O Conto da Princesa Kaguya (Kaguyahime no Monogatari. 2013)

O-Conto-da-Princesa-Kaguya_2013Por: Carlos Henry.
Mais uma vez, o Estúdio Ghibli brinda sua audiência com uma pérola rara. Dirigido por Isao Takahata, “O Conto da Princesa Kaguya” segue a mesma linha dos trabalhos do estúdio exaltando a supremacia da natureza, que como em “Meu amigo Totoro” coloca os bens materiais num último plano.

Singelamente artesanal, “Kaguyahime no Monogatari” tem movimentos e sequências que muito impressionam. A apurada técnica manual, que não tem medo de mostrar a textura e as pinceladas da ilustração, acrescenta mais poesia, um humor muito peculiar e certa verossimilhança à fantástica história do conhecido conto japonês:

Um casal de pobres camponeses acha um pequeno ser dentro de um bambu que eles acreditam ser uma princesinha e portanto se esforçam para transformá-la numa, sem se darem conta que estariam assim, afastando-a da felicidade na sua simples missão na Terra.

Com raros recursos digitais, o trabalho de desenhar cada quadro levou cerca de 8 anos para ser completado e ganhou uma indicação ao Oscar de Melhor Animação. A julgar pela assombrosa beleza dos últimos momentos do filme no fabuloso resgate de Kaguya reunindo música e emoção numa apoteose onírica, o esforço realmente valeu a pena.

O Conto da Princesa Kaguya (Kaguyahime no Monogatari. 2013)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Livre (Wild. 2014). A Jornada de uma Rebelde Sem Causa

livre_2014_filmeEm “Livre” temos a jornada de uma rebelde sem causa em que só vai tomando consciência disso milha após milha, vendo passar diante de si – em flash back para nós – a vida que levava e que reclamava tanto. Queria tanto sofisticação e dinheiro, mas se entregara às drogas pesadas numa vida promíscua… Reclamava do pai, mas nem enxergava o real valor da mãe que pode não ter dado a vida de luxo que tanto queria, mas dera amor e ótimas lições de vida… E após o destino ter levado sua mãe ainda na flor da idade… essa jovem resolve carregar também todas as suas “assombrações” (Sombra – Jung) percorrendo a pé uma longa trilha e fazendo dela o seu próprio purgatório…

Completaria toda a trilha da Costa do Pacífico? Quantas e quais bagagens iria deixando pelo caminho? Entenderia o quanto desperdiçou de tempo de vida? Por que escolhera essa longa caminhada e em contato com uma natureza ainda selvagem? Percorrendo em grande parte sozinha o que nunca fora ligada a uma vida assim em contato direto com a natureza. Se até odiava… Enfim, vejam o filme! Que daqui por diante terá spoiler!

Nos últimos anos agi como ela se fosse nada. Mas ela era tudo mesmo.”

livre-2014_laura-dernEnquanto essa jovem se auto destruía – sexo com qualquer um e muita droga pesada -, a mãe continuava levando sua vida por eles. Fora esposa e depois mãe em tempo integral. E só às vésperas da morte se deu conta de que não vivera por si mesmo. Nem fora um lance de egoísmo, apenas sentira um certo vazio dentro de si… Quem sabe por conta de nem ter recebido dessa filha um gesto de carinho. Uma filha que em vez de sentir vergonha de si própria, sentia do jeito caipira de ser da própria mãe.

Nós somos ricas em amor.”

Um câncer leva a doce e gentil Barbara “Bobbi” Grey. Numa ótima performance de Laura Dern. Uma mãe que ensinou que ela deveria encontrar o melhor de si e se valer dele pois dias piores poderiam vir. Que também ante a fazer uso de uma grosseria que buscasse ser gentil. Pois é! Gentileza gera gentileza… Uma mãe que ensinou a ela que há um nascer do sol todos os dias e que a vida dava a ela a opção de estar lá para ver.

