LOVE (2015). Pôr um Ponto Final na Relação Significa o Fim do AMOR?

love-3d_filmegaspar-noe_cineastaPor: Karenina Rostov.
[Contêm revelações sobre o enredo.] [E o filme contêm cenas de sexo explícito.]

Era uma vez um diretor de cinema argentino chamado Gaspar Noé que resolveu nascer novamente para contar a história de AMOR, segundo o seu entendimento, entre seu pai Murphy e a namorada dele Elektra. Uma história instigante e complexa.

Gaspar nasceu por obra do acaso. Seu pai Murphy e a namorada Elektra acabaram envolvendo uma terceira pessoa: a jovem Omi. E no encontro íntimo do trio acidentalmente a convidada acabou engravidando. Consequência essa que acabou dando novo rumo a vida de cada um deles. Mudando planos, projetos e provavelmente possíveis sonhos. Foi assim que se deu a reviravolta ‘no LOVE’ e a jovem convidada tornou-se mãe, aos dezessete, por acaso, de Gaspar.

love_2015_01Murphy, um jovem diretor de cinema. Elektra, uma artista plástica linda, atraente tal qual a Elektra da mitologia grega. Muitos autores falaram sobre ela… e Eurípides deu um tratamento especial transformando-a em divindade. Enxergando em Elektra uma mulher amargurada e impulsiva, levada mais pela fúria do que pela maldade… A impressão que dá é que Gaspar Noé parece sentir muita admiração pelo mito Elektra. A formosura, a força e por ela ser como pólos divergentes: boa e má; desajustada e correta; que ama compulsivamente e odeia ao extremo; sendo como o fim e o começo. Afinidade e identificação.

love_2015_02LOVE é praticamente contada através da linguagem corporal, um ensaio fotográfico, ou uma peça teatral, e no palco três personagens se digladiando entre o tato, olfato, felação e a suficiência da linguagem não-verbal, não dando lugar ao tabu, pré-conceitos, ou julgamento de valor e nem para as palavras propriamente ditas pois poderiam quebrar o feitiço que o casal buscava nas relações ardentes mais de volúpia do que de encanto.

Gaspar, agora com dois aninhos de idade é acordado pelo celular de seu pai, enquanto que no quarto ao lado Murphy e Omi estavam em seu momento íntimo de amor, embriagados de sexo muito antes do amanhecer. Insistentemente chama o pai. E só assim Murphy atende àquela ligação. A partir daí o pequeno Gaspar sai de cena e todo o desenrolar da história, então em flashback, é focada nos acontecimentos de dois anos atrás. Murphy se vê mergulhado nas lembranças com a amada Elektra.

love_2015_03A chamada era da mãe de sua ex-namorada Elektra. Entra em cena todo aquele seu passado ardente. Pouco mais de dois anos se passaram e Murphy, agora aparentemente sossegado, outra pessoa, outra vida, família formada, pai e marido, trabalho, contas a pagar, compras, lazer… rotina. E agora quem fazia parte do trio é ele, a sua atual companheira e o bendito fruto dessa relação, o Gasparzinho. Rs!

Na chamada recebida, a mãe de Elektra, disse-lhe que a filha sumiu do mapa já há algum tempo e que ela estava muito preocupada, porque Elektra passou a sofrer de depressão e a ter tendências suicidas.

love_2015_04Parece que Murphy arquivou aquela sua história de amor e tocou sua vida dando novo rumo a ela. E aquele LOVE que dizia sentir por Elektra, o que poderia ter acontecido? Simplesmente desapareceu? Acabou quando ela ficou sabendo que a jovem vizinha engravidou de seu amado? Murphy só voltou a pensar na sua ex-namorada depois da ligação da mãe dela. O amor entre o casal acabou? Ou como diria um poeta foi eterno enquanto durou? Ou só estava adormecido?

