Sempre Bela (Belle Toujours). 2006

Manoel de Oliveira não é um diretor fácil. Desta vez, revisita dois personagens de um clássico extraordinário: “A Bela da Tarde” (Belle de Jour). Daí o jogo lúdico com o título original do curioso “Sempre Bela” (Belle toujours) que cria um encontro casual entre Severine (Bulle Ogier, estrela de “O Discreto Charme da Burguesia”, já que Deneuve recusou o papel) e Husson (Michel Picolli do primeiro filme) 40 anos após os acontecimentos que marcaram a polêmica estória de Joseph Kessel magistralmente adaptada para as telas.

Severine está mudada e um tanto arrependida por ter cedido aos seus perversos impulsos eróticos na juventude, quando foi flagrada por Husson se prostituindo por puro prazer em suas tardes ociosas. O reencontro é embaraçoso e aflitivo porque ela quer saber se Husson contou ao marido sobre suas atividades escusas.

Apesar da curta duração, o ritmo é lento e Manoel permite longas e repetidas tomadas de Paris e monumentos, entre diálogos ricos como os travados com o barman, que explica sua profunda experiência com a psicologia humana por conta de sua presença supostamente neutra. O diretor flerta abertamente com o movimento surrealista de Buñuel ao adicionar personagens bizarros como as estranhas prostitutas do bar e inserindo uma cena aparentemente sem sentido com uma ave visitando um restaurante num momento chave.

É fortemente desaconselhável aos fãs do cinema frenético de cortes epiléticos que podem estranhar uma sequência inteira de um jantar completo em silêncio e à luz de velas. No entanto, as almas sensíveis vão se deliciar com esta humilde e precisa homenagem a um grande filme de Buñuel, retornando o tema da impulsividade humana e suas consequências amenizadas ou exacerbadas com o passar do tempo.

Carlos Henry

Sempre Bela (Belle Toujours). 2006. França / Portugal. Direção e Roteiro: Manoel de Oliveira. Elenco: Michel Piccoli (Henri Husson), Bulle Ogier (Séverine Serizy), Ricardo Trêpa (Barman), Leonor Baldaque (Prostituta nova), Júlia Buisel (Prostituta velha), Lawrence Foster (Regente da orquestra). Gênero: Drama. Duração: 68 minutos. Inspirado em livro de Joseph Kessel.

Anúncios

Veludo Azul (Blue Velvet. 1986)

blues

Uma orelha amputada jogada no mato é o motivo para desenrolar uma trama que serial banal sobre droga, chantagens e prostituição se nao fosse a genialidade underground, pesada de David Linch. No comando do roteiro e direção e o mais cruel de todos: na época era marido de Isabela Rosseline que atuava no papel da sofrida, chantageada, cantora de um repertorio só, Doroty Vallens.

Dizem que o homem foi impiedoso nessa produção não poupando nem a bela Rosseline.

De volta a cidade, o estudante Jeffrey (Kyle Maclachlan) caminha pelos campos e jardim, quando tropeça numa orelha. Assustado, leva o objeto para a policia para investigação.
Mas a policia é lenta, desinteressada. Jeffery se junta a namorada Sandy (Laura Dern) que é filha de um investigador de policia. Um dia ela ouve o pai dizer alguma coisa sobre uma tal de Doroty Vallens, cantora local, cujo marido havia sido sequestrado.
Sandy se afasta da situação, mas Jefferey começa a investigar Dororty , os dois se conhecem e o envolvimento entre eles torna – se mais profundo. Fica a duvida se Doroty amou o rapaz, se ela tem necessidade de estar cercada por homens errados. Jefferey descobre que o marido dela fora sequestrado por uma bandidão traficante, o asmático Frank Both (Dennis Hoper, melhor papel ate hoje) e com isso ela é chantageada de todas as formas pelo cara.

Frases antologicas durante as vezes em Frank que estupra Doroty sempre precedido de uma bombada spray (por causa da asma):
– I fuck anything that moves”, “Heineken? Fuck that shit!”, “I can’t stand warm beer; it makes me fucking puke” , “Now, it’s dark
Dean Stockwell participa no filme, como cantor dublando Roy Orbison.que em minha opinião é a cena mais bonita do filme, pois todo o cenário é rosa. Me arrepiou.

Kyle Maclachlan, atuou no seriado Twin Peaks e atualmente está em Sex & City. Laura Dern continua fazendo papeis secundários. O mais conhecido deles em Jurassic Parker.

She wore blue velvet
Bluer than velvet was the night
Softer than satin was the light
From the stars
She wore blue velvet
Bluer than velvet were her eyes
Warmer than May her tender sighs
Love was ours
Ours a love I held tightly
Feeling the rapture grow
Like a flame burning brightly
But when she left, gone was the glow of
Blue velvet
But in my heart there’ll always be
Precious and warm, a memory
Through the years
And I still can see blue velvet
Through my tears…..

