A Viagem (Cloud Atlas. 2012)

a-viagem_2012Por José Bautzer Fusca.

( Sinto que algo importante aconteceu comigo. Nossas vidas não nos pertencem, estamos conectados a outras vidas, no passado, no presente e no futuro. )

Um filme pode ser importante por seu lugar na história do cinema, por sua linguagem cinematográfica, pela boa condução do seu diretor, pela boa fotografia, por um bom roteiro, por ter origem em um bom texto literário, ou porque por razões subjetivas tocou nossa emoção e intelecto.

O filme que irei indicar é importante porque é fruto de um excelente texto literário, que deu origem a um ótimo roteiro, que por sua vez propiciou uma obra cinematográfica revolucionária ao usar diretores diferentes em trabalho independente para diferentes segmentos da obra final. Conseguindo ser a fina ourivesaria poética de uma preciosa equação: A vida diante da eternidade.

Cloud Atlas, cognominado A Viagem, no Brasil, é um filme rico em conteúdo e requer atenção aos detalhes para revelar-se ao intelecto como a obra prima que seu roteiro é. Em uma estória fragmentada e diluída ao longo de centenas de anos, no passado e no imaginário futuro, com o artifício literário de uma marca de nascença na pele dos personagens protagonistas de seis diferentes estórias, identifica-se um personagem inter-temporal que vivencia cada um destes personagens, unificando e dando sentido as diferentes estórias fragmentas e diluídas no tempo.

O autor da obra homônima – DAVID MITCHELL – que inspira o roteiro previne o expectador no monologo que abre o texto/filme: que na boca de diferentes personagens, diluídos no tempo, ha uma única voz que as une em uma só.

Autores como Carlos Castaneda são literalmente citados e implicitamente discutidos nesse rico roteiro, que expõe uma visão poética do eterno retorno, cujo conceito é explicitado em insights, premonições e dejavus dos personagens. Algo comum na experiência existencial de todos nós, ou de alguns de nós. Tocante, quando a personagem jornalista Luisa Rey reconhece a sinfonia Cloud Atlas, composta pelo desconhecido músico Robert Frobisher, sua persona, na vida imediatamente anterior.

Este mundo possui uma ordem natural, e aqueles que tentam subvertê-la não se dão bem.”

O que esta obra sugere é que nascemos para subverter esta ordem explicita da natureza – os fracos são a carne dos fortes – por uma outra, apenas implícita: O amor é a maior força na construção da vida, e não reconhece fracos ou fortes.

Se você quer um entretenimento que o emocione e excite seu intelecto, este é a obra de arte que fará isso.

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Thor. Dateme un martelo!

por notobviouscinema.
Pode acreditar: apesar do desastrado trailer que praticamente só mostra efeitos especiais, Thor é excelente cinema.

Thor estreou aqui uma semana antes da estreia nos EUA; numa sexta-feira, como a maior parte dos filmes. Mesmo achando absurdo não estrear Thor comme il fault em uma quinta-feira, lá fui eu. Não pelo 3D, não pelos efeitos especiais, mas curioso para ver como se sairia Kenneth Branagh na direção. Diretor da pouco conhecida obra-prima Dead Again (Voltar a Morrer) [*] e de adaptações de Shakespeare como Henri V, Branagh foi no mínimo uma escolha inusitada para dirigir um filme baseado nos quadrinhos da Marvel.

O resultado é surpreendente. Branagh conseguiu elevar a história de Thor acima da pancadaria, equilibrando uma boa dose de humor, ritmo impecável e interpretações marcantes. Só não espere falas shakespeareanas – os diálogos são a parte fraca do filme, pomposos mas sem arestas.

O primeiro acerto de Branagh foi provavelmente a escolha de Antony Hopkins para o papel de Odin, rei de Asgard cujos filhos Loki e Thor se debatem numa relação fraterna conflituada. Hopkins conduz a trama de maneira firme, sem excessos, sem jogar sombra sobre seus herdeiros. De um lado, Chris Hemsworth faz um Thor com boa dose de esquisitice mas que não cai no ridículo. Na outra ponta, Tom Hiddleston rouba a cena com seu conturbado Loki, destroçado entre a admiração pelo irmão, o gosto do poder e as descobertas que faz ao longo do filme.

O maior acerto provavelmente foi ter içado Heimdall, a divindade a quem cabe guardar a ligação de Asgard aos demais reinos (inclusive a Terra), a um papel chave na trama. Idris Elba dispõe de pouco mais do que alguns olhares e uma ou outra fala para compor Heimdall, que no roteiro é um elo crítico para as ações do filme (e para as sequências que já estão no forno) – um alívio, pois em mãos erradas Heimdall [**] poderia ser reduzido a um Scotty de Jornada na Estrelas.

