. Mesmo assim, ela precisava agir.

Fora eles, o filme ainda conta com algumas participações. Como de Bill Murray como o empresário Carson Welch dono do tal satélite, como também com Alec Baldwin como o General Dixon que abre as portas do quartel para Carson. Além de outros envolvidos com o lançamento do mesmo na base militar americana no Havaí. E que de certa forma envolverão a todos: militares e civis.

sob-o-mesmo-ceu_2015_02Assim, décadas depois de “Digam o Que Quiserem”, de 1989, histórias com adolescentes, Cameron Crowe traz em “Sob o Mesmo Céu” personagens adultos em seus dramas frente também as paixões. Sem perder a emoção até de estarem vivendo um grande amor, mas com um olhar mais amadurecido. E como podem ver se trata de um Romance com todos os clichês que esse gênero traz e caso não goste dessa combinação melhor procurar por um outro filme a gosto.

A Trilha Sonora também é um coadjuvante de peso! Performances em uníssonos! Numa escolha acertada do elenco! Cameron Crowe talvez tenha pecado em explicar demais algumas sub tramas, nem deixando lugar para divagações, como também desejando um enxugamento nesses momentos. O bom que logo em seguida a atenção volta plena e deixando um brilho nos olhos. E que só por algo que acontece no final do filme faz dele merecedor de uma Nota 10! Aloha, Crowe! O mundo agradece!

Sob o Mesmo Céu (Aloha. 2015). EUA
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Panorama do Festival do Rio 2013 – Parte II

festival-do-rio-2013A GAROTA DAS NOVE PERUCAS (Heute Bin Ich Blond) de Marc Rothemund tem um tema forte. Uma menina cheia de vida que de repente enfrenta um câncer devastador. Quando começa a perder cabelos por conta do tratamento, decide comprar várias perucas e assumir diversas personalidades. O humor e a criatividade da jovem ajudam a combater a doença. Um tema comum numa ótica alemã bem diferente, cheia de talentos e sem os excessos de dramaticidade comuns a Hollywood.

TATUAGEM é uma pérola hedonista de Hilton Lacerda. Ambientado numa periferia nordestina no final da ditadura no Brasil (1978) traça um retrato pouco visto da época já exaustivamente focada no eixo Rio/São Paulo. Ao sair dessa zona urbana conhecida, o filme ganha um colorido único com números musicais poderosos e sequências geniais amparadas por um roteiro preciso e um elenco vigoroso onde todos se destacam. Clécio (O excelente Irandhir Santos) quer montar um show ousado num cabaré decadente com o nome de chão de estrelas e se apaixona por um menino soldado cujo apelido é Fininha (Jesuita Barbosa). A paixão resulta num aparente contraste entre a resistência burlesco-nordestina e a severidade militar. Não tarda para que a trupe comece a se rebelar contra a aparente ameaça. O extravagante Paulete (Rodrigo Garcia numa composição inspiradíssima) está à frente dessa pacífica oposição. O que mais funciona no filme é a ausência de falsos pudores nos diálogos e especialmente nas cenas de sexo. O primeiro encontro de Clécio e Fininha é um primor de erotismo precedido de uma arquitetura de sedução notável, bem como o assédio sexual no quartel militar. Destacam-se também os curiosos relatos populares ligados ao pecado como o bebê que nasce sem cabeça ou o burburinho causado pela liberação de obras proibidas como “A Laranja Mecânica” de Kubrick com as famosas bolinhas pretas censurando a nudez frontal dos atores. Tudo costurado com primor e talento formando um espetáculo único e inesquecível que volta a orgulhar o cinema nacional ultimamente estremecido com produções grosseiras de bilheteria fácil. Salve o nordeste!

BEHIND THE CANDELABRA foi concebido para ser exibido na tela grande, daí a qualidade em todos os quesitos da produção. No entanto, o diretor Steven Soderbergh teve de se contentar em vender os direitos para a televisão por conta da temática gay exagerada. Como conseguir conter um personagem como o músico Liberace que exalava excentricidade por todos os poros? Liberace já era famoso e tinha quase 60 anos quando conheceu o adolescente Scott Thorson que se tornou seu amante por muitos anos. Os dois são vividos magistralmente por Michael Douglas e Matt Damon que travam batalhas verbais elaboradas numa estória muito bem roteirizada. Mas o ponto alto é para a maquiagem que transforma Damon de menino a adulto, Michael num velho afetado que definha com uma doença mortal e Rob Lowe em um cirurgião plástico hilário e deformado que certamente é um dos pontos altos de sua carreira. Vai passar na HBO. Vale a pena ser visto.

