Meu Verão na Provença (Avis de Mistral. 2014)

meu-verao-na-provenca-2014meu-verao-na-provenca-2014_jean-renoSó em ter o nome de Jean Reno nos créditos já é um convite para ver um filme. E em se tratando de uma Comédia aí já carimba de vez o passaporte. Já no Thriller “O Profissional” ele mostrou ter uma veia cômica e bem peculiar, o que demonstrou em “Para Roseanna” (1997). Esse seu jeito próprio pode ser visto com mais detalhe em “Dupla Confusão” (2003). Convenhamos! Jean Reno já atingiu o panteão dos grandes atores, o que o libera para qualquer projeto, um clássico ou não.

Assim, mesmo que o roteiro traga uma ideia não tão original – um relacionamento de uma pessoa mais velha meio ranzinza com uma criança, nessa história são três -, ele por certo irá deixar a marca. Nem tanto como Henry Fonda em “Num Lago Dourado” (1981), mas talvez mais pela história de “Meu Verão na Provença“. Até porque seu personagem teria que lidar, conviver um tempo com seus próprios netos cujo praticamente desconheciam a existência desse avó. Três jovens bem urbanos ligados em internet, mas que por meios tortos um deles irá mostrar ao avô que a tecnologia do GPS num Smartphone também pode ser útil no campo por fazer ganhar tempo.

meu-verao-na-provenca-2014_01Paul (Jean Reno) vive no campo a cultivar oliveiras e até uma horta tudo sem pesticidas, daí um cuidado redobrado. Até porque com as olivas vem tentando ganhar o selo de qualidade para o azeite que fabrica. A passagem onde o título original “Avis de Mistral” se faz presente, onde Paul explica ao neto Adrien (Hugo Dessioux) a importância do forte vento de verão para a polinização das oliveiras me fez lembrar de uma cena em “A Vida Secreta das Abelhas“, por também fazer uma analogia para um aprendizado sobre a vida. Claro que até chegar a essa “aula”, o relacionamento de ambos esquentou bastante.

meu-verao-na-provenca-2014_02Com a neta Lee (Chloe Jouannet) a temperatura entre ambos também é bem inclemente. Ela e Paul terão grandes arranca-rabos. Por conta dele, pelas lembranças do passado. Por conta dela, por se achar livre para fazer o que quiser, mesmo ainda sendo menor de idade. Lee no início ver a diferença entre ser uma ecologista em plena Paris do que em sê-lo em pleno campo convivendo com muriçocas e outros mais da fauna local. Se ela ainda ficasse nesse tipo de experiências… Mas não! Até para confrontar o avô vai entrar numa gaiola furada: conhecerá um mundo que também adentrou no campo. Cabendo a Paul resgatar essa donzela.

meu-verao-na-provenca-2014_03Dos três, quem logo se ligou ao avô foi o caçula, Theo (Lukas Pelissier). Talvez até por ser surdo-mudo, não se importou por ser de poucas falas. Embora Paul não soubesse a língua dos sinais, ambos conseguiram se entender. Talvez também pela pouca idade, não sentiu tanto como Lee e Adrien a ausência do avô na vida deles. Théo também foi o primeiro a quebrar o muro do coração de Paul.

meu-verao-na-provenca-2014_04Paul é casado com Irèna (Anna Galiena). Um casamento de décadas que até causa espanto em Lee e Adrien, primeiro porque a princípio têm Paul como um cara antipático, ao contrário da avó que a têm como um doce de pessoa, e talvez até por isso, não veem sentido na recente separação dos próprios pais. Embora Irèna faça o contraponto entre Paul e os netos, sua presença é quase de uma figurante. Salva mais pela simpatia do que a história em si.

meu-verao-na-provenca-2014_05Meu Verão na Provença” já começa a nos embalar desde o início com “The Sounds of Silence“, de Simon & Garfunkel. O que já é uma doce promessa de que a Trilha Sonora será um coadjuvante de peso. E é! Com passagens que nos leva a sorrir ao som de “Venus“, de Shoking Blue“, com a chegada de motoqueiros no sítio de Paul que a primeira vista mais parecem saídos das histórias de “Astérix” do que de Woodstock. Essa trupe gaulesa levará Paul a um review também de algo dolorido. Mas em compensação também o levará a cantar “Knockin On Heavens Door“, Gun’s N’ Roses, para deleite nosso! Compondo essa trilha mais do que perfeita ainda temos clássicos como “Born to be wild“, de Steppenwolf; “Sea of Love“, de Cat Power; “Paradise“, de Coldplay. Isso só para citar algumas porque tem mais.