A galeria de interpretações inclui ainda os mortais que Thor encontra em seu exílio terrestre: a compulsiva cientista Jane (Natalie Portman), seu mentor Erik Selvig (Stellan Skarsgård, perfeito no papel) e a maluquinha Darcy (Kat Denning, mais uma vez usando gorro).

Como já vem acontecendo nos filmes da Marvel, Stan Lee faz uma ponta e as histórias se misturam. O Agente Coulson dos filmes Iron Man (Homem de Ferro) 1 e 2 aparece em Thor – com a mesma interpretação competente de Clark Gregg e a mesma capacidade de ser o grande babaca do filme. Pelo menos cabe ao agente Coulson a melhor piada. [***]

Vá, divirta-se e não saia da sala antes do final dos créditos.

[*] Dead Again, nunca canso de repetir, tem uma das aberturas mais brilhantes do cinema. Aparentemente convencional, mas quase cirúrgica.

[**] Heimdall foi um dos poucos deuses mitológicos que não entrou em meu imaginário durante a infância – por algum motivo naquela confusão de deuses e monstros nórdicos não tinha dado caso dele. Foi mais tarde que, precisando batizar um projeto onde era crucial garantir que somente as informações relevantes fossem enviadas, recebi de um colega a sugestão de que Heimdall era a melhor analogia. O nome foi adotado e passei alguns meses contando a estória do guardião da Ponte do Arco-Íris em palestras e até congressos, uma pitada de nerdice que ajudava a quebrar o gelo. Mal sabia eu o quanto esta última analogia seria apropriada por Branagh.

[***] SPOILER: é evidente que a piada é melhor quando vista em seu contexto. Mas se a curiosidade for grande, lá vai:

Quando o Agente Coulson vê pela primeira vez o Destruidor, um monstro metálico vindo de Asgard, ele pergunta: “você é do Stark?” – ingenuamente achando que se tratava apenas de mais uma engenhoca do homem de ferro Robert Stark.

Cisne Negro (Black Swan. 2010). Qual teria sido a pressão maior a essa me-Nina?

Indo assistir “Cisne Negro”  já estava ciente de que a personagem principal Nina (Natalie Portman) passava por um distúrbio psíquico. A profundidade dele, só vendo o filme. Por ser eu uma cadeirante, logo com certas limitações, e até mesmo adequações frente a uma nova realidade, batia em mim também uma curiosidade em ver o que ela faria, já que galgava o papel principal na nova montagem do “Lago dos Cisnes“. Claro que estou ciente de que limitações motoras não dá para se comparar com as mentais. Diante disso, fui disposta a observar os maiores detalhes que eu pudesse de Nina e todos em sua volta. E irei trazê-los para cá. Com isso o texto terá spoiler. Ficando também a sugestão de que assistam primeiro esse filme. Que o considero uma Obra Prima da performance da Natalie Portman.

Durante as primeiras cenas me veio a lembrança da Phoebe, personagem de Elle Fanning em “A Menina no País das Maravilhas“. Por ambas terem adentrado num mundo da fantasia. Um meio de escaparem das pressões do mundo real. Outro ponto em comum que também me chamou a minha atenção: foram o papel das mães. No sentido de quanto influenciavam na vida das filhas. No conflito interno que padeciam. A mãe de Phoebe retirou a filha das mãos de um Psiquiatra por achar que o problema seria por não ter tido tempo para a filha. Já a mãe de Nina, Érica (Barbara Hershey), mantinha uma dedicação quase integral. Quando não podia estar junto da filha, tinha outros olhos a lhe informar dos passos da Nina no Teatro. Falando em olhar, o da Érica sobre a filha parecia vampirizar a me-Nina. Meio assustador! Excelente atuação da atriz. E até por conta disso, nem lhe passou pela cabeça procurar ajuda por Profissionais da área Psico.

Esse também é um ponto que irei abordar: da busca por uma Terapia. O termo é mais difundido como o de fazer um hobby. Algo para desanuviar a mente ante a uma pressão, ou bloqueio… Enfim, até pode ser. Mas há de se pesar de que cada caso, é um caso. E só quem poderia avaliar com mais precisão seria alguém que estudou para isso. Sendo ele um profissional sério, saberá encaminhar para um especialista. Como leiga no assunto, me pareceu que o problema de Nina poderia ser pelo menos atenuado com medicação prescrita por um Psiquiatra.