SHAMPOO um filme de Hal Ashby datado de 1975 provou que perdeu força ao longo do tempo. Exibido em película riscada, com a cor adulterada e o som distorcido, mostra os então jovens Warrem Beaty e Goldie Hawn numa comédia de difícil digestão com drama demais inserida no roteiro para ser engraçado. Tudo gira em torno do cabeleireiro George, que aproveita da fama homossexual que a profissão lhe conferia na época para se envolver com todas as mulheres que se aproximavam. O atrativo maior da sessão seria a presença da estrela Goldie Hawn que simplesmente não apareceu.

GRAVIDADE (Gravity) de Affonso Cuarón apesar de incursões mais profundas inseridas nos (bons) diálogos deve ser encarada como puro entretenimento. Diversão do tipo montanha-russa mesmo com muita aflição. A sensação conferida com o 3D e o Imax  é de queda livre e afogamento. Tudo se passa no espaço dividido pela engenheira Ryan e pelo astronauta Matt numa missão delicada quando são atacados por uma chuva de meteoros que os deixam flutuando à deriva sem contato com a Terra. George Clooney está perfeito como sempre, mas o filme é de Sandra Bullock que imprime terror e coragem assombrosos em cada fotograma onde aparece lutando pela vida. Hollywood continua a fazer filmes extraordinários.

GATA VELHA AINDA MIA de Rafael Primot teve sessão de gala no Odeon com a presença das estrelas Regina Duarte e Barbara Paz. Regina é Gloria Polk, uma escritora solitária que já teve seus dias de Glória e é entrevistada por uma jovem jornalista (Paz) num embate furioso regado à inveja e amargura. Ainda que com deslizes no roteiro, o filme mantém interesse por conta dos diálogos cáusticos e da força das atrizes, ganhando um diferencial no epílogo surpreendente, quase noir com toques de terror para acabar derrapando um pouco no desfecho um tanto mal solucionado. De qualquer modo, vale conferir nem que seja para observar a estranha composição de Gilda Nomacce no papel da intrometida vizinha Dida. Gilda já havia feito outro filme exótico e excelente, o cultuado “Trabalhar Cansa”.

GIGOLÔ AMERICANO (American Gigolo) teve apresentação em película no CCBB o que é sempre uma boa experiência apesar do desgaste do tempo. O próprio diretor Paul Schrader estava presente na projeção desbotada e riscada de sua obra de 1980. Richard Gere brilha no auge de sua beleza, numa trama quase ingênua para os dias de hoje, vivendo um prostituto de luxo envolvido num crime. O talentoso Giorgio Moroder faz a música no mais fraco dos seus trabalhos para o cinema e Armani assina os figurinos que marcam época. Schrader afirmou na conversa após a sessão que não faria o filme hoje com o conteúdo homofóbico daquela versão que coloca gays como vilões inescrupulosos e o personagem de Gere imitando gratuitamente um homossexual. Cita a boate The Probe mostrada no filme como um cenário estereotipado e underground. No entanto era um lugar freqüentado por todos, inclusive por ele na época. Revela, afirmando não ter preconceitos.

festival-do-rio-2013_03O LOBO ATRÁS DA PORTA pode ser considerado um thriller. Baseia-se no caso conhecido como “A Fera da Penha” que chocou o Rio na década de 60. Extremamente bem conduzido por Fernando Coimbra, o longa conta com um elenco de grandes nomes como Milhem Cortaz, Leandra Leal e Fabíula Nascimento nos papéis principais, bem como participações muito especiais de Juliano Cazarré e Thalita Carauta (A Janete de Zorra Total num papel parecido com o trabalho que vem fazendo, mas com o sabor de cinema). Tudo começa com o desaparecimento de uma criança. Os pais da menina são chamados à delegacia e Rosa, a amante do pai, é a principal suspeita do sequestro. Nesta versão, o macabro acontecimento continua a acontecer no subúrbio do Rio, embora se desloque um pouco da Penha para Oswaldo Cruz e tem a época atualizada para o tempo corrente, o que lhe confere um distanciamento perfeito para manipular com a suposta obscuridade psicológica de cada personagem sem a preocupação da exatidão e fidelidade dos fatos. O resultado é um grande filme.

O ABC DA MORTE (The Abcs of Death) como quase todo filme com muitos diretores não é um filme regular. No caso, a situação se agrava por conta de reunir diretores de diversas partes do mundo para contar o tema macabro através do alfabeto. No entanto, há momentos muito originais e até geniais no meio de uma sucessão de escatologia e terror gore. Digamos que muitas letras se salvam.

