Rindo à Toa (LOL – Laughing Out Loud ®. 2008)

Bem-vindos ao Século XXI, Queridos!

Pois é! Uma das falas do filme. Pontuando o tempo. Onde Pais e seus Filhos Adolescentes vivem em um mundo com internet e celulares. E isso a princípio seria o ponto que faria a diferença de quando eram esses pais, os adolescentes. Mas ao longo do filme vem é a frase símbolo da música de Belchior: “Nós ainda somos os mesmos, e vivemos como nossos pais.” Só que ela teria que vir sempre com uma “interrogação”. Como um alerta. Como uma parada para uma reflexão. Como lições.

O que mudou de uma geração para outra? Não pode só ser os avanços tecnológicos. Os anseios, os medos, os conflitos, os abusos, os desejos… Enfim, todas as emoções vivida quando se é bem jovem não podem ser esquecidas. Ou usando um termo atual, toda essa história passada não deveriam ser deletadas da mente. Se quando adultos, e com filhos querendo também construir a sua própria história, e num período onde a sexualidade está à flor da pele, muitos desses pais acabam por ser tornarem reacionários. Mas por que? O “É Proibido Proibir!” tomou outro rumo? Levando-os agora a terem uma marcação cerrada com seus filhos, e até com uso da tecnologia cerceando as pequenas fugas no meio da noite. A liberalização que tanto ansiaram deixou de existir quando se tornaram pais?

Então o que de fato mudou? Ou melhor, qual seria a tônica nesse filme?

Embora a trama põe no centro a jovem Lola, o que pontua mesmo é: Filhos ontem, pais atuais numa rota de colizão. Creio que muitos de nós, ainda na adolescência, ao ouvir um sonoro “Não!” dos pais, também ouviu como uma explicação, um: “Filho hoje, Pai serás!“. E em vez de se especular sobre esse passado real, fica a sugestão para assistir esse filme que no Brasil ganhou o título de: “Rindo à Toa“. Uma tradução literal de uma expressão do mundo da internet: LOL. Um acrônimo de: laughing out loud. Para mim seria como: “Adolescência – última parada para curtir a vida sem compromissos!”.

Até porque o filme traz os adolescentes voltando das férias escolares mais longas. Para alguns, foram as últimas dessa fase descompromissadas. Por aflorar talentos, e então investirem nisso que já pode ser um passo para uma carreira futura. Mas também para muitos ainda terá a vez e o tempo de zoar com tudo e todos. E nessa volta ao colégio, entre vivenciarem mais um tempo juntos, há o de querer saber o que aconteceu nesse período em que estiveram afastados.

Lola, também chamada de Lol, descobre que seu namorado transou com outra. Com raiva, resolve ter a primeira transa com o melhor amigo de ambos, mas… Paralelo a isso, outros conflitos entre pais e filhos. A própria Lola também está passando por um com a mãe. Pelas páginas de seu Diário é que vamos conhecendo toda a trama. Ou todo o drama dos personagens que por conta da diferença de idade, acaba tendo dois pesos. Pois é! O que pode ser um verdadeiro drama para um, pode não ser para outro.

Nessa em ter “dois pesos – duas medidas”, segue a mãe de Lol, Anne. Personagem da sempre linda Sophie Marceau. Ela que no passado sonhou por uma liberização feminina em relação a sexualidade, no presente se reprime por conta da sociedade local. Assim, transa furtivamente com o ex-marido. Os filhos fingem que não sabem. Como também não ligam pelo fato. Anne também se vê presa a outros preconceitos. Um deles quanto a um cara na moto. Age como se ele tivesse saído de “Sem Destino“. Depois, numa palestra na escola de Lol, percebe a grande mancada. Ele é Delegado da Narcótico. Envergonhada, tenda fugir, mas acabam se encontrando de novo. Mas certos pré-conceitos acabam sendo como manuais para alguns. Como para ele que por força do trabalho consegue traça o perfil de um jovem pelo esteriótipo. Mas diferente de Anne, a sua balança não é de discriminação, e sim em sacar se terá repercussão futura ou não esses pequenos deslizes de quando se é adolescente.

Esses paradoxos também é um dos pontos altos desse filme. Como quando Anne sem querer se depara com o Diário da filha. Não resistindo, lê. E fica assustada pelo o que está escrito ali. Ao mesmo tempo que sabe que foi uma invasão de privacidade e se sente culpada, também pensa num jeito de dar um castigo para a filha. Nem passando por sua cabeça de que ali estaria um talento de Lol aflorando: um dom para romancear seu dia-a-dia. Nem pensou que ali se misturavam ficção e realidade. E a cobrança termina por afastar a filha.

