Mini-Série: Gracepoint (2014). Um Morto Desenterrando Velhos Fantasmas

gracepoint_2014_serie-de-tv_cartazgracepoint_2014_03Em uma Mini-Série presume-se ser uma obra fechada: com um desfecho já pronto. Acontece que assim como Hollywood, Canais da Televisão americana também gostam de levar Séries com relativo sucesso em seus países de origens. Onde também é de praxe essas versões ficam à mercê da audiência americana: não rendendo a desejada, não são renovadas. E foi o que ocorreu com essa versão americana de uma britânica, a “Broadchurch“, que não alcançou a audiência desejada, com isso “Gracepoint” mal foi exibida nos Estados Unidos e logo passando ao status de Mini-Série: com 10 uns episódios e um desfecho. Assim ela também nos chega, público brasileiro, e pelo canal TNT Séries. O que até tem um lado bom: o de terminar logo. Faltando então conferir o conteúdo, já que eu gostei das chamadas antes da estreia.

Gracepoint” traz uma ótima trama! O corpo de um pré-adolescente aparece numa praia. Numa comunidade com pouquíssimos habitantes, mas que tem seus dias de agito quando recebe turistas por conta da migração de baleias antes do verão, essa tragédia acontece um pouco antes desse evento turístico, o que também abala a economia local. Até porque era local sem um registro policial desse porte. Essa morte não apenas irá abalar a todos os moradores, como também colocará alguns como possíveis suspeitos. Algo que também irá gerar grandes injustiças.

gracepoint_2014_01O que houve com ‘Precisamos de mulheres em mais cargos de chefia neste departamento’?

A polícia local recebe ajuda de fora, do detetive Emmett Carver (David Tennant). Vindo para liderar a investigação, Emmett termina sem querer adiando a promoção da Detetive local Ellie Miller (Anna Gunn). Esta por sua vez até pela gravidade da situação, acaba engolindo tal tal fato, e no decorrer da história fica ciente de que fora preterida por alguém não tão perfeito. É! Emmett traz um velho fantasma na bagagem, assim como um outro grande segredo que o deixaria longe do caso. A primeira a descobrir será a dona da única pousada. Ellie tem também pela frente conhecer mais de perto sua gente, e se espanta com o que vem à tona.

gracepoint_2014_02O tal corpo é do filho caçula do casal Beth (Virginia Kull) e Mark Solano (Michael Peña). Onde a outra filha ao esconder algo do namorado em sua própria casa fará com que a investigação rume para outro lado. Aliás, Mark por não ter álibi para a noite do provável crime também atrasará as investigações. E antes de enterrar de vez o corpo do jovem… No desenrolar das investigações muitas outras histórias dos demais moradores serão “desenterradas”.

Gracepoint” já segue rumo ao desfecho por aqui. Exibido às segundas-feiras pelo canal TNT Séries, no horário das 22 horas, com uma reprise do episódio anterior antes. No elenco também consta Nick Nolte, Josh Hamilton e Jacki Weaver entre outros. A cada virada da trama o suspense aumenta. Fazendo dela uma ótima mini-série! Bem, pelo menos até agora! Tomara que o final esteja a altura. Se reprisarem desde o primeiro episódio, fica a dica! Eu estou gostando.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Mini-Série: Gracepoint (2014).
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Who is Dayani Cristal? (2013)

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“Para mim é muito frustrante saber que alguém que tinha sonhos, acabou se transformando em um número, estatística.”

Acompanho a trajetória desse documentário desde muito antes de poder assisti-lo. Assim que me lembro de ter lido uma crítica muito ruim quando da exibição do filme no Festival de Cinema Sundance, no qual, aliás, ele foi premiado como melhor documentário. Acreditando nessa tal crítica, pensava comigo mesma: “Ainda que seja ruim, merece o reconhecimento por tratar de um assunto tão delicado quanto cotidiano e essencial de ser pautado”. Estritamente, a imigração clandestina para os Estados Unidos através da fronteira com o México. De maneira mais abrangente, o questionamento de inúmeras condições pré-estabelecidas e naturalizadas, mas que, na realidade, são como tudo, uma construção ao longo do processo histórico: as fronteiras, o capitalismo, a exploração do homem pelo homem, a hierarquização das pessoas e de suas vidas, a valoração da mercadoria, entre muitas outras.

