O Som ao Redor (2012)

o-som-ao-redor_2012Por Carlos Henry.
Em meio a enxurrada de filmes medíocres e grosseiros que infesta o cenário do cinema nacional em busca de bilheteria certa nos últimos tempos, “O Som ao Redor” surpreende especialmente por ter um diretor novato: O talentoso Kleber Mendonça Filho.

o-som-ao-redor_cenaÉ uma obra incomum, aclamada internacionalmente, repleta de insinuações e um suspense quase insuportável de algo terrível que nunca acontece. A trama é simples: Gira em torno de um poderoso “Senhor de Engenho” que expande seus negócios no ramo imobiliário em uma área urbana elitizada de Recife, marcando sua influência despótica naquela região onde se concentra a ação do filme. Os personagens, encarnados por atores desconhecidos, começam a desfilar suas características cercados por condomínios gigantes e uma superpopulação incômoda que inclui uma porção mais carente. Uns convivem pacificamente com seus supostos opressores, a classe mais rica; outros agem com mais agressividade. Este jogo sutil de camadas sociais conflituosas permeia todo o roteiro e norteia a trama a um confronto hierárquico representado por um violento acerto de contas num desfecho dúbio, impactante e original.

De um lado a força do dinheiro, acima de tudo, ignorando ameaças como o aviso de tubarões à beira-mar; do outro, um povo oprimido que não titubeia em reprimir por pequenos delitos mas teme um menino delinquente por conta de sua posição social. A tensão constante gerada pelas diferenças e pela densidade demográfica recheia a obra com latidos de um cão vizinho que incomoda, crianças que ajudam a mãe a relaxar, mulheres que se engalfinham sem razão específica, empregadas que se rebelam, encontros furtivos de casais na casa alheia (com direito a um susto hitchcockiano) e num cinema abandonado (Uma sequência antológica de rara beleza). Tudo realizado com uma sensibilidade cinematográfica impressionante.

Seria uma injustiça não mencionar a trilha sonora especialíssima e o som direto que dá o tom e nomeia o filme, enchendo a sala com barulhos de carro, animais, crianças, máquinas e ruídos da cidade superpovoada insinuando um perigo iminente e sem hora marcada.

É talento indiscutível, com sotaque nordestino.
Carlos Henry.

Léo e Bia. (2010). A Radiografia de uma Época

Quem não pode atacar o argumento, ataca o argumentador.”

A frase acima dita no filme “Léo e Bia” meio que define não apenas toda a obra de Oswaldo Montenegro, mas também os seus fãs, em qual eu me incluo. Um artista que não teve medo de se mostrar por inteiro, em cantar em verso e prosa o seu lado romântico, de não ter sido um engajado ferrenho em plena ditadura, por ter sido um pequeno burguês como muitos de nós. Que sonhava com um mundo melhor em conversas com amigos. Alguém assim termina aos olhos de muitos se tornando um poeta maldito. Mas ele sorri para os críticos de um jeito sereno. Abstrai como uma religião essas pedras pelo caminho. E assim nos identificamos com ele.

Se tudo fosse claro, tudo nos pareceria inútil.”

Oswaldo Montenegro transpos a peça teatral homônima dos anos 80 para a tela do cinema. E o fez de modo magistral! Em “Léo e Bia” o teatro está ali, já que o filme todo se passa num único cenário. Onde quase não há objetos cênicos que me fizeram lembrar de “Pina“, de Wim Wenders. Sendo que nesse filme aqui, mesmo as cenas que saem do tal palco do teatro, são passadas escurecendo o entorno. Para quem assiste nota e não nota essa ausência de cenários porque a presença dos atores aliados ao roteiro e a trilha sonora prende a atenção até a cena final.

Quando você estiver triste, a gente vai fazer teatro, quando você estiver feliz, a gente vai fazer teatro e quando você estiver arrasado, a gente vai fazer teatro”.

Léo e Bia” está centrada num período marcante da História do Brasil. Ambientada na época da Ditadura. Início dos Anos 70. Onde um grupo de amigos usam o teatro também como uma catarse. Se sentem meio deslocados em Brasília. Uma cidade erguida meio que para se ter um poder central, ou o sentimento dele. São jovens nascidos ou levados para morar nela que buscam por uma identidade, e o fazem com essa paixão em comum pelas artes cênicas.

Lúcio Costa e Niemeyer resolveram o problema da pobreza no plano piloto varrendo todos os pobres para as cidades satélites.”

