Capitão Abu Raed (Captain Abu Raed. 2007)

comandante-abu-raed_2077Mais do que focar no Gênero de um Filme se for pelo país de origem poderá ter como um pano de fundo a cultura do mesmo. Conhecer mais amiúde, ou mesmo de um plano geral, os costumes locais. Assim, ao ser citado que o filme “Capitão Abu Raed” viria da Jordânia ficou como principal motivador para assisti-lo pelo Cine Conhecimento do Canal Futura. O que foi ótimo porque me vi atenta acompanhando a uma comovente e bela história de vida e até a cena final. Depois ao escrever sobre o filme veio a dúvida se traria ou não spoiler. Por ele trazer temas que ao esmiuçar corre-se esse risco.

comandante-abu-raed_2007_01Capitão Abu Raed” faz um sobrevoo na vida de um outro comandante. Onde esse primeiro foi por demais importante em mudar o seu próprio destino. Ficamos conhecendo sua identidade no finalzinho do filme. Nesse início vemos mesmo a sombra de um homem. Ele ali do alto de uma torre olha esse novo horizonte a sua frente. Mas como se esquecer de seu passado? Mais! Dele, de Abu Raed? Fica ali meio em que numa prece aquele que mudou o seu destino. Tinha então um destino o qual não acreditaria que um dia teria o de agora. Fora graça a intervenção de Abu Raed! E então o filme volta nesse tempo específico onde conheceremos tudo o que houve.

Abu Raed (Nadim Sawalha) é um senhor muito afável que trabalha como faxineiro no aeroporto de Amã. Enquanto limpa o chão ajuda com prazer as pessoas que lhe pedem informações. Viúvo, solitário, passava as suas horas de folga viajando pelas leituras dos livros que colecionava. Tal hobby lhe dera bastante cultura, como também conhecimento em outras línguas, em pelo menos algumas expressões que lhe ajudariam se pudesse de fato viajar para o exterior.

Um dia encontra um quepe de capitão de voo numa das lixeiras do aeroporto. Ficara roto para alguém, mas para ele se tornaria a sua “cartola mágica”. É que ao decidir usá-lo a caminho de casa termina por atrair a atenção de algumas crianças da vizinhança. Ávidos por histórias de um “mundo melhor” terminam acreditando ser ele um verdadeiro comandante de uma grande aeronave. Se ao menos creditassem a Abu Raed o ser simplesmente um contador de Histórias alguns incidentes poderiam ter sido evitados. Mas aí seria uma outra história. Agora, por uma tragédia que acontece nessa fica sim algumas reflexões. Uma delas até onde se pode interferir nos destinos de outras pessoas? Há de se pesar as consequências? Bastaria só ter boas intenções? Coragem também conta?

captain_abu_raedAo se tornar um contador de histórias para aquelas crianças ganha muito mais ânimo. Até porque teria o que fazer quando se aposentasse. Abu Raed também se vê como um avô o que o leva a querer interferir na vida delas. Mas uma coisa é tentar ensinar a uma criança, outra bem diferente é fazer com que um adulto veja o quanto está errado na educação dos próprios filhos. Até porque para aqueles homens travestidos de pais, ele não era mais do que um vizinho intrometido. Mas Abu Raed não iria desistir fácil em tirar algumas da violência física que sofriam em casa. Como também em tentar ajudar uma outra a voltar para a sala de aula. Sendo que esse menino queria muito estudar, mas o pai o obrigava a vender balas pelas ruas.

Pois é! Como uma ação e reação, alguns ao se verem violentados pela vida terminavam dando um troco naqueles que tinham como propriedade: pais/maridos vingando-se da vida. Embora a Jordânia se abra a ocidentalização, principalmente no tocante as mulheres, ainda haviam uma cultura machista bem enraizada. Talvez em menor escala nas classes sociais mais alta por conta das mulheres estarem cientes dos seus direitos.

