Série: Caras e Caretas (1982-1989). O que transmitir ou não as novas gerações?

caras-e-caretas_serie_1982-1989Por: Morvan Bliasby.
Nestes tempos aziagos de “Escola Sem Partido“¹, golpes institucionais e outras ideias ‘jeniais‘, além de uma mesmice estarrecedora das SitComs, das Soap Operas, etc., numa revisita quase mandatória à década de 80 do Século XX, a sua explosão de comédias de situação e o começo da distensão “lenta e gradual”, como preconizavam os donos do mundo, entre as potências que alimentavam a fogueira da Guerra Fria. Deste caldeirão ultra efervescente se sobressai a SitFamily Ties“², nominada, no Brasil e em Portugal, respectivamente “Caras & Caretas” e “Quem Vem Aos Seus“, neste segundo estranho título temos, claramente, uma ironia, pois parece degenerar, e muito.

O Enredo

Steven (Michael Gross) e Elyse Keaton (Meredith Baxter) são dois hippies classe média típicos, economicamente falando, ultra liberais nos costumes e que se casaram havia duas décadas.

Um tanto quanto nonsense, no tocante à educação dos filhos, eles creem piamente que os filhos os seguiriam em seus valores, teriam uma vida “zen” e seriam filosoficamente parecidos com estes.

O tempo lhes mostrou o quão errados estavam, mormente no tocante ao filho mais velho, Alex (Michael J. Fox). Este, um executivo, na cabeça e nos valores (um admirador incorrigível de Ronald Reagan!). Isso mesmo. Reagan. Importante para nos ambientarmos. Reagan, Tatcher e a ideia do Estado mínimo, do tamanho de uma bacia, nas palavras dos próprios. Este é o ambiente da série. Alex utilizava chavões dos republicanos e portava até mesmo um cartão de sócio do clube dos conservadores. Inteligente, ganancioso, reacionário. uma cópia (carbono) exata de seus pais. Alex se encaixa perfeitamente no estereótipo do “self-made man”, tão usual, à época e hoje.

Já a moça, Mallory (Justine Bateman), ao contrário, relaxada, preguiçosa, fútil e cujo círculo de interesse consistia em compras, rapazes e… compras e rapazes.

Vem, a seguir, Jennifer (Tina Yothers), a caçula. Todo o seu sonho era ser uma pessoa normal. Dependendo da situação, razoável, não?

Family_Ties_castA série, malgrado de forma às vezes sutil, até demais, teve a virtude de discutir preconceitos, censura, gravidez adolescente, vício (drogas), relacionamento familiar e círculos criados em torno de interesses similares. Todos os personagens da série, inclusive os papeis satélite, contribuem para uma discussão sutil e ao mesmo tempo rica sobre os valores de então.

O sucesso estrondoso da Sit tem a ver com isso. quem sabe, além do fato de ter sido a propulsora e impulsionadora de celebridades precoces, como o Micheal J. Fox.

Mas a discussão subjacente da comédia de sucesso parece ser a questão educacional (não somente educativa, educacional, de finalidade da formação). Até que ponto a formação dos nossos filhos, de uma geração, por exemplo, pode ser vilipendiada, a ponto de achar que as coisas se repetirão por osmose. Que não precisaremos assumir uma posição mais protagonista, com relação ao tipo de pessoa humana que queremos formar, subvertendo, se necessário, os valores vigentes e até a educação formal, via escola. A ‘Escola Sem Partido‘, esta aberração imposta pelos nossos nefandos “amigos” ideólogos, daqui e d´alhures, por exemplo, é uma mostra de protagonismo às avessas, ou seja, não seja inocente de pensar que existe neutralidade em qualquer aspecto da vida. Tal movimento aposta na interdição do debate natural na escola, na vida, para a nova geração de zangões…

Séries como Family Ties e “Todo Mundo Odeia o Chris” são muito eficazes em, sob o pretexto de discutir amenidades, ir bem fundo nos costumes e preconceitos e acabam, neste roldão, se tornando fotografia de uma época. Family Ties parece bem atual, traçando um paralelo com o momento em que assistimos ao desmonte de vários Estados nacionais. Esta já é uma boa razão para assisti-la, como análise comparativa. Além dos canais da tevê paga, que vez por outra a reprisa, geralmente com o título original, além de poder vê-la nos sítios dos Estúdios originais ou nos canais de “stream“.