Reza a lenda que, o corpo é o santuário da alma. E o sexo é o complemento do amor. Estão interligados corpo-alma-sexo-amor. E quem ama deveria jamais se descuidar.

love_2015_05Amor é mesmo uma caixinha de surpresas?! A culpa de não ter sobrevivido? Se existe nessa história um culpado, parece recair sobre a Elektra. A teoria literária investiu nessa crença de que a culpa é geralmente da fêmea e o autor quase sempre trata de matar o AMOR pondo um ponto final na vida dela, principalmente quando se trata de ligações perigosas, envolvendo mais de duas pessoas.

Sabe-se que em um relacionamento a três, há perdas e danos e certamente alguém acabará sobrando ou sofrendo as consequências.

Gaspar Noé usou e abusou de alguns clichês físicos para literalmente gozar na cara do espectador. O relacionamento emocional entre Elektra e Murphy, fora superficial? Tiveram bons momentos, se divertiram, eternizaram suas lembranças através de fotos, vídeos, pinturas, compartilharam anseios… até o momento em que um novo ser resolve nascer. Então se deu o corte do cordão umbilical de uma história que foi linda para começar do zero uma outra.

love_2015_06Afinal, quanto tempo mesmo dura uma paixão? Dizem que há um prazo de validade.

Gaspar Noé resolveu dar uma deixa ao estampar na parede de LOVE o cartaz do filme “Saló ou Os 120 dias de Sodoma”, de Pasolini, dando uma pista aos que testemunhariam o conto de fadas entre Murphy e Elektra, ou seria só um pré-texto?

Era de fato LOVE? Era AMOR? Ele só passou a pensar em Elektra dois anos depois.

Noé precisou nascer para trazer à tona uma história de amor dos tempos modernos. Onde tudo pode ser possível num relacionamento quando as pessoas envolvidas consentem. Elektra e Murphy tinham afinidades de sobra no quesito relacionamento sexual. Só que ele próprio confessou-se um conservador.

love_2015_07Talvez o filme seja condenado por pecar pelo excesso de tórridas cenas de sexo por mais de 90 minutos. Sexo, muitos gostam, mas ficam incomodados em testemunhar terceiros mostrando suas performances além de quatro paredes. Não seria hipocrisia? Afinal todo ser é resultado de sexo entre duas pessoas, e como diz um filósofo de botequim, “somos resultado de um orgasmo… ou uma gozada?

Bem, pôr um ponto final no relacionamento nem sempre significa por um ponto final no sentimento de AMOR. E Elektra em algum momento de LOVE pergunta a Murphy: “- O que significa AMOR? Você saberia responder?

LOVE (2015).
Ficha Técnica: na página no IMDb.

P.s: Essa é uma compilação de um texto bem mais longo. Para o ler na íntegra, clique aqui.

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PROMETHEUS – 2012

O que você faria se pudesse descobrir a origem da humanidade e estivesse frente a frente com o seu criador? Essa é a pergunta inicial proposta por Prometheus, talvez um dos maiores filmes de ficção científica dos últimos anos. Após confrontar o homem com o terror do desconhecido em “Alien: O Oitavo Passageiro” (utilizando metáforas sobre estupro, bem como a polêmica questão do aborto) e refletir de maneira surpreendente sobre as responsabilidades do criador em “Blade Runner: Caçador de Andróides”, o diretor Ridley Scott decidiu mesclar os melhores de sua carreira, entregando um longa onde os personagens enfrentam suas crenças para aceitarem a verdade sobre a criação e, acima de tudo, sua consequência: destruição.

Sinopse:Em 2089, um grupo de exploradores descobre um mapa através de desenhos arqueológicos datados há milênios por civilizações de épocas distintas e partes mais diferentes do globo. A partir daí fazem uma viagem espacial a fim de identificar os possíveis Engenheiros/deuses criadores da humanidade, porém ao buscarem a revelação dos segredos acabam alterando o curso natural da história, podendo desencadear o fim da raça humana ao confrontar seu Criador.

