O Tambor (1979). Revisitando os Tempos Coléricos

o-tambor_1979_capaPor: Morvan Biliasby, de Blogue do Morvan.
Gunter-GrassNestes tempos de cólera, como diria Garcia Marques, nada melhor do que um filme para pensar, para refletir sobre o ambiente soturno que assola a todos. A recidiva das ‘soluções mágicas’ não é atributo exclusivo dos trópicos. Antes fora! Este filme, O Tambor, (Volker Schlöendorff, 1979 Die Blechtrommel, Tin Tambor, Tambor de Lata, literalmente), baseado na obra de Günter Grass (★ 16 October 1927 — ✝ 13 April 2015), parte da Trilogia de Danzig (hoje Gdańsk), cidade de nascimento do escritor, cidade esta que, não só por ser onde nasceu e viveu grande parte de sua vida, mas por vir esta a assumir importante papel no desenrolar das duas grandes guerras (a propósito, não esqueça o fato de o Solidariedade ter nascido ali).

O filme, a exemplo da obra magnífica de Grass, percorre toda a epopeia da família de Oskar, começando pela perseguição a seu avô, ainda nos estertores do século anterior, sendo este abrigado (literalmente) embaixo da saia daquela que viria a se tornar sua avó, Anna Bronski, centrando-se na primeira década do século XX, até a década de 30; mostra a ascensão do nazismo em toda a Europa e seus desdobramentos na vida de Oskar Matzerath (se você, por um momento, se lembrou de Amarcord, não estranhe. Há momentos em que as duas obras se parecem entrelaçar, mesmo que o prisma de ambas difira. Felinni fazia uma retrospectiva bem mais intimista e menos engajada, mesmo quando expõe o fascismo dos ´30), um menino aparentemente normal, mas que, em represália aos costumes (ou ao nazi-fascismo) se nega a crescer.

o-tambor_1979_02O filme mostra um Oskar perturbado pela infidelidade de sua mãe, com seu [dela] primo, mas, nas entrelinhas, fica claro o ambiente plúmbeo que grassa sobre toda a cidade de Danzig. A mãe de Oskar, Agnes, engravida, possivelmente de seu primo, Jan. Ela jura que não terá aquele bebê, pois lamenta a gravidez incestuosa (novamente, o expectador fica em dúvida se a razão da rejeição de Agnes não é pela condição política, extremamente desfavorável, pois não há provisões nem segurança para ninguém). Agnes morre. Sua morte se dá de forma nebulosa, confusa. Mesmo no sepultamento, veem-se os movimentos políticos, pró e contra os descendentes de judeus. Neste intercurso, mostram-se aos poucos os primeiros movimentos com vistas a uma resistência. Neste ínterim, Alfred, a quem Oskar odeia, claramente, contrata uma jovem para ser “dona de casa”. Oskar logo se interessa por Maria. Problema é que Alfred também e é ele quem se sucede no relacionamento, chagando a casar com a “housekeeper”, para desespero do pequeno Oskar. A tensão aumenta, é claro. Prestem atenção na cena em que Oskar tenta matar o futuro filho de Maria, com uma tesoura.

Ciúme, remissão ao “Ovo da Serpente“, ambos? O que me dizem? Igualmente remarcável é a cena em que a Armada russa invade a mercearia de Alfred e este tenta esconder seu “pin” nazista, na boca. Engasga-se, claro. O soldado russo interpreta como agressão e o mata, para felicidade de Oskar. No funeral de Alfred, um evento faz Oskar crescer. Nada diremos, pois é uma análise diacrônica, e não um “spoiler”!

Veja e reveja O Tambor. Vale demais. pela beleza da obra, bem como para entender aqueles conturbados tempos (e os d´ora, pois). Günter Grass é tido, na Alemanha, não só por ter sido laureado com Nobel e com várias outras comendas, como o mais importante escritor, depois de Göethe; nada mal para um alemão que nunca se furtou em colocar o dedo na ferida aberta do nazi-fascismo.

