Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso. 1988)

cinema paradisoPor Rafael Lopes

Uma vez me perguntaram: “Porque você gosta tanto de cinema?”. Respondi: “Assista Cinema Paradiso e terá sua resposta.”.

O cinema é algo mágico. Desde garoto, quando ia nas matinês religiosamente acompanhado do meu pai, ficava ali, deslumbrado com a magia causada por “24 quadros por segundo”, numa sala escura, onde assistia a vida contada com sentimentos múltiplos. Talvez o que torna o cinema uma arte tão bela, seja a mitologia que ela consegue criar em todos. Quando nos impressionamos com uma cena de ação mirabolante, onde algo inimaginável está por acontecer e quando acontece, mesmo sabendo que é de “mentirinha”, você continua impressionado com o que viu e se pega perguntando ”…como eles fizeram isso?!”.

Só que através dos tempos essa magia foi se esgotando. Não assistimos mais aos filmes esperando aquele encanto que tanto nos enchia os olhos. Isso infelizmente acabou lá nos anos 50/70, antes de os grandes efeitos especiais dominarem tudo. Agora nos anos 2000, onde tudo parece ser mais artificial, onde tudo é gerado por um computador e não mais causa o impacto devido e fica apenas aquela sensação de diversão temporária. O cinema está desgastado? Não. As pessoas que aprenderam a não gostar mais.

Hoje o que temos é o DVD na casa de todo mundo, onde preferem ver no conforto de seus lares o que a indústria proporciona. Compram seus DVD’s em bancas piratas ou originais ou ainda alugam e pronto. Em casa mesmo. Mas em casa a coisa não é a mesma da sala escura.

Nada supera a magia que só a sala escura proporciona, aquele friosinho que a gente sente quando a luz apaga e a tela mostra a vida em seus “24 quadros por segundo”.

É sobre isso que Cinema Paradiso, filme italiano de 1989 dirigido por Giuseppe Tornatore, inspiradíssimo, que queria contar uma história de amor ao cinema, atrapalhada pelo progresso, como sabiamente comenta o personagem Alfredo em certo momento do filme. A sinceridade e sensação de nostalgia que o filme proporciona é incrível e indescritível, e faz com que os verdadeiros amantes do cinema, sintam a emoção de seus personagens em momentos cuidadosamente criados para despertas essas emoções.

É a história do pequeno Salvatore, ou melhor “Totó”, como é conhecido por todos da pequena cidade onde vivem na Sicília. A diversão do pequeno é passar o tempo livre no cinema Paradiso, uma das poucas opções de lazer da população local. Lá encontramos todo tipo de gente, mal educados, apaixonados, dorminhocos, falastrões, briguentos e porque não, os apaixonados por cinema, sendo um deles o pequeno Totó. Esperto, ele tenta por tudo conseguir a amizade do projecionista Alfredo (Philippe Noiret), um senhor de sorriso amigável e que logo se rende às astúcias do pequeno garoto.

cinema paradiso

Em meio as dificuldades, o garoto torna-se pupilo do velho projecionista e após um acidente, que deixa Alfredo deficiente, começa a trabalhar pra valer no ramo. O tempo vai passando e o pequeno Totó começa a enfrentar o mundo pra valer. A vida real tenta lhe tirar a imaginação que o cinema despertou nele, mas o amor pela sétima arte o transforma num grande cineasta.

Só que tudo isso longe de casa. 30 anos sem visitar a cidade onde cresceu, onde aprendeu a apaixonar o cinema.Tudo isso por causa das descrenças do velho Alfredo, que só queria ver o garoto feliz e com uma vida melhor, sem os fantasmas que ficaram na cidade velha. Totó volta para o enterro de Alfredo e se depara com todo o seu passado, sem fazer julgamentos, apenas o fazendo pensar em como tudo aquilo lhe foi importante, e como tudo aquilo foi crucial na sua vida.

Suas duas horas de duração são uma grande homenagem ao cinema e à magia que a sétima arte causa. Todos os sentimentos que um filme causa, são enaltecidos em praticamente todas as cenas do filme. Tudo o que o pequeno Totó faz para ir ao cinema nos faz sentir pequenos de novo, quando assistíamos aqueles filmes escondidos dos pais de madrugada (fiz muito isso), e juntávamos aqueles trocados pra alugar um filme na locadora, todas essas coisas que nos fazem perceber o que um filme verdadeiramente nos causa. Esse é o principal objetivo do filme e ele o alcança com muita graça e sucesso.

Muito bem dirigido, e emocionante na medida certa, com atuações fabulosas (principalmente por parte de Phillippe Noiret e do pequeno Salvatore Cascio – que interpreta o pequeno Totó na infância) e uma produção maravilhosa, Cinema Paradiso é um filme rico em detalhes, rico em sinceridade e sentimento, rico em cinema. Que além de emocionar – sem ser piegas em nenhum momento – abre espaço para discutir o avanço da tecnologia nesse ramo, e o triste fim das sessões de cinema.