Pensava eu que esse filme seria como tantos outros que se propõem a discutir questões sociais e políticas importantíssimas, mas que falham por vários motivos, como o excesso caricatural na construção de situações e personagens, por exemplo. Insiro nessa linha o filme Cronicamente inviável (Sérgio Bianchi, 2000) e Déficit (Gael García Bernal, 2007). Ambos têm a proposta de retratar as relações entre a classe média e as classes populares, mas acabam se tornando caricatos e chatos. Em outra chave, temos o filme O som ao redor (Kleber Mendonça Filho, 2012), cuja representação da sociedade pernambucana nos trouxe aos olhos as sutilezas da exploração cotidiana e das relações entre classes, tão mais perversas quanto mais invisíveis.

Pois bem, ainda que todos esses três filmes aqui citados sejam ficções e Who is Dayani Cristal? seja um docudrama, acho plausível dizer que ele segue nessa segunda linha de filmes que vão tratar de questões essenciais ao entendimento da sociedade sem fazê-lo de forma caricatural, simplificadora e/ou redutora. Com um posicionamento político bastante claro desde seu início, o documentário cumpre bem seu papel de denúncia e militância sem se tornar chato, maçante ou apelativo.

O filme se desenvolve em duas vertentes: a primeira, claramente documental, que retrata as dificuldades de identificação de corpos de imigrantes clandestinos encontrados no deserto do Arizona, tendo como mote um corpo com a tatuagem “Dayani Cristal” no peito. A segunda vertente, misto de drama e documentário, é aquela que mostra a reconstrução feita por Gael García Bernal da trajetória deste hondurenho encontrado morto. Não há aquelas cenas às quais costumeiramente adjetivamos como chocantes: sangue, violência, agressão. Mas há sangue, violência e agressão, expressas de maneira sutil, assim como é sutil tudo que faz com que as situações retratadas no documentário possam ocorrer todos os dias em diversos lugares sem que seu questionamento consiga bater de frente com a política que garante sua reprodução.

E esse pra mim é o grande acerto do documentário; colocar a forma fílmica e a forma social em compasso. A violência social denunciada pelo documentário é praticada na realidade cotidiana com tanta sutileza como nos é apresentada no filme. A agressão diária que faz com que homens e mulheres sejam obrigados a abandonar seus países deixando para traz sua história, sua identidade e as pessoas a quem querem bem para se arriscarem numa jornada permeada por perigo, carência e invisibilidade é tida por quase todos como natural ou, quando muito, irreversível. Daí que se reproduza há tanto tempo, cada vez de maneira mais qualificada, otimizada, deixando para trás centenas de milhares de pessoas, consideradas menos importantes e, portanto, de morte aceitável; uma estatística.

Outro ponto bastante positivo do documentário é logo no começo já deixar claro que estamos diante de uma construção metonímica, que parte de um pedaço para exemplificar o todo: a trilha dos créditos iniciais é a canção Latinoamerica, da dupla porto-riquenha Calle 13, da qual gosto muito e que, na minha opinião, é uma das produções artísticas que mais bem captaram o que é ser latino-americano e onde nos inserimos socialmente, como devemos nos portar: de pé e em luta. Como o próprio nome da canção diz, quem canta é todo latino-americano e, portanto, a história não é apenas do homem com a tatuagem “Dayani Cristal”, mas sim de muitos e tantos outros irmãos de continente e de trajetória.

Fica a minha recomendação do filme, bastante interessante, contundente e honesto. Ainda não está disponível em DVD e, infelizmente, acho que uma exibição nos cinemas brasileiros é improvável. De qualquer forma, pode ser encontrado para baixar na internet, mas sem legendas. Quem é Dayani Cristal? Bora treinar o espanhol e o inglês, pessoal… Vale a pena! Para assistir ao trailer do documentário, clique aqui. Link no IMDB.

