AQUARIUS (2016). Uma lavada na alma das mulheres maduras

aquarius_escrevendo-pra-pensarAcho que quase todo mundo já viu “Aquarius” (Kleber Mendonça Filho). Eu esperei. Não queria tanto ruído político, influenciando a minha percepção. Optei por tentar ver o que os meus olhos enxergariam e o que vi? Um filme sobre família e com bastante política. Aquele mosquito que assobia na orelha de quem planejou dormir e descansar, estava lá.

Tivemos revolução sexual? Sim, tivemos, mas como foi incompleta! Se ela trouxe à mulher o direito aos novos comportamentos, não permitiu a naturalidade para exercitá-los em plenitude com naturalidade. A família vê as suas senhorinhas, tias, mães, como seres assexuados e tudo mais além disso é silenciado. Só Tia Lucia  não deixa passar a omissão da revolução sexual dos anos 60, 70 no texto em sua homenagem pela passagem do seu aniversário lido pelas crianças. Mesmo nos anos 80, não se colocava na lista de feitos de vida de uma mulher o seu grande amor casado com outra, afinal tem crianças na sala. Amar um homem casado, não é um grande feito e aquele aparador rústico, cheio de histórias pra contar segue mudo pelo tempo. Poder pode, mas que fique no armário e como Tia Lúcia soube usar o tal armário!.

Aquarius dá uma lavada na alma das mulheres maduras ou amadurecidas, mostra alguns (ou muitos) tipos de câncer que se tem de superar se não quiser ter uma etiqueta com um preço, bem ali o lugar do coração e dignidade e também o quanto está em desvantagem perante o mundo quem faz escolhas em desacordo com o poder.

Todo mundo sabe que essa produção é sobre uma mulher, jornalista aposentada (Clara /Sonia Braga) que se recusa a vender seu apartamento para uma incorporadora que projeta construir no local um grande empreendimento. Todos os demais apartamentos foram adquiridos pela empresa, menos o seu, o  que a torna a única moradora do prédio na Praia da Boa Viagem, no Recife. Viveu ali sua vida, criou seus filhos agora adultos, construiu sua trajetória, coleciona livros e discos de vinil e é a partir dali que deseja aproveitar sua vida, de modo que nem se dá ao trabalho de ler a proposta em dinheiro feita pela companhia e sofre pressões dos antigos vizinhos que entregaram seus imóveis em troca de um novo apartamento no novo condomínio a ser construído.

Quando da apresentação desse filme em Cannes, artistas e produtores levantaram cartazes denunciando o golpe contra o governo da presidente Dilma.
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E de tanto ler esse release, chamou-me atenção o que ainda não tinha visto alguém mencionar

 * A hesitação da mulher madura para utilizar um amante profissional –  um reflexo da cobrança da aura de santidade que a sociedade ainda espera que as mulheres apresentem.
* A dificuldade de exercer a sexualidade plenamente depois que o tempo passa, num mundo em que os homens de qualquer idade parecem só enxergar as “novinhas”
* A filha pentelha, onde a mulher é a maior crítica da mulher;
* A força da opinião de grupo que restringe a liberdade de escolha e descamba para as ameaças, dizendo com clareza  que nem sempre a maioria significa democracia, que guiada pelos interesses pode ser muito autoritária;
* A expectativa de que sejamos sempre e integralmente aquilo que não descartamos por corresponder a uma parte – amante de música “analógica” Clara declara para as jovens estudantes de jornalismo que gosta também de música digital e faz uma incrível defesa das possibilidades dos encartes dos discos, definindo-os como uma garrafa no mar, mas como elas entenderiam isso sem a experiência de naufrágio?

Talvez eu esteja encontrando sutilezas demais,  no entanto nem acho tão sutis assim, apenas listei o  que não li em outros comentários.

Clara (Sonia Braga) é uma aposentada querendo curtir seus discos e livros no local onde construiu e viveu com eles sua história e isso não pode, porque aqueles que não tem tantas histórias, decidem por novas paredes. É complicado não encontrar conforto em nós mesmos, mais ainda quando todo o coletivo está a serviço das suas próprias individualidades. Se me perguntassem na saída do cinema sobre o quê é esse filme, creio que eu diria que além de ser sobre resistência e a oposição do caráter forjado pelas revoluções sociais e o que se formou a partir do endeusamento do dinheiro fruto mas tocando muito sobre o egoísmo em conjunto ou em separado, sobre o mundo nada ideal onde não há perguntas ou diálogo, apenas a necessidade de que se cumpra aquilo que vai favorecer ao jogador do lance imediato.

É interessante como a maioria ao redor de clara é de homens. Não à toa o filme acaba com “pau sobre a mesa”. Pau ruído, mas dando trabalho.

Série: The Family (2016 – ). Estilhaçaram novamente aquelas vidraças… E agora?

the-family_serie_00Por: Valéria Miguez (LELLA).

Estariam todos eles em busca de uma identidade própria?