Cenários de tirar o fôlego

Os temas aqui desenvolvidos ultrapassam séculos e já haviam sido destacados no livro “Seriam Os Deuses Astronautas?”, entretanto talvez jamais houvera no cinema um filme (sem ser documentário) dedicado inteiramente à essa teoria. Em entrevista, Ridley Scott comentara “Prometheus” como um “2001: Uma Odisséia no Espaço” com asteróides. Concordo com ele, porém o maior erro do lançamento de Scott talvez seja a ausência de um clima singelo. “O Oitavo Passageiro” e “Odisséia no Espaço” possuem o mistério como fonte inteligente de suspense, todavia seu novo trabalho peca ao tornar-se quase exclusivamente ficção científica, desagradando os fãs da série do xenomorfo. Mas isso pode ser explicado justamente pelo fato de “Prometheus” preocupar-se em revelar os mistérios da humanidade, um assunto necessariamente amplo a fim de obter resultado coerente (pelo menos no universo criado por ele) e aceitação do público.

Quem já conhece a série Alien sabe da escolha obrigatória do personagem central ser mulher. Isso se deve às inúmeras metáforas contidas nas tramas, afinal todas as histórias passadas nesse universo fictício preservam as mensagens de independência feminina, principalmente no que diz respeito ao aborto (analisado como libertação da repressão imposta pela sociedade, representada pela Empresa patrocinadora das viagens espaciais cuja preferência sempre é pelo feto alienígena, tornando o corpo estuprado da mãe inteiramente descartável). A sofredora da vez é a sueca Noomi Rapace. A atriz já havia mostrado todo seu talento na versão original de “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” e agora vive sua primeira protagonista hollywoodiana em “Prometheus”, tal qual Sigourney Weaver em Alien. Honestamente, talvez não houvesse escolha melhor. Rapace provavelmente é uma melhores atrizes da atualidade, sua atuação sempre é surpreendentemente natural e a aparência comum auxilia ao distanciá-la dos estereótipos estéticos do cinema, aproximando-a mais da personagem por ainda ser desconhecida de grande parte do público. Sua personagem vive um dos momentos mais perturbadores do filme, o qual provavelmente será inesquecível às mulheres da platéia.

Noomi Rapace sofre em Prometheus

Para quem aguarda um épico, não sairá decepcionado quanto aos cenários, é bastante notável o empenho da direção de arte (as filmagens ocorreram em várias partes do mundo), portanto os cenários e paisagens são de tirar o fôlego. A única ressalva que faço é quanto à aparência dos engenheiros. Quem viu Watchmen, só precisa imaginar um Dr. Manhattan cinza, sem brilho, cujos olhos são completamente negros. Mas é aí que surge uma ironia MUITO interessante. (Se você não leu a obra-prima Watchmen e tiver interesse, por favor pare de ler esse parágrafo) Ao final da revista em quadrinhos, o Dr. Manhattan (um físico atingido por radiação que o faz adquirir poderes de um Deus) vai embora da Terra após afirmar que talvez irá tentar criar uma nova forma de vida em outro planeta. Nós sabemos que ele pode se multiplicar e possivelmente originar vida humana pela matéria, os engenheiros de Prometheus são todos iguais e fazem a humanidade, logo qualquer semelhança será mera coincidência?

Respectivamente, Dr. Manhattan (Watchmen) e Engenheiro (Prometheus). Seria o Dr. Manhattan um engenheiro?

Uma das características mais aterrorizantes de Alien são as criaturas. Apesar de se passar no mesmo universo que o filme de 1979, nós estamos falando de um parente próximo, portanto Prometheus mostrará espécies distintas, todavia com as mesmas referências. Nesse caso, a aparência dos monstros sempre é inspirada nos órgãos reprodutores humanos, por isso “O Oitavo Passageiro” contém simbologia para o estupro e aborto (lembrando aquela garra que infiltra sua semente no corpo da pessoa, a qual servirá de receptáculo involuntário para o monstro), logo esse lançamento segue a tradição com os mesmos significados, porém inovando na estética grotesca.

