Então Morri (2016). Aparente simplicidade e assombrosa sabedoria

entao-morri_2016_bia-lessaPor Carlos Henry.
A ideia do filme de Bia Lessa e Dany Roland é contar a vida de um ser humano desde o primeiro dia de vida até o falecimento através de vários testemunhos. O tom da narrativa é documental com um toque de Eduardo Coutinho, importante colaborador deste trabalho que atravessou décadas desde sua ideia até sua finalização. Na tela desfilam personagens riquíssimos de aparente simplicidade e assombrosa sabedoria pinçados dos sertões e áreas mais carentes do Brasil. O panorama humano ali criado exibe um curioso sentido reverso à cronologia natural da linha da vida.

No início são exibidos vários funerais seguidos de depoimentos de pessoas muito idosas, jovens casadouras, adolescentes e crianças até chegar a um parto de um bebê que já havia sido doado antes de chegar ao mundo. As imagens são todas reais e recheadas de emoção com um humor peculiar que está quase sempre presente nas situações mais inusitadas. O que tenta unificar a história e contá-las como se fossem uma única existência é a edição que, embora eficiente, poderia ser mais sensível para valorizar momentos impactantes e imagens raras de beleza crua.

entao-morri_2016O resultado é bastante satisfatório, combinando o grotesco e o onírico para narrar diversas vidas como se fosse uma só. Há uma senhora muito idosa que ainda diz coisas muito curiosas e coerentes no seu leito, a outra que não dispensa uma bebidinha cada vez que vai às compras, o padre que não aparece no animado casamento da roça, o dentista improvisado que sem camisa e sem luvas, arranca vários dentes de uma menina à força e finalmente o bebê que já nasce prometido, doado de forma abrupta por uma mãe sofrida e sem alternativas num desfecho que choca e emociona.

Um retrato belo e pungente de um grande pedaço do País que poucos conhecem e ousam desbravar.

Clamor do Sexo (Splendor in the Grass. 1961)

clamor-do-sexo_1961RETRATOS SEM RETOQUE

É praticamente impossível rever CLAMOR DO SEXO (Splendor in the Grass), de Elia Kazan (Viva Zapata, Sindicato de Ladrões, Um Rosto na Multidão), realizado em 1961, sem sentir um nó na garganta ou no peito. Talvez mesmo nos dois. Mais do que um simples melodrama, do que um estudo sobre a crueldade das convenções, temos aqui um retrato de extrema sensibilidade dos anseios mais preciosos da condição humana, de abrangência universal.

clamor-do-sexoO roteiro original de William Inge (premiado com o Oscar) trata do preconceito e do puritanismo vigentes numa pequena cidade do Kansas, em 1928, onde os desejos deviam ser subjugados pela moral vigente e valores religiosos. A jovem Deanie (Natalie Wood) namora Bud (Warren Beatty), o filho do homem mais poderoso das redondezas. Apesar de apaixonados, ele começa a desejar algo mais na relação, aos poucos a pressionando para a entrega sexual.

Encurralada pela rigidez da mãe, passando pelos conceitos de certo e errado, confrontada pelos próprios desejos e pelo namorado impaciente, ela aos poucos mergulha num processo de esgotamento nervoso. Enfim, sucumbe por não conseguir satisfazer simultaneamente as expectativas daqueles que ama, enquanto vê seus sonhos de felicidade caírem.

A câmera de Kazan vasculha as fachadas respeitáveis, as hipocrisias sociais, sem necessitar tomar partido. Os efeitos de uma severa estrutura social sobre a deterioração mental de Deanie não necessitam de maiores condenações. Por outro lado, os Estados Unidos viviam uma época de euforia, de crescimento desenfreado e, neste panorama, a sexualidade poderia ceder lugar às posturas conservadoras, aos interesses práticos, à riqueza acumulada.

Um castelo de areia preste a desmoronar perante a iminência da crise da bolsa em 1929, que levaria à Depressão Econômica. Algo semelhante ao retratado por Lillian Hellmann na peça “The Little Foxes”, onde a ganância capitalista de uma nação emergente fazia uma mulher matar seu desejo de amor e sexo na busca do poder e da fortuna.

Kazan e Inge são habilidosos ao mesclar o velho e novo, a estratificação e o vigor, num microcosmo onde o encanto é esmagado pelo status, os devaneios são vencidos pelo materialismo. Em contraponto, enquanto o país caminha cegamente para a bancarrota, a força vital e mental de Deanie também são sugadas: a própria engrenagem se alimentava daquilo que causaria sua perdição, exaurindo o futuro de outras formas, através do sacrifício de seres frágeis e indefesos.

Habilíssimo diretor de atores, Kazan extrai desempenhos memoráveis de um elenco de primeira, em especial Audrey Christie (a rigorosa mãe de Deanie) e Pat Hingle (o ambicioso pai de Bud), além do jovem par central (Beatty estreando nas telas, Natalie em seu primeiro papel maduro). Tudo pontuado pela tocante trilha sonora de David Amram, cujos acordes muitas vezes são as batidas do coração dilacerado, e iluminado pela melancólica fotografia de Boris Kaufman, que utiliza a cor como representação de estados emocionais latentes.