Como eu fui com um olhar em buscar pelos sinais do distúrbio da Nina, o de se coçar até ferir, foi um deles. Sendo nas costas, seria outro já adentrando nos ensinamentos de Jung – a Sombra. Como também para quem gosta de Astrologia – a casa 12. A Phoebe também se autoflagelava como uma punição. No caso da Nina, a princípio, ela nem se dava conta disso. Era como se o seu outro “eu” que fizesse isso. Pode até ser que esse coçar… aos olhos de um Profissional já seria um sintoma. Para mim, seria um aviso de que minha filha estaria passando por um problema que a cabecinha dela não estava dando conta do recado. Um diálogo aberto levaria a outros sinais.

No caso de Nina, sua própria mãe é quem nos fornece maiores detalhes. Que para ela eram todos contornados em tratando a filha como uma criança, ainda. Volto a destacar a atuação da Hershey: foi brilhante! Cheguei a ficar com raiva dela com a solução que ela deu. Conto? Contarei sim. Mas antes, já que a mãe via aquele coçar até se ferir como Compulsão, fui pesquisar por um significado. Trouxe esse do site do Dr. Dráuzio Varella:

O comportamento compulsivo se caracteriza por uma pressão interna que, em determinadas situações, faz com que a pessoa se sinta impelida, tomada por desejo muito forte de realizar uma ação que gera prazer principalmente nos estágios iniciais, mas que depois provoca sentimentos de culpa e mal-estar.”

Para mim, não se aplica no comportamento da Nina. Mesmo se tratando de uma compulsão, não seria cortando as unhas que iria resolver. Porque poderia se coçar com objetos que iriam ferir mais. Como a mãe veio com um – “Você voltou a fazer!” -, então era hora para procurar por uma ajuda. Na cena em si cheguei a ficar com raiva dela em tratar a filha como um bebezinho. E vendo o quarto de Nina, via-se ali os sonhos ainda da infância. Ainda uma adolescente. Achei-o sufocante.

Antes de prosseguir deixo uma indagação: Por que ainda nos dias de hoje há tanta resistência em se procurar por um profissional da área psi? Hora desses profissionais retirarem esse ranço antigo: de que são só para “loucos”.

A mãe de Nina fazia tudo isso por projetar na filha aquilo que ela não conseguiu ser: uma bailarina de destaque. O fato de ficar sempre como pano-de-fundo, a levou a outros caminhos. No filme não faz referência de como se engravidou de Nina. Se foi algo do tipo: teste de palco. Também não há indícios se houve em algum momento uma figura paterna. Não que seja algo imprescindível, mas no caso de Nina essa ausência terá uma consequência. Conto mais adiante.

Essa transferência – o filho será o que não conseguiu ser -, é algo muito forte na cultura estadunindense. Por polarizar: ou se é um winner, ou se é um loser. Mas também está presente na relação – pais e filhos – de outros países. A mãe de Nina a responsabilizava de que com o seu nascimento teve que abandonar a própria carreira aos 28 anos de idade. Algo que me fez lembrar da personagem principal de “Comer Rezar Amar“, onde às vésperas de completar 30 anos, ainda não se via como mãe. Para muitas das mulheres, atualmente, e que querem ser mãe, deixam para ter filhos após os 25 anos. Até para se dedicarem mais esse novo papel em suas vidas. Por conta disso me peguei a pensar de que a gravidez de Érica fora algo indesejado.

Não sei o quanto pesa na vida de uma mulher o fato de tentar conquistar a posição de 1ª Bailarina numa Grande Companhia de Balé. Desconheço os meandros. Sendo assim parto de supor de que alguém tendo 28 anos de idade se ainda não “aconteceu”, ficará difícil alcançar esse posto. Assim, não há desculpas convincentes para as cobranças da mãe de Nina. E a filha ao soltar as primeiras amarras, diz a mãe que ela sempre faria parte do corpo de balé, nada além disso.

O Lago dos Cisne, ou melhor os dois personagens principais – o Cisne Branco e o Negro – pediam por alguém jovem. Que se tiver condições, uma única bailarina faria os dois. Havia também o fato de que a Companhia passava por uma grande crise financeira. Dai, precisando de uma carinha nova; de sangue novo. Por conta disso aposentam a até então primeira bailarina: Beth. Grande atuação de Winona Ryder.

Nina admirava Beth. Aspirava ser perfeita como ela. Buscava pela perfeição em seus ensaios. Que não passou despercebido pelos olhos da Companhia, no caso, do Coreógrafo Thomas Leroy. Uau! Vincent Cassel me surpreendeu nesse papel. Foi brilhante! Não caiu em estereótipo. Seu coreógrafo não me levou a pensar em seus outros papéis. Pode até ser que essa atuação não seja o seu divisor de água, mas está de parabéns.

Thomas fora um Mentor diferente. Ciente da capacidade de Nina, faltava ingressá-la na Sedução o qual o Cisne Negro exigia. Nina já possuía a candura necessária para o Cisne Branco. Um jeito menina de ser. Lhe faltava descobrir a mulher fatal dentro de si e trazê-la à superfície. Bem, poderia apenas aflorar o poder de seduzir, mas a pressão do momento exigia muito mais.