Para os jovens, uma excursão da escola à Inglaterra ganha a dimensão de ficarem juntos e sem a vigilância dos pais. Para esses, também. Só que se tivessem um diálogo maior com os filhos poderiam canalizar toda essa gana por essa breve liberdade numa sutil conversa de que irão conhecer uma outra cultura, de um costume diferente, que terão acesso a uma outra língua, por ai. Sem ser careta, despertar no filho a curiosidade em aumentarem a própria cultura de forma prazeirosa nesse intercâmbio. Até para não estranharem tanto as pessoas como fizeram por lá.

A cada vivência nessa fase, a vida parece não acompanhar a pressa dos adolescentes. Mas de certa forma, para alguns o amadurecimento vem sim rapidamente. Assim, em vez dos pais criarem só barreiras, deveriam deixar umas portas abertas. Inclusive a do coração. Porque num aperto maior, serão a esse pai/mãe que irá pedir por ajuda. E diálogo sempre traz bons resultados.

Por último, embora esses conflitos entre pais e filhos adolescentes seja algo universal, a história do filme tem-na na França. Mesmo não sabendo muito dos costumes desse país transparece em “Lol” que a história nasceu ali. Que é dali. Essa identidade salta aos olhos. Tanto que me levou a pensar se a Diretora, e também Roteirista, conseguiu transferir toda essa história e identificá-la com a cultura estadunidense quando aceitou também dirigir a versão hollywoodiana.

Então é isso! Paisagens lindas. Uma ótima Trilha Sonora! Todos estão em uníssono! Um filme gostoso até de rever!
Nota 09.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Rindo à Toa (LOL – Laughing Out Loud ®. 2008). França. Direção e Roteiro: Lisa Azuelos. Elenco: Sophie Marceau (Anne), Christa Theret (Lola), Jérémy Kapone (Maël), Marion Chabassol (Charlotte), Lou Lesage (Stéphane), Émile Bertherat (Paul-Henri), Félix Moati (Arthur), Louis Sommer (Mehdi), Adéle Choubard (Provence), Jade-Rose Parker (Isabelle de Peyrefitte), Warren Guetta (David Lévy), Alexandre Astier (Alain), Jocelyn Quivrin (Lucas), Françoise Fabian (Mãe de Anne), Christiane Millet (Mãe de Charlotte), Liza Azuelos (Psiquiatra). Gênero: Comédia. Duração: 103 minutos.

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A Separação (Jodaeiye Nader az Simin. 2011)

Por Alex Ginatto.
Pude assistir ontem a este surpreendente filme. De início acho que fui um pouco preconceituoso por se tratar de um filme iraniano, mas o enredo se aplica a qualquer lugar do mundo, talvez se focarmos um pouco menos na religião.

Realmente conseguimos sentir a aflição de todos os lados:
-o marido orgulhoso que não quer que a esposa se vá, mas também não diz isso a ela;
-a esposa, preocupada com o futuro de sua filha, querendo sair do país, mas não suportando a ideia de que o marido não concorde com ela;
-a filha em uma época complicada, diante da separação dos pais, se vendo como objeto de disputa;
-o senhor que não pode vencer o corpo e mente desgastados pela doença;
-o casal mais pobre entre a religião e o dinheiro devido aos credores.

O filme se mostrou muito maior do que se imagina pelo título e acho que a ideia do diretor ao finalizar sem um lado é justamente focar no todo e não somente na separação do casal.

Tudo o que acontece durante o filme é fruto de mentiras e decisões precipitadas iniciadas pela saída de Simin de sua casa. Ou seja, a separação é o início de tudo, e o filme termina com a certeza de que o que fica pendente durante todo o seu desenrolar, ao contrário do que parece, tem um fim, se concretiza.

Não sei se para rever, mas para se pensar e aplicar em nossas vidas.

Excelente filme!
Nota 8.

A Separação (2011). Ou: o Declínio da Família Contemporânea.

E quem estaria com a razão? Todos… Ninguém… Pois tanto em termos da natureza humana, quanto da sociedade, tudo dependerá de seu próprio ponto de vista.” (Asghar Farhadi)

O filme “A Separação” traz em primeiro plano uma reação em cadeia devido a separação de um casal. Pois quase todos os envolvidos se viram na obrigação de mentir, ccomo também de omitirem certos fatos. E que para alguns deles o que antes parecia ser uma mentirinha de nada, tomou um rumo inesperado.