Com inúmeras referências, Prometheus desbanca vários exemplares desse ano com sua versatilidade. O andróide interpretado por Michael Fassbender (outra estrela em ascenção) é um dos personagens mais interessantes (ele é cinéfilo, além de tudo), promovendo diálogos inteligentes. Em um momento, é comparado a Pinócchio (o boneco que queria ser de verdade). Talvez não despreze inteiramente a raça humana, mas sua decepção de reconhecer o propósito de sua criação faz referência direta ao momento pelo qual os humanos da história estão passando, encontrando seu criador.

O fato do encontro dos astronautas com os Engenheiros poder desencadear o fim da humanidade é plausível no cinema. Se refletirmos sobre outras ficções como “Planeta dos Macacos” e “2001: Uma Odisséia no Espaço”, onde o ser humano encontra a própria destruição nos seus avanços tecnológicos e na ousadia da curiosidade. Os personagens de Prometheus desafiam suas próprias limitações humanas ao enfrentar os engenheiros, rendendo referências incríveis à famosa cena “filho pródigo versus criador” de Blade Runner. Após anos, finalmente podemos dizer que Ridley Scott voltou para casa e, na época atual, é sempre bom tornar a ter surpresas no cinema. Desejo uma ótima seção legendada (pois a dublagem brasileira desse ficou medonha) para todos.

Coral de Tóquio (1931)

Coral de Tóquio (Tokyo no Korasu, Japão 1931)
Diretor: Yasujiro Ozu
Escolhi dia desses aleatoriamente para rever o filme O Homem que Sabia Demais de Hitchcock. Uma cena de uma das locações deste filme me remeteu ao cineasta Yasujiro Ozu. No desfecho, Hitch faz um breve passeio com a câmera, mostrando detalhes dos interiores da mansão, portas, escadas, mobília, corredores, lustres, até chegar ao quarto onde estava preso o filho seqüestrado do casal americano, exatamente como acontece ao estilo de Ozu filmar. Seria uma homenagem?

Conheço meia dúzia de filmes de Ozu dando perfeitamente para se concluir que seu estilo é inconfundível, reconhece-se como uma marca registrada pela poesia existente na fotografia, pelo assunto e costumes do cotidiano, temas triviais geralmente familiares, pequenos dramas, peculiaridades da cultura oriental, relações conflituosas entre tradição e modernidade. As imagens iniciais mostrando paisagens, crianças brincando, pessoas transitando pelas ruas, animais e residências transmitem paz e serenidade. Ele trata com carinho e especial sentimento os assuntos rotineiros e banais, o público se identificando constantemente pelos temas declinados, desde amor não correspondido, desemprego, saúde, miséria, educação, religião, família, até assuntos polêmicos como suicídio. Além de contar uma boa história, por mais simples ou rotineira que seja, Ozu nos presenteia com belas figuras de retórica e de estilo, principalmente a prosopopéia, personificando em belas imagens que dialogam frequentemente com o público, não se esquecendo de nenhum detalhe, tudo tem o seu valor, desde a chaleira e seu vapor num canto da sala, como também os corredores, as paredes, escadas, os chinelos e os cabides na entrada, a mesinha no centro da sala onde a família e os amigos se reúnem para uma habitual refeição e longas conversas, nada escapando ao olhar atento e cuidadoso de minúcias do diretor.

Fiquei emocionada e feliz pela oportunidade de ter assistido ao CORAL DE TÓQUIO, esse filme mudo, em preto e branco produzido em 1931, uma sessão especial assim, que eu me lembre, só vi no MAM (Museu de Arte Moderna), o clássico O Nascimento de uma Nação de D.W. Griffth com acompanhamento improvisado ao piano, e em outra ocasião um filme russo no Festival do Rio com tradução simultânea, os atores dublando ao vivo, foi um momento mágico e inesquecível.