Thomas faz isso de um jeito encantador. Fica meio difícil acreditar que um Pai, mesmo hoje em dia, daria o mesmo conselho. Dai o vi como um Mentor. Indo além, como um cara de bom caráter que sabe esperar que a jovem também o queira para uma relação íntima. Um cavalheiro à moda antiga. Mesmo que as verdadeiras intenções de Thomas eram fazer dela – de fato e de direito – a 1ª Bailarina da nova versão do Lago dos Cisnes.

Seu conselho foi para se masturbar. O primeiro passo para sentir os prazeres do próprio corpo. E então poder exteriorizar essas sensações até para ajudar no processo de sedução. Pois o Cisne Negro teria que ser bem provocante com a plateia. De modo a surpreender a todos com as duas formas de sedução em cada um dos Cisnes. O angelical, do Cisne Branco. O de mulher fatal, do Cisne Negro.

Com isso a me-Nina cresce. Fazendo uma revolução em sua vida. Que até poderia ter vindo como uma consequência natural de vida: infância -> adolescência -> maturidade… Mas tendo a mãe lhe pressionando a não crescer, talvez para que chegasse ao estrelado ainda com o frescor da adolescência. Essa mãe também deveria fazer uma Terapia.

Por estar sempre cobrando o seu nascimento me veio a impressão que ficou no subconsciente de Nina uma aversão a uma relação hétero. Nina passa isso quando um carinha em uma boate a leva para um cantinho. Com o Thomas não foi um desejo carnal, mas em aprender rápido o que ele queria na interpretação do Cisne Negro. Como se não bastassem as pressões: uma doença em evolução, a mãe, a posição de Primeira Bailarina, o sentimento de culpa pela “aposentadoria” da Beth, o querer ser perfeita na carreira, não conseguir se enturmar, o coreógrafo lhe cobrando numa mudança para então fazer também o Cisne Negro… Enfim, se não fosse tantas pressões, o próprio Thomas lhe traz mais uma: uma bailarina para ficar como substituta. Já que “o show não pode parar“… a Companhia precisava ter alguém à altura do espetáculo.

Ela é Lilly (Mila Kunis). Se Nina pudesse raciocinar com calma veria que ali dentro não teria concorrência. Nem Lilly lhe tiraria a vaga. Já que ela não trazia o porte elegante de Nina. Lilly pendia mais para a vulgaridade. Tinha talento sim, mas para se encaixar na disciplina do Balé Clássico, Lilly precisaria de muito treinamento.

Inocentemente, Nina busca em Lilly tudo aquilo que não consegue ser por si mesma. A carência por uma amizade a leva a se entregar de corpo e alma a Lilly. Onde realidade e fantasia se misturam em sua mente. Mas essa por sua vez cerca Nina de todos os modos. Esperando os momentos certos para atacar. A maldade em Lilly lhe era tão natural que cegava a visão de Nina. Não vendo que o que Lilly pretendia mesmo era destronar Nina. Ela só descobrirá já um pouco tarde.

Nina que antes tinha a lhe assombrar o Cisne Negro… direciona a sua limitação em aprender com essa nova amizade. Sem ter consciência da sua nova realidade, no caso, de ter uma outra personalidade, a faz também um objeto de desejo. Ao se masturbar, Lilly se materializa. Onde eu não vi como sendo a descoberta de uma homossexualidade. Era o seu outro “eu” querendo ser provocativa. Me fazendo lembrar de “Uma Mente Brilhante“, onde o “colega de quarto” do personagem principal, o Nash (Russel Crowe), também era o seu contraponto. Mas esse teve alguém que lhe amava e conseguiu ver a real situação do marido. Diferente de Nina que não teve ninguém que pensasse nela como uma pessoa, e que precisava de ajuda. Só pensavam neles. Quando a então notaram… já era tarde demais.

Cisne Negro” também aborda uma outra mudança atual. Até um tempo atrás era muito comum ver menininhas em uniforme de Balé. Fazia parte do sonho infantil: ser bailarina. Até as com tendências a engordarem eram encorajadas numa tentativa em mudarem seus hábitos alimentares. Além disso, elas também ganhavam as primeiras noções dos Clássicos: Música e Dança. Eu não sei se a intenção do Diretor era em mostrar o total desconhecimento dos Clássicos pelos jovens de hoje. Muitos dos quais buscam em serem Celebridades sem o menor esforço, e com muito menos estudos. Um pouco de Cultura não faz mal a ninguém. Aronofsky leva isso nos dois jovens que Nina e Lilly conhecem na boate. Ambos sequer tinham ouvido falar do “Lago dos Cisnes”.