Nessas reuniões, mais que para apenas um laboratório para a peça que irão encenar, eles se desnudam interiormente. Não são jovens alienados, mas sabem que a melhor arma é se ajudarem mutuamente. Existe amor entre alguns deles, mas acima de tudo há a amizade, o companheirismo. Alguns são mais abastados, outros mais humildes.

A ditadura acha que protege, mas na verdade ela tortura.”

O filme aborda o contexto político da época, mas mostrando que muita das vezes ela está dentro de casa. A personagem Bia sofre até fisicamente toda a opressão vinda da própria mãe, mas não se rebela por pena. Como também se sente presa pela forte cobrança que a mãe sempre faz. Já um outro personagem, o Cabelo, sofre pela homofobia tão repressora na época. Mas que ainda é forte atualmente. Também mostra que não se pode transar livremente, ou impunimente. Até porque o peso recairá na mulher. É a gravidez não planejada. Um outro tema tem a ver com as drogas. Até onde ela aprisiona a pessoa.

O povo é burro”. / “O povo é vítima”.

Os jovens estão encenando uma história que faz um paralelo entre Jesus Cristo e Lampião. Política e Religião sempre andam juntas, mas quando uma começa a perder terreno, não medirá esforço para recuperá-lo. “Antonio Conselheiro” que o diga! Não fazem de Lampião um herói, mas um produto do meio. A encrenca maior que arrumam será com a “dona Censura“. Que me fez lembrar do nome “Solange” na assinatura do documento exibido antes de cada filme na época.

Brasília lá em baixo, …era mais do que toda a possibilidade de vôo. Eu sentia a dor que o Léo tava sentindo… Eu amava o Léo. …todo mundo sabia… O Rio me assustava …mas até ter medo era novo. A gente tinha um tédio …de tudo. E aí percebi que seria diretora e protagonista do filme da minha vida. …não ia permitir que nenhum patrocinador influísse… Começou …e ele não é bom nem mal… Mesmo que doa, é o nosso filme! …conduziríamos o barco… o caminho era mais lindo que o barco… Valeu Brasília! Já fomos!

Mesmo ainda muito jovens, eles sentem quando chega a hora de cortarem o cordão umbilical para ir ao encontro do sonho maior: viver do teatro. E aí é hora de saber quem irá carimbar esse passaporte para a felicidade. Saber quem está preso a outros compromissos, outras responsabilidades. É o amadurecimento advindo da tristeza para uns. A dor de não poder ser livre. De não poder ser o protagonista da própria história de vida.

São sete bichos / Sete regras do jogo / Sete provas de fogo / Para a lógica de cada um / São sete mundos / Pelo mesmo planeta / A mesma bola na roleta / E apostando no número um / São sete dores e sorrisos em jogo / Apostando sete corpos em ponto comum / Observando na mesma estação / Os anjos e demônios de cada um.”

E quem são esses sete amigos de “Léo e Bia“?
Léo é o líder do grupo. Adora estimular a todos para que ponham em xeque suas emoções confrontando com o lado racional. Muito criativo, partindo dele as ideias para a peça. Um crítico da realidade, sem perder o lado terno. Tem um ponto fraco: é apaixonado por Bia.
Bia se encontra emocionalmente frágil. Totalmente submissa a mãe. Contida em seus sentimentos até por medo de expor o ódio que sente às vezes pela própria mãe. O que a faz passar por um momento muito sensível. Sabe que terá que escolher entre o amor de Léo ou cuidar da mãe.
Marina é um jorro de otimismo. Mas bem equilibrada. De essência solidária. Mas bem racional. Ufanista. E apaixonada por Léo.
Encrenca é o brincalhão do grupo. Contestador. Adora fazer citações, o que o deixa como um clichê-ambulante. Mesmo que aparenta ser um cara imaturo, será o apoio de uma amiga.
Cabelo é o que veio da cidade-satélite. Por esforço próprio se fez um cara culto. Poliglota. Boa pinta. Elegante até nas atitudes. Sensível, sofre por ter que esconder a sua homossexualidade por causa das reações das pessoas. Só diante dos amigos se pode mostrar por inteiro. Um sonho maior: Paris.
Cachorrinha é a mais animada do grupo. Pelos termos da época: Porraloka. Meiga. Ingênua. Riponga só no exterior, pois ama o conforto da cidade grande. Por acreditar piamente no namorado, irá entrar numa fria.
Brook é o mais rico da turma, ou melhor, o único. Um típico filhinho de papai. Daí, um tanto e quanto inconsequente. Boa gente, mas sem correr risco por alguém. Como também não pesar os contras daquilo que faz. Namora a Cachorrinha.