“Sem guardas, sem controles. Aqui não se necessitam passaportes. Talvez assim devessem ser todas as fronteiras.” – Gael García Bernal, sobre a fronteira entre a Guatemala e o México

Livro: Depois do Baile (Leon Tolstoi. 1903)

Moscovo I – Wassily Kandinky, 1916, óleo sobre tela

Mazurka é o nome de uma dança tradicional de origem polaca, feita por pares, formando figuras e desenhos diferentes. Certas coisas são fáceis de se compreender e outras não devido à sua complexidade. Há anos atrás, li um conto que, de certa forma, mexeu com o meu emocional. Aconteceu comigo como aquela brincadeira que fazemos com as palavras ao dizer “entendi, mas não compreendi”, mas contando aqui talvez você compreenda.

A vida é feita de pólos divergentes. Antíteses e paradoxos.

Tudo aconteceu DEPOIS DO BAILE. Um conto de Tolstoi. Fiquei anos com a história martelando dentro de mim… e de repente, como acontece com certos sonhos que vira e mexe se repete, voltei a me lembrar… É uma história de amor à primeira vista do jovem Ivan pela encantadora Várenka. Foi um encontro casual num baile e ambos dançaram juntos a mazurka praticamente a noite toda. Ele se encantou pela moça e a descrevia sempre como linda e deslumbrante; a jovem tinha uns dezoito anos na época e era o centro das atenções. O seu sentimento por ela era correspondido. Ele chegou a conhecer inclusive, o seu pai também naquela mesma noite.

De fato, tudo aconteceu DEPOIS DO BAILE. Ivan viu a sua vida inteira se resumir naquele único dia; toda ela foi radicalmente transformada por aquela infinita e inesquecível madrugada em que ele conheceu o BEM e o MAL. A partir daí sua vida nunca mais foi a mesma.

Assim como eu me lembrei dessa história, aconteceu com Ivan. Depois de muitos anos ele relembrou aquele dia e contou para os seus amigos. Contou que Várenka se casou, teve filhos e mesmo estando numa idade avançada, ele a admirava, e a achava linda e simpática. Passagem da vida de Ivan que modificou o seu modo de pensar. Depois de anos ele repensou seus valores. Concordo que certas experiências são universais, capazes de modificar a condição humana individual.

E a medida que ele ia contando aos amigos esse fato, as suas lembranças daquele dia e pensamentos afloravam. Ivan contou que conheceu o pai da jovem também naquele baile. Ele era um militar do exército. O coronel se retirou mais cedo do baile deixando a sua filha ficar um pouco mais naquela festa, talvez até o fim. A noite foi esplêndida para Ivan. Viu-se perdidamente enamorado pela jovem. Foi o dia mais feliz de sua vida.Trocaram olhares e e-mails. Este último é por minha conta.

Como acontece com o conteúdo de uma garrafa que, após a primeira gota vertida, começa a fluir em grandes jatos, também na minha alma o amor por Várenka liberou toda a capacidade de amar que se ocultava no meu íntimo.”

A felicidade de Ivan durou pouco. Ao partir, foi testemunha de algo desagradável que aconteceu no caminho. Ele, DEPOIS DO BAILE, ouvia outro tipo de música que era do tipo áspera, desagradável e maldosa acompanhado ao som de flauta. Eram soldados castigando um tártaro por tentativa de fuga. O tártaro foi maltratado de inúmeras formas, espancado, surrado e arrastado por aqueles militares que apenas cumpriam ordens vindas de seu superior e numa procissão pelas ruas cobertas de neve tudo sob o comando do coronel, pai de Várenka.

Ivan teve em uma única noite a melhor e a pior experiência de sua vida. Conheceu o Amor (bem) e a Dor (mal) no mesmo dia. As pessoas sabem de coisas que não sabemos. Foi exatamente isso que Ivan pensou do coronel.

Se eu soubesse o que ele sabe, talvez eu o compreendesse, e aquilo que eu vi, não me atormentaria assim.”

E por causa dessa noite, Ivan nunca mais foi o mesmo; sua vida inteira foi transformada por esse dia. E ele próprio chegou à conclusão que não prestou para nada. É claro e lógico que ele contando isso aos amigos, eles, evidentemente, não concordaram e achavam tudo isso uma grande tolice. Eles ficaram intrigados com a questão sentimental de Ivan, o que aconteceu com todo aquele amor e por que a sua amada se casou com outro? Então perguntaram:

– Bem, e o amor? Em que deu?
– O amor? O amor, daquele dia em diante começou a minguar. … o amor definhou e acabou.”