Se sua coragem sumir, vá além.

livre_2014_01A jovem até tentou fazer uma terapia, mas como ainda não estava pronta… escolhe quase um auto flagelo percorrendo uma trilha muito longa. Para alguém que até então levara uma vida desregrada, e que nunca tivera um espírito desportivo, como também meio que odiava uma vida na roça, a trilha viria como uma punição… Como uma dívida com sua mãe… Onde o cansaço, a dor física, o suor, o frio, o medo… fizesse transpirar tudo fizera até então… Ela era a Cheryl, vivida por Reese Witherspoon que mostrou e bem toda a superficialidade da personagem: da rebelde sem causa que iniciou a jornada.

Cheryl precisava mesmo resgatar a si própria nessa natureza selvagem que também impõem limites e superações. Muito mais do que uma comunhão com a natureza, ela caminhava em direção a sua própria redenção. Assim como em se render de fato ao amor que recebera de sua mãe. Um pouco tarde, mas teria no irmão o sentimento família que antes não dava valor. Assim, Cheryl consegue expurgar o passado, com páginas em branco a vivenciar o presente, com muitas bagagens a menos para a vida que teria pela frente.

livre-2014_reese-witherspoonÀs vezes colocam maquiagem demais, mas nesse aqui faltou. Até para dar mais realidade a atriz Reese Witherspoon pelo o que vivenciou a personagem. A não ser que tenha usado um protetor solar de última geração, já que a pele do rosto continuou como bumbum de neném ao final da jornada de uns quatro meses. Teria vindo a calhar uma maquiagem que mostrasse por todas as intempéries que enfrentou. Mas enfim, sua performance foi excelente!

O filme “Livre” muito bom! Parabéns ao Diretor Jean-Marc Vallée que soube contar e bem essa biografia de Cheryl Straved. O cenário da trilha da Costa do Pacífico é belíssimo. A Trilha Sonora também atua como um ótimo coadjuvante! Vale muito a pena ver! Mas não me deixou vontade de rever. Nota 08!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Livre (Wild. 2014). Uma Jornada de uma Rebelde Sem Causa
Ficha Técnica: na página no IMDb.
Baseado no livro “Livre – A Jornada de Uma Mulher Em Busca do Recomeço”, de Cheryl Strayed
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Sudoeste. (2011)

Cuidado! Definitivamente, “Sudoeste” de Eduardo Nunes não é para qualquer plateia acostumada aos produtos de fácil digestão ou sequências vertiginosas e barulhentas que infestam as telas. No entanto, está longe de ser pretensioso ou chato se houver disposição para encarar uma experiência nova, intimista e silenciosa. Portanto é necessário esquecer COMPLETAMENTE os celulares (Por que parece tão difícil e doloroso nos dias de hoje?), os cochichos e pensamentos evasivos. Relaxe, respire fundo e tente imergir no estranho e fascinante clima ambientado numa vila pacata, carente e supersticiosa perto do mar.

Magnificamente fotografado em preto e branco num ousado e raro formato panorâmico muito mais estreito do que o usual 2:35.1, valorizando os horizontes das paisagens à larga, as imagens deslumbrantes começam a surgir para contar sem nenhuma pressa a saga de Clarice, uma menina cuja mãe faleceu no parto e foi resgatada em segredo por Dona Iraci (Léa Garcia). A velha é conhecida como bruxa pelo povo da região e atiça a curiosidade das crianças que se aproximam de sua palafita no meio da água para descobrir seus segredos e supostas forças ocultas. Logo, Clarice decide explorar a vila à procura dos meninos e encontra personagens e situações que parece ter vivenciado em algum outro momento.  A partir deste momento, é exigida do espectador uma boa dose de sensibilidade para perceber que não se trata de uma estória ordinária e linear. Clarice, já crescida (A ótima Simone Spoladore) oscila intemporalmente seus momentos de criança e adulta onde encontra personagens que se confundem e convergem com habilidade para um momento chave: Uma situação de violência sexual que irá marcar a vida de Clarice em toda a sua existência. João que é seu novo amigo poderá ter sido seu irmão e algoz num outro momento, bem como seu próprio pai pode ser um estranho ou inimigo disfarçado por uma máscara bizarra de folia folclórica. Os papéis secundários como o da amante vivida por Dira Paes são perturbados pelos acontecimentos aparentemente sobrenaturais, tanto quanto a audiência menos experiente que corre o risco de estranhar este intrincado jogo de cena.