Ditadura não tem a ver com sexo, tem a ver com estupro.”

A Trilha Sonora é sensacional! Além das cantadas em cena, as de fundo contam com algumas participações como Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Zé Ramalho, Sandra de Sá, Paulinho Moska. Um coadjuvante de peso que juntamente com o elenco afinado e afiado contam, cantam e encantam a história de uma época, que literalmente curta no contexto – 1973 -, marcou profundamente esses jovens. O filme foi baseado em alguns personagens reais. Tudo isso é contado com humor leve, mas por vezes apimentado. E que prende a atenção do começo ao fim. Para uma atualidade mais individualista, é altamente recomendado. Enfim um filme de querer rever! Que eu assisti pelo Canal Brasil.
Nota Máxima!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

LÉO E BIA. 2010. Brasil. Direção e Roteiro: Oswaldo Montenegro. Elenco: Paloma Duarte (Marina), Emílio Dantas (Léo), Fernanda Nobre (Bia), Pedro Nercessian (Encrenca). Pedro Caetano (Cabelo), Françoise Forton (Mãe da Bia), Brookie (Ivan Mendes), Cachorrinha (Vitória Frate). Gênero: Comédia, Drama, Romance, Musical. Duração: 95 minutos. Classificação: Não recomendado para menores de 12 anos. Trilha Sonora: Oswaldo Montenegro.

Albert Nobbs (2011)

A simples menção do nome de Glenn Close o que me vem de imediato é a sua personagem a Cruella De Vil, do “101 Dálmatas” (1996). Até porque esse personagem conseguiu eclipsar um outro também muito forte: a Alex de “Atração Fatal” (1987). A Cruella é impagável! É memorável! Nem dá para imaginar outra atriz fazendo a Cruella. Ambas as personagens, mulheres poderosas, esbanjaram também em sedução, sendo que cada uma a seu modo. Até por conta dessa feminilidade nada tímida, bateu curiosidade em vê-la se passando por um homem. E que pelas primeiras fotos divulgadas, a maquiagem estava perfeita. Faltava então conferir o desempenho. Conferido, e…

Logo nas primeiras cenas, me veio a sensação de já ter visto o filme, ou que já conhecia a história. Foi uma sensação forte. Mas quando eu percebi que meus olhos acompanhavam o personagem, e de um jeito hipnótico, eu então passei a acompanhar “Albert Nobbs” sem pensar em mais nada. E fiquei encantada com a performance de Glenn Close. Ela está soberba! Seu personagem não está apenas travestido de homem. Mesmo com toda a maquiagem. Mesmo com toda a inflexibilidade da postura de um modorno inglês, seu garçom estava nesse patamar. Havia uma tristeza no olhar de Albert Nobbs que doia na alma. Glenn Close conseguiu transmitir pelo olhar a ferida não cicatrizada do que a levou a ser um homem. Mais! Também passou toda a opressão em cima das mulheres daquela época. Bravo Glenn Close!

E o filme “Albert Nobbs” traz uma radiografia de mulheres que mesmo num mundo bem machista mais que sobreviverem queriam de fato viverem. São heroínas, anônimas ou não, que também foram desbravando um caminho dentro da sociedade local. Nós mulheres da atualidade devemos também render homenagens à elas. Que mesmo não pontuando como Personalidade da História Universal, elas fizeram história nas localidades onde viviam.

O fillme “Albert Nobbs” traz sim uma carga dramática muito forte, mas que também nos leva a sorrir pelo caminho que senão escolhido, mas que foram se adaptando as contigências que o destino trazia. Até porque Albert Nobbs não estava sozinho nessa. Também houve mais um “homem” que cruzou em seu caminho. Muito mais safo para as agruras da vida. É o personagem da atriz Janet McTeer, o Hubert. Numa inversão de idades, até porque já sem a armadura externa Nobbs se mostra a adolescente de outrora, Hubert mais que um amigo, se transforma num mentor. Adotando Nobbs por coração.