Não se chega ao fim sem se passar pelo início; não se morre sem se ter nascido. Trocar uma margem pela outra elimina a possibilidade de totalização. Pode-se até escolher entre a noite e o dia. A aurora  é uma nova possibilidade. Bom quando se faz a coisa certa, mas errar faz parte. Os opostos se atraem: amor e ódio, bem e mal, guerra e paz… dois lados de uma mesma moeda. Uma coisa existe em função da outra.

Às vezes é necessário esquecer o que nos ensinaram e tentar aprender sozinho, pois só assim se acerta ou se erra ainda mais. Adquire-se experiência. Certas passagens da vida ficam registradas para sempre. Guarda-se o que se quer. Lembranças que não se escolhe podem vir à tona quando menos se espera. O ser é resultado daquilo que lê, que come, que faz, que vive; são tantas as possibilidades que o permeiam… do nada pode-se viver situações inusitadas….agora, por exemplo você lendo isto, poderia estar fazendo outra coisa….

Decerto, DEPOIS DO BAILE, depois de um filme, depois do almoço, depois de um beijo, depois de uma leitura de um poema ou um conto… não se é mais o mesmo.

As coincidências do mundo ficcional não são obras do acaso. Tudo depende das circunstâncias. Ela imita a arte da vida.

Anos depois, Ivan, ao contar essa história aos amigos o modo de pensar já era outro; o que ele viu e viveu no passado poderia ser uma perversão. Se a história do tártaro aconteceu era porque alguma coisa eles sabiam que Ivan não sabia, e ele nunca descobriu o que era. E ele conclui que é uma das coisas que podem modificar e dirigir a vida de um homem para sempre.

E a questão do ‘entender e não compreender’ achava terrível e inconcebível que uma obra ficcional não terminasse na forma convencional do ‘Foram felizes para sempre’ como acontece nos contos de fadas.

Na Arte tudo é possível. Relendo um livro, facilmente se consegue tirar novas conclusões, repensar valores e alterá-los; já na vida, devido a muitas circunstâncias diferentemente da ficção, pode-se também rever conceitos e até modificá-los. É difícil, mas não impossível.

Depois do Baile – Leon Tolstoi – Cotação: *****

O Que Traz Boas Novas (Monsieur Lazhar. 2011)

o-que-traz-boas-novas_2011o-que-traz-boas-novas_01Em algum momento da vida a morte de alguém próximo nos atinge. Mas que o sentimento de perda, pode vir junto o de culpa. Mesmo que não a tenha provocado, entre outros pensamentos vem o de que se fez de tudo para impedir. Mas o pior é quando fica também a sensação de que junto com o ato desesperado quis se vingar daquele que ficou vivo. Agora, se entre eles temos também crianças e inocentes fica a dúvida do porque dessa vingança. Na trama duas crianças tiveram um impacto maior: Alice (Sophie Nélisse) e Simon (Émilien Néron). A pequena Alice mostra que há diversas formas de se violentar alguém, e que com a morte não se tem como punir. Quanto a Simon ele reagiu porque aquilo era novo para ele. Quis mostrar força a alguém que já se encontrava na beira do precipício. Mas esse alguém era uma pessoa adulta.

E chegará o dia em que um simples abraço fará com que sintas como quem conseguiu, enfim, envolver o mundo. E como quem está protegido por todas as forças desse mesmo mundo. Porque o resto será mero resto, até o resto de nossas vidas.”

À primeira vista o filme “O Que Traz Boas Novas” pode ser mais um a mostrar a relação entre Professor e Alunos em Sala de Aula, mas como citei no início temos como pano de fundo a morte de um ente querido. Embora com um tema tão pesado ele transcorre num tom mais leve já que é uma Comédia Dramática. Também não é mais um a mostrar esse universo de dentro da escola porque ele se torna único por mostrar que regras rígidas demais mesmo que com boas intenções terminam prejudicando o peso de um professor na vida de uma criança. Até para não dar margens a pedofilia os professores se veem impedido de dar um simples abraço e que transmitiria segurança a criança. Muito embora se trata de uma classe ainda nos primeiros anos escolares. Onde as crianças em questão se encontram naquele momento de transição da infância para a pré-adolescência. Professores e Pais têm papel fundamental nessa fase. Que poderiam criar pontes, até porque olham para elas em universos distintos. No lar elas teriam o ninho. Na escola a preparação para o mundo. Assim se atuassem em conjunto, além da descoberta de futuros talentos, estariam preparando-as para as vicissitudes da vida. Se elas sentirem confiança conseguirão quase materializar essas novas angústias.