A história de Coral de Tóquio começa dentro de um quartel onde um professor dá instruções aos subalternos, pedindo que marchem, verificando postura e obediência a ele como mestre, seus súditos fazendo tudo o que era pedido. O prólogo é uma comédia pastelão, ninguém no cinema consegue segurar o riso, principalmente quando estão em cena dois soldados trapalhões, sendo motivo de gargalhadas dos outros colegas recrutas e pelo fato de o professor mal conseguir manter a ordem e a disciplina do batalhão. Comentaram que Ozu era fã de Chaplin.

A história dá um salto, mostrando aquele que foi o soldado trapalhão, hoje um pai de família com três filhos: O mais velho era um menino aparentando ter uns seis anos; depois uma menina de cinco anos e um bebê. Okajima, o soldado hoje é um funcionário de uma empresa, e ele encontra-se em seu ofício ao lado de seus colegas de trabalho. Todos estão felizes porque é o dia do pagamento. O filho dele sabendo disso pediu-lhe de presente uma bicicleta, e o pai prometeu que lhe compraria. Acontece que nesse dia o patrão resolveu demitir um funcionário e este pai de família, para defender o colega foi falar com o patrão que acabou também o despedindo. Tempos difíceis no Japão, em plena depressão, e agora o jovem pai de família ficou desempregado. O que ele poderia fazer? Tinha formação superior, era professor, mesmo assim emprego não havia, era artigo de luxo, e Okajima começou a enfrentar dificuldades. Certo dia ele encontrou na cidade o seu ex-professor que também estava desempregado e ele lhe fez uma proposta. O professor estava abrindo com a esposa um restaurante e precisava de um ajudante para fazer propaganda, distribuindo panfletos nas ruas de Tóquio para conseguir clientes. Ele imediatamente topou. Só que não contou nada para a sua orgulhosa esposa porque não entenderia nem aceitaria ver seu marido com a formação que tinha, trabalhando como entregador de papel pelas ruas.
Okajima chegando em casa era só cobranças: o filho pedindo a bicicleta, a esposa, dinheiro para fazer compras, o bebê chorando e a menina adoeceu, precisando de dinheiro para ir ao médico e comprar medicamentos.

Um dia ela vai à cidade com os filhos e presencia a seguinte cena: o marido marchando pelas ruas, ao lado do seu ex-professor, carregando uma bandeira e distribuindo panfletos, a propaganda do restaurante. Em casa, foi um Deus nos acuda. A esposa não aceitou de jeito nenhum que ele continuasse naquela situação que considerava constrangedora para a família. Foi trabalhoso e penoso para ele convencê-la que era necessário porque ele não tinha outra escolha. É claro que para Okajima era apenas uma situação provisória até ele conseguir algo melhor. O ex-professor gostava muito dele e tinha muitos contatos de autoridades e pessoas influentes, e o ajudou sigilosamente enviando o curriculum dele para o ministro da educação indicando-o para o cargo de professor de literatura na universidade.

O dia da inauguração do restaurante, o seu ex-professor era ‘só sorrisos’, porque o local lotou; muita gente foi conhecer o novo point da cidade e foi o maior sucesso.

Nesse mesmo dia chega uma correspondência para o seu ex-professor. Adivinha o que era? A resposta do governo aceitando a indicação do professor Okajima para lecionar na universidade. Cinema também é uma escola, e neste filme aprendi muita coisa nova e agora compartilho aqui. Esta delicada comédia mostrando o cotidiano de Okajima um pai família em plena depressão e que acabou sendo despedido exemplifica o estilo de filmar e dirigir de Ozu e peculiaridades de seus primeiros filmes.