E qual teria sido a pressão maior a essa me-Nina?

Para mim a grande vilã dessa história foi a mãe de Nina. Que a conduziu até a borda daquele precipício. Final emocionante. Para ficar na História do Cinema.

Ao fechar as cortinas…

Bravo Natalie Portman! Sua Nina entrou para a Lista das Grandes Personagens Femininas! Aplausos também a todos! Desse excelente filme.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Cisne Negro (Black Swan, 2010)

Sempre achei balé uma forma de arte extremamente exigente, tanto física como mentalmente. Mas você precisa ser devoto ao balé para assistir “Cisne Negro” (Black Swan, 2010)? Não! O  diretor Darren Aronofsky realmente me surpreendeu com esse filme. Nos sólidos 110 minutos de projeção não tem uma cena desperdiçada. E achei impossível não se envolver com a estória da personagem principal (Nina).

O roteiro mistura sentimentos como inveja (quem não sente?), amor (quem não precisa?), sexo e loucura, numa atmosfera bem hitchcockiana. Natalie Portman é o cisne branco, Mila Kunis, o cisne negro, Barbra Hershey é a rainha, e Winona Ryder é como um cisne morrendo, e por aí vai.

Nina Sayers (Portman) é uma bailarina profissional que almeja o papel principal do espetáculo “O Lago dos Cisnes“. Seu coreógrafo, Thomas Leroy (Vincent Cassel), vive desafiando a moça, alegando que ela pode ser perfeita como o cisne branco, mas que não tem capacidade (a maturidade e a sexualidade para o papel sedutor do cisne negro). Thomas sabe que outra bailarina, Lily (Kunis), tem o tipo de energia que ele procura. Então o medo domina Nina, e ela passa a viver sob pressão: provar que pode fazer o cisne negro; enfrentar a sua mãe neurótica (Hershey); e provar que Lily quer lhe roubar o papel. A partir da insegurança de Nina, assistimos a sua obsessão de querer ser  perfeita.

Portman tem um desempenho magnífico. Sua Nina transcende inocencia, timidez, insegurança, inibição e determinação, de uma forma que nunca pensei que ela fosse capaz de fazer, principalmente pela complexidade do papel. Não que ela não seja talentosa, mas em “Cisne Negro”, Portman domina a tela. Ela se tornou o personagem. Fiquei tão envolvido com suas emoções, que eu esqueci que estava assistindo um filme. Este é o desempenho de uma vida e que precisa ser reconhecido. Espero que ela não seja injustiçada no Oscar como a Ellen Burstyn (por Requiem for a Dream, 2000) foi!

Basicamente, tudo que vemos é a partir do ponto de vista de Nina, que faz tudo parecer duvidoso, isso é, grande parte do fascínio da direção de Aronofsky é tentar discernir a realidade do que transparece na imaginação frenética de Nina. O diretor cria uma grande tensão, e brinca com a platéia, sugerindo que a mente e o corpo são muitas vezes inseparáveis, por exemplo: o filme ganha elementos de terror, e fiquei a perguntar: “tudo que vimos  é parte do sonho de Nina ou de sua loucura?”

Se mentalmente a platéia fica sob tensão, o diretor de fotografia Matthew Libatique, nos ajuda a estar com Nina por quase todos os passos nervosos, e piruetas, graças à sua sinuosa “held-camera”. Matthey praticamente coloca a câmera no ombro de Portman; e, senti como se estive perseguindo a personagem, ou  pegando carona com demônios de Nina. E, o mesmo sentimento, posso descrever sobre a trilha sonora de Clint Mansell, que cresce com o filme, apavorando, e, me levando de volta a certos pontos da trama. Quase todas as faixas tem elementos que são assustadores e inquietantes. Quanto mais eu ouço a trilha, mais eu me apaixono!.

Sim, há uma cena de sexo entre Kunis e Portman, porém depois que o filme termina, eu totalmente esqueci. “Cisne Negro” em si é tão chocante, que a cena, mesmo tão polêmica e  bem feita, fica em segundo plano. É uma cena que serve a história, mas o filme é bem melhor do que essa cena.

E se Aronofsky é um mestre em fazer filmes bonitos que nunca quis rever como: “Requiem for a Dream“, “The Fountain”, e “The Wrestler” (esse achei super chato!), “Cisne Negro” me fez mudar de opinião (já o revi!). Interprete o filme como quiser, mas uma coisa que posso dizer é que ninguém pode ignorar “Cisne Negro” como pura arte de cinema. Sim, a produção tem belas cenas de dança, como em  “The Red Shoes” (1948), a tensão preocupante de “Repulsa ao Sexo” (1965), o sadomasoquismo visto em “A Professora de Piano” (2001), e a competição entre as dançarinas como em “A Malvada”(1950), especialmente depois que Nina é escolhido para substituir a velha estrela da trupe anterior, Beth (Winona Ryder), e ao mesmo tempo, enfrentar o desafio de uma novata, a sexy  Lily (Mila Kunis ).