Série: Caras e Caretas (1982-1989)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

¹ Uma ideia tão imbecil para se acreditar ter saído da cabeça de educadores. Felizmente, não!.
² No Brasil, curiosamente, uma novela, tempos após, recebeu o nome literal da comédia de situação: Laços de Família.

Série: The Family (2016 – ). Estilhaçaram novamente aquelas vidraças… E agora?

the-family_serie_00Por: Valéria Miguez (LELLA).

Estariam todos eles em busca de uma identidade própria?

A Série “The Family ao nos levar para dentro de um drama familiar o faz com pitadas de um thriler! Até porque mais do que revelar os acontecimentos, somos conduzidos a refletir quem são cada um deles individualmente! Tanto no núcleo da família protagonista, como também com alguns de fora, mas diretamente envolvidos na trama, voluntariamente ou não, personagens do passado dessa família como também aderidos as circunstâncias atuais. É que o foco principal se dá com a volta de um dos filhos do casal dado como morto há dez anos atrás. Onde até houve uma pessoa que foi condenada por tal crime.

Assim, temos segredos entre si e para além daquelas vidraças novamente estilhaçada!

Do núcleo familiar temos: conflitos entre o casal central; um dos filhos sentido o peso de ser o ‘loser‘; carreiras profissionais que os afastam até afetivamente do lar, inclusive num jogo perverso quando a ambição fala mais alto… Por ai segue! A saber, temos: a matriarca é Claire Warren, personagem de Joan Allen (de “A Outra Face da Raiva“). Que se com a comoção com a perda ela foi eleita para Prefeitura local, agora com o retorno do filho aproveita para voos mais longe, ser a Governadora. Ajuda não apenas pela atenção midíatica, mas também pela própria filha do casal, a jovem Willa Warren, personagem de Alison Pill (de “Scott Pilgrim Contra o Mundo“). Dela, Claire recebe “ajudas” que nem faz ideia. Com a volta do filho, o pai que se encontrava em viagens, volta então para casa. Ele é John Warren, personagem de Rupert Graves (de “V de Vingança”). John sem querer ficar à sombra da esposa tornara-se um notório escritor e palestrante sobre com o tema “Luto em Família”. Embora feliz com a volta do filho caçula, perde um pouco seu chão profissional, além de ter também a volta de um antigo affair. Ele também fica dividido se o jovem é ou não o seu filho, mas não tanto como o outro filho, Danny, personagem de Zach Gilford. Outrora um adolescente alegre e desportista, encontra-se perdido no álcool. O que pode lhe deixar desacreditado se o irmão é ou não um impostor. Até porque o então Adam (Liam James, de “2012“) deixa dúvidas em quem assiste, se ele é o não o verdadeiro Adam.

the-family_serie_01Com a volta de Adam…

Temos Hank Asher, personagem de Andrew McCarthy (de “O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas“). Vizinho dos Warren e já tendo sobre si um caso de pedofilia, fora coagido a confessar o assassinato de Adão: o que lhe rendeu dez anos atrás das grades. Inocentado, e até recebendo uma alta quantia pelos danos morais, tenta voltar com a vida. Só que agora parece que terá uma mais isolada: todos na localidade o reconhecem e se distanciam. Além de ter que conviver com o ódio dos Warren. Que em vez de um pedido de desculpas, recebe a fúria de John por culpá-lo das privações que o filho passara nesses dez anos. É que com a confissão, o caso fora encerrado pela Justiça, não havendo mais buscas.

Também volta à cena a então Sargento de Polícia Nina Meyer (Margot Bingham). Nina fora a detetive encarregada de resolver o caso do sumiço do pequeno Adam. No afã até de se promover, baseando-se mais em disse-me-disse do que provas, ela então forçara Hank a se confessar culpado. Agora, não lhe resta outra alternativa em ir em busca do verdadeiro culpado e com o que colheu agora do Adam. Além de se ver novamente envolvida amorosamente com John.