o-que-traz-boas-novas_02Ciente da morte de uma professora, Monsieur Lazhar (Mohamed Fellag) se candidata ao cargo. Por já estar disponível, e até por conta da burocracia na efetivação de um novo professor, a Diretora o contrata como substituto. Então Bachir Lazhar se encontra na difícil missão de trazer um sopro de vida para aquelas crianças. Algo como mostrar que a vida segue em frente. Que para ele também traria esse alento já que também trazia um luto dolorido. Monsieur Lazhar aos poucos foi conquistando os alunos. O que facilitou a abrirem seus corações. Percebendo de que havia um silencioso pedido de socorro.

Cada um vivencia um fato de um jeito, mesmo os que estão mais diretamente ligados a ele. Mas na trama não se pode esquecer que são crianças. Que a professora de quem gostavam tanto se suicidou ali. O que fez Bachir estranhar deles continuarem na mesma sala. Ai temos o paradoxo de se seguir ao pé da letra certas regras. De um lado temos a Diretora que mandou pintar as paredes e recolher todos os trabalhos que estavam nas paredes. Como se quisesse também esterilizar o que vivenciaram até então. Mais! Que se os mudassem de sala não os fariam esquecer do fato. Por outro lado tem a terapeuta impondo trabalhos artesanais, sem dar a menor chance delas mostrarem o que de fato estavam sentido.

transformacao-interiorBachir Lazhar mesmo colocando o seu pescoço a prêmio – até por ele está vivenciando um outro drama pessoal -, sabe que terá que ajudar aquelas crianças. Ainda mais que indiretamente aflorou os fantasmas delas. Abalando as estruturas do ensinar e educar, ou do papel da escola e da família na formação da criança, ele não poderia ficar de braços cruzados. Foi catártico até para ele. Não fora preciso estar ciente de toda a metodologia dali, de Quebec, para chegar no cerne do problema. Criança é criança em todo lugar. Talvez a brincadeira de colar o desenho de um peixe nas costas dele significava de que ele não era um peixe fora d’água ali, e de que remando contra a maré ele resgataria a infância de todas. Fechando assim esse período invernal.

No desenrolar da história parece que são peças de vários quebra-cabeças sendo montados. Mas que ao final todas as imagens se unem numa só figura como numa hologravura. Lindíssima! Simbolizando o começo, o meio e fim da história. De certa forma é o que o mundo atual precisa fazer mais. Como uma bela mensagem trazendo todos à razão de saber a emoção.

monsieur-lazharSensível! Cativante! De acompanhar com brilhos nos olhos. Que me fez querer revê-lo até porque ficou a impressão de que perdi alguns significados, já que os símbolos estavam todos ali. Muito embora o filme por um todo está fechadinho. Nada por alterar. Elenco em uníssono! Direção perfeita de Philippe Falardeau, que também assina o Roteiro. Um filme excelente! Mais até! O personagem Monsieur Lazhar merece viver outras histórias mais. E claro que com o ator Mohamed Fellag. Cuja performance foi fascinante!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Que Traz Boas Novas (Monsieur Lazhar. 2011). Canadá. Direção e Roteiro: Philippe Falardeau. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 94 minutos. Classificação: Não recomendado para menores de 12 anos.

“As Quatro Voltas” (2010): Uma Reflexão Silenciosa

as-quatro-voltas_2010Por Eduardo Carvalho.