A Série “The Family ao nos levar para dentro de um drama familiar o faz com pitadas de um thriler! Até porque mais do que revelar os acontecimentos, somos conduzidos a refletir quem são cada um deles individualmente! Tanto no núcleo da família protagonista, como também com alguns de fora, mas diretamente envolvidos na trama, voluntariamente ou não, personagens do passado dessa família como também aderidos as circunstâncias atuais. É que o foco principal se dá com a volta de um dos filhos do casal dado como morto há dez anos atrás. Onde até houve uma pessoa que foi condenada por tal crime.

Assim, temos segredos entre si e para além daquelas vidraças novamente estilhaçada!

Do núcleo familiar temos: conflitos entre o casal central; um dos filhos sentido o peso de ser o ‘loser‘; carreiras profissionais que os afastam até afetivamente do lar, inclusive num jogo perverso quando a ambição fala mais alto… Por ai segue! A saber, temos: a matriarca é Claire Warren, personagem de Joan Allen (de “A Outra Face da Raiva“). Que se com a comoção com a perda ela foi eleita para Prefeitura local, agora com o retorno do filho aproveita para voos mais longe, ser a Governadora. Ajuda não apenas pela atenção midíatica, mas também pela própria filha do casal, a jovem Willa Warren, personagem de Alison Pill (de “Scott Pilgrim Contra o Mundo“). Dela, Claire recebe “ajudas” que nem faz ideia. Com a volta do filho, o pai que se encontrava em viagens, volta então para casa. Ele é John Warren, personagem de Rupert Graves (de “V de Vingança”). John sem querer ficar à sombra da esposa tornara-se um notório escritor e palestrante sobre com o tema “Luto em Família”. Embora feliz com a volta do filho caçula, perde um pouco seu chão profissional, além de ter também a volta de um antigo affair. Ele também fica dividido se o jovem é ou não o seu filho, mas não tanto como o outro filho, Danny, personagem de Zach Gilford. Outrora um adolescente alegre e desportista, encontra-se perdido no álcool. O que pode lhe deixar desacreditado se o irmão é ou não um impostor. Até porque o então Adam (Liam James, de “2012“) deixa dúvidas em quem assiste, se ele é o não o verdadeiro Adam.

the-family_serie_01Com a volta de Adam…

Temos Hank Asher, personagem de Andrew McCarthy (de “O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas“). Vizinho dos Warren e já tendo sobre si um caso de pedofilia, fora coagido a confessar o assassinato de Adão: o que lhe rendeu dez anos atrás das grades. Inocentado, e até recebendo uma alta quantia pelos danos morais, tenta voltar com a vida. Só que agora parece que terá uma mais isolada: todos na localidade o reconhecem e se distanciam. Além de ter que conviver com o ódio dos Warren. Que em vez de um pedido de desculpas, recebe a fúria de John por culpá-lo das privações que o filho passara nesses dez anos. É que com a confissão, o caso fora encerrado pela Justiça, não havendo mais buscas.

Também volta à cena a então Sargento de Polícia Nina Meyer (Margot Bingham). Nina fora a detetive encarregada de resolver o caso do sumiço do pequeno Adam. No afã até de se promover, baseando-se mais em disse-me-disse do que provas, ela então forçara Hank a se confessar culpado. Agora, não lhe resta outra alternativa em ir em busca do verdadeiro culpado e com o que colheu agora do Adam. Além de se ver novamente envolvida amorosamente com John.

Além de também entrar em cena dessa vez uma repórter local, Bridey Cruz (Floriana Lima). Talvez em busca de voos mais longe, Bridey que até então tem uma coluna/blog sobre o estilo de vida de uma homossexual, agarra a notícia da volta de Adam como o seu passaporte. Para isso até fará um jogo de sedução com Danny, que até estava junto com ele no dia em que ele desaparecera.

E com eles e mais outros personagens a trama segue pulando entre o passado e presente, mas com cortes precisos onde vai mostrando a história além de manter o suspense do que ainda está por vir. E todos estão bem ambientados com o contexto. O que é muito bom! As performances estão de fato ótima! Assim como o desenvolvimento da trama!

Ponto para a criadora, Jenna Bans, que em “The Family” dá o seu voo solo, após ser co-roteirista em “Scandal” e “Grey’s Anatomy“, entre outras séries. O que lhe dá bastante base para emplacar nessa sua primeira obra. Tomara que agrade também os fãs em solo americano já que é audiência nos Estados Unidos que conta ponto para ir ganhando mais temporadas. Estando ainda com poucos episódios nessa sua primeira temporada exibida pela canal Sony. Eu estou gostando!the-family_serie_2016

Série: Scandal (2012 / ). Oba! Vem Ai Nova Temporada!

scandal-serie-tvQuem assistiu o filme “Mera Coincidência” (1997) e gostou, vai gostar ainda mais de “Scandal“. Uma Série que veio mostrar mais do que os bastidores de uma firma de advocacia, também traz o marketing político tão indispensável no jogo do poder e do mundo real também. Pois é! Uma casadinha que não deixa por menos: assessores de impressa + equipe altamente especializada em espionagem = felicidade e principalmente sucesso na carreira ou vida pessoal do cliente. A trama foi baseada numa ex-assessora de imprensa do governo de George W. Bush, a Judy Smith. Que aliás além de co-produtora Smith também é consultora da Série. E “Scandal” é uma criação de Shonda Rhimes que já traz como bagagem uma Série de sucesso como “Grey’s Anatomy“.