Querido John (Dear John. 2010)

Ainda vendo o filme – Querido John -, fiquei pensando se teria que me posicionar como uma estadunidense para entender melhor o que ia pela cabeça do casal de protagonistas. Para pelo menos não ser tão crítica com eles vendo-os como superficiais demais. Até o engajamento de ambos não pareceu vir de dentro. Talvez por uma fuga, ou mesmo por não ter uma perspectiva maior para si mesmos. Claro que nem todos precisam nadar contra a correnteza. Nem todos precisam ter ambições profissionais. Até entenderia que a personagem aqui tivesse “saído” da Escola do filme ‘O Sorriso da Monalisa‘. Que a estória deles até possa ter dado certo no Livro. Mas no filme a estória de ambos se perdeu. Eu não sabia se abandonava a sessão ou se ansiava que chegasse logo ao final. Por fim, terminei de assistir. E… Tudo por conta de John (Channing Tatum) e Savannah (Amanda Seyfried).

Começando por John e por algo positivo do personagem. Algo que costumo ressaltar em meus textos. O de canalizar um aspecto próprio que poderia até destruir a vida de uma pessoa. Pois já que é nato o melhor a fazer é encontrar um outro caminho, num fim benéfico, ou menos destruidor. John era extremamente forte. Mais! Reagia muito rápido, e com violência, a até a uma agressão verbal. Muito embora fosse uma pessoa pacata. Por conta de uma briga… se alistou. Para mim foi para ter como descarregar essa força e sob um comando. Criado pelo pai (Richard Jenkins – Sempre ótimo!) desde a infância. A mãe abandonara os dois. Seu pai colecionava moedas. Um hobby passado pelo filho após esse ter-se encantado com uma visita na Casa da Moeda quando criança. Ambos, de pouca fala. Seu pai era uma pessoa extremamente metódica. E tendo boa índole também.

John estava de férias – duas semanas -, do serviço militar. Em seu primeiro dia uma jovem chama a sua atenção. Ela nem o notara. Chegara com um grupo no pier onde John olhava o horizonte após surfar. O rapaz que acompanhava a jovem, ao brincar com a bolsa dela, acaba deixando cair no mar. Enquanto ele corre para sair do pier e então ir pela praia buscar a bolsa, John pula lá de cima mesmo. Um gesto imprudente que poderia até ser fatal. Era um macho chamando a atenção da fêmea. E conseguiu. Ela é Savannah. Que se sente na obrigação em retribuir o favor. Já que ele lhe trouxera sua bolsa.  Aos poucos o gelo foi se quebrando e eles começaram a namorar. Cientes que ele voltaria para o Quartel,e ela iria para a Faculdade.

Às vésperas dele embarcar, eles se desentendem. Tudo porque Savannah comenta do problema do pai do John. Ele fica indignado. Na cabeça dele, era como se ela chamasse seu pai de maluco. Savannah tinha percebido que o pai dele era autista. Ela tinha um pouco de experiência nisso por conta do filho, o Alan (Braeden Reed), de um grande amigo, o Tim (Henry Thomas), de seus pais.

Refeito e já mais calmo John vai procurá-la até para se desculpar. Não a encontrando deixa um bilhete com um vizinho. O tal pai do menino e que já sentira fisicamente uma das explosões de John. Mais tarde Savannah vai ao seu encontro e com uma carta. Selando de vez o compromisso de sempre escreverem cartas contando tudo o que faziam, enquanto estivessem longe.

A princípio, John daria baixa dali a alguns meses. Mas um grande incidente o fez mudar de ideia, e seguir carreira militar. Fora o 11 de Setembro. E é por conta disso, um dos motivos que citei no início do texto. Logo de início, até dá para entender a causa que o Bush levantou: combater os terroristas. Mas com o passar do tempo caberia uma reflexão maior. Mas é o que falei: eu não sou uma cidadã americana. Como já deixei meu ponto de vista sobre o que veio com o 11 de Setembro em alguns textos de filmes como em ‘Soldado Anônimo‘ e ‘No Vale da Sombras‘, para citar dois exemplos.

Com isso o tempo longe um do outro foi aumentando.

Savannah até pelo carinho com o pequeno autista investe seu tempo e dinheiro num Haras para uma ajuda terapêutica, ou até reabilitação de Crianças com algum tipo de sequela. Mas sem nenhum planejamento não soube levar o espaço adiante. Era algo caro demais para se manter. A bem da verdade ela estaria melhor como uma dona de casa que ocupasse seu tempo vago como voluntária em causas humanitárias. Os bastidores, era muito trabalhoso para ela. E sem John por perto a sua realidade como pessoa a levava a tomar uma decisão, e logo. Para ela a receita da felicidade era ter sonhos realizáveis.

A distância consegue matar um grande amor?

Quando se está de fora é até fácil dizer: ‘Isso eu não faria!‘. Até aqui, eu aceito. Mesmo assim o que esses dois fizeram fora um desperdício de vida. Eles se “engajaram” em causa alheia esquecendo deles mesmos. No que ela fez pode até ter um que de humanitário, mas fora precipitado.

