Cartas para Julieta (Letters to Juliet. 2010)

Doce contentamento já passado,
em que todo o meu bem já consistia,
quem vos levou de minha companhia
e me deixou de vós tão apartado?
” (Camões)

Ter Vanessa Redgrave atuando já é um belo convite para que eu assista a um filme. Franco Nero, também. Se bem que com ele nos Westerns de outrora a memória já não ajuda mais. Com ele o que ainda está na memória é seu personagem em ‘Querelle‘. Somado a eles em saber que veria a Itália. Suas paisagens sempre me agradaram. Completaria se tivesse uma Trilha Sonora apaixonante já que Romances na Itália me faz pensar em músicas lindíssimas. Mas isso viria com o desenrolar do filme. Assim, lá fui eu assistir ‘Cartas Para Julieta‘.

Com o início do filme também me peguei a pensar em porque o casal escolheria para uma pré lua de mel Verona. Mas precisamente cenário de ‘Romeu e Julieta’ – de Shakespeare. Seria um teste para ver se o amor deles não morreria?

O porque da escolha de Verona. Para Sophie (Amanda Seyfried) não restara outra opção. Ela queria sim um tempo maior com seu noivo, Victor (Gael García Bernal), porque ele logo inauguraria o seu próprio restaurante. Então ela queria uns dias juntos, só ela e ele. A questão é que o local fora escolhido por Victor. Porque iria ver os fornecedores – vinhos, queijos, frios, azeites… -, para o restaurante. Assim, o cenário shakespeariano para ele era de fato uma viagem de negócios. Nada a ver com a viagem romântica que Sophie planejara.

Embora Sophie trabalhasse numa grande Editora seu trabalho era de apurar dados de um fato. E talvez por ter estado envolvida com a sua mais recente pesquisa – encontrar quem seria o marinheiro sorridente na famosa foto ‘O Beijo na Times Square‘… -, a levou a fantasiar que encontraria a inspiração sob o balcão da Julieta. Além de uns dias in love com Victor. Bem, eu me considero uma pessoa muito romântica, mas também não posso negar o meu lado prático. Dai, se o meu propósito seria escrever uma longa história romântica eu estaria sim fazendo pequenas anotações. Sophie só passou a anotar, a escrever, a partir de uma história que já contarei. Quase uma história pronta como se só lhe faltasse transcrever; colocar no papel uma história alheia. Posso até aceitar como o iniciar de uma carreira literária, mas a personagem parecia um tanto quanto superficial.

Pois se Sophie queria ser mesmo uma escritora… Por que não ia colhendo dados ao acompanhar Victor nas fazendas? Pelo menos já teria um belo background para uma história, e até uma romântica. Acontece que ela não se sentia integrada naquele contexto do seu noivo. Isso já fica evidente quando sente que a sua mão ficou suja com a farinha (trigo) da massa que Victor fizera. E ele estava entusiasmado, como se tivesse inventado o macarrão.

Como podem ver a tal lua de mel estaria relegada aos intervalos que possivelmente ambos teriam com essa viagem. Enquanto isso, Victor era um entusiasmo só, saboreando, como também aprendendo: receitas e a História de cada produto. A única coisa que estava lhe escapando do olhar, era a sua noiva. Que sentiu suja a mão de farinha, mas não fez o mesmo com um sorvete na cara de um outro cara…

Sem a companhia do noivo Sophia vai visitar os pontos turísticos de Verona. Sentada sob o balcão de Julieta fica observando e quem sabe clamando por uma inspiração. Aqui, um outro detalhe a faz uma personagem sem consistência. Pois se queria tanto aproveitar a viagem para escrever um livro e sendo a trama do filme no tempo atual, logo há a internet. Ela já deveria ter lido antes sobre o que fizeram do tal cenário de Shakespeare nas últimas décadas lá em Verona. Até me causou espanto do dela ao ver uma jovem indo embora chorando muito. Não lhe passou pela cabeça que a jovem estava sofrendo por amor?