Coral de Tóquio é uma verdadeira obra de arte. Sem som e sem trilha sonora, como os primeiros filmes mudos e em preto e branco que ainda eram considerados uma curiosidade aos japoneses que diziam ser “coisa de ocidental”, e nesta sessão especial que tive a oportunidade de assistir e aprender coisas do mundo oriental que desconhecia, foi apresentado ao público a presença de uma narradora no idioma japonês, como se o filme fosse estrangeiro. Esse tipo de “tradução” ao vivo recebe o nome de Benshi que deriva de Ben (narração) e Shi (mestre, samurai), que servia para complementar o entendimento da obra cinematográfica. Formidável a tradução simultânea, ao vivo e em cores, com músicos e seus instrumentos orientais. Os benshis eram mais reverenciados que as próprias estrelas dos filmes.
O benshi continuou sendo uma parte muito importante na exibição de filmes até 1937. Fora do Japão o espanto nem era tanto pela manutenção do benshi. E sim porque frequentemente estes narradores tinham liberdade de acrescentar sua própria interpretação e dava explicação pessoal para cenas não filmadas, seu entendimento e impressão sobre o filme. Não necessariamente a versão pretendida do diretor. A narradora Ângela Nagai é ótima, fazia o público compreender um pouco mais o filme com um toque de humor imitando o choro do bebê, por exemplo, as brigas entre os irmãos por coisas banais, expressões fisionômicas etc, foi sensacional, e ilustrando constantemente com informações sobre o país, sobre a situação sócio-econômico-cultural, desemprego, família entre outros temas; e os músicos Felipe Fiani Veiga (tocando o instrumento okoto) e Tamie Kitahara (tocando o instrumento shamisen) fazendo o espetáculo mais bonito que a sétima arte já é. Tudo maravilhoso. Quem tiver oportunidade de ver um show como esse aconselho não perder. Assista!

Para quem achou estranho num primeiro momento, a técnica Benshi era muito usada nos primórdios do cinema no Japão, quando assistir a um filme era pouco para os espectadores, e os narradores eram, na verdade, considerados as grandes estrelas como os próprios atores. O filme só começava após uma palestra do Benshi; antes da narração dava-se explicação sobre o tema. No Japão existe até hoje sessões com benshi que também eram conhecidos como katsuben – abreviação de katsudoo shahin benshi (narradores de imagens em ação).

Fica aqui a dica para uma sessão de cinema divertida e leve. Esplendido!
Karenina Rostov
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Elenco: Tokikiko Okada, Emiko Yagumo, Hideo Sugawara, Hideko Takamine, Tasuo Saito, Chouko Iida, Takeshi Sakamoto, Reiko Tani, Kenichi Miyajima, Isamu.

As Leis de Família (Derecho de Familia. 2006)

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Parece uma história banal, mas como nos é contada, é que faz toda a diferença!

Centrada num período na vida de três gerações: pai, filho e neto. Mais precisamente numa ‘re’-aproximação entre pai e filho. Muito embora até podemos lembrar de outros filmes onde há reencontros assim. Mas esse foca o de seguir a carreira do pai. Pesando mesmo isso. Numa de filho de peixe, peixinho é? Batendo até o medo de vir a ser uma mera cópia. Até onde manter a tradição familiar. O peso do sobrenome. A carreira como um tipo de herança genética. O querer ser diferente, mesmo sendo igual. Pai e Filho posto a prova por um acidente do destino.

O filme inicia com o Ariel nos apresentando seu pai. Contando em off. Sob o ângulo dele. Hehe… É divertido! Até porque enquanto ele ao nos mostrar o jogo de cena que seu pai faz diariamente, ao longo do filme nós identificamos que ele também tem o seu. Os dois então teriam mais pontos em comum? Será? Como ele mesmo salientou: “Mas não gosto de Direito. Gosto da Justiça.” Direito e Justiça não trabalhariam juntos para uma mesma causa?