Até o momento, “Cisne Negro” é o melhor filme do ano, para mim!.

Lançamento no Brasil em 11/02/2011.

Cisne negro (Black Swan). 2010. EUA. De: Darren Aronofsky. Elenco: Natalie Portman (Nina Sayers / The Swan Queen); Mila Kunis (Lily / The Black Swan); Vincent Cassel (Thomas Leroy / The Gentleman); Barbara Hershey (Erica Sayers / The Queen); Winona Ryder (Beth Macintyre / The Dying Swan); +Cast. Gênero: Drama, Thriller. Duração: 108 minutos.

Visões de Realidade e Fantasia em ‘Closer’

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Por: Eduardo Sergio de Carvalho.
Um filme pode conter, de maneira proposital, diversas camadas de temas que se sobrepõem, permitindo várias leituras sobre a obra. Através desse artifício, o autor do filme – o roteirista ou o diretor – estrutura o tema ou personagens, de modo que determinados conteúdos psíquicos apareçam em uma camada interpretativa secundária, fazendo com que o espectador identifique-se com ele, atraindo-o inconscientemente para dentro da tela. Por tal ponto de vista, o filme pode ser visto sob um prisma onírico, onde seu conteúdo manifesto  – imagens por vezes sem sentido, situações irreais – esconde seu verdadeiro significado no chamado conteúdo latente, escondido. Podemos notar tal artifício desde Um Cão Andaluz de Buñuel,  na obra de Fellini, até o cinema comercial americano, mesmo em alguns trabalhos de Spielberg.

Em um segundo aspecto, os temas relativos à psique são apresentados sem a intenção consciente por parte do autor. Aqui, torna-se mais difícil identificá-los, e apenas o olho do indivíduo preparado, ou identificado subjetivamente com o tema latente, poderá apontar e levantar questões pertinentes a ele. Alguns cineastas podem ser considerados autores, justamente por apresentarem variações sobre um mesmo tema, seja consciente ou não, ao longo de suas carreiras – vide Clint Eastwood e sua visão sobre a culpa em sua fase madura, revelando-se essencialmente católica em Menina de Ouro – , e proporcionarem essa identificação junto ao público. Podemos correr o risco de dizer que um filme não existe para o público se não houver essa identificação psíquica.

Tal identificação pode mesmo levar a interpretações profundamente pessoais sobre filmes com intenções muito claras. Parece ser este o caso de Closer – Perto Demais, um filme franco e aberto que discute as relações homem-mulher na sociedade contemporânea. Adaptado pelo dramaturgo Patrick Marber de sua própria peça teatral, o filme de Mike Nichols é um grande e elaborado discurso sobre o tema, questionando de modo ácido que lugares ocupam a mentira e a sinceridade nos relacionamentos, e até que ponto conseguimos discernir onde a verdade sai e dá lugar ao embuste, à fraude. Falando francamente de fraquezas humanas, o texto tem todas as chances de causar impacto no público. E é o que faz.

Em uma das várias discussões acerca de Closer, fui alertado para um aspecto que não notara. Uma pessoa que assistiu ao filme, identificada com Dan (vivido por Jude Law), viu a fita como uma criação literária do personagem: aquilo que vemos na tela em Closer seria O Aquário, o livro de Dan que não deu certo. Para este espectador, o filme todo não passa da realização fantasiosa de um escritor frustrado, que trabalha fazendo obituários em um jornal londrino. É uma leitura plausível: o título do livro – um grande tanque d´água, onde seres vivem expostos aos olhos do público – pode remeter a emoções expostas, porém limitadas às paredes do tanque; à psique aprisionada que quer manifestar-se (a água é um símbolo onírico associado em geral ao inconsciente, bem como às emoções e fantasias). Em suma: Closer é a fantasia de Dan – um alter ego de Patrick Marber ? – exposta na tela, tal qual um aquário.

Uma interpretação absurda, você dirá, mas perfeitamente possível para a pessoa que relatou-a a mim. O indivíduo em questão possui conhecimento da área psicanalítica, é extremamente ligado às artes, em especial à escrita. Li textos belíssimos de sua autoria, nunca editados e apreciados por um público mais amplo. Seu desejo de talvez seguir uma carreira literária fez com que se identificasse com Dan, e seu trânsito entre mundos subjetivo e objetivo levou-o a tal interpretação, unindo real e imaginário sem fronteiras bem determinadas. Não cabe dizer se é certa ou errada; é apenas uma visão pessoal, que poderá variar conforme características e conteúdos inconscientes de cada indivíduo. Uma stripper ou garota de programa, ou quem possua tal fantasia, poderá identificar-se com Alice (Natalie Portman), e enxergar o mesmo filme sob outro ângulo; alguém viciado em chats de sexo poderá ver-se como Larry (Clive Owen); casais em diversas fases no relacionamento, indivíduos manipuladores ou que se deixem manipular facilmente verão outras facetas na mesma obra.