A comovente cena final, quando os antigos apaixonados se reencontram, já marcados pelo afastamento e pelas cicatrizes dos anos que transcorreram, é uma das mais belas já captadas em filme. Um primor de abordagem dramática, de utilização da câmera, construindo um ritmo permeado por desencanto e fugazes esperanças.

Um desenlace preciso e emocionante de um drama magnífico, cujo poema de William Wordsworth, de onde é extraído o título original, funciona como o epílogo agridoce do rito de passagem involuntário à maturidade:

Embora nada possa devolver os momentos de esplendor na relva, de êxtase entre as flores, jamais devemos desistir, pois sempre encontraremos forças naquilo que ficou para trás”.

Uma obra-prima sensível, absoluta e irretocável.
Roberto Souza.

CLAMOR DO SEXO (Splendor in the Grass), 1961, dirigido por Elia Kazan, estrelado por Warren Beatty e Natalie Wood.

A Filha do Pai (La Fille du Puisatier. 2011)

a-filha-do-pai_2011O filme me fez lembrar os de Mazzaropi. Onde o interiorano leva sua vida dentro da moral e dos bons costumes. Onde por vezes pela força do destino tem que amargar um ato nada ético dentre os seus princípios. É o chefe da família pobre tendo que mandar a filha embora de casa por ter se “perdido”; engravidando de um cara rico. Para esse pai a desaprovação que sofrerá pela sociedade local suplanta a dor do amor paterno. Talvez pensando nos outros filhos como tambem pelo medo de faltar serviço.

a-filha-do-pai-2011_01A trama principal em “A Filha do Pai” é essa: a de um pai que afasta a filha porque ela ter ficado mãe solteira. E com o agravante de que será a segunda vez que é afastada da própria família. A primeira vez foi porque tinham filhas demais. Ela então foi morar na capital tendo chances de estudar. O dilema desse pai será em questionar sua própria moral. Que valores terão mais peso para ele? Ainda mais que essa mesma filha mesmo tendo sido rejeitada ainda em criança, retorna à casa paterna tão logo soube da morte da mãe, e justamente para ajudar o pai a criar suas irmãs. Ironia do destino ou benevolência da jovem?

a-filha-do-pai_2011_02O viúvo, Pascal Amoretti, é interpretado por Daniel Auteuil que está ótimo como um caipira. Ele fura poços. Algo essencial para a irrigação numa região com tantas plantações. Por sinal é belíssima toda aquela localidade: a região de Provence. Pascal tem como companheiro de trabalho Félipe Rambert, personagem interpretado por Kad Merad que eu já conhecia pelo ótimo trabalho no filme “Não se Preocupe. Estou Bem!”). Félipe é apaixonado por essa filha do amigo, mas não vê que quem gosta realmente dele é uma outra filha do Pascal.

Félipe acaba trazendo esperança para esse pai desnorteado. A filha teria assim um marido. Mas uma guerra se contrapõe mais uma vez a essa família. Além do jovem rico, Jacques Mazel (Nicolas Duvauchelle), Félipe também é convocado para servir na 2ª Guerra Mundial.

a-filha-do-pai-2011_03A filha grávida, Patricia Amoretti, é interpretada por Astrid Bergès-Frisbey. Que aliás atua bem! Mas em “A Filha do Pai” quem reina são três personagens masculinas. Somados a Pascal e Félipe entra em cena Sr. Mazel, interpretado pelo sempre ótimo Jean-Pierre Darroussin. Ele é o pai do rapaz que engravidou a jovem, o Jacques. Com a esposa e o rapaz como filho único, são os mais abastados do local. Mazel tem uma loja de materiais de construção onde Pascal é um dos clientes.

A Sra. Mazel (Sabine Azéma), uma mãe judia, é totalmente contrária a união. Porém nem o jovem ficou sabendo que seria pai, já que sua convocação fora às pressas. Por ser um exímio piloto, mal teve tempo de fazer as malas. Meses depois quando chega uma confirmação oficial de que o rapaz morreu a família Mazel tenta se aproximar da outra por conta do neto. Mas “agora Inês é morta“? A criança seria o elo que uniria todos? A filha do pai teria algo a declarar? A decidir sobre sua vida e de seu filho?

a-filha-do-pai-2011_04A historia do filme não é nada original. Nem tão pouco especifica a uma determinada cultura. Como também adivinha-se o final. Mas a história é tão bem contada que nos mantém atentos por mais de uma hora e meia de projeção. Claro que as atuações contam para a grandeza desse filme. Além da Fotografia e da Trilha Sonora. Mostrando também que Daniel Auteuil fez um excelente trabalho na Direção, como também em adaptar a obra de Marcel Pagnol. Vida longa a Auteuil por trás da câmera também!

Enfim, um filme que ganha pela simplicidade. Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Filha do Pai (La Fille du Puisatier. 2011). França. Direção e Roteiro: Daniel Auteuil. +Elenco. Gênero: Drama, Romance. Duração: 107 minutos. Baseado em livro de Marcel Pagnol.