Há uma máxima que diz que não é mudando de lugar (=localização geográfica) que extirpará um problema. Ainda mais se é da sua própria natureza. No filme há duas pessoas usurpadoras. Que sonham com uma grande mudança, mas culpam o destino por não lhe darem mais chance. De um lado temos o jovem Joe (Aaron Johnson), que acha que indo para a América vai tirar de si o gene ruim do pai. Nem repara que o destino lhe dera uma grande chance de crescer como pessoa, como um homem do bem. Não apenas quando consertou a velha caldeira do Hotel, mas ao conhecer ai, a doce Helen (Mia Wasikowska). Mas os acontecimentos afloraram o que só via no pai. Do outro lado, uma senhorinha que aparenta ser um doce, mas por conta de um incidente, vê a chane de realizar seu sonho. Se bem que essa não dá para condená-la. O destino deu a ela chance de viver mais uns anos feliz da vida.

Albert Nobbs só queria ser feliz. Por anos a fio, pacientemente, buscou por se ver livre até desse novo ser que teve que incorporar. Vislumbrou um outro caminho daquele traçado por pensar que assim teria o controle do seu destino mais rapidamente. Mas fora o seu erro. O destino novamente não lhe sorriu.

Glenn Close quase rouba todo o filme devido a sua atuação. Só não faz pela força da história. Pela forma com que o Diretor Rodrigo García conduz todos os personagens. É um drama comovente, mas em cima mesmo da opressão às mulheres. Nos levando a não esquecer disso, nunca!

Então é isso! É um filme excelente! Diria até, imperdível!
Nota 9,5.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Albert Nobbs (2011). Reino Unido, Irlanda. Diretor: Rodrigo García. Roteiro: Glenn Close, John Banville. +Elenco. Gênero: Drama. Duração: 113 minutos. Basedo no livro “The Singular Life of Albert Nobbs”, de George Moore.

A Separação (Jodaeiye Nader az Simin. 2011)

Por Alex Ginatto.
Pude assistir ontem a este surpreendente filme. De início acho que fui um pouco preconceituoso por se tratar de um filme iraniano, mas o enredo se aplica a qualquer lugar do mundo, talvez se focarmos um pouco menos na religião.

Realmente conseguimos sentir a aflição de todos os lados:
-o marido orgulhoso que não quer que a esposa se vá, mas também não diz isso a ela;
-a esposa, preocupada com o futuro de sua filha, querendo sair do país, mas não suportando a ideia de que o marido não concorde com ela;
-a filha em uma época complicada, diante da separação dos pais, se vendo como objeto de disputa;
-o senhor que não pode vencer o corpo e mente desgastados pela doença;
-o casal mais pobre entre a religião e o dinheiro devido aos credores.

O filme se mostrou muito maior do que se imagina pelo título e acho que a ideia do diretor ao finalizar sem um lado é justamente focar no todo e não somente na separação do casal.

Tudo o que acontece durante o filme é fruto de mentiras e decisões precipitadas iniciadas pela saída de Simin de sua casa. Ou seja, a separação é o início de tudo, e o filme termina com a certeza de que o que fica pendente durante todo o seu desenrolar, ao contrário do que parece, tem um fim, se concretiza.

Não sei se para rever, mas para se pensar e aplicar em nossas vidas.

Excelente filme!
Nota 8.

A Separação (2011). Ou: o Declínio da Família Contemporânea.

E quem estaria com a razão? Todos… Ninguém… Pois tanto em termos da natureza humana, quanto da sociedade, tudo dependerá de seu próprio ponto de vista.” (Asghar Farhadi)

O filme “A Separação” traz em primeiro plano uma reação em cadeia devido a separação de um casal. Pois quase todos os envolvidos se viram na obrigação de mentir, ccomo também de omitirem certos fatos. E que para alguns deles o que antes parecia ser uma mentirinha de nada, tomou um rumo inesperado.

Agora, seria mesmo uma casualidade de chegarem ao ponto onde chegaram? Que ao mentirem crendo ser com boas intenções não haveria implicações? Até porque para manter a mentira que se contou terá que obter pelo menos o silêncio de outros envolvidos. E estando de posse da mentira do outro, teria como se eximir da própria? O ato de mentir traria muito mais o peso do pecado ou o do perjúrio? Mas e quando Religião e Estado ocupam o mesmo estado de direito? Mais! E quando o Sistema Judiciário, sobrecarregado, se perde nas próprias malhas da Lei? A sucessão de erros fora por que alguém não segurou a onda? Mas quem, ou melhor, o que foi o ponto inicial desse drama familiar? Que terminou envolvendo outras pessoas. Onde inocentes ou culpados todos pagaram um preço.