Na cidade onde moro, assisti ao fim de um cinema há dois anos atrás, mais ou menos a época em que vi Cinema Paradiso a primeira vez, e refleti muito a cerca disso. Afinal de contas, era um cinema muito antigo por aqui, desde os anos 30 funcionando, onde assisti minhas primeiras sessões de cinema, e que fechou por causa da pirataria. Há uma passagem no filme onde o antigo dono do cinema comenta algo parecido.

Eles fecharam as portas porque simplesmente deixaram de ir ao cinema. Televisão e videocassete querendo ou não foram revoluções para a exibição de filmes, mas acredito que nenhum consiga fazer a experiência de assistir um filme ser tão mágica e intensa como num cinema.

Claro que tudo é mais intenso garças a trilha do monstro do cinema Ennio Morricone, linda em todos os momentos, perfeita em cada detalhe, encaixada perfeitamente dentro da proposta do filme. Inspiradora durante todo o filme, torna tudo mais agradável e delicioso, dando uma inocência prazerosa ao filme.

E o filme consegue passar tudo isso de maneira formidável, cito como exemplo, a alegria do povo que, sem poder entrar no cinema, consegue com a ajuda do esperto Alfredo, ver o filme sendo fora do cinema, quando o projecionista põe a imagem para ser passada dentro e fora do cinema ao mesmo tempo. Outra cena que mostra bem isso, é o cinema lotado e todo mundo rindo das palhaçadas do vagabundo Charlie Chaplin, ou chorando assistindo a filmes de Renoir, Viscontti, entre outros.

Mas o melhor mesmo, é ver o personagem Totó, já adulto e consagrado, assistindo a uma montagem de beijos, que eram censurados na sua infância pelo padre, e se emocionando muito com o que via. É a magia do cinema acontecendo.

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Cinema Paradiso é um filme simples e sensível cheio de emoção e sentimento verdadeiro. Uma grande obra dedicada a quem ama a sétima arte, e principalmente, uma obra que quer dizer: “O cinema não morrerá!”.

Viva a Sétima Arte!

Nota: 10 (e com aplausos em pé).

Nuovo Cinema Paradiso, 1988 (Itália)
Direção: Giuseppe Tornatore.
Atores: Antonella Attili , Enzo Cannavale , Isa Danieli , Leo Gullotta , Marco Leonardi.
Duração: 123 min

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A Comilança (La Grande Bouffe. 1973)

a-comilancaQuatro amigos enjoados da vida decidem viajar juntos afim de passarem um final de semana servidos de comidas.

Esse filme não faz a menor diferença entre o verbo comer de se alimentar e comer de transar.

Já na mansão, os amigos contratam prostitutas e passam o tempo todo, literalmente, comendo.

A comida dá sabor à vida? Qual sabor ela tem?

a-comilanca_01O prazer de comer é imediato, seja a fome do estômago ou a fome de sexo, a obtenção de prazer e satisfação é intrínseca ao ato. Comer com a boca, com os olhos, com as genitálias… ser comido.

Devora-me ou te decifro!

E nesse tratado suicida de decidir ser “devorado” pela existência e pelo gozo da satisfação oral, os amigos comem, comem, comem, comem e comem… comem… comem…

Uma dica: Assistir a esse filme de estômago vazio é sacanagem da pior qualidade rsrsrs, mas também assisti-lo depois de comer muito… o enjôo é certo. Ao menos pra mim! Eles comem comida demais!!! Passam mal comendo, e continuam comendo… e comem… comem… comem…

Por: Deusa Circe.

A Comilança – La Grande Bouffe

Direção: Marco Ferreri

Gênero: Dizem que é Comédia.

França – Itália – 1973

Quinteto Irreverente (Amici Miei Atto II. 1982)

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Apenas uma coisa separa essa grande amizade. Saiba qual…

Segundo filme de uma pretendida trilogia pelo Diretor Mario Monicelli que começa com “Meus Caros Amigos” (1975). Creiam! Não há perdas se vistos fora da seqüência. Politicamente incorretos, machistas e sem escrúpulos, eles, os caros amigos, não poupam ninguém. Nem Religião, nem Família e nem ética nenhuma…

O filme traz passado e presente na vida desses caros amigos. No presente, um deles já se foi. E no encontro dos quatro no túmulo desse somos então apresentados a essa turma para lá de irreverente. São eles: um Conde falido – Lello Mascetti (Ugo Tognazzi); um arquiteto – Rambaldo Melandri (Gastone Moschin); um dono de um restaurante – Necchi (Renzo Montagnani); um cirurgião – Doutor Sassaroli (Adolfo Celi); e o amigo morto que fora um editor de jornal – Giorgio Perozzi (Philippe Noiret). E na fala do Conde temos o elo que os unes:

Apesar de toda as diferenças entre nós… reunidos por regras inconfessáveis… há o direito de nos pregar peças reciprocamente pela vontade de rir e de se divertir… e por um apurado gosto de não levar nada a sério.