meu-verao-na-provenca-2014_oliveirasA Diretora Rose Bosch também assina o Roteiro. A trama em si muito mais pela presença de Jean Reno e do pequeno Lukas Pelissier, que faz o Théo, deixa até querer uma continuação. Algo como o avô passando uns dias na capital francesa. Ou mesmo recebendo os netos mais uma vez em sua casa, até porque a região de Provença é belíssima! De qualquer forma o tempo dirá se fora a presença de Jean Reno deixará algo mais na memória cinéfila. Vejam o filme! Eu recomendo! Que até pelo entretenimento em quase duas horas, dou Nota 8,5!

Meu Verão na Provença (Avis de Mistral. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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A Ilha dos Milharais (Simindis kundzuli. 2014)

A Ilha dos Milharais-2014_00Por: Eduardo Carvalho.
A cada primavera, em uma área da antiga União Soviética, fortes chuvas carregam terra fértil do Cáucaso aos rios da região entre a Geórgia e a separatista Abecásia. Formam-se ilhotas no rio Enguri, usadas pelos habitantes do local para o plantio, quando procuram se precaver da escassez provocada pelo próximo inverno.

Indicado pela Geórgia à pré-lista do Oscar de 2015, exibido durante a 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, “A Ilha dos Milharais” foi sendo descoberto pelos espectadores, ganhando menção honrosa ao final do evento. A estória do velho que cultiva milho com a ajuda da neta, nessa terra de parcos metros quadrados, é contada com poucas falas. Aqui, tem-se a impressão que o filme guarda semelhanças com o belo “As Quatro Voltas”, mas não. A proposta radical da narrativa do filme de Michelangelo Frammartino propõe uma reflexão sobre vida e morte; em “A Ilha dos Milharais”, não haverá apenas uma representação dos ciclos de criação e destruição. A quietude presta-se a outros propósitos.

A Ilha dos Milharais-2014_01Explorando basicamente o mesmo cenário o tempo todo, a fotografia é um elemento essencial, em conjunto com a narrativa lenta, para que o tempo de cultivo do milharal seja perceptível; mudam apenas luzes e cores, mas não o local da ação. A câmera aberta coloca o público em contato com os protagonistas inseridos na paisagem, e fechando o foco, exibe os sentimentos expressos em seus rostos, para que possamos ler ali as marcas do sofrimento. No entanto, ocorre ouro crescimento, tão rápido quanto o da plantação; de criança, a menina passa a mulher. Ao chamar a atenção de alguns homens às margens do rio, e na breve relação com um visitante inesperado, ela começa a perder a inocência infantil, descobrindo outras realidades.

E é em uma dessas realidades que entra o espectador brasileiro, sem conhecer a história dessa região. Aqui, o filme de George Ovashvili, também co-roteirista, ganha mais sentido, ao expandir seu contexto histórico. Velho e menina estão em uma terra de ninguém – terra de ninguém por duas vezes – conforme indica um dos poucos e certeiros diálogos entre ambos. Todo o silêncio e a comunicação através de gestos e olhares estão plenamente justificados, não só como opção de narrativa fílmica; dentro da perspectiva geopolítica daquele lugar, só quem detém o poder pode expressar-se com alguma liberdade. Mas isso ocorre somente ali?

O terceiro longa de Ovashvili une elementos tão díspares como beleza e política com precisão, conseguindo ainda extrair um par de grandes atuações dos protagonistas. O ator turco Ilyas Salman, com mais de 40 filmes no currículo, transmite toda uma esperança cansada nos gestos e expressões, sem necessitar de palavras. E a estreante Mariam Buturishvili mostra medo e vulnerabilidade na menina, diante das transformações hormonais que ocorrem dentro de si e ao seu redor.

Nessa sociedade contemporânea marcada por caos e excesso, descobrir “A Ilha dos Milharais” é mais do que um presente. É um convite para pensarmos sobre nossas reais necessidades de comunicação, sobre a inevitável passagem do tempo e seus ciclos. E, acima de tudo, nos mostra que nada é permanente na vida. Nem mesmo a terra sob nossos pés.