Saindo um pouco da ficção e falando de Turismo e Marqueting… É que quando governos pensam de fato em investir no Turismo local, conseguem mesmo. Porque turistas geram Receitas. Claro que tem que ter um planejamento, um certo controle para não causar danos ambientais ao local. E foi por ai que fizeram em Verona. Aproveitaram da história do livro para também atrair um outro tipo de Turistas. E a Casa da Julieta alugam até para casamento. Um pouco de Verona:
Verona sabe muito bem o que a faz famosa: a história que data dos tempos romanos, uma localização que a fez ser disputada pela Itália e por outros países europeus, além de algumas das mais bonitas arquiteturas romana, românica, gótica e renascentista de toda a península. Mas tirando os veroneses, pergunte a qualquer outra pessoa o que mais ela conhece sobre a cidade? Romeo e Julieta. Isso mesmo. Em Verona também temos uma casa com balcão.
A família Capuleto, de Romeo e Giulieta, realmente existiu, embora nunca tivessem morado na casa que hoje se chama Casa Giulietta (Via Cappello 23, 045 803 4303). Mesmo assim, os turistas ainda se espremem no pequeno pátio para olhar a varanda, que na verdade foi construída nos anos 1920 para que tivessem algo palpável para olhar. A casa pode ser visitada, mesmo que seja para pisar na varanda e voltar.
” Tem mais aqui: http://www.guiatimeout.estadao.com.br/italia_verona_contexto .

Voltando ao filme… Numa tarde, já quase hora do fechamento, ela vê uma jovem recolher as cartas deixadas por turistas num muro da casa da Julieta. Curiosa, Sophie a segue. A mulher encontra-se com outras num restaurante que tem como nome: Cartas para Julieta. Elas vão para o interior da casa. Sophie as segue e pergunta do porque de recolherem as tais cartas. A jovem em questão é Isabella (Luisa Ranieri). Que explica que ela e as outras – Francesca, Donatella e Maria -, respondem as cartas. Patrocinadas pela Prefeitura. À cada uma um tema específico nessas respostas: conflitos matrimoniais, doenças, perdas

Interessada em algo de fato desde que chegou a Verona Shophie então investe seu tempo em acompanhar o que elas fazem. Indo ajudar Isabella com as cartas, ao retirar uma cai uma pedra do muro. Ela retira uma carta que estava lá dentro. Ao ler vê que fora escrita a 50 anos atrás. E que contava de um grande amor entre dois jovens: ela, uma inglesa, e ele, um italiano. Se conheceram durante uma passagem dela pela Itália. Na carta dizia que estava dividida entre ficar, fugir com ele, ou seguir de volta a Londres com os pais. Já que esses proibiram o namoro. Todas começam a divagar sobre o que teria acontecido depois: se Claire ficara na Itália com o Lorenzo, ou não. Sophie pede para responder a Claire.

Continuando sem ter o noivo ao seu lado… Eis que um jovem inglês bravo se faz presente. Era Charlie (Christopher Egan), o neto de Claire. Ele acompanhara a avó à Itália. Claire aceitara a sugestão de Sophie na carta. Embora décadas se passaram ela queria estar com o seu grande amor Lorenzo. Charlie achava aquilo uma loucura, mas amava a avó para deixá-la sozinha nessa aventura. Claire conta que o conhecera em Siena; viera fazer um Curso de Arte em Toscana. Se valendo do seu talento em apurar dados, Sophie traça num mapa os vários Lorenzo Bartolini daquela região. Então os três seguem juntos nessa busca. Desde aquele que se diz ser o seu jovem Lorenzo, passando até por aquele que a própria esposa pede que o leve, será um longo caminho a ser percorrido…

Cartas Para Julieta‘ trata-se de uma Comédia Romântica com um pouco de Drama. Assim, com todos os ingredientes desse gênero. Logo, não há surpresas no que irá acontecer. O Roteiro também não ajuda muito: é bem mediano. A Trilha Sonora que poderia ser um grande coadjuvante ficou perdida. Com uma ou outra música que combinaram de fato com a cena.

Então, o que fez valer a pena ter assistido? Além de um belo Tour por essa região da Itália.