O que eles aprontam!! É hilário!! Uma dica: não bebam e não comam nada durante as brincadeiras. Correm o risco ou de engasgarem, ou de quase cometerem um strike como eu bebendo um café logo no começo. Tive até que voltar a fita por não acreditar no que estava vendo. E claro! Para rir de novo.

As brincadeiras continuam sem que eles percam o pique. Há aquelas que fazem sempre, mas há também as que parecem vir de bandeja para eles. Que em vez do “Ai, ai, ai, ai!“, que é como um aviso do médico aos demais, nos vem como um: “ô, ô! Mais um pato para eles.” E eles não nos decepcionam! Melhor explicado pelas palavras do arquiteto ao ver um dos amigos em ação. Mais um que não deixou que a bola fosse embora… Eis: “Que coisa de gênio! A fantasia, a intuição, golpe de vista e velocidade de execução.”

Além da farra que fazem juntos, um dos pontos positivos nessa amizade é a liberdade que dão aos demais de sacanearem-se entre si. Como na cena onde um guarda de trânsito os param por terem entrado na contramão. Daí o dono do restaurante descobre que não é dele a carteira que traz no bolso. A turma não perdoou! Também numa de levantar a moral de um armam um banzé na Torre de Pisa.

Agora sem sombra de dúvida eles mostram que são amigos até num infortúnio. Em ter prazer na companhia um do outro sempre. Que sempre darão um jeito de se divertirem juntos!

Adorei! Nota: 10

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Quinteto Irreverente (Amici Miei Atto II). 1982. Itália. Direção: Mario Monicelli. Com: Philippe Noiret, Ugo Tognazzi, Adolfo Celi, Gastone Moschin, Renzo Montagnani, Milena Vukotic, Franca Tamantini, Angela Goodwin. Gênero: Comédia. Duração: 130 minutos.

O Carteiro e o Poeta (Il Postino. 1996)

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Quando se explica a poesia, ela fica banal.” (Neruda)

Ao rever o “O Carteiro e o Poeta” devo confessar que a emoção foi maior. Talvez porque dessa vez eu sorvi o filme lentamente, como um bom vinho. Para quem não conhece, um pouco da história:

Mário Ruppolo vive à beira-mar com o pai, um pescador como a maioria dos homens da localidade. Acontece que Mário não quer ser mais um deles. Até porque tem alergia. Para fugir um pouco da pregação do pai, divide seu tempo entre longos passeios, e quando pode, vai ao cinema.

Ao ver uma vaga nos Correios vê a chance de unir seu gosto pelos passeios com sua bicicleta a um trabalho longe das pescarias. Aliado a isso, o prazer em ter um contato maior com Pablo Neruda, que se encontra em exílio político na Itália.

Aos poucos as barreiras entre esses dois homens vão se quebrando. Surgindo uma amizade. Mário em sua simplicidade ganha o carinho de Neruda. Que o ajuda a vencer a timidez para se aproximar de sua amada Beatrice.

Com o término do exílio, Neruda vai embora. Mário por sua vez já está casado. Mas não é mais o homem de outrora. Quer agora falar e muito. Então se engaja na política de oposição.

Destaco aqui uma passagem onde a sogra fica a repetir “o pássaro comeu e foi embora“. Que Neruda aproveitou-se do genro enquanto lhe foi útil. Então Mário lhe diz que se alguém fora útil ao outro, esse alguém fora Neruda a ele. Ele sim aproveitara aquela convivência. Aprendera muito de si mesmo com o poeta. Claro que para ambos, carteiro e poeta, não houve uma materialidade nessa convivência, mas sim uma troca saudável, prazeirosa e que preencheu a vida de ambos naquele período.

Por iniciativa de um, como também da boa receptividade do outro, houve carinho, respeito e apreço naquela amizade. Mesmo num curto período, fora marcante. E ele não foi apenas um cumpridor do seu dever – o de entregar carta.

Enfim, temos aqui uma linda história de amizade!

Nota: 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Carteiro e o Poeta (Il Postino / The Postman). 1996. Itália. Direção: Michael Radford. Elenco: Philippe Noiret, Massimo Troisi, Maria Grazia Cucinota. Gênero: Romance, Drama, Comédia. Duração: 108 minutos. Classificação: Livre.