Captain-Abu-Raed_01Certo dia, a capitã de voo Nour (Rana Sultan) presta atenção numa conversa de Abu Raed com um turista francês. Não apenas pela simpatia, como também pela honestidade dele. Nascendo daí uma amizade muito significativa para ambos. Grande diferenças de idade e de classes sociais, mas de um ideal romântico em comum. Principalmente porque queriam ser donos do próprio destino.

Por vezes a crueza da vida transforma o caráter de uma criança. Mais! Deixando-a uma pessoa amarga. De querer levar embora os sonhos de outras crianças mostrando a elas a realidade da vida que levam. Aquela felicidade mesmo que momentânea durante as histórias de Abu lhe doía na alma. Tão castigada em casa, não poupou esforços para tirar aquele encantamento de todos.

Abu Raed em sua nova missão termina por piorar a vida de um deles. Sem saber mais como ajudar um, não desiste de outra criança como na fábula do pastor que deixa o rebanho ao léu para ir resgatar a ovelha desgarrada. O que dá um aperto no coração ao ver aquele grito silencioso daquele que se sentiu abandonado por Abu Raed. Aquele olhar parecia dizer: “E agora? O que eu faço da minha vida?…” O que motiva ainda mais a tentar dar uma outra vida ao outro. Abu Raed faz tal qual uma mãe que se dedica mais ao filho de “cabeça fraca”, creditando na natureza dos demais que saberão enfrentar os percalços da vida.

captain-abu-raed_02O filme faz uma radiografia de um drama que vai além daquela fronteira. Comum também a outras nações cuja a base da pirâmide social parece fadada a um sistema de casta. Numa injustiça ainda mais cruel por tachar que quem não é um vencedor no tocante ao lado financeiro, é um perdedor. Sem nem lhe dar chance de que é feliz numa vida humilde. Que era até então o pensamento de Abu Raed. Aquele velho quepe o fez mudar. O levou num voo alto demais e sem volta.

Não sei ao certo se o filme deixa uma mensagem de esperança na humanidade em talvez em acreditar que há heróis anônimos por ai. De qualquer forma deve ser visto por todos, sem exceção, e que cada um tire suas conclusões. A mais, dizer que lágrimas rolaram no final. Não deixem de ver!
Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Capitão Abu Raed (Captain Abu Raed. 2007). Jordânia. Direção e Roteiro: Amin Matalqa. Elenco: Nadim Sawalha (Abu Raed), Rana Sultan (Nour), Hussein Al-Sous (Murad), Udey Al-Qiddissi (Tareq). Gênero: Drama. Duração: 102 minutos.

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O Voo (2012). Anjo ou Demônio no Comando Daquele Avião?

o-voo_2012O Diretor Robert Zemeckis sem dúvida nenhuma merece o crédito maior em “O Voo“. Muitos aplausos por me deixar quase em suspense ao longo do filme. Eu digo “quase” porque não poderia ficar indiferente ao drama maior dessa história: o alcoolismo e o vício por drogas como a cocaína. Primeiro que quando se conhece pessoas que sofrem dessa doença, arrastando para esse vendaval familiares e amigos, fica difícil não oralizar algumas interjeições. Depois, por levar sem pressa esse “day after” na vida desse que apesar de todos os pesares conseguiu salvar dezenas de vidas inocentes. Também porque não deu para segurar as lágrimas no finalzinho.

Agora, a turma de elenco vem logo atrás nesse merecimento: performances excelentes. A destacar: Denzel Washington, Don Cheadle, Kelly Reilly, John Goodman e Bruce Greenwood. Tirando a personagem feminina, os demais orbitando no problema do personagem do Denzel. Sendo que, enquanto dois deles iriam tentar atenuar, ou até tentar inocentar, o terceiro era o que alimentava o problema do protagonista. Mas também estava em jogo o emprego de muita gente. Pois é! Não tinha apenas álcool e cocaína como vilões dessa história. Tinha também uma companhia com aviões que já deveriam ter virado sucata e um dono querendo se livrar desse elefante branco. Colocando mais lenha nessa fogueira.