Além de também entrar em cena dessa vez uma repórter local, Bridey Cruz (Floriana Lima). Talvez em busca de voos mais longe, Bridey que até então tem uma coluna/blog sobre o estilo de vida de uma homossexual, agarra a notícia da volta de Adam como o seu passaporte. Para isso até fará um jogo de sedução com Danny, que até estava junto com ele no dia em que ele desaparecera.

E com eles e mais outros personagens a trama segue pulando entre o passado e presente, mas com cortes precisos onde vai mostrando a história além de manter o suspense do que ainda está por vir. E todos estão bem ambientados com o contexto. O que é muito bom! As performances estão de fato ótima! Assim como o desenvolvimento da trama!

Ponto para a criadora, Jenna Bans, que em “The Family” dá o seu voo solo, após ser co-roteirista em “Scandal” e “Grey’s Anatomy“, entre outras séries. O que lhe dá bastante base para emplacar nessa sua primeira obra. Tomara que agrade também os fãs em solo americano já que é audiência nos Estados Unidos que conta ponto para ir ganhando mais temporadas. Estando ainda com poucos episódios nessa sua primeira temporada exibida pela canal Sony. Eu estou gostando!the-family_serie_2016

Minissérie: The Casual Vacancy (2015). As Elites em Lados Opostos!

the-casual-vacancy_minisserie_hboPor: Valeria Miguez (LELLA).
the-casual-vacancy_livro_jk-rowlingEm três episódios a minissérie “The Casual Vacancy” é baseada no livro homônimo da escritora JK Rowling. Onde ela deixa o mundo da fantasia da “Saga Harry Potter” para adentrar na realidade dos moradores de um pequeno vilarejo no Reino Unido – Pagford -, mas que também se ambientaria bem em um em qualquer país pelas temáticas abordadas. Como pano de fundo o destino de uma Clínica de Reabilitação para viciados em drogas que parte da elite local quer vender onde então seria construído um SPA de luxo. A decisão fica a cargo do Conselho Distrital que até o início estaria empatada na dependência de um voto e justamente do conselheiro que morre de repente no início da história: e ele era um dos que queriam a permanência da tal clínica. Pois é! Nem se trata de um spoiler pois como o nome da história nos mostra toda a trama se desenvolve com essa vaga que surge. Abrindo então uma acirrada disputa para quem ocuparia essa vaga que daria o voto decisivo. Num vale tudo onde muita coisa virá à tona.

the-casual-vacancy_enterro-de-barryA vaga surge com a morte de Barry Fairbrother (Rory Kinnear) que deixara a reunião sem finalizar seu voto. Advogado. Escritor. Professor de Educação Física. Barry mantinha um bom relacionamento com os adolescentes. Pelo bom humor. Pela generosidade. Barry tentava ajudar principalmente os que seguiam pelos caminhos das drogas. Mas também aqueles que ainda não tinham metas para um futuro próximo mesmo tendo algum talentos: era o verdadeiro Mestre indicando caminhos. Entre os que ele estava ajudando tinha a jovem Krystal Weedon (Abigail Lawrie). Sendo ela uma das personagens importante na história voltarei a ela mais adiante.

the-casual-vacancy_01Continuando com Barry que não era muito querido pelo meio irmão Simon Price (Richard Glover). Mas esse até pelo temperamento violento nem era estimado pelos próprios filhos. Barry tinha também deixado uma “porta aberta” para um dos sobrinhos, o Andrew “Arf” Price (Joe Hurst). E esse talvez em reconhecimento ao tio, ou mesmo numa desforra ao pai que entre os maus tratos por conta da acne de Andrew o chamava de “Cara de Pizza“, ele então invade a website de Pagford e difama Simon às vésperas da eleição para a vaga advinda da morte de Barry. Mas além disso ele pensa no futuro e até longe dali, para tanto vai trabalhar numa Cafeteria.

the-casual-vacancy_02Na busca por um Conselheiro e que siga com a permanência da Clínica a médica Parminder Jawanda (Lolita Chakrabarti) tenta convencer o Vice Diretor da escola local, Colin “Cubby” Wall (Simon McBurney). Pelo temperamento “sem ter papas na línguaParminder acaba cutucando com vara muito curta o principal casal opositor: Howard (Michael Gambon) e Shirley Mollison (Julia McKenzie). Como também deixa a princípio um clima tenso entre o casal Cubby e sua esposa Tessa Wall (Monica Dolan), Orientadora Educacional e grande amiga de Parminder. Para Cubby além da timidez essa eleição o deixa apreensivo por descobrirem algo do seu próprio passado.