_ Não da para se afastar quando as coisas ficam feias. Se está acreditando nisso, então está vivendo uma fantasia“.

Ambientada em Washington (D.C) “Scandal” também traz os bastidores da Casa Branca, como também do Congresso. Passando um raio-x na Política e nos Políticos e até nos Lobistas do Estados Unidos. Em um dos episódios, por exemplo, a Séria trouxe uma discussão sobre a 2ª Emenda: a que garante o direito de todo americano portar uma arma. Onde até fora da ficção, os que defendem um controle armamentista, se veem derrotados no Congresso. “Scandal” também traz o Grande Júri; até porque muitas das tramas começam e terminam nos Tribunais.

serie-scandalAntes mesmo de começar, a Série rendeu um buchicho de bastidores. Pelo o que contam a atriz protagonista foi uma militante na campanha de Barack Obama e diretamente ligada a ele. Com isso, ciente de que seu personagem na ficção teria um envolvimento com o presidente, ela pediu para que colocassem um ator branco para o papel. Algo prontamente atendido. E fora dos bastidores, o comentado também seria o ciúme da Primeira Dama real para com essa atriz. Disseram até que ela teria passado também a usar franjas como a atriz. Bem, se tudo seria mera coincidência ou não… O certo é que o Presidente Obama é um gato!

scandal_kerry-washingtonScandal” traz como protagonista uma ex-consultora de mídia do Presidente dos Estados Unidos; o porque saiu é mostrado ao longo da trama. Ela é Olivia Pope, numa grande atuação de Kerry Washington. Ciente de seu talento, Olivia não abre uma simples firma de advocacia, indo além: uma empresa apta a tirar o cliente do meio de uma monumental crise e que não é para qualquer um! Para quem já teve, e ainda teria livre acesso na Casa Branca, sua clientela teria que ser da elite, seja ela da política ou não, desde que fosse alguém que atrairia para si próprio os holofotes da grande mídia: se já no meio ao crise ou na iminência dela… Para se verem livres… Manter todo o aparato da empresa nessa empreitada: o custo é bem alto. Até para manter sua equipe escolhida a dedo. Olivia buscou também pelo talento de cada um deles em resolver toda a situação e sem deixar rastros, mas há também um outro motivo contado também ao longo da Série. Enfim, Olivia até pode não cair na simpatia de todos, mas até fora do Capitol Hill, se estivessem vivenciando uma crise ou um grande escândalo, sabiam que ela era pessoa certa a ser chamada. Olivia só não era muito boa quando o assunto se resumia a sua vida pessoal. Ah! A personagem tem em seu guarda-roupa algumas das marcas mais famosas como: Armani, Christian Dior, Prada, Gucci… Como se diziam antigamente, ela é uma moça de fino trato!

serie-scandal_os-gladiadoresUm pequeno perfil dos que ela trouxe para a “Olivia Pope & Associates“, que ela denominou como os seus gladiadores:
– Huck (Guillermo Diaz): Um ex-agente da CIA. Com um passado nebuloso. Tem uma dedicação/devoção extrema por Olívia. É um hacker dos bons: algo que com certaza ajuda nas investigações. De pavio curto, tende a tomar medidas extremas. E que tenta a todo custo se livrar da “carcaça” podre que a CIA deixou nele.
– Harrison Wright (Columbus Short): Wright é o oposto de Huck. Esbanja elegância e refinamento, e que contribui como sua principal arma nas investigações: a sedução. É uma pena que o ator Columbus Short não pode ser escalado para a 4ª Temporada. Pois se envolveu numa briga de bar: foi indiciado; pagou fiança e aguarda a sentença que pode até a vir ser condenado à 4 anos de prisão. Pena mesmo! Seu personagem era um gato! Como um suspense: no último episódio da 3ª temporada seu personagem apontava uma arma para a própria cabeça. Morreu? Não Morreu? Saberemos na Temporada que vem por aí…
– Abby Whelan (Darby Stanchflield): É a investigadora mor da equipe. Sem papas na língua. Indomável. Poucas coisas escapam à ela em suas pesquisas. Mantém uma grande amizade com Olivia. Além de uma gratidão por algo de seu passado que até a fez perder seu grande amor.
– Quinn Perkins (Katie Lowes): Quinn fora a última aquisição da equipe. Perita em explosivo, mas sem muita utilidade para a firma. Até porque discrição é fator fundamental para as soluções