O comandante Whip Whitaker (Denzel Washington) mesmo ciente que ainda teria um voo para fazer passa a noite bebendo e cheirando. Que para piorar usa a droga para acordar de vez. Ciente que é muito bom no que faz, faz uma loucura para tirar a aeronave do meio de uma tempestade, com isso forçando ainda mais a máquina. Num voo longo, bate a sede por uma bebida, o cansaço e o sono. Daí não pesou também a falta de experiência do co-piloto. Existem fatalidades. Assim como há também propabilidades de algo que começou errado, terminará errado. Mas existe também aqueles que funcionam bem sob forte pressão. E foi o que Whip fez tornando-se um herói, a princípio.

Mas um acidente dessa monta atrai investigações de todos os lados. Entrando em cena o responsável pelo sindicato Charlie (Bruce Greenwood), amigo de longa data de Whip. Ciente de que uma condenação para Whip atrairia uma avalanche de pedido por indenizações, contrata um grande advogado, Hugh (Don Cheadle). Esse, mesmo sendo bom no que faz sabe que terá um outro desafio: o de conseguir levar um Whip limpo perante a personagem de Melissa Leo, um osso duro de roer. Numa de “os fins justificando os meios”, Charlie e Hugh farão algo inimaginável até então.

Ainda no hospital Whip conhece Nicole (Kelly Reilly), que também por um “milagre” não perde a vida, mas em uma overdose. Nasce uma empatia entre os dois. Ele a convida para morarem juntos. A princípio, ela recebe como uma dádiva: ter onde morar. Mas para alguém que quer sair do vício, termina sendo um inferno. Ela não tem forças para nem para resistir, nem para ajudá-lo a sair dessa. Até porque Whip tem fornecedor “à domicílio”, o Harling, personagem do sempre ótimo John Goodman. Que abstraindo o que Harling representa, sua performance me levou a rir.

A pessoa mais fascinante que eu jamais conheci.”

Não sei se pode-se definir como regra geral que os que mais fazem loucuras exercem um fascínio maior aos demais. Se o carisma em parte vem pela ousadia. Mas que diante de uma tragédia onde o vício esteve como coadjuvante o que dizer, por exempplo, pelo “tapinha” que aspirou para deixá-lo ligadão? Claro que assustou vendo-o fazer isso e ciente do que estaria para acontecer. Mas se é algo não raro fora da ficção, fica a pergunta do porque fazem isso. Duas pessoas podem vivenciar as mesmas pressões, mas uma não procura amparo no vício.

Outro ponto alto de “O Voo” é que embora a história mostre que muitos acreditarão que fora um milagre, ou até que mesmo por linhas tortas foi obra de Deus colocar aquele competente piloto salvando a vida de muitas pessoas, Zemeckis mantém-se imparcial ao mostrar os fatos. Com isso crédulos e céticos terão as respostas que queriam. Como por exemplo o co-piloto e a comissária de bordo que ajudaram Whip a pousar aquele avião e evitando uma tragédia muito maior. Onde ambos terão que passar por mais um desafio: no que dirão em seus depoimentos. Se irão contra seus próprios princípios, morais, éticos, ou se apoiarão na fé, e com isso vendo-o como um enviado de Deus naquele momento? Mas para os que não veem Whip como um Anjo da Guarda, verão que nele talento para pilotar fazia dele o número um.

E quanto a Whip? A quão tanto mais ele iria descer na tentativa de salvar a carreira? Qual seria a provação que o levaria a sair da vida do vício? Até porque precisaria de fato de um milagre para voltar a pilotar um avião comercial. De herói a vilão estava bem próximo. Mas ele mesmo que foi o vilão do seu talento. É muito triste quando o vício arruina a vida de uma pessoa. Whip tinha um preço à pagar! Um preço alto.

Para finalizar, além do Roteiro, Fotografia, a Trilha Sonora também fazem de “O Voo” um filme de querer rever! Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).