the-casual-vacancy_03Tessa e Cubby têm um outro grande problema: o rebelde filho Stuart “Fats” Wall (Brian Vernel). Fats tem como melhor amigo Arf, mas a amizade entre os dois terá altos e baixos ao longo da história. Talvez por ter sido adotado Fats busca por uma superioridade, mas mais por intimidação praticando bullying contra os próprios colégios da escola. Fats também se envolve com Krystel mesmo contrariando a mãe que embora gostando da jovem tem consciência que o filho não tem estrutura para um relacionamento mais sério com a jovem que além de ser mãe solteira tem uma mãe que vive drogada e em más companhias. Fats fica mesmo num baseado de vez em quando e sem nenhuma vontade de trabalhar.

the-casual-vacancy_04Entre os que se veem nas mãos de Fats por conta de ser disléxica se encontra Sukhvinder Jawanda (Ria Choony): filha de Parminder com um famoso cirurgião plástico, Vikram Jawanda (Silas Carson). Com a campanha para que Cubby vença Parminder acaba negligenciando Sukhvinder que se ressente ainda mais. Se retrai no mundo da música. Como também resolve colocar “fogo” na eleição invadindo também a website de Pagford, mas como o “Fantasma de Barry Fairbrother“. Que além de desagradar alguns, causa curiosidade entre os principais interessados no “voto decisivo” em saber qual babado forte virá a seguir.

the-casual-vacancy_05Os Mollisons veem com o casal que quer construir o tal SPA a entrada para uma elite bem acima deles. Como comerciantes bem sucedidos de Pagford se veem a si mesmo como a fina flor da sociedade local. Mais até! Odiando a base da pirâmide social. E então para conseguirem o tão sonhado “voto decisivo” tentam convencer o próprio filho, Miles Mollison (Rufus Jones), a entrar na disputa. Mesmo que para isso baguncem o já fragilizado casamento de Miles com Samantha Mollison (Keeley Hawes). Por certo Miles gostaria mesmo de tentar conciliar a vontade dos pais com o relacionamento com a esposa. Além de continuar exercendo tranquilo sua advocacia, ainda mais que com a morte do sócio, o Barry, terá a firma só para si. Mas Samantha não deixará barato a indiferença conjugal como a falta de postura do marido perante os pais. Para tanto organiza um jantar com os principais opositores dos sogros. Um jantar bem apimentado!

Há outras tramas paralelas como também atreladas a disputa pela tal vaga. Com interessados ou com os que nem estão ligando eleição, e até por aqueles que teriam na tal Clínica uma saída do mundo das drogas. A mobilização de fato recai entre parte da elite do pequeno vilarejo: onde de um lado há os que querem ver pobres e drogados bem longe dali e do outro lado os que possuem um pensamento socialista por quererem menos desigualdade no condado.

A Minissérie “The Casual Vacancy” foi apresentada em 2015 pelo canal HBO. Mas como tem sido reprisada vale conferir. Até para rever! Que foi o que eu fiz até por conta dos temas abordados. Que nos leva a reflexões. Ficando o querer rever todo esse longo filme. Como também me deixou com vontade de ler o livro no qual o filme foi baseado. Livro esse que aqui no Brasil recebeu o errôneo título de “Morte Súbita“. É que desfigura o contexto principal da trama: a guerra pela vaga aberta. Enfim, confiram essa excelente história!

The Casual Vacancy (2015).
Ficha Técnica: na página no IMDb.

O Substituto (Detachment. 2011)

o-substituto_2011Por: Francisco Bandeira.
E eu nunca me senti tão imerso em uma pessoa ao mesmo tempo em que estou tão desapegado de mim mesmo e tão presente no mundo.” (Albert Camus)

Tony-Kaye_CineastaMas Tony Kaye escancara que os problemas da sociedade hoje são ligados diretamente a criação dos jovens e a um mal que vem tomando conta do mundo: A SOLIDÃO. Sim, essa que nos afeta, que nos faz guardar nossos segredos, ao ponto de virarmos uma verdadeira bomba relógio prestes a explodir. É a solidão que nos deprime que nos enfraquece e que nos coloca o medo e nos tira sentimentos preciosos como amizade e compaixão.