Assim como o inconsciente, o filme jamais se esgota, proporcionando múltiplas visões sobre o mesmo e sobre quem é tocado por ele. Levando essas questões para o ambiente da clínica, um filme como Closer transforma-se em um instrumento notável para a compreensão das relações do sujeito com o outro e consigo próprio.

Mito e Psique em Star Wars

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Por: Eduardo S. de Carvalho.

Difícil justificar de modo sintético todo o fanatismo em torno da série Star Wars. Qualquer adulto com um mínimo de bom senso saberia tratar-se de mera fantasia sci-fi, uma atualização dos velhos filmes de faroeste ou de samurais produzidos em décadas passadas. Porém, George Lucas sabe que cinema é apenas isso; ou melhor, é muito mais do que isso. Prova disso é a fonte inspiradora mais próxima do primeiro filme da série, uma fita de Akira Kurosawa, A Fortaleza Escondida. A sinopse pode dizer alguma coisa: um rapaz e um mercenário têm que levar uma princesa a uma fortaleza infestada por vilões … junte-se a obra de Kurosawa a O Senhor dos Anéis, de Tolkien – leitura assumida de Lucas –, e você terá a fórmula responsável pelo sucesso alcançado em 1977, quando o primeiro Guerra nas Estrelas, hoje mais conhecido como Episódio IV – Uma Nova Esperança, foi lançado.

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Com o fim da saga, trinta anos depois de seu início, podemos ver toda a estória com mais objetividade. No primeiro filme, Lucas reforçou os aspectos míticos de Luke Skywalker, que nada mais é do que o herói arquetípico junguiano. A ausência da família, o mentor espiritual, a irmandade em torno do objetivo comum, o enfrentamento com a sombra – o próprio pai do protagonista – , não passaram desapercebidos a Joseph Campbell, em seu O Poder do Mito. Até os irmãos Wachowski terem criado o messiânico Neo em Matrix, e Peter Jackson ter filmado a obra de Tolkien, a primeira trilogia de George Lucas tinha ao menos a originalidade em mostrar o caminho de Skywalker à individuação, tal qual a teoria apresentada por Jung.

Tanto quanto o apelo dos efeitos especiais, podemos notar o quanto esse aspecto atrai e encontra eco em nossa psique. Filmes como Guerra nas Estrelas remetem o espectador a um mundo heróico, ideal, onde tudo é definido prontamente. Se cada um puder se lembrar, retornará a uma infância povoada por estórias fantásticas e contos de fadas, contadas por nossas mães, nossas avós. Tais estórias são atualizações de tradições orais míticas, que perdem-se na noite longínqua de nossos ancestrais. Freud aponta similaridades entre o pensamento mítico das primeiras culturas e a psique infantil, desde seu Totem e Tabu. Os trabalhos de Jung, e especialmente de Melanie Klein junto à criança, apontam para esse núcleo, aprofundando as primeiras conclusões do pioneiro da psicanálise.

Segundo Klein, as primeiras relações do bebê, imerso em fantasias que originam um mundo interno, são com objetos parciais. A criança não distingue a parte do todo, tomando a parte como se fosse o todo. Para exemplificar, Klein elegeu a figura do seio materno como símbolo dessas relações fantasiosas, uma vez que o bebê não vê a mãe como um ser completo e distinto dele. Há o seio bom, aquele que alimenta, aconchega, gratifica; o seio mau afasta-se, provoca fome, medo, deixando o bebê com raiva e ansiedade por não saber se sobreviverá sem tal objeto. A criança acredita ter criado tais objetos, uma vez que essa fase é extremamente narcísica, e aponta para a onipotência como importante característica.

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Há ainda a possibilidade de que a criança tenha dificuldades em reconhecer e aceitar que ambos sejam o mesmo objeto, e que exista independente de sua vontade. De acordo com o desenvolvimento psíquico do indivíduo, essa visão dicotômica da realidade externa, onde tudo é polarizado em bom ou mau, claro ou escuro, poderá perdurar por muito tempo após a infância, e o adulto não saberá lidar com um mundo muito mais complexo do que este, dividido simplesmente em Lukes e Darth Vaders.

