Ao Entardecer (Evening. 2007)


Dizem que à beira da morte passa um filme sobre a vida da pessoa. Isso acontecendo de repente e num breve intervalo de tempo, tudo deve vir num flash bem compacto. Agora, quando ainda terá umas horas antes dela chegar… Deve possibilitar na escolha do que se quer passar a limpo. E é por ai, que se baseia o filme. Mas como essa perda será sentida por outras pessoas, também as fará pensarem em si mesma.

Um tempinho atrás escrevi um texto sobre ‘O divisor de água de cada um de nós‘. Nesse filme, ‘Ao Entardecer‘, a Ann (Vanessa Redgrave), entre momentos lúcidos ou de delírios, talvez por efeitos da medicação, ou mesmo por já não mais haver barreiras por conta das regras sociais… Enfim, para ela um único divisor de água merecia ser revisto. Porque um outro, ela só quis constatar se não fora totalmente negligente. Em resumo, uma revisão a um grande amor, e se por sua carreira houvera omissões as suas filhas.

Nessa volta ao passado o que Ann (Claire Daines) elege como seu ponto de partida veio por conta de uma frase que pelo jeito a acompanhou todo esse tempo. Algo mais ou menos assim: “E se eu tivesse aceito o convite de Buddy (Hugh Dancy) e tivesse ido velejar com ele e Harris (Patrick Wilson) naquele entardecer… Será que minha vida teria tomado outro rumo?‘. É que ainda naquele final de semana uma tragédia a levou a querer ir para longe daquele pesadelo.

A questão que ficou a mim foi por conta dela não ter ouvido a voz do seu coração – esse já perdidamente apaixonado por Harris -, e que apenas ouviu a voz ‘do que os outros pensariam‘. Entre esses outros estaria a sua melhor amiga Lila (Marmier Gummer). Ann então quis esquecer tudo mais que a envolveriam-na àquelas pessoas que até viviam em mundos diferentes. Que nem um ter como pagar uma simples conta de luz fazia parte do seu dia-a-dia como o dela. Claro que o não ter vivenciado fica mais fácil em dizer que não teria feito o mesmo, mas cabe aqui não um julgamento e sim um tentar entender o seu drama.

Nesse seu delírio em meio as seu flash-back Ann ganhou uma ajuda: alguém meio que advogado-do-diabo. Alguém para clarear ainda mais nesse seu mergulho. Se essa presença era fruto da sua imaginação, ou de seus sonhos, o certo era que a Enfermeira-da-Noite (Eileen Atkins) fez mais que isso. Ela fez algo que as filhas de Ann nem pensaram em fazer. Que foi em avisar a Lila que sua grande amiga do passado estava nas últimas. E Lila (Meryl Steep) veio. Onde não só ajudou a amiga a partir sem culpas, como também ajudou a uma das filhas de Ann, a Nina (Toni Collette) a não ficar tão indecisa diante da vida.

No tocante as filhas, essas horas finais deu-lhe momentos de lucidez onde pode senti-las mais perto. Saber delas se fora uma boa mãe. Para Constance (Natasha Richardson), já casada, com filhos, a conversa fora mais madura. Por ela estar segura de que fizera a escolha certa. De que ao se tornar mãe pode compreender a sua mãe.

Já com Nina, até pelo seu temperamento, ouvir trechos dos delírios da mãe, aumentou ainda mais os receios. Por medo do futuro, por saber que é uma pessoa de difícil convivência. Por descobrir que está grávida do seu atual namorado. Enfim, seus temores são em relação ao que ainda está por vir. Se para a sua mãe não haverá um amanhecer, para ela sim. Então, por que não começar a fazer os seus, um de cada vez? E quem sabe só no último entardecer de sua vida saber se fizera as escolhas certas. Pois se manteve uma pessoa íntegra mesmo tendo feito algo errado, o que importa é que o fez, que não ficou apenas no ‘Se…

Por fim, o filme aborda questionamentos maduros. E sobretudo para as mulheres que ao longo da vida tentam conciliar carreira, família, o lado dona-de-casa, maternidade, entre outras coisas.

Mas destacaria nesse filme uma outra questão: o alcoolismo. No quanto esse vício tem de prejudicial. Tanto para a própria pessoa, como também para aos que cruzam seu caminho. No filme a pessoa começou a beber aos doze anos. Tão cedo que embora eu não esteja culpando os pais me pergunto o que eles estavam fazendo que os impediam de ver esse grito de alerta do filho? Creio que quando se inicia ainda na adolescência há uma chance maior de sair desse vício. A menos que o que esse filho estivesse tentando contar, seus pais não queiram nem ouvir. Sendo assim, depois de uma tragédia… já será tarde demais.

Eu gostei do filme. Mas não deixou-me uma motivação para revê-lo!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Ao Entardecer (Evening). 2007. EUA. Direção: Lajos Koltai. Elenco: Claire Danes, Vanessa Redgrave, Mamie Gummer, Meryl Streep, Patrick Wilson, Hugh Dancy, Glenn Close, Barry Bostwick, Natasha Richardson, Toni Collette, Ebon Moss-Bachrach, Eileen Atkins. Gênero: Drama. Classificação etária: Livre. Tempo de Duração: 117 minutos. Drama baseado no livro de Susan Minot.

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