Além dessas reflexões, o filme também traz um outro tema: o de ter um membro da família já idoso, com o agravante de precisar de atenção e cuidados por quase 24 horas diárias. Interná-lo, ou mantê-lo em casa? Quando a renda familiar não permite colocar profissionais para esses cuidados, aceita-se qualquer um? Mas nesse filme vemos um outro ponto. A mulher ganhando mais que o marido, e sendo o idoso o pai dele. Onde eu acho que tudo começou. Sobrecarregada, mesmo gostando do sogro, ela tomou uma decisão precipitada. O marido que antes já não tinha aceitado que a esposa pagasse por enfermeiro, não seria com a nova decisão dela que ele mudaria de opinião. Numa de que é o “macho que sustenta a todos da família”? Mas ele também se precipita aceitando a primeira que apareceu para tomar conta do pai. E o pobre do idoso, sem querer, termina por ser a causa da separação do casal.

A separação veio por mais uma decisão sem pensar de Simin (Leila Hatami) que vira na permissão dos vistos (passaportes) uma chance de sair do Irã. Acontece que o marido, Nader (Peyman Moadi), não quis abandonar o próprio pai (Ali-Asghar Shalbazi); o tal idoso, e acometido do Mal de Alzheimer. Então, também orgulhosa, ela pede a separação de direito do casal. Até porque Nader concordou com o desenlace deles, mas  não concordou que ela levasse a filha do casal: Termeh (Sarina Farhadi, filha do Diretor do Filme: Asghar Farhadi.). E que essa por sua vez, já uma adolescente, não queria perder os estudos.

Simin pensou que assim intimidaria o marido. O que talvez teria conseguido se houvesse mais diálogo entre o casal. Já com quase 15 anos juntos, estavam à beira de uma crise, e que pelo jeito nenhum dos dois percebeu. A seu favor, havia o peso de uma sociedade machista e autoritária, e de tradição centenária. Dai o fato de ter focado mais no destino final – o de viverem em outro país -, do que ir preparando terreno aos poucos. Sufocada, não pensou direito.

Tanto um quanto o outro usaram a própria filha como desculpa. Grande erro! Pior! Jogaram nos ombros dela a decisão final. Simin via em sair do pais um futuro não tão rígido para Termeh. Já para Nader ele achava o país o melhor lugar para criar a filha. Mas no fundo, ambos sabiam que a filha os manteriam pelo menos próximos um do outro. E é algo que machuca: em ver que ainda havia amor entre esse casal.

Termeh, em meio a esse fogo cruzado, fica sem saber o que fazer. Como agir. Talvez por conta de um temperamento calado, muito mais propensa aos rigores da tradição do país, do que a própria mãe, ela foi cozinhando os dois em banho-maria. Desejava a reconciliação deles.

Em “A Separação” vemos como pano de fundo um Irã de uma classe média alta. Se não fosse pelos lenços cobrindo as cabeças das mulheres, o lugar passaria por um bairro em algum país do Ocidente. Mas avançando o olhar, ele é definido como sendo um com tradição Islã pela modo como tratam as mulheres.

Agora, como em todo lugar do planeta, se há a classe que se dá o luxo de pagar por empregados domésticos, também há esse outro contigente advindos das classes mais baixas. Onde moram no filme é ilustrado pelos ônibus: significando que moram longe dali. O que pesa também para essas pessoas: distância + custo das passagens + cansaço por essa jornada…

Personificando esse proletariado teremos um outro casal, e que serão envolvidos nessa separação inicial. A primeira envolvida será Razieh (Sareh Bayat), com a filhinha. Depois, seu próprio marido: Hodjat (Shahab Hosseini). Se para o primeiro casal, nem o fato de “não faltar nada em casa” pesou para manter o casamento, o mesmo foi um fator preponderante em salvar a própria união. É que desesperada em ver o marido, há meses desempregado, ter sido levado pelos credores, Razieh mesmo grávida, mesmo indo contra a sua religião, implora pelo emprego a Nader. E ocultando tal fato do marido.

Nader tendo que ir trabalhar, não querendo ser render de que precisaria da esposa de volta, ciente também de que estaria indo contra os princípios do islamismo, aceita que Razieh tome conta do pai, e da casa. Ela por sua vez fica ciente de que o idoso Alzheimer. Logo, em algum momento teria que tocar nele. Num homem. E quando tal hora chega, é um quadro patético em vê-la ao telefone querer saber se isso seria pecado ou não.