A segunda trilogia traz uma sutil diferença em relação à primeira. Enquanto os primeiros filmes possuíam uma dimensão mítica que trazia implícito o conflito do protagonista com o relativo e o absoluto, os episódios I, II e III mostram como ambas as polaridades encontram-se naturalmente no mesmo indivíduo. Deficiências dramáticas do roteiro à parte, o tema que perpassa os três últimos filmes de George Lucas é a possibilidade de cada um apresentar sentimentos condenáveis, sem ser mau em sua essência.

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Através de Anakin Skywalker, é apresentada uma ambivalência que inexistia nos primeiros filmes (escute com atenção o tema de Anakin na trilha sonora do Episódio I, onde as últimas notas remetem à Marcha Imperial da primeira trilogia). O garoto é apresentado como um messias, “aquele que trará equilíbrio à Força”. Para nossa surpresa, a visão de Lucas amadurece aqui, escapando às tendências maniqueístas da primeira série; esse equilíbrio dá-se justamente pela metamorfose de Anakin Skywalker em vilão, junto ao imperador. Está derrubada a barreira da dualidade; é justamente por amor, considerado o mais sublime dos sentimentos, que nasce Darth Vader.

Retomando as idéias de Melanie Klein, o ser humano possui uma tendência psíquica à integração do ego. Junto ao desenvolvimento natural do sistema nervoso, esse ego em processo de amadurecimento seria responsável pelo reconhecimento de um mundo ambíguo, onde a convivência com todas as gamas do espectro emocional é possível. A criança, antes envolvida por visões incompletas da realidade externa, consegue unir os objetos bons aos objetos maus, enxergando-os como um só, integrando, assim, seu mundo interior ao mundo exterior. Os pais deixam de ser deuses ou demônios; tornam-se meros mortais. Embora não o tivesse dito claramente, a maturidade psíquica para Klein envolve a passagem de uma visão mítico-religiosa do mundo para uma visão mais abrangente e sutil, onde todos temos o direito de sentir, pensar e agir conforme nossos sentimentos, sempre dentro de limites sócio-culturais.

Enquanto não reconhecermos esse nosso “lado negro da Força” – as pulsões mais destrutivas de nosso inconsciente – , corremos o risco de cair no seu abismo.

Por tal ponto de vista, o personagem de Lucas que fecha seu ciclo psíquico por completo é Anakin Skywalker: nasce como salvador, sucumbe às forças pulsionais de sua psique, e gera aquele que o destruirá. No entanto, é através da morte de Darth Vader pelo próprio filho que Anakin renasce, mesmo que por alguns instantes. Passando pelo céu e pelo inferno, Anakin torna-se, enfim, apenas – e demasiado – humano.

Guerra nas Estrelas (Star Wars). EUA. Direção e Roteiro: George Lucas. Gênero: Ação, Aventura, Fantasia, Sci-Fi.
# Episódios:
I. A Ameaça Fantasma. Direção: George Lucas. 1999.
II. O Ataque dos Clones. Direção: George Lucas. 2002.
III. A Vingança dos Sith. Direção: George Lucas. 2005.
IV. Uma Nova Esperança. Direção: George Lucas. 1977.
V. O Império Contra-Ataca. Direção: Irvin Kershner. 1980.
VI. O Retorno de Jedi. Direção: Richard Marquand. 1983.
# Personagens:
– Anakin Skywalker (epis. I Jake Lloyd) (epis. II e III : Hayden Christensen) (epis. VI Sebastian Shaw).
– Darth Vader (epis. III Hayden Christensen) (epis. IV, V, VI David Prowse) (epis. III, IV, V e VI dublando a voz: James Earl Jones)
– Obi-Wan Kenobi (epis. I, II e III Ewan McGregor) (epis. IV, V e VI Alec Guiness)
– Luke Skywalker (epis. IV, V e VI Mark Hamill)
– Princesa Leia (epis. IV, V e VI Carrie Fisher)
– Han Solo (epis. IV, V e VI Harrison Ford)
– Padmé Amidala (epis. I, II e III Natalie Portman)
– Mace Windu (epis. I, II e III Samuel L. Jackson)
– Mestre Yoda (performance Frank Oz) (epis. I, II ,III,V e VI)
– Chewbacca (epis. III, IV, V e VI Peter Mayhew)
– C-3PO (epis. I a VI Anthony Daniels)
– R2-D2 (epis. I, III, IV e VI Kenny Baker)
– Lando Calrissian (epis. V e VI Billy Dee Williams)
– Palpatine/Darth Sidious(epis. I, II ,III,V e VI Ian McDiarmid)
– Conde Dookan/Darth Tyrannus(epis II e III Christopher Lee)
– Qui-Gon Jinn -(epi. I Liam Neeson).
# Música John Williams acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Londres.