Esse período onde o seu pai volta a se aproximar, ele “descobre” o ser pai. Seria a criança que traria o “Acorda!”? Tendo o mesmo sangue faria a ponte entre seu pai e seu avô? Já registrando aqui que o menino é um encanto! Ele atua brilhantemente! Me deixou encantada ao longo do filme. E me levou as lágrimas no final!

Enquanto passam um jeito livre de ser com desenvoltura em suas “atuações”, quer seja lecionando, um, e advogando, o outro, nesse reencontro ficam sem saber o que falar; ou como contar suas próprias histórias entre si. Pois é, no lado profissional, sabem fazer uso do verbo. Faltava descobrir o uso da fala entre eles. Regar os corações de ambos.

Por vezes algumas pessoas ficam tão presas as suas próprias leis internas, a sua rotina, suas retidões, que nem percebem que há numa simples aproximação um pedido silencioso de um carinho, de um afeto. Que também quando percebem algo, ao usarem uma balança diferente terminam por interpretar do seu jeito, pelos seus próprios valores. Acontece que cada um tem um jeito de contar, de transmitir seu problema, sua aflição. Mais do que tentar simplesmente adivinhar, o bom estar em ouvir primeiro o que o outro está tentando dizer. Mesmo que a linguagem usada seja outra, de difícil acesso. Agora porque também esperam tanto tempo para esse reencontro?

Para estudantes de Direitos, mais que recomendado! Prestem uma atenção mais detalhada a cena onde um cara interrompe uma aula. E para nós outros, também. Assistam! É um belo filme! Amei!

Nota: 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

As Leis de Família (Derecho de Familia). 2006. Argentina. Direção e Roteiro: Daniel Burman (O Abraço Partido). Elenco: Daniel Hendler, Arturo Goetz, Eloy Burman, Julieta Díaz, Adriana Aizemberg. Gênero: Drama. Duração: 102 minutos.

O Cheiro do Ralo

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Essa é a história de um homem só e sem história.

Estaria aqui um ponto de partida para esse filme. Que como num quebra-cabeça vai nos mostrando alguém que em meio há tantos trechos de histórias alheias, busca uma para si próprio. Uma que lhe mostre o seu passado, pois houve um, fora dali, algum dia.

O personagem de Selton Mello não é um mecenas, nem tão pouco alguém que realiza sonhos das pessoas. Figura num patamar acima de um sucateiro, por não comprar objetos danificados, nem tampouco de ir à caça deles. Por já estar estabelecido, por ter um local, por ter o seu galpão onde compra objetos usados.

São as pessoas que o procuram, numa de mendigar pelo seu dinheiro. Por muitos se sentirem humilhados… E ele se vê uma fortaleza… Mas que fede…

Numa das peças desse quebra-cabeça traçando o perfil desse homem…

O local me chamou a atenção – uma área industrial. De fachadas quase estéreis. Não há placas indicativas. Mas todos sabem o caminho de lá. Apesar da claridade exterior… ao penetrarem naquele portão… sentem o peso da alma… mas precisam do dinheiro… e lhes restam quase nada para uma troca.

Uma outra, é o seu fascínio por dois objetos em especial.

Dois objetos que o levam a inspirar uma história para o seu pai. Ou seria uma para si mesmo, lhe dando um consolo. Mas por que aqueles dois objetos? E para onde teria ido o seu pai? Por que não ficou olhando o filho? Lhe fazendo sentir-se amado… estimado… A figura paterna lhe consome…

O cheiro que vem do ralo… que ao mesmo tempo que o faz mostrar àquelas pessoas que se há algo sujo ali não parte dele, mas do ralo. Vai criando nele um escudo para aquilo que exerce. Se veria como a flor de lótus?

Sua relação com mulheres lhe é angustiante… Querendo-as apenas como um depositário de seu gozo? A faxineira é a única que tem um acesso a ele.