Direção e Roteiro: David Lynch
Genero: suspense, erotico
Elenco: Isabela Rosselini, Dennis Hoper, Kyle MacLachlan, Dean Stocwell
Duração: 115 min, colorido, EUA

Madrugada. De madrugada é o melhor horário para assistir esse filme.

Cris Barros

Festim Diabólico (Rope. 1948)

Eis meu primeiro filme do Hitchcock. Tive o prazer de ser apresentado à sua obra com apenas 14 anos… E ainda acho que foi tarde. Nesse espetáculo, Hitchcock traz às telas uma das mais perfeitas representações do sadismo e da perversão do ego humano de sua carreira.

Aqui, o ‘mestre’ faz uso de breves tomadas alternadas em um único cenário e basicamente o mesmo ângulo de câmera que fazem com que as cenas pareçam ininterruptas, dando um vigoroso ar de teatralidade que só influiu para que o filme ficasse mais e mais grandioso a cada cena, pois sem grandes cenários não havia como encaixar longas e arrastadas seqüências de suspense, tampouco cenas de ação fantásticas. O único cenário deixava toda a ‘responsabilidade’ nas mãos dos atores.

Aliás, se tem algo de vigoroso além da direção que deva ser destacado são as atuações. O elenco, relativamente pequeno, faz-se menor ainda diante da dupla de assassinos e de seu desconfiado professor.

O obstinado Rupert, o egocêntrico Grandon e o assustado Philip rendem alguns dos mais tensos momentos que já presenciei nessa minha breve (mas não tão curta) vida de cinéfilo. Cada vez que alguém apenas dirigia o olhar ao baú onde estava o cadáver, a tensão aumentava e quando a Sra. Wilson levantou a tampa e quase entregou tudo, meu coração disparou (e não é fácil um filme despertar isso em mim).

Ao desenrolar da trama, os demais personagens saem e restam apenas os três principais.. E é aí que o filme embala rumo ao magistral. A tensão aumenta, o desespero de Philip procurando afogar sua culpa na bebida, o sadismo de Brandon mantendo-o firme até o último instante e a perseverança de Rupert tentando disfarçar seu medo por estar sozinho com dois psicopatas tão evidente no tremor de suas mãos.

Aliás, o filme pode ser apoiado sobre quatro pilastras: o baú, a mão de Brandon na arma em seu bolso, o olhar temeroso pelos próprios ombros de Rupert e as doses de Philip (a cada gole, seus trejeitos mudavam… Os olhos ficavam mais fundos e a angústia de sua culpa nos era mais e mais intensa).

E o final não poderia ser mais coerente com o espetáculo. A sutileza de um gênio passada pelas sirenes da polícia.

Enfim… Mais uma obra-prima (tantas, né?) de um dos maiores gênios do cinema. NOTA: 11,0.

Por: Luiz Carlos Freitas.

Festim Diabólico (Rope). 1948. EUA. Direção: Alfred Hitchcoock. Elenco: James Stewart, John Dall, Farley Granger, Cedric Hardwicke, Constance Collier, Douglas Dick, Edith Evanson, Dick Hogan, Joan Chandler. Gênero: Crime, Drama, Thriller. Duração: 80 minutos.

Pecados Íntimos (Little Children. 2006)

little-children.jpg

Sem querer entrar no mérito da pedofilia, por não ser especialista nesse tipo de desvio de comportamento, como também por ser algo que abomino. Não entra na minha cabeça, um adulto tirar o que de mais belo existe na infância – que é a inocência. Eu seguirei por outros temas mais que há nesse filme.

Antes mesmo de chegarem aos tais pecados íntimos do título nacional, os personagens vão mostrando a criança perdida em cada um deles. Mães castradoras. Acontecimentos que os fizeram ficar adultos rapidamente. Cobranças por parte dos adultos. Com isso, terminam por reprimir até um simples e natural desejo.

Mas e aí? Não tem como apagar tudo aquilo. Todo o passado. Certo ou errado, já está feito. Se não souberam canalizar algo forte… ele virá à tona um dia.

Estando adultos, as responsabilidades atuais também devem ser pesadas. Um passo em falso e… Principalmente, quando há uma nova geração nesse presente. Sendo assim, mudanças radicais irão afetá-las.

Quebra-se ou não esse ciclo?
Há mesmo uma cartilha pronta para tudo na vida?
Há de se querer perfeição em tudo?
O medo cega as pessoas?

O filme traz à tona relações em conflitos. Desgastadas. Tentativas de manter tudo sob controle. Deixando até de viver num mundo real. Traições via internet. Fantasiosas ou não, não deixa de ser uma traição. Como também, relações que perduram apenas para manter as aparências.

E como se sai dessa salada? Ou, quem quer de fato mudar de vida? Deixar de ser criança. Crescer. Ser independente.

É meio por aí, que vi o filme.

O final, arrepia! Eu gostei muito desse filme! Nota: 10.

Por: Valéria Miguez.

Pecados Íntimos (Little Children). EUA. 2006. Direção e Roteiro: Todd Field. Elenco: Kate Winslet, Jennifer Connelly, Patrick Wilson. Gênero: Drama, Romance. Duração: 130 minutos.