Agora, seria mesmo uma casualidade de chegarem ao ponto onde chegaram? Que ao mentirem crendo ser com boas intenções não haveria implicações? Até porque para manter a mentira que se contou terá que obter pelo menos o silêncio de outros envolvidos. E estando de posse da mentira do outro, teria como se eximir da própria? O ato de mentir traria muito mais o peso do pecado ou o do perjúrio? Mas e quando Religião e Estado ocupam o mesmo estado de direito? Mais! E quando o Sistema Judiciário, sobrecarregado, se perde nas próprias malhas da Lei? A sucessão de erros fora por que alguém não segurou a onda? Mas quem, ou melhor, o que foi o ponto inicial desse drama familiar? Que terminou envolvendo outras pessoas. Onde inocentes ou culpados todos pagaram um preço.

Além dessas reflexões, o filme também traz um outro tema: o de ter um membro da família já idoso, com o agravante de precisar de atenção e cuidados por quase 24 horas diárias. Interná-lo, ou mantê-lo em casa? Quando a renda familiar não permite colocar profissionais para esses cuidados, aceita-se qualquer um? Mas nesse filme vemos um outro ponto. A mulher ganhando mais que o marido, e sendo o idoso o pai dele. Onde eu acho que tudo começou. Sobrecarregada, mesmo gostando do sogro, ela tomou uma decisão precipitada. O marido que antes já não tinha aceitado que a esposa pagasse por enfermeiro, não seria com a nova decisão dela que ele mudaria de opinião. Numa de que é o “macho que sustenta a todos da família”? Mas ele também se precipita aceitando a primeira que apareceu para tomar conta do pai. E o pobre do idoso, sem querer, termina por ser a causa da separação do casal.

A separação veio por mais uma decisão sem pensar de Simin (Leila Hatami) que vira na permissão dos vistos (passaportes) uma chance de sair do Irã. Acontece que o marido, Nader (Peyman Moadi), não quis abandonar o próprio pai (Ali-Asghar Shalbazi); o tal idoso, e acometido do Mal de Alzheimer. Então, também orgulhosa, ela pede a separação de direito do casal. Até porque Nader concordou com o desenlace deles, mas  não concordou que ela levasse a filha do casal: Termeh (Sarina Farhadi, filha do Diretor do Filme: Asghar Farhadi.). E que essa por sua vez, já uma adolescente, não queria perder os estudos.

Simin pensou que assim intimidaria o marido. O que talvez teria conseguido se houvesse mais diálogo entre o casal. Já com quase 15 anos juntos, estavam à beira de uma crise, e que pelo jeito nenhum dos dois percebeu. A seu favor, havia o peso de uma sociedade machista e autoritária, e de tradição centenária. Dai o fato de ter focado mais no destino final – o de viverem em outro país -, do que ir preparando terreno aos poucos. Sufocada, não pensou direito.

Tanto um quanto o outro usaram a própria filha como desculpa. Grande erro! Pior! Jogaram nos ombros dela a decisão final. Simin via em sair do pais um futuro não tão rígido para Termeh. Já para Nader ele achava o país o melhor lugar para criar a filha. Mas no fundo, ambos sabiam que a filha os manteriam pelo menos próximos um do outro. E é algo que machuca: em ver que ainda havia amor entre esse casal.

Termeh, em meio a esse fogo cruzado, fica sem saber o que fazer. Como agir. Talvez por conta de um temperamento calado, muito mais propensa aos rigores da tradição do país, do que a própria mãe, ela foi cozinhando os dois em banho-maria. Desejava a reconciliação deles.

Em “A Separação” vemos como pano de fundo um Irã de uma classe média alta. Se não fosse pelos lenços cobrindo as cabeças das mulheres, o lugar passaria por um bairro em algum país do Ocidente. Mas avançando o olhar, ele é definido como sendo um com tradição Islã pela modo como tratam as mulheres.

Agora, como em todo lugar do planeta, se há a classe que se dá o luxo de pagar por empregados domésticos, também há esse outro contigente advindos das classes mais baixas. Onde moram no filme é ilustrado pelos ônibus: significando que moram longe dali. O que pesa também para essas pessoas: distância + custo das passagens + cansaço por essa jornada…

Personificando esse proletariado teremos um outro casal, e que serão envolvidos nessa separação inicial. A primeira envolvida será Razieh (Sareh Bayat), com a filhinha. Depois, seu próprio marido: Hodjat (Shahab Hosseini). Se para o primeiro casal, nem o fato de “não faltar nada em casa” pesou para manter o casamento, o mesmo foi um fator preponderante em salvar a própria união. É que desesperada em ver o marido, há meses desempregado, ter sido levado pelos credores, Razieh mesmo grávida, mesmo indo contra a sua religião, implora pelo emprego a Nader. E ocultando tal fato do marido.