A obra deve ser encarada como um experimento belo, original, onírico, singular e poético sobre um ciclo de pessoas que chegam e partem como o vento do título (Que permeia todo o filme como outros sons da natureza). Definitivamente ou não.

Por: Carlos Henry.

Sudoeste. 2011. Brasil. Diretor: Eduardo Nunes. Roteiro: Guilherme Sarmiento, Eduardo Nunes. Elenco: Simone Spoladore, Raquel Bonfante, Julio Adrião, Dira Paes, Mariana Lima, Everaldo Pontes, Victor Navega Motta, Regina Bastos, Léa Garcia. Gênero: Drama. Duração: 129 minutos. Classificação: 12 anos.

Na Natureza Selvagem (Into The Wild)

into the wild

Apontar algumas noções de Antropologia agora não será um desperdício. Um animal homem sozinho não tem a força de vários animais homens reunidos; isso é óbvio. Não se torna difícil perceber que uma sociedade é composta por vários homens afim de se defenderem de uma natureza dita selvagem. Isso é o bê-a-bá da Antropologia Sócio-Cultural. As chances de um animal homem (que é animal social assim como as formigas, cupins, leões, macacos etc) sobreviver à selva sozinho se torna mínima. O Homo sapiens precisa de “calor humano” para dividir a força-tarefa e para aumentá-la. Um paradoxo inegável no mundo social.

O filme mostra as etapas de um rapaz que decide experimentar a liberdade longe do social e em contato apenas com a natureza mais rústica. Pra isso, ele muda seu nome e desaparece de sua família de origem. Assim, vai viver sem raízes, criando suas próprias origens e referências.

Entende que o poder e o dinheiro são apenas ilusões que prendem o homem na matéria, o ilude em um máximo torpor. E vive assim, como um ‘Supertramp’… um dia de cada vez.

No entanto, seus planos para buscar a liberdade e a felicidade são audaciosos demais… pois foge ao caráter instintual do homem: o convívio com outros homens. Fugir a isso é tentador, mas é negar a própria natureza.

Um paradoxo confuso, por sua vez. Pois o homem não é uma ilha, e ainda que se ilhe interiormente (conheço vários assim), exteriormente necessita de uma comunidade para sobreviver à própria vida. A natureza não tem piedade… e nós fazemos parte da natureza.

Essa obra requer uma certa paciência pois é um “Naufrágio” consensual. (quem viu Náufrago entenderá essa minha colocação).

Diria, inclusive, que a idéia não passou de um suicídio ilusório… Pois onde há liberdade? também quero saber!

Por: Vampira Olímpia (com apoio e colaboração textual de Deusa Circe).

Into the Wild – Na Natureza Selvagem

Direção: Sean Penn

Gênero: Drama

EUA – 2007

Curiosidades retiradas do site Adoro Cinema:
– Sean Penn aguardou 10 anos para rodar Na Natureza Selvagem, pois queria ter a certeza da aprovação da família McCandless para que o filme fosse realizado.
– Sean Penn chegou a fazer um teste com Leonardo DiCaprio, quando teve interesse em rodar Na Natureza Selvagem pela 1ª vez.
– Daveigh Chase fez testes para a personagem Tracy, mas foi preterida por Kristen Stewart.
– Brian Dierker foi inicialmente contratado como consultor para as cenas de rafting do filme. Foi Emile Hirsch quem sugeriu a Sean Penn que o escalasse como o personagem Rainey.
– Emile Hirsch perdeu 18 quilos para seu personagem em Na Natureza Selvagem.
– Foi inteiramente rodado em locações.
– Nenhum dublê foi usado nas cenas de Emile Hirsch em Na Natureza Selvagem.
– Foram necessárias 4 viagens ao Alasca, em diferentes épocas do ano, para a gravação de cenas.
– O orçamento de Na Natureza Selvagem foi de US$ 15 milhões.