E o que falar da loucura deste mundo de hoje? Que abraçar uma pessoa pode te colocar como suspeito de um crime grave, porém matar a sangue frio um animal é algo que parece rotineiro em nosso cotidiano. Que mundo é esse que o desapego parece ser hereditário? Que mundo é esse onde os pais estão mais despreparados que os filhos? Que não sabem decifrá-los, que não sabem orientá-los para o melhor caminho. Que mundo é esse, onde as pessoas que querem fazer algo para mudar parecem perder a esperança ao ponto de escolherem tirar suas próprias vidas de tão exaustos que estão delas mesmas?

o-substituto-2011_adrien-bodryO Substituto‘ poderia soar cansativo pelo teor extremamente cru e pessimista, porém neste aspecto a montagem é brilhante por dar um ritmo agradável ao longa e usando flashbacks de forma inteligente durante o filme. A fotografia do próprio Kaye é interessante, alternando cores fortes, preto e branco, usando as sombras quando Adrien Brody aparece sozinho, fazendo meio que um depoimento e embaçando o rosto do protagonista de forma curiosa durante a projeção. Seu trabalho de direção é preciso, empregando um tom quase documental a obra, aumentando ainda mais o impacto de algumas cenas. O roteiro é o ponto forte do filme, com questionamentos fortes, inteligentes e conduzidos com maestria. Reparem no tom pessimista através dos monólogos de Barthes, como se tivesse perdido a esperança nos jovens e, especialmente, em sua família, mostrando que não resta muita coisa aos professores que operam verdadeiros milagres em sala de aula.

O elenco está fabuloso, repleto de nomes conhecidos como Lucy Liu, James Caan, Blythe Danner e Marcia Gay Harden brilhando em cena. A surpresa fica por conta da estreante Sami Gayle, que consegue pegar uma personagem meio batida e inserir uma enorme complexidade nela, graças a coragem em sua composição. Ainda tem Louis Zorich espetacular como o avô do protagonista, em um homem que sofre de Mal de Alzheimer e pensa sinceramente que sua vida não merece ser lembrada, afinal, nem ele se lembra dela mesmo. Mas o grande destaque fica pela atuação visceral de Adrien Brody. O ator vive Barthes de forma intensa, oferecendo um dos melhores (senão o melhor) desempenhos de sua carreira. E o interessante em seu desempenho vem de sua postura com os ombros curvados, do olhar cabisbaixo, devastado, da mudança em seu tom de voz, a fúria contida explodindo de dentro pra fora. Suas lágrimas, que soam verdadeiras, assim como a profunda melancolia estampada em seu rosto, em suas lembranças e na desesperança presenciada em seu dia-a-dia, mostrando todo peso que aquele homem carrega mesmo tendo como regra a INSENSIBILIDADE.

o-substituto-2011_01Bullying, suicídio, assédio, abuso, prostituição infantil, desigualdade social, sistema de ensino público e hospitais com pessoas desinteressadas e desmoralizadas regendo algo de fundamental importância. Todos esses problemas são tratados com extrema atenção por Kaye, que dá a cara para bater, nunca fugindo dos questionamentos levantados durante a fita, que permeiam este vigésimo primeiro século de vida. O filme não é uma crítica direta a “Geração Y” como muitos apontam, mas sim aos pais destes jovens de hoje. “Deve haver um currículo para ser um pai“, fala Barthe durante o longa. Nas reuniões das escolas, onde a pergunta que ecoa pelos corredores escuros e vazios são “onde estão os pais dessas crianças?“, em um tom quase desesperador. É o desapego passando quase que de forma hereditária, sendo refletida em manchetes de primeira página dos jornais, mas que ninguém parece ligar para isso.