Nader tendo que ir trabalhar, não querendo ser render de que precisaria da esposa de volta, ciente também de que estaria indo contra os princípios do islamismo, aceita que Razieh tome conta do pai, e da casa. Ela por sua vez fica ciente de que o idoso Alzheimer. Logo, em algum momento teria que tocar nele. Num homem. E quando tal hora chega, é um quadro patético em vê-la ao telefone querer saber se isso seria pecado ou não.

Não ficando só nisso, ainda há lhe pesar… Pela distância percorrida até chegar nesse emprego, pela gestação em período de cuidados, pela jornada dupla de trabalho, Razieh coloca a filhinha para ajudá-la no serviço da casa. A criança ao descer as escadas com o lixo, acaba entornando-o. Uma moradora do prédio impõe que Razieh limpe, e logo. Aturdida, ela esquece do idoso. E…

A partir daí mais erros se sucedem. Como uma avalanche. Mentiras e omissões em lugar de diálogos francos e respeitosos. E quando Hodjat descobre tudo, a teia de situações conflitantes aumentam. A grande questão que se estampa: Quem iria dar um freio aquilo tudo? Para no mínimo tentar uma conciliação geral. Um meio-termo onde ninguém achasse que não teve razão no que fez.

Não pude evitar em pensar na crise atual e no mundo real. Onde estão aumentando a população pobre dos países tidos como do primeiro mundo. Como também, que mesmo criticado por muitos, o Brasil com o seu Bolsa-isso-Bolsa-aquilo fez foi diminuí-la. Então, no filme, para esse casal de baixíssima renda, o próprio país era ainda mais opressor do que para o outro. Não havia o Bolsa Família do Ocidente, por exemplo.

Mas tanto Estado quanto Religião, em geral, incentiva em se ter uma família. Não importando se terão como mantê-la ou não. Não é de boa política o planejamento familiar. Algumas tradições ainda incentivam em trazer mais filhos ao mundo.

Para o casal pobre o desemprego viera já estando casados e com uma filha nascida e outra a caminho. Pesando ainda o fato de que psicologicamente Hodjat não estava tarimbado para ser um pai, nem em constituir uma família. A recessão que passava só trouxe a tona seu temperamento explosivo. Com tudo isso, o casal não apenas se envolveu, como também Hodjat quis tirar proveito de um fato. Já que com a indenização, teria como se livrar dos credores.

Além da crise financeira poderia se pensar que é por culpa de uma cultura machista? Se sim, ela não é privilégio das de tradição Islã. As do Ocidente, mesmo que veladamente, também se calca nela. Se alguém achar que não, que preste atenção nas propagandas de algum produto voltado ao lar, a família, só como exemplo. Eles colocam a mulher como compradora compulsiva, ou como uma “do lar”. Já para o homem, o mesmo produto é vendido como um hobby. Então a culpa não seria por ocidentalizar os costumes locais.

Para mim, o que Asghar Farhadi quis mostrar em “A Separação” é que a instituição Família que está em falência.

Que não importa se no Ocidente, ou no Oriente, é esse laço que precisa ser revisto. Ser pesado. Ser reavaliado sempre. O “sombrio” sentar para discutir a relação precisa acontecer. E que em vez de já numa mesa de um Juiz da Vara de Família, por que não com a ajuda de alguém da Área Psico, assim evitando chegar as vias de fato. Tem uma certa hora que o melhor a fazer é sentar e conversar. Saber o que cada um ainda estaria procurando nessa relação. O que, ou em que, cada um cederiam para uma boa convivência. Pesar se é o ser ou o ter que é alicerce da mesma. É por aí. Já que para cada casal também há conflitos únicos.

Não sei se por conta de não sofrer censura do governo e com isso não teria o filme liberado que Asghar Farhadi deixou o final em aberto. Os créditos subindo, e de cá ficamos sem saber a sentença final. Mas que para mim houve sim um desfecho. Como citei anteriormente: ele quis mostrar o declínio da instituição Família. Em qualquer classe social, e a bem da verdade, em qualquer cultura também!