Gael Garcia parecia uma criança brincando feliz num parque de diversão. Tão esfuziante que acabou passando do tom num solo onde a trama do filme não pedia. Por suas outras passagens em outros filmes fiquei pensando que a Direção falhou muito. Em relação a Amanda Seyfried me peguei a pensar se já fui com um certo olhar crítico já que não gostara também da atuação dela em ‘Querido John‘. Enfim, quem fez de fato valer a pena ter assistido ‘Cartas Para Julieta‘ foi ela: Vanessa Redgrave. Uma das Grandes Divas do Cinema. Vê-la atuando é uma grande aula. Além do que é muito bom em ver em cena um par romântico com atores mais maduros. Franco Nero, casado com ela na vida real, deu química no romance da tela. Como um cavalheiro à moda antiga não catalizou para si os olhares mesmo tendo tão belos olhos. Foi também para a Vanessa a emoção sentida no reencontro.

Então é isso! ‘Cartas Para Julieta‘ é um bom filme, mas que não entrou para a minha lista de querer rever. Quem sabe passado um longo tempo e numa exibição pela televisão.

Por: Valéria Miguez (LELLA)

Cartas para Julieta (Letters to Juliet). 2010. EUA. Direção: Gary Winick. +Cast. Gênero: Comédia, Drama, Romance. Duração: 105 minutos.

(1*) A foto do Balcão da Julieta, foi cortesia desse site: http://www.freefoto.com/

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Frost/Nixon (2008)

frost-nixon

Quão longe se pode levar privilégios executivos antes que se tornem algo anti-democrático?

Filmaço! De ainda faltar uma meia hora e eu querer que não terminasse. O duelo que temos na entrevista com os personagens do título é sensacional. ‘Frost/Nixon‘ nos traz mais que a falta de Ética de um Presidente, e sim um ato criminoso que fez e tentou encobrir. Esse é um filme que dá vontade de rever logo em seguida.

Pois nessa primeira vez, claro que não dá para não pensar que um deles representa o Richard Nixon. O primeiro Presidente dos Estados Unidos da América a renunciar não apenas para se livrar de um impeachment, mas livrar a si próprio de um ato ilegal que fizera usando-se do cargo ocupado. O escândalo Watergate manchou a Casa Branca de forma definitiva aos olhos do mundo. É algo que não puderam esconder debaixo do tapete.

Depois, ciente do que foi revelado, ou mesmo por ter refrescado a memória, seria então para ver o duelo de dois homens, desacreditados por todos, tentando voltar ao topo. Acontece que nessa tábua de salvação só deixaria lugar para a volta de um deles. E nem seria pela diferença de idade entre ambos. Mas sim por ser o preço da arma que iriam usar: a televisão americana. Para retornarem ao palco pretendido, precisavam agradar ao grande público. O cidadão comum que endeusa quem sai bem na telinha. Até por querer também estar nela. Independente do que já fez no passado.

O filme começa mostrando os que estiveram por trás dos dois. É o primeiro escalão dos bastidores sendo entrevistado. Mas creiam, nem dá para fazer idéia do que irão ver, e saber, na entrevista principal.

Segue mostrando como Frost e Nixon chegaram a ela. Pois de um lado temos David Frost (Michael Sheen), então apresentando um programa de auditório; na Austrália. Logo, tendo uma claque por trás a lhe dar um suporte falso se realmente seria bom no que fazia. Querendo muito voltar a febre novaiorquina, as televisões da grande maçã. No outro, Nixon (Frank Langella), três anos após a sua renúncia, às vésperas de publicar um livro, e cansado do ostracismo político. Precisando para isso, ser entrevistado por alguém nada intelectual, nem com os vícios dos já famosos entrevistadores, ou dos jornalistas. Ambos, pensando que seriam o caçador, que o outro seria presa fácil.

Há, quando ambos se conhecem. Também como Frost tenta captar recursos financeiros para realizar a entrevista, e até para pagar o alto cachê de Nixon. Para então começar as gravações de fato. Como não há o ponto eletrônico, vence o round de cada uma das sessões quem fez bem a lição de casa. É fascinante! Principalmente num certo encontro onde apenas estão só os dois. Aqui, por um acreditar que fará picadinho do outro, acaba por…

Bem, mesmo mostrando um fato real, contar mais, ficaria difícil não trazer spoiler. Assim, paro por aqui, reforçando o convite para não deixarem de ver esse filme. A que eu dou nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

FROST/NIXON (Frost/Nixon). 2008. EUA. Direção: Ron Howard. Elenco: Frank Langella (Richard Nixon), Michael Sheen (David Frost), Sam Rockwell (James Reston Jr.), Kevin Bacon (Jack Brennan), Matthew Macfadyen (John Birt), Oliver Platt (Bob Zelnick), Rebecca Hall (Caroline Cushing), Toby Jones (Swifty Lazar). Gênero: Drama, História. Duração: 122 minutos.