Sim, os pais precisam de pré-requisitos, pois o comportamento dos filhos é de grande parte influenciada por seus genitores, por aqueles que nos criam e que são nossos exemplos diários. Onde estão aqueles que se importam com seus descendentes? O que vemos é o inverso, são os que têm suas crias como verdadeiros fardos, que vão à escola brigar com os professores por ter que ficar em casa cuidando de “seu rebanho”. Cadê os sentimentos básicos como amor, amizade, respeito, cumplicidade e compreensão? Será que tudo está perdido? Em qual universo a depressão é tratada como uma mera bobagem? Em que lugar você discriminar alguém é engraçado? De que maneira desmoralizar as pessoas pode ser um estímulo para que a mesma possa tentar melhorar suas deficiências? Desde quando você tentar ajudar as pessoas é um delito? É revoltante pensar que tantas questões possam ser levantadas durante 97 minutos, e ainda serem tratadas de maneira tão banal pela sociedade. Será que todos precisam de um Henry Barthes? Porque não podemos simplesmente ser um Henry Barthes? A verdade machuca, mas aqui, é necessária… Necessária não, é obrigatória para acordarmos e começarmos a fazer nossa parte, antes que o desapego tome conta e nos faça querer desistir do amanhã.

Por Francisco Bandeira.
Avaliação: 8.5

Boyhood: Da Infância à Juventude (2014)

boyhood_2014_posterPor Luz de Luma.
A banalidade da vida é tediosa para aqueles que estão fora dela.

boyhood_2014_personagensDoze anos se passaram em marcha lenta desde que Yellow tocava. O mundo continuava a girar e canções, filmes, videogames e livros serviam de referência para aqueles dias.

Boyhood“, o filme que levou 12 anos para ser feito.  Vale conferir o trailer e imaginar o que se passa na vida de um garoto dos 5 aos 18 anos. Mason (Ellar Coltrane), cresce na tela diante de nossos olhos. Foram usados os mesmos atores em todos os anos de filmagem; eles se encontravam alguns dias por ano entre 2002 e 2013. Ethan Hawke e Patricia Arquette interpretam os pais, Lorelei Linklater, a irmã de Mason em torno do qual gira o filme.

Escrito e dirigido por Richard Linklater, da trilogia: “Antes do amanhecer”, “Antes do pôr-do-sol” e “Antes da meia-noite”, é um filme ambicioso e diferente de qualquer outro já feito. É ao mesmo tempo uma cápsula nostálgica do tempo do passado recente e uma ode ao crescimento e parentalidade. É impossível não assistir Mason e sua família, sem pensar em nossa própria jornada.

Quando recebi o convite para assistir “Boyhood“, aceitei rapidinho por ser fã do trabalho de Linklater. Eu realmente gostei da trilogia de “Antes do Amanhecer” que também contou com a participação de Ethan Hawke. Mas não foi amor à primeira vista. Quando assisti achei monótono e com muito blá-blá-blá, até que entendi toda a tônica de uma história baseada em fatos reais. Ficou mais interessante. Foi como fechar um livro e começar a lembrar cada vez mais das partes e perceber que é um filme em que as mensagens (diálogos) são mais importantes que a história em si.

boyhood_richard-linklaterInfelizmente Amy Lehrhaupt morreu um ano antes do primeiro filme ser lançado; foi ela a mulher que passou uma noite com Richard Linklater em 1989 e o inspirou a escrever: “Da meia-noite a seis da manhã (…) andando por aí, flertando, fazendo coisas que você nunca faria agora“. O encontro, por acaso, foi dentro de uma loja de brinquedos e antes de se despedirem, seguiu-se a conversa:
Ele: “Vou fazer um filme sobre isso.”
Ela: “Como assim, isso? Do que você está falando?
ELe: “Apenas isso. Este sentimento. Essa coisa que está acontecendo entre nós“.