Um filme que nos leva a montar esse quebra-cabeça peça por peça. Sem pressa.

O personagem é instigante. Selton Mello dá um show! Os outros também estão incríveis; com cenas que ficarão na memória.

E que, como o personagem principal tem dificuldade em guardar nomes… em meio a tantas histórias anônimas… enfim, ele terá a sua história

Eu gostei! Nota: 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Cheiro do Ralo. Brasil. 2007. Direção e Roteiro: Heitor Dhala. Com: Selton Mello, Paula Braun, Lourenço Mutarelli, Flávio Bauraqui, Sílvia Lourenço, Susana Alves. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 100 minutos. Classificação: 14 anos.

Menina dos Olhos (Jersey Girl. 2004)

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Antes é um filme de Kevin Smith. E ele gosta de falar de pessoas comuns dentro do universo que conhece bem: Nova Jérsey. Algo como morar na periferia, mas de olho na cidade grande. Logo suas histórias tem o gosto de lugar-comum. Quem mora, ou morou em subúrbios, se identifica. Por que disso? Porque eu gosto de seus filmes. Mais um pouquinho! Creio que essa frase – “Aviso: se alguém tentar encontrar um tema nesta narrativa, será processado; se tentar encontrar uma moral, será banido; se tentar encontrar um enredo, será fuzilado.” – de Mark Twain (Em relação ao seu livro: Hucklerberry Finn.) cairia bem a Kevin Smith dizer sobre esse filme. Ou, dizer sobre seus filmes a aqueles que desconsideram seu trabalho.

Agora sim entrando no filme. Além da relação pai/filho há também algo implícito no personagem principal por conta de não ter superado uma perda. Simplesmente a sufocou. E quando ela vem à tona, saiam de baixo! Porque as cobranças não serão nada agradáveis.

O personagem de Ben Affleck é um RP (Relação Pública) de sucesso. Mora em NY e tem suas raízes em New Jérsey; e lá que vive seu pai. A quem apenas visita. Mas fica no ar que tem vergonha dessas raízes. Algo também sufocado. Ao apresentar o pai a futura mulher, mais que obter dela uma aprovação, creio que no fundo ele quis encaixar o pai em sua nova vida. Mas vida só há uma. Nela temos as experiências vividas e que não dá para voltar atrás. Muito menos com a chegada de uma filha. Não é um brinquedinho.

Com a morte da mulher no parto ele fica perdidaço. Pior! Ele surta perdendo aí o emprego que tanto amava e todo o stastus quo. Então volta a casa paterna com a filha, e desempregado. Mas numa de que o seu pai é que seria um pai para a sua filha. O tempo passa, mas em sua cabeça só o voltar a ser o que era.

Sendo um filme de Kevin Smith há: uma locadora de filmes, um balconista – nesse uma balconista -, conversas sobre sexos (transas)… e em New Jersey. Aqui que entra a personagem da Liv Tyler em sua nova via. A tônica está nas falas.

A atriz mirim é um encanto! Salva o Ben Affleck. Outro que rouba a cena, é o George Carlin. E Will Smith é ele mesmo. Mesmo sem maiores pretensões, o filme traz um certo encanto. E emociona! Confesso que chorei no final. A Trilha Sonora é ótima!

Em relação a algo sobre o Will Smith no filme, na cena que culminou com a perda do emprego do personagem do Ben Affleck, me pareceu que foi uma ironia do Kevin Smith aqueles que desdenham alguém em início de carreira.

Peguem a pipoca, e curtam o filme! Nota: 7,5.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Menina dos Olhos (Jersey Girl). 2004. EUA. Direção: Kevin Smith. Com: Ben Affleck, Liv Tyler, George Carlin, Raquel Castro, Jason Biggs. Participação especial: Will Smith, Jennifer Lopez, Jason Lee, Matt Damon. Gênero: Comédia, Drama, Romance. Duração: 113 minutos.