O filme deixa uma vontade de rever logo em seguida. Por ficar a sensação de ter perdido tal cena quando mais a frente ficamos ciente de que foi ela que levou a tal consequência, a tal mentira. É uma uma mentira levando a outra, e depois a outra, e mais outra… A trama vai se revelando aos poucos, como num Thriller. A impressão de não termos prestado atenção no fato anterior, é por também querer conhecer, saber de todos os detalhes para melhor avaliar; para então ver se havia razão de ser. O ter como ponderar, como numa cena entre Nader e Termeh. Na realidade, sabemos como o fato anterior se deu. Julgá-los já se perde a razão de ser. Até porque: está feito! Como também não é de nossa alçada.

Então é isso! Com um elenco afinado – de querer vê-los em outros trabalhos -, temos em “A Separação” um filme Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Separação (Jodaeiye Nader az Simin. 2011). Irã. Direção e Roteiro: Asghar Farhadi. Gênero: Drama. Duração: 123 minutos.

Dente Canino (Dogtooth / Kynodontas. 2009)

Imagem“Dogtooth” explora as características da evolução da educação familiar – quando um casal decide fechar seus filhos ao mundo de um modo geral. Psicologicamente perturbador, este filme tem uma abordagem quase documental para analisar a educação mal concebida e os danos na vida dos três filhos do casal.

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Os três adolescentes sem nome vivem trancados em casa, e sendo educados no sistema “home school”-  onde os pais promovem uma educação  fora do sistema tradicional, e acrescentam uma instrução moral de acordo com suas respectivas crenças. Em muitas cenas, esses adolescentes escutam a mãe dá-lhes palavras do vocabulário do dia:  “mar” é uma poltrona de couro;  “telefone” significa saleiro; “zumbis” significa flor amarela e “b*ceta” significa luz grande. Protegido pelos pais, os adolescentes só estarão prontos para explorar o mundo exterior quando seus dentes incisivos (referencia ao dente canino) cairem.

Ocupando o seu tempo jogando jogos de resistência controlada pelo pai, os jovens tem um único contato com o mundo exterior, quando recebem a visita de Christina (Anna Kalaitzidou), que trabalha na empresa do pai. Ela entra na casa para satisfazer os desejos sexuais do filho do casal, o qual, logo como a cantora Sandy, se encanta com o prazer anal, e frustra Christina ao não querer “desfrutar” mais de sua vagina. A moça, em seguida, contamina o ambiente estéril da casa com influências externas. Se conhecimento pode ser perigoso, aqui fica mais claro, diante da reação da filha mais velha do casal, em querer explorar o mundo exterior.

O cineasta Giorgos Lanthimos foi agraciado com o premio  “Un Certain Regard” em 2009 no Festival de Cannes, e chegou a receber uma inesperada, mas justa indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro no ano passado, mas perdeu o premio para o drama a la telenovela “In a Better World” (2010). Lanthimos me envolveu instantaneamente com sua narrativa, simplesmente porque me senti solto neste mundo louco que ele criou – em vez de fazer uso de “voice over” para guiar a história, ele  nos coloca dentro das emoções dos personagens, evitando os “reaction shots“,  isto é, não temos “close-ups” da emoção expressa pelos atores, mas o efeito é sentido!. Lanthimos também faz um belo uso da cultura pop para nos dar uma conexão com a história; enquanto o uso de sexo, incesto e violência, agita as nossas emoções.

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Os atores não atuam, mas vivem as suas personagens. Nem notei que o filme era falado em grego, de tão fascinado, e chocado com as cenas, principalmente vendo um pai encorajar os membros de sua família a ficarem de quatro e latirem como cães em seu quintal. Não achei engraçado, mas me encontrei intrigado como tal experiência afetaria os personagens mais tarde na história.

Não me importei tanto com o humor negro do filme, e nem foi por isso, que ja revi “Dogtooth” por 2 vezes, mas porque Lanthimos traça um olhar sobre o quão suscetíveis nós seres humanos somos quando somos condicionados a um passo em falso na educação de uma criança e como isso pode causar sérios danos.

Nota 10

Parente… É Serpente (Parenti Serpenti. 1992)

Então… é Natal! Época de reuniões de família, trocas de presentes e… E esse filme mostra o que pode também acontecer nesse singelo encontro. É! Mais de um jeito que mete o dedo na ferida. É o Cinema Italiano com o seu jeito peculiar de nos colocar dentro de um Lar. Desvendando tudo sem o menor pudor.