E minhas expectativas foram atendidas, em ambos os casos e estou admirada com a ambição e paciência para produzi-los. Ainda mais porque “Boyhood” não é enigmático, apesar de acompanhar o envelhecimento dos personagens envolvidos, mas não é o foco central e a história se move de forma natural, não há tensão artificial e dramas inventados para manipular o público. Realmente capta o sentimento do que é ser jovem para muitas pessoas. Mas nem todas, é claro. Nem mesmo para todos os meninos. Qual é a minha queixa sobre o filme: O título é horrível.

boyhood_a-familiaAs escolhas dos pais e as interferências que essas escolhas causam no futuro dos filhos. Escolhas feitas em busca da sobrevivência, exigindo resistência e força. E vidas são moldadas pelas escolhas ou pela falta de opções? Os pais podem sair de casa, mudar de cidade e carregar os filhos como se eles fossem ocos e sem apego, que não sentirão saudades, que na infância muita coisa será esquecida e que muito se perderá na memória.

A questão é que a memória é feita de uma forma para não apenas termos lembranças, mas dela tirarmos base para que acontecimentos futuros entrem no roll das boas memórias, ou não. Freud afirmou que “sofremos de reminiscências que se curam lembrando”, na pior das hipóteses, são as reminiscências também a causa de todos os males.

boyhoodO Aparelho psíquico interage e reflete no corpo, pois também é um órgão. Ele precisa se alimentar de ações e pensamentos saudáveis. Lembrando um fato, ampliamos a ideia da reconstrução histórica, repetindo e recolocando no presente aquilo que não teve lugar psíquico em seu próprio tempo. Lembrar é colocar na consciência do ego, que evolui o fato e esse passa a significar.

Quando o assunto é o padrão humano, ele não tem que responder por todos os outros. Não é como preencher um formulário em que se verifica a escrita sempre na mesma “caixa” (espaço) de resposta.

É sucesso, virou meme!! “Cathood” (ou “Boyhood – Cute Kitten Version”), Manboyhood, Potterhood (Harry Potter), Apehood (Planeta dos macacos)…

Boyhood: Da Infância à Juventude (2014). EUA. Direção e Roteiro: Richard Linklater. Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, +Cast. Gênero: Drama, Família. Duração: 165 minutos.

P.s: Segue o link do texto original: http://luzdeluma.blogspot.com.br/2014/08/a-banalidade-da-vida-e-tediosa-para.html

Poesia (Shi/Poetry. 2010). Um Ode a um Basta a Violência Contra a Mulher.

Poesia_2010Qual o papel de fato da mulher na atualidade? Independente da cultura onde vive, ou mesmo da classe social. Ainda cabe a ela se deixar subjugar aos machos alfas? Se sim. Como quebrar esse ciclo? E sem uma perda de identidade feminina!

A poesia é um jeito de olhar para um fato com emotividade. Tirando de si mesma todas as armaduras que muita das vezes a própria sociedade impôs. Mesmo que se utilize de palavras para expressar, houve antes um olhar puro, desnudo, sentido entre o observador e o objeto. Mesmo que leve um tempo nisso, mais do que uma transcrição será uma tradução do sentimento naquele momento: alegria, dor, vazio, paz, descontentamento, impotência, segurança, amor, ternura…

O filme “Poesia” mostra a quebra de um ciclo. Dando um “Basta!” a algo que choca em todos os sentidos. Mais! Até porque ainda é aceito por muitas culturas, ou mesmo por parte da sociedade em muitos países. A violência contra a mulher.

A protagonista dessa história (Jeong-hee Yoon) antes que a doença de Alzheimer lhe tirasse todo o discernimento da vida, mergulha fundo em si. Sem mesmo saber se sairia de alma lavada. Mesmo tendo que abdicar de valores que até então lhe eram muito caro. Seria como um último sopro de consciência. Como se fosse a última vez que se sentiria dona do seu próprio destino. As aulas de poesia foram a folha em branco e o lápis para aquele réquiem… Seria um ato de coragem.

Falar mais é tirar até o crescimento das reflexões sentidas durante o filme. Sim! A tradução correta são pensamentos advindos das emoções sentidas em “Poesia“. Onde como as águas de um rio: cada momento é único.

Belíssimo! Tristemente inspirador observar a natureza humana em toda a sua essência.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Poesia (Shi/Poetry. 2010). Coréia do Sul. Direção e Roteiro: Lee Chang-dong. Elenco: Jeong-hee Yoon, Hira Kim, Da-wit Lee. Gênero: Drama. Duração: 139 minutos. Curiosidade: Melhor Roteiro no Festival de Cannes 2010.