Não ficando só nisso, ainda há lhe pesar… Pela distância percorrida até chegar nesse emprego, pela gestação em período de cuidados, pela jornada dupla de trabalho, Razieh coloca a filhinha para ajudá-la no serviço da casa. A criança ao descer as escadas com o lixo, acaba entornando-o. Uma moradora do prédio impõe que Razieh limpe, e logo. Aturdida, ela esquece do idoso. E…

A partir daí mais erros se sucedem. Como uma avalanche. Mentiras e omissões em lugar de diálogos francos e respeitosos. E quando Hodjat descobre tudo, a teia de situações conflitantes aumentam. A grande questão que se estampa: Quem iria dar um freio aquilo tudo? Para no mínimo tentar uma conciliação geral. Um meio-termo onde ninguém achasse que não teve razão no que fez.

Não pude evitar em pensar na crise atual e no mundo real. Onde estão aumentando a população pobre dos países tidos como do primeiro mundo. Como também, que mesmo criticado por muitos, o Brasil com o seu Bolsa-isso-Bolsa-aquilo fez foi diminuí-la. Então, no filme, para esse casal de baixíssima renda, o próprio país era ainda mais opressor do que para o outro. Não havia o Bolsa Família do Ocidente, por exemplo.

Mas tanto Estado quanto Religião, em geral, incentiva em se ter uma família. Não importando se terão como mantê-la ou não. Não é de boa política o planejamento familiar. Algumas tradições ainda incentivam em trazer mais filhos ao mundo.

Para o casal pobre o desemprego viera já estando casados e com uma filha nascida e outra a caminho. Pesando ainda o fato de que psicologicamente Hodjat não estava tarimbado para ser um pai, nem em constituir uma família. A recessão que passava só trouxe a tona seu temperamento explosivo. Com tudo isso, o casal não apenas se envolveu, como também Hodjat quis tirar proveito de um fato. Já que com a indenização, teria como se livrar dos credores.

Além da crise financeira poderia se pensar que é por culpa de uma cultura machista? Se sim, ela não é privilégio das de tradição Islã. As do Ocidente, mesmo que veladamente, também se calca nela. Se alguém achar que não, que preste atenção nas propagandas de algum produto voltado ao lar, a família, só como exemplo. Eles colocam a mulher como compradora compulsiva, ou como uma “do lar”. Já para o homem, o mesmo produto é vendido como um hobby. Então a culpa não seria por ocidentalizar os costumes locais.

Para mim, o que Asghar Farhadi quis mostrar em “A Separação” é que a instituição Família que está em falência.

Que não importa se no Ocidente, ou no Oriente, é esse laço que precisa ser revisto. Ser pesado. Ser reavaliado sempre. O “sombrio” sentar para discutir a relação precisa acontecer. E que em vez de já numa mesa de um Juiz da Vara de Família, por que não com a ajuda de alguém da Área Psico, assim evitando chegar as vias de fato. Tem uma certa hora que o melhor a fazer é sentar e conversar. Saber o que cada um ainda estaria procurando nessa relação. O que, ou em que, cada um cederiam para uma boa convivência. Pesar se é o ser ou o ter que é alicerce da mesma. É por aí. Já que para cada casal também há conflitos únicos.

Não sei se por conta de não sofrer censura do governo e com isso não teria o filme liberado que Asghar Farhadi deixou o final em aberto. Os créditos subindo, e de cá ficamos sem saber a sentença final. Mas que para mim houve sim um desfecho. Como citei anteriormente: ele quis mostrar o declínio da instituição Família. Em qualquer classe social, e a bem da verdade, em qualquer cultura também!

O filme deixa uma vontade de rever logo em seguida. Por ficar a sensação de ter perdido tal cena quando mais a frente ficamos ciente de que foi ela que levou a tal consequência, a tal mentira. É uma uma mentira levando a outra, e depois a outra, e mais outra… A trama vai se revelando aos poucos, como num Thriller. A impressão de não termos prestado atenção no fato anterior, é por também querer conhecer, saber de todos os detalhes para melhor avaliar; para então ver se havia razão de ser. O ter como ponderar, como numa cena entre Nader e Termeh. Na realidade, sabemos como o fato anterior se deu. Julgá-los já se perde a razão de ser. Até porque: está feito! Como também não é de nossa alçada.

Então é isso! Com um elenco afinado – de querer vê-los em outros trabalhos -, temos em “A Separação” um filme Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Separação (Jodaeiye Nader az Simin. 2011). Irã. Direção e Roteiro: Asghar Farhadi. Gênero: Drama. Duração: 123 minutos.