Um pastor. Uma cabra. Uma árvore. Um punhado de carvão. Protagonistas silenciosos de suas estórias. Sem uma única linha de diálogos, o diretor italiano Michelangelo Frammartino faz de “As Quatro Voltas” uma experiência única no cinema contemporâneo. Na quietude da paisagem de uma velha vila do sul da Itália, o silêncio intima o espectador a ficar atento às imagens quase documentais projetadas na tela, corriqueiras caso houvesse uma mínima troca de palavras entre o velho pastor e uma mulher que varre o chão da igreja local. Mas são tais imagens que narram os fatos; se há uma tensão que perpassa todo o filme, esta advém da ausência de um texto – uma narração em off, que fosse – que apontasse para uma estrutura dramática convencional, e da mais banal utilização do elemento visual como fio condutor da narrativa.

as-quatro-voltas_02Mas tal banalidade é apenas aparente. Com doses de humor – a gag envolvendo uma caminhonete desgovernada e uma cerca – e de drama – a cabra que se perde do rebanho –, o diretor conta quatro estórias sobre o início e o fim da existência, e das relações entre os seres. O homem não é apartado da natureza; o ser humano é apenas e tão somente mais um componente finito dentro de todo um processo, igualado aos demais, tão importante e tão insignificante quanto os demais. Frammartino mostra, com a sutileza de sua arte, que a morte de um homem tem o mesmo peso de uma árvore derrubada. E isto sem recorrer a qualquer tentativa barata de persuasão ideológica.

as-quatro-voltas_00Paradoxalmente, “As Quatro Voltas” é um filme visual que simplesmente não explora o visual, ao menos no sentido convencional. Qualquer documentário do National Geographic se utiliza das imagens, com todos os recursos de uma super câmera lenta e de zooms inacreditáveis, de modo sensacional. Se o espectador por acaso lembrar-se da utilização de imagens e silêncios por Stanley Kubrick na primeira parte de “2001”, o filme de Frammartino é quase uma antítese. O prólogo de “Uma Odisseia No Espaço”, denominado “A Aurora do Homem”, faz uso de imagens espetaculares em seus grandes planos, oferecendo um quadro de contemplação aos olhos do espectador. Porém, com cada um de seus enquadramentos precisos e muito bem fotografados, “As Quatro Voltas” propõe um trabalho contínuo de pura reflexão, dada a aridez de cada cena. Se há algum ponto de convergência possível entre as duas obras, é um certo teor místico-religioso presente, onde a natureza (o divino?)  se mostra como o ordenador por trás de cada evento da vida, seja ele decisivo na história humana, seja no cotidiano de uma vila italiana ignorada pelo caos de um mundo urbano.

Michelangelo Frammartino faz um cinema na contramão do cinema, estimulando o sentido da visão sem nenhuma artificialidade. Como se não bastasse, não é complacente e nem crítico da raça humana. Apenas coloca-a no seu devido lugar.

IMDb – As Quatro Voltas.

Corações Perdidos (Welcome to the Rileys. 2010)

coracoes-perdidos_2010Por Norma Emiliano.

A dor é suportável quando conseguimos acreditar que ela terá um fim e não quando fingimos que ela não existe”. Allá Bozarth-Campbell

A morte de um filho, principalmente jovem, bem como a da mãe quando se é criança, provoca sentimentos ambivalentes, nos quais a culpa, a raiva, o desalento constroem muros, isolando as pessoas até de si mesmo.

O filme Corações Perdidos cruza as vidas de um casal (Lois e Doug), que perdera sua filha adolescente, e de uma jovem órfã (Allison) que perdera a mãe desde os cinco anos.

O silêncio impera entre o casal que não fala da morte e de nada que os incomode; na casa, o quarto da filha mantém-se intacto sinalizando a negação da morte. Alisson vaga solitária pela vida sem amor a si própria, trabalhando como strip, sujeitando-se à prostituição.

Na trama, Lois, após a morte da filha, fica deprimida, não consegue sair de casa e sua relação com Doug é distante e conturbada. Ele vive uma relação extraconjugal, e a morte abrupta da amante o deixa sem direção. Porém, quando viaja à negócios, seu encontro com Allison lhe desperta os cuidados paternos e ele abandona a esposa.

Lois tenta superar seu pânico e vai ao encontro do marido e acaba também se envolvendo com as questões de Alison. No desenrolar do roteiro, Allison fará com que o casal lembre-se do real motivo que os uniu e sua relação com eles transforma suas vidas.

O luto é inevitável; superar a dor da perda é um processo cujo tempo é subjetivo, pois cada pessoa tem um “tempo emocional”. No filme os personagens encontram-se aprisionados à negação, “dormência emocional”. O cruzamento das histórias (casal e jovem prostituta) dispara o movimento para cura através da quebra do silêncio, da recuperação da autoestima e da mudança de hábitos.