O Tambor (Die Blechtrommel. 1979)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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A Menina que Roubava Livros (The Book Thief. 2013)

a-menina-que-roubava-livros_2013Por Humberto Favaro.
Leve, sensível e extremamente emocionante, a adaptação aos cinemas do livro A Menina que Roubava Livros, do escritor Markus Zusak, nos mostra a história da jovem Liesel Meminger, num trabalho magnífico realizado pela atriz Sophie Nélisse (O Que Traz Boas Novas).

a-menina-que-roubava-livros_2013_01Durante a Segunda Guerra Mundial, por não ter escolha devido ao regime nazista, a mãe de Liesel, que é comunista, é forçada a entregar a menina e seu irmão para outra família, porém, antes de serem entregues, o garoto morre no trajeto e é enterrado num lugar próximo. No processo de enterrar o menino, um dos coveiros deixa um livro cair no chão e Liesel imediatamente rouba o seu primeiro livro, mesmo sendo analfabeta. É aí que a Morte se interessa pela menina e começa a narrar os acontecimentos do longa.

a-menina-que-roubava-livros_2013_02Depois do ocorrido, Liesel é entregue a sua nova família, um casal sem filhos, interpretados por Geoffrey Rush (O Discurso do Rei) e Emily Watson (Anna Karenina). De início, a jovem não se acostuma com o novo lar, mas aos poucos é conquistada de forma sutil e engraçada por Hans, seu pai adotivo, e é com quem começa ter uma relação tão amorosa que chega a ser emocionante em alguns momentos do longa. Já a mãe adotiva, Rosa, é mais “sangue frio” e trata a menina de forma mais séria, o que proporciona alguns risos.

a-menina-que-roubava-livros_2013_03Na nova vizinhança, Liesel começa novas amizades, mas logo é obrigada a ter Rudy (Nico Liersch) como seu melhor amigo, já que o menino implora a atenção dela o tempo inteiro. Apesar de terem a mesma idade (?), é perceptível a diferença de pensamentos de Rudy e Liesel. O menino é muito mais influenciado pelo nazismo do que ela. Certos momentos do longa, Liesel parece não concordar com alguns atos do regime, enquanto Rudy o segue como um carneirinho. Porém, mais tarde, Liesel consegue influenciar Rudy e fazê-lo pensar sobre quem é Hitler e o menino acaba chamando o führer de “bundão” num momento de euforia.

a-menina-que-roubava-livros_2013_04Outro personagem importante da trama é Max (Ben Schnetzer), um judeu que se refugia na nova casa de Liesel, e que é impedido de sair de lá por motivos óbvios. Com o mesmo amor que sente por seu pai, Liesel se apega a Max, que se torna de suma importância na vida da menina e é quem a incentiva a ler e a escrever. Uma das frases mais marcantes do longa é dita por ele: “Se seus olhos falassem, o que diriam?” Então a garota narra como está o tempo e, chorando Max agradece, já que a menina detalha tanto que ele consegue enxergar e fica feliz, porque está no porão e não vê a luz do sol há muito tempo.

a-menina-que-roubava-livros_a-morteA Menina que Roubava Livros conta com uma fotografia fantástica e com um figurino que não deixa a desejar. Grande parte das cenas do filme podemos ver a presença do vermelho, que reforça a presença do nazismo em todas as situações da trama. Outro fator que ajuda a dar ainda mais emoção ao filme é a trilha sonora de John Williams, indicado na categoria Melhor Trilha Sonora no Oscar 2015.
Avaliação: 6.0.

A Menina que Roubava Livros (The Book Thief. 2013)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Panorama do Festival do Rio 2013 – Parte I

festival-do-rio-2013_os-documentarios– OS DOCUMENTÁRIOS:

BLACKFISH – FÚRIA ANIMAL (BLACKFISH.) é um documentário esclarecedor e reflexivo de Gabriela Cowpertwaite contando a chocante estória das baleias orcas criadas no famoso parque temático Seaworld em Orlando. A velada crueldade do cativeiro explode em terríveis ataques a seres humanos culminando na noticiada morte de uma treinadora do show.

INVADINDO BERGMAN (Trespassing Bergman) de Jane Magusson e Hyne Pallas. Para os fãs do cultuado e atormentado diretor Ingmar Bergman, somente. Trata-se de uma visita de cineastas famosos a sua protegida residência na inóspita Ilha Faró no mar Báltico. Recheado de cenas de seus filmes e depoimentos curiosos, infelizmente o documentário pouco revela de seus mistérios e segredos.

EU SOU DIVINE (I am Divine) de Jeffrey Schwarz desvenda a estrela preferida de John Waters como nunca vista antes. O gordinho Harris Glenn Mistead de Baltimore sempre se sentiu diferente, mas nunca poderia imaginar alcançar uma carreira meteórica transformada numa drag abusada e muito famosa. O documentário é perfeito simplesmente porque não é superficial. Supre a curiosidade dos fãs revelando detalhes muito além da conhecida, escatológica e antológica cena das fezes caninas de “Pink Flamingos”. Divine fazia shows, cantava e começou a ser reconhecida por trabalhos mais sérios como “Hairspray” quando teve sua breve vida interrompida. Talento genuíno.

CORREDOR DA MORTE – 2 Retratos (On Death Row – 2 Portraits) conta com a direção e a voz gutural do renomado cineasta Werner (Nosferatu) Herzog para apropriadamente contar estórias macabras de dois condenados à morte nos Estados Unidos. Os dois casos impressionam e muito. O primeiro episódio fala sobre Blaine Milan acusado de matar a marteladas a filha de 13 meses num suposto ritual de exorcismo. A ignorância dos entrevistados revela o grau de estupidez que culminou na tragédia. Uma das mulheres afirma que tudo que viu no filme “O Exorcista” aconteceu de verdade. Já Robert Fratta, um fisiculturista atinge o ápice do narcisismo quando decide matar a esposa revelando uma frieza assustadora. Seu discurso baseia-se em dogmas nazistas e teorias de racismo incontestável segundo sua concepção doentia. Apesar de sua arrogância, é possível notar o medo infinito que o envolve com a proximidade da execução. Absolutamente aterrador.

A BATALHA DE AMFAR (The Battle of Amfar) é um documentário conciso, mas esclarecedor e muito bem realizado sobre os últimos avanços nas pesquisas para vencer o vírus HIV.  A fundação AMFAR foi criada em 1985 no auge da epidemia, tendo à frente a cientista Dra. Mathilde Krim e o ícone do cinema Elizabeth Taylor que muito contribuiu para a luta contra a doença. Após a morte da estrela, outros artistas abraçaram a causa como Goldie Hawn que deu o ar de sua graça no Espaço Rio em Botafogo. Muito apressada, Goldie mal respondeu a uma pergunta no pequeno debate, não falou com os fãs nem com os repórteres e ficou um bom tempo no banheiro. Será que teve um mal súbito?

FOGO NAS VEIAS (Fire in the Blood) também trata do tema da Aids concentrando-se na má distribuição dos milagrosos remédios ao redor do mundo. Dylan Mohan Gray preferiu um tom didático ao seu documentário o que o tornou um pouco modorrento, embora importante.

OS FILHOS DE HITLER (Hitler’s Children) de Chanoc Ze’evi mostra como vivem os descendentes dos poderosos nazistas ligados à figura do líder. A convivência com a sociedade é difícil por conta do estigma que carregam com seus nomes. Uma cena emocionante é quando um deles submete-se às perguntas de filhos de suas vítimas em plena Auschwitz, o célebre campo de concentração onde morreram muitos judeus na guerra. Sentimentos de perdão e condenação se misturam ao evento.

CIDADE DE DEUS – 10 ANOS DEPOIS de Cavi Borges mostra o destino dos participantes do premiado filme de Fernando Meirelles desenhando um autêntico panorama do país cheio de desigualdades e mazelas. A conclusão é que, apesar do filme ter sido reconhecido mundialmente, poucos dos que debutaram na fama conseguiram manter o ritmo do sucesso meteórico da época do lançamento do filme como Seu Jorge, Alice Braga e Thiago Martins. A maioria sucumbe ao triste esquecimento na sombra de uma obra premiadíssima que rende muito dinheiro até hoje.cidade-de-deus-10-anos-depois

Teatro: Cabaret

O palco do teatro Procópio Ferreira na Rua Augusta em São Paulo transforma-se no enfumaçado Kit Kat Club envolto em irresistível atmosfera decadente de uma Berlin dos anos 30 graças à eficiente solução de integrar mesinhas com parte da plateia ao cenário. O recurso já havia sido utilizado em montagens como aquela off-Broadway no final do século passado no lendário Studio 54 em Nova Iorque.

Trata-se do musical “Cabaret” de Harold Prince imortalizado por Liza Minelli no famoso filme de Bob Fosse. Cláudia Raia é a estrela desta produção memorável interpretando a inglesa Sally Bowles, a prostituta-cantora sonhadora do lugar que se envolve com o escritor americano Cliff Bradshaw (O pálido, mas competente Guilherme Magon que substitui Gianecchini originalmente escalado, afastado para tratar um linfoma) no período de ascensão do nazismo antes da guerra. A versão brasileira de Miguel Falabella com direção geral de José Possi Neto está irretocável.

Cláudia está perfeita e linda, no auge de sua forma física e profissional (44 anos) dançando como nunca com um entourage belo e talentoso valorizado pelos figurinos sensuais e espetaculares de Fabio Namatame baseados em lingerie. O mestre de cerimônias é vivido pelo vigoroso Jarbas Homem de Mello com voz poderosa e presença de cena impressionante sustentando números musicais realçados com a coreografia criativa de Alonso Barros e a boa tradução de Falabella destacando momentos inesquecíveis como “Willkommen”, “Mein Heir”, “Two Ladies” e “Money, Money (Grana)” com Cláudia ostentando 20 mil pedras de cristais Swarovski. Vale lembrar as emocionantes interpretações solo de “Maybe This time” e do hino nazista “Tomorrow Belongs to me” bem como sua reprise em coral. Ao contrário de Jarbas, que construiu um personagem forte e bastante diferente, mas não menos brilhante do genial Joel Grey nas telas, Cláudia dá o tom cinematográfico reproduzindo gestos, olhares e tons sem imitar, como já havia feito no memorável “Sweet Charity” quando mixou habilmente as composições de Giuletta Masina e Shirley Maclaine.

Bob Fosse certamente aprovaria o conjunto da obra lamentando talvez o fato de que a magnífica orquestra está oculta na concepção deste show privando a plateia de um charme visual que faz alguma falta mesmo em meio a tanta beleza.

Um senão insignificante num trabalho maravilhoso que deve ser obrigatoriamente prestigiado pelos amantes da boa arte, deixando aquele gostinho de quero mais quando a atriz canta a famosa música “Cabaret” no final.

Carlos Henry, em Nov-2011.

Capitão América: O Primeiro Vingador. 2011

Por Reinaldo Matheus Glioche, 02/08/2011.
Asas da liberdade!

Chris Evans estava receoso em assumir o posto de protagonista de “Capitão América: o primeiro vingador” (Captain America: the first avanger). Ele tinha medo de não estar à altura do desafio. Foi a partir de sua hesitação que Kevin Feige, o mega produtor da Marvel Studios, teve certeza que Evans era o Capitão América ideal. Não dá para dizer que Evans usou esse expediente da dúvida na sua composição de Steve Rogers, o franzino patriota que se vê como cobaia do exército americano para se tornar um supersoldado, mas é possível entender o raciocínio de Feige quando os créditos sobem. Evans facilita a identificação com Rogers em uma performance carismática, envolvente e rigorosa. Tanto antes de se tornar o Capitão América quanto depois.

E o filme se esmera em seu protagonista como que dependesse dele para alçar voo. Joe Johnston se recupera do tenebroso “O lobisomem” com essa aventura deliciosa em que o nazismo é pano de fundo para o surgimento do herói americano mais categórico em termos etimológicos.

Capitão América: o primeiro vingador”, diferentemente do que se poderia supor, não é mero link para o “Os vingadores”. É um filme sólido, com ótimos momentos e uma trama, embora simplista, bem delineada.

Não se avexa de satirizar a própria figura ao submeter o Capitão América ao jugo da propaganda pró-guerra. Uma bifurcação de uma ideia já incutida no primeiro “Homem de ferro”. É lógico que todo aquele componente patriota, que desagrada a tantos, está presente. Mas de maneira inteligente, a produção evita os exageros e ainda brinca com o fato em uma fala do Caveira vermelha (encarnado com prazer pelo australiano Hugo Weaving ): “A arrogância pode não ser exclusividade dos americanos, mas ninguém é melhor do que vocês nisso”.

Capitão América: o primeiro vingador” não deseja ser sério como X-men ou profundo como Batman, mas preenche uma lacuna nessa seara dos filmes de heróis: é o tipo de entretenimento para as famílias. Pode-se argumentar que esse não seria o público alvo, mas a Marvel com este filme vem flexibilizar essa noção de público alvo. Talvez por isso, Johnston, que foi assistente de Steven Spielberg em alguns filmes de Indiana Jones e começou de maneira promissora na direção com “Jumanji”, recupere a boa forma a frente de um filme formatado para levar a outro, mas com a incumbência de angariar mais fãs. Nessa conjunção de ambições, “O primeiro vingador” se mostra mais do que bem sucedido.

O elenco, afinadíssimo, contribui para o sucesso da fita. Tommy Lee Jones está impagável como o coronel cheio de frases de impacto que hesita em depositar a fé que Peggy Carter (Hayley Atwell) põe em Rogers. Toby Jones, Stanley Tucci e Dominic Cooper também fazem participações inspiradas.

No final das contas, a fita é essa produção incapaz de desagradar. Em tempos que até a Pixar deu marcha a ré com “Carros 2”, voltar ao passado com o Capitão América é um alento e tanto.

Amen. (2002)

Como este artigo irá falar sobre os problemas e implicações do ser humano através do filme Amen., do cineasta grego – e totalmente politizado – Costa-Gravas, vale ressaltar que contém alguns SPOILERS que podem estragar o prazer daqueles que gostam de desfrutar uma história sem conhecer sua trama principal. Porém vale ressaltar que Costa-Gravas não faz filmes de suspense, nem de terror, nem de comédia, sendo que nada do que for dito aqui irá comprometer o resultado impactante do filme. Sendo assim, fica a seu critério: ler este artigo para se interessar pelo filme ou assistir o filme para se interessar pelo artigo. Dado o recado, vamos as devidas análises que proponho discutir.

Não irei falar sobre os detalhes do filme. Não irei me ater ao nome dos personagens, situações corriqueiras, e outros afins. O que interessa é apenas a ideia principal.

O filme se passa na Alemanha em pleno nazismo, diversos soldados alemães vivem o seu dia-a-dia normalmente: têm rotinas de patrulhamento, visitam suas famílias nos dias de folgas, vão à igreja e se divertem no tempo livre. Diversos judeus estão sendo recrutados para trabalharem em campos nazistas em atividades que desenvolvam ainda mais o país. Um dos soldados alemães – e também um dos dois personagens principais da trama – é um químico que desenvolve um produto de limpeza eficiente, onde uma pequena quantidade basta para limpar grandes proporções.

Porém, inesperadamente, o exército alemão começa a encomendar grandes quantidades deste produto. De pronto, este soldado atende a demanda com bastante satisfação, ao saber que sua invenção está a contento os militares. Porém, no decorrer do tempo, ele estranha que esta quantidade sempre aumente, visto que não existe a possibilidade de utilizar este produto apenas com fins de limpeza. Decidido a investigar o que estaria por trás, primeiramente ele questiona um dos responsáveis por fazer a encomenda: rasgando elogios, o questionado e mais um pequeno grupo decide levar este soldado para observar com seus próprios olhos o porquê encomendas maiores se fazem necessárias.

Ao chegar no local, o questionado pede para o soldado espreitar através de um buraco criado para observar uma enorme casa. Enquanto isto acontece, ele começa a explicar: “Antes de utilizarmos o seu produto, demorávamos horas e horas para matar os judeus através destas câmaras de gás. Eles ficavam agonizando por grandes tempos, o que era muito caro para nós, visto que a demanda aumentou e precisávamos cumprir a nossa meta de chacinas diárias. Com o seu produto, as mortes se tornam muito mais rápidas. Bastam apenas alguns minutos.”

O soldado observa perplexo e fica desorientado. O questionado responde que ele está fazendo um grande bem aliviando as dores daquelas pessoas de forma rápida e ajudando a Alemanha a fazer uma verdadeira limpeza racial. Não irei me ater a isto, porém perceba a interessante relação entre o produto de limpeza comum, para limpar imundices, e a utilização do mesmo com o propósito de limpeza racial. Só esta comparação nos levaria a longas discussões no que se refere as divergências no tratamento humano orientado à uma posição social (seja religiosa, econômica ou racial).

A primeira coisa que podemos afirmar em relação à reação do soldado é que ele desconhecia os fatos, que tratavam do genocídio e extermínio de judeus na Alemanha. Se ele desconhecia os fatos, surge a esperança de que outras pessoas no exército nazista também desconheciam. Em segundo lugar, a sua reação após conhecer estes fatos não foi de alegria ou aceitação, pelo contrário, foi de angústia e enorme surpresa. Ou seja, as motivações para aquele extermínio não estavam explicitas, logo, não era um consenso.

Sabendo destas coisas, o soldado entrou em conflito: estavam usando o seu produto para matar pessoas – sim, pessoas – sem o seu consentimento. E ainda aproveitaram a deixa para encomendarem ainda mais produtos para a mesma finalidade. Ele não podia negar uma solicitação do seu próprio exército, que representava os interesses de seu país. Então, como ele poderia salvar as vidas que estariam condenadas por sua criação? Como ele poderia denunciar esta abominação sem ser considerado traidor? Será que, ao saber destes acontecimentos, o povo e as autoridades de seu país aprovariam o que estava acontecendo? Eram muitas as questões que estavam em sua cabeça no momento.

A pressão começou a fazer com que o soldado começasse a tomar algumas atitudes estranhas. Não sabendo como fazer, resolveu se aconselhar com o padre de sua igreja local. Para ele, era óbvio que a igreja não toleraria a morte de outras pessoas de forma tão covarde e desleal. Ao mencionar os acontecimentos ao padre local, e inclusive solicitar que seu relato fosse transmitido aos frequentadores da igreja, o mesmo se recusou a prestar-lhe a ajuda necessária, afirmando que ele jamais poderia ficar contra os interesses do exército, visto que eles representavam a vontade dos comandantes de seu país. Se ficasse seria acusado de traidor e seria condenado a pena de morte.

Um jovem padre, com menor autoridade e que escutou tudo (este é o segundo protagonista do filme) resolve ajudar o soldado e recontar a sua história para uma hierarquia mais elevada da igreja, visto que seu pai era muito influente dentro do Vaticano e trabalhava como assessor de imprensa do Papa. Mesmo com o relato chegando nos mais altos níveis de hierarquia, a igreja se recusa a se intrometer nesta questão, chegando à dizer que o problema dos judeus não é um problema cristão.

O desenrolar do filme, e seu tronco principal, demonstrar as diversas tentativas frustradas de, tanto o soldado como o jovem padre, quererem denunciar o extermínio dos judeus e as pessoas, principalmente a igreja, fecharem os olhos e os ouvidos sobre estes acontecimentos. Chega ao cúmulo do jovem padre forçar um encontro com o próprio Papa, relatar os acontecimentos, receber a promessa de que a santidade falaria ao vivo, em rede internacional, sobre o que acabara de ouvir, como forma de intervenção, e ele não cumprir com a sua promessa.

No fim, os dois entram em colapso: o jovem padre entra em um trem com diversos judeus, com uma estrela de Israel costurada em sua batina, rumo a um campo de concentração, e passa os seus dias trabalhando no local. Como ele foi reconhecido como padre, e por portar a estrela de Israel, os soldados nazistas o forçam a trabalhar no enterro de corpos de judeus (que seria considerado um castigo muito cruel).

O soldado-químico tenta novamente argumentar com outros soldados do exército se o povo alemão sabia o que estava ocorrendo ali. A resposta: “O mundo inteiro sabe!“. Esta resposta deixa o soldado-químico ainda em maior crise, visto que a resposta enaltece a sua ingenuidade simultaneamente com a certeza que independente do que ela faça, nada mudará pois as pessoas não querem mudar.

A maioria das conclusões deste filme podem ser retiradas de suas próprias análises. Costa-Gravas é um cineasta que faz provocações para lhe permitir refletir acerca das situações colocadas. O ponto de destaque que gostaria de apontar é a capacidade do ser humano em não se intrometer em assuntos que não lhe diz respeito, independente do que seja. Isto amplifica a visão egoísta e egocêntrica a respeito do homem, que se preocupa apenas com os fatos que estão dentro do seu próprio universo de relações. Parece que tomar isto como verdadeiro pode ser um disparate, visto que entre o nazismo e a contemporaneidade há uma enorme diferença, porém perceba que a fórmula essencial continua a mesma: podemos ver um mendigo na rua e achar suas vestes ou sua aparência engraçada, e diante de uma tragédia anunciada, conseguimos sorrir e sermos indiferentes aos acontecimentos. Pai mata filho e filho mata pai, e, diante desta realidade, descobrimos como fazer uma ótima piada contendo estes ingredientes.

Além desta falta de sensibilidade, é possível destacar também outro ponto: a satisfação em saber que um adversário ou concorrente está por baixo. Neste caso, me matéria de religiões, é a igreja católica satisfeita em saber que os judeus estão sendo massacrados. Pois poderia haver interferência! Não houve, justo que não era de todo ruim para o catolicismo que esta tragédia acontecesse. Nos dias de hoje, podemos ilustrar com torcidas de futebol: palmeirenses estão satisfeitos com a tristeza dos corinthianos, devido ao rebaixamento para a série B do futebol brasileiro. Num nível mais agressivo, são paulinos estão satisfeitos, ainda que não tenham participado diretamente, em verem torcedores santistas sendo agredidos violentamente, de tal forma que não interferem na briga (não para que não se machuquem, mas para que seus opositores possam apanhar ainda mais).

Para concluir, segue um terceiro ponto-de-destaque: histeria coletiva gerada por um acontecimento de massa. Como a própria descrição sugere, é quando a boiada estoura. Não há nenhuma razão aparente para desencadear uma série de acontecimentos anormais, que inibe a racionalidade, aumenta a animalidade, assim como a força e o descontrole, de tal forma que sugerimos que o homem é um animal irracional. No filme, esta expressão se dá com o nazismo e o massacre dos judeus. Por mais que a ordem venha de cima, o homem tem a sensibilidade de executar ou não tal ordem, mas justamente por não ser uma iniciativa própria, não consegue se sentir culpado. O nazismo é uma histeria que contagiou a todos os soldados alemães. Passou a ser divertido matar judeus, ainda que fossem crianças de colo.

Eles passaram a enxergar judeus como insetos, e não havia nada de errado neste estado de ânimo que eles se encontravam. Nos dias de hoje, podemos aplicar esta histeria coletiva em alguns atos de vandalismo que observamos, como no exemplo dos garotos de classe alta que incendiaram um índio que estavam dormindo. Laranja Mecânica In Loco. Algo totalmente irracional despertou nestes selvagens, motivados não-sei-pelo-quê e não-se-sabe-por-onde a cometer tamanha atrocidade. Os chamados PitBoys, que são garotos que fazem lutas marciais e que saem a noite em busca de confusão, se enquadram no mesmo princípio.

Enfim, entre tantos pontos-de-destaque, o filme serve, acima de tudo, para demonstrar a ignorância, a mesquinhes, e incapacidade do homem em ser humano. Demonstra que a ética e a moral são apenas disciplinas de Direito e de Filosofia, e que não servem na praticidade para absolutamente nada.

E sabe o que é o pior? É que o filme, infelizmente, não mostra nada de novo. Serve, entretanto, para relembrar quem somos e isto incomoda bastante. Filme perturbador. Eu recomendo!

Por: EvAnDrO vEnAnCiO.   Blog: EvAnDrO vEnAnCiO / Universo Hiper-Real.