E o que temos de tempero especial nessa Ceia de Natal?

A Nonna comunica que ela e o marido irão morar com um dos filhos. Cabendo a eles, filhos, decidirem quem os receberá para sempre. Cansados pela idade, e também pela saúde do Nonno, não querem mais ficar sozinhos. Já que atualmente só se reúnem em datas bem sociais, como as Festas de Final de Ano. E o filho que resolver ficar com os pais será o único a herdar o apartamento e tudo mais que eles possuem.

Assim, o que antes do comunicado corria como uma divertida confraternização em família, já que cada um dos irmãos morava em locais distantes, mal se viam por meses, com a notícia é deflagrada não apenas um jogo de empurra-empurra, mas passando por disputas pelo mobiliário, pontuando em trocas de farpas e altas revelações. É! O molho dessa ceia desandou feio.

Bem, se há um problema, há de se haver uma solução. Eles encontram. Agora, só não contavam com o fato que criança sabe somar que 2+2=4, o que elas podem não saber é a aplicação disso. Ah! A doce e santa ingenuidade da infância!

Em resumo: uma divertidíssima e tenebrosa comédia para se ver e rever!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Parente… É Serpente (Parenti Serpenti. 1992). Itália. Direção: Mario Monicelli. Com: Tommaso Bianco, Monica Scattini, Renato Cecchetto, Marina Confalone, Roberto Corbiletto, Paolo Panelli, Alessandro Haber. Gênero: Comédia. Duração: 105 minutos.

Não Se Preocupe, Estou Bem (Je Vais Bien, Ne T’en Fais Pas. 2006)

nao-se-preocupe-estou-bem_posterUm filme que a vontade é já ir analisando-o. Mas por ser recente, e ainda por cima foge dos mais comerciais, creio que muitos ainda não assistiram. Eu o recomendo para um público mais seleto. Conto o porque mais adiante. E que tentarei não trazer spoilers.

Se eu fosse o definir em uma única palavra, ela seria: mentira.

nao-se-preocupe-estou-bemPor mais bem intencionado, por achar que será uma mentira caridosa, não demorará muito para se ver falando outras, e mais outras, para sustentar aquela primeira. A que disse na intenção de poupar alguém, num dado momento. Talvez, esperando o tempo certo para contar. Ou até que o tempo fizesse esquecer. Sendo que esse, não caberia nessa história.Quando eu falei que o recomendo para um público específico, é que o filme traz a relação Pais & Filhos. Numa família de classe média. Onde não há muito diálogo. Até há, mas são conversas superficiais. Como também há cobranças; e nos dois sentidos.

Parece que alguns pais, meio que super protegem aqueles que não têm muita resistência mentalmente para os percalços da vida. E terminam não conhecendo o filho mais forte mais intimamente. E é por aí que fica a recomendação. Se gostar de histórias assim, o ‘Não Se Preocupe, Estou Bem’, é um bom filme.

nao-se-preocupe-estou-bem_02O filme nos mostra até onde pode levar uma simples mentira. O porque dela ficamos sabendo no desenrolar da trama. Quando bate uma dúvida se teríamos feito o mesmo. Mesmo que não, dá para entender porque fizeram isso. São pais. A questão maior, não é se erraram nisso. Mas sim para uma reflexão sobre essa relação. É preciso dialogar sempre. Como também respeitar que cada um dos filhos, não é, não tem que ser cópia.

Sobretudo, como em qualquer relação, ela é construída no dia a dia. Se adequando as novas realidades. E sempre cada um terá que ceder um pouco para uma convivência salutar. Sem conflitos sérios entre gerações. Para que todos se sintam bem naquele lar. Para que quando chegue a hora de ter sua própria casa, a saída seja pacífica.

Não contei da história do filme. Um resumo: Uma jovem, Elise (Mélanie Laurent), ao voltar para casa, após um período de férias na Espanha, recebe a notícia que seu irmão gêmeo, saiu de casa. Após uma violenta discussão com o pai. Ela se desespera… até que chega a primeira carta dele. Onde entre outras coisas, diz a mensagem do título: Não se preocupe, estou bem.

Os atores estão bem. O cenário é lindo. E a música, Lili, que o irmão compôs para ela, é de querer ouvir várias vezes.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Não Se Preocupe, Estou Bem (Je Vais Bien, Ne T’en Fais Pas). 2006. França. Direção e Roteiro: Philippe Lioret. Elenco. Gênero: Drama. Duração: 100 minutos. Baseado em livro de Olivier Adam.