Ensinando a Viver (Martian Child. 2007)

ensinando-a-viver_2007Parece que certos adultos esquecem que já foram crianças um dia. Pelas atitudes que tomam. Ou pior, pelo que acabam fazendo. E aqui, nesse filme, uma dessas coisas estaria em impor um prazo. Prazo? Não. Não para uma dupla que se dispuseram a ver se seriam pai e filho!

A vontade em adotar uma criança partiu de um casal. Mas eis que a companheira se foi. Faleceu. Tudo parecia esquecido, ou sepultado, até que por delicadeza… Ou seria o destino? Bem, o lance foi que David (John Cusack) em vez de morrer com aquele assunto por telefone, vai pessoalmente explicar a Diretora do Orfanato (Sophie Okonedo). E por curiosidade pergunta porque ele fora lembrado, ainda mais sendo um viúvo. Pois deveria ter casais na lista de espera.

Abrindo um parêntese. Em “Juno” temos aqueles que querem adotar uma criança, mas ainda quando é bebê. Nesse, “Ensinando a Viver“, a adoção já atinge as crianças mais crescidas. Que já tem consciência do que fazem ali. Sentindo mais a rejeição, o medo, a perda de um carinho, de um lar. Enfim, é um quadro triste,  como também cruel com esses inocentes. Voltando ao filme.

David fora lembrado por ser um escritor de ficção científica. Pois o pequeno Dennis (Bobby Coleman) diz ter vindo de Marte. Daí o título original do filme. Embora uma luzinha se acende em David, ele recusa. Diz que não está preparado. Acontece que mais alguém quer isso. Gente! Momento lindo esse! Uma amiguinha de orfanato que faz essa ponte entre David e Dennis. Talvez numa de: “Ele tem menos chances que eu em ser adotado.” E consegue que David olhe para o pequeno marciano.

Ao conversar com a irmã (Joan Cusack), mais do que fazê-la acreditar que ele mesmo estando sem uma mulher do lado, ele e o menino serão uma família, fazendo-a lembrar a criança que ele fora, que não se adequava ao grupo, um solitário, reacendendo a sua própria infância, ele se sente, se vê como um pai para o Dennis.

Mas por considerarem Dennis uma criança problemática, David em vez de aliados, tem do Conselho Tutelar uma ducha fria. Eles não facilitam em nada. Então David os convencem ao dizer: “E uma das coisas que eu aprendi sobre fantasia, na minha vida, é que pode ser uma técnica de sobrevivência. Funciona como um mecanismo de fuga, uma maneira de lidar com os problemas que são maiores que você, maiores do que você é capaz de lidar.

Além dessa vigília em torno dessa adoção, de ter um tempo limite, de ter seu agente lhe dizendo que o prazo para entregar um novo livro está se esgotando, David tem o de chegar ao Dennis. Em estabelecer um contato. Em fazê-lo entender que eles agora serão pai e filho. E que não é nada fácil. Dai, numa cena onde ele recusa a mãozinha de Dennis, a voz do nosso coração pode até não acreditar, mas que a voz da razão entende o porque.

Enfim, temos nesse filme um homem e um menino num diálogo onde todos os sentidos entram. Numa troca onde tudo é válido. Quer seja assistindo uma partida de baseball, onde diz que mesmo errando muitas vezes, ainda assim terá chances de mostrar o seu valor, que não se deve é desistir. Quer seja usando a linguagem da dança. E mesmo com todas as imposições, eles seguem sem pressa.

Ah! Anjelica Huston faz uma participação para lá de especial. Embora curtinha, marcou presença!

A trilha sonora veio somar na história desses dois. Como nessa música de Cat Stevens, “Don’t Be Shy”: “Levante a cabeça e deixa que teus sentimentos saiam.“.

Gostei! Nota: 8,5.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Ensinando a Viver (Martian Child). EUA. 2007. Direção: Menno Meyjes. Com: John Cusack, Bobby Coleman, Amanda Peet , Joan Cusack , Oliver Platt , Sophie Okonedo, David Kaye. Gênero: Comédia dramática. Duração: 106 minutos.