Enfim, se enxugassem um pouco o filme ficaria como um bom sessão da tarde. Mas do jeito que está ficou um tédio. Não recomendo.

Por: Valéria Miguez (LELLA)

Querido John (Dear John). 2010. EUA. Direção: Lasse Hallström. +Cast. Gênero: Drama, Romance, Guerra. Duração: 105 minutos. Baseado no livro homônimo de Nicholas Sparks.

Perfume de Mulher (Scent of a Woman. 1992)

Dois homens muito diferentes se conhecem, e convivem por um final de semana – o suficiente para mudar suas vidas.

De um lado, o Coronel Slade, um homem embrutecido pelo sofrimento, brilhantemente interpretado por Al Pacino.  Do outro lado, Charlie Simms, um jovem humilde e batalhador, interpretado por Chris O’Donnell.

Frank Slade é um homem amargo, irascível… e cego. Sua cegueira não somente o afastou da vida social, como também parece ter tirado a honra de seu passado como veterano de guerra. A família de Frank contrata Charlie para cuidar dele por um fim de semana; Frank, no entanto, tem seus próprios planos: pretende passar um último fim de semana glorioso, e depois matar-se.

Assim, arrasta o jovem Charlie para Nova York, onde se hospeda num hotel de luxo, e dá início a uma despedida secreta, laureada com os melhores uísques, limusines e restaurantes. Charlie está, ao mesmo tempo, deslumbrado com a ostentação à qual não está acostumado, e assustado com a sabedoria sarcástica do Coronel Slade – além de não fazer idéia de suas reais intenções nesta viagem esbanjadora.

Charlie está enfrentando seus próprios problemas: está ameaçado de perder sua bolsa de estudos numa conceituada universidade, pois foi injustamente acusado de envolvimento num ato de vandalismo, do qual foi testemunha ocular, e no entanto sua integridade o impede de revelar os verdadeiros culpados.

Charlie e Frank têm uma coisa em comum: estão vivendo uma fase difícil. Charlie, porque perder a bolsa de estudos comprometerá irremediavelmente seu futuro; e Frank, porque simplesmente já não tem mais esperanças para viver.

Porém, a convivência entre os dois os aproxima de forma bastante inusitada, e essa aproximação interfere na forma com que cada um irá lidar com o sofrimento. A ingenuidade e ternura de Charlie conseguem amolecer o coração de Frank, assim como a audácia infatigável do Coronel inspira o garoto a enfrentar o inquérito disciplinar ao qual será submetido.

Três cenas do filme são inesquecíveis. Uma é a tentativa de suicídio de Frank; ele se veste com a sua farda – a última reminiscência concreta de sua dignidade – após ter finalmente cumprido o itinerário que preparou para ser o capítulo final de sua vida. Charlie chega em seu  quarto e o surpreende, impedindo-o de realizar este ato desesperado. É uma cena impactante, e os atores emprestam toda a alma aos personagens.

Outra cena incrível é quando eles vão a um luxuoso restaurante, e o Coronel Slade chama uma moça para dançar tango. Ela vacila, e ele diz: “Não se preocupe, o tango não é como a vida; você pode errar e continuar dançando.” A moça então aceita dançar com ele, ao som do tango “Por una cabeza”, de Carlos Gardel. Extraordinário!

scent-of-a-woman_03Já no final do filme, vem a terceira cena inesquecível: o discurso de Frank para defender Charlie perante o quadro de diretores da universidade onde ele estuda – uma instituição conservadora, voltada para a classe alta, que reflete os valores hipócritas da sociedade, os quais Frank expõe com escárnio.

É uma cena vigorosa, que sugere um fechamento para o personagem de Al Pacino; a vida de Frank Slade volta a ter sentido neste momento, pois os problemas de Charlie o comoveram, e deram a ele um motivo para viver. Ele pôde ser útil de novo, e mostrou que por baixo de toda aquela superfície dura e fria havia um coração nobre e idôneo.

Al Pacino ganhou o Oscar de Melhor ator por sua atuação em “Perfume de Mulher”, e o filme recebeu outras indicações ao Oscar ( Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado).

Por: Yasmine Schneiter.   Blog  Solilóquio.

Perfume de Mulher (Scent of a Woman). 1992. EUA. Direção: Martin Brest. Elenco: Al Pacino (Tenente-Coronel Frank Slade), Chris O’Donnell (Charlie Simms), James Rebhorn (Sr. Trask), Gabrielle Anwar (Donna), Phillip Seymour Hoffman (George Willis Jr.), Richard Venture (W.R. Slade), Bradley Whitford (Randy), Rochelle Oliver (Gretchen), Margaret Eginton (Gail), Tom Riis Farrell (Garry), Nicholas Sadler (Harry Havemeyer), Todd Louiso (Trent Potter). Gênero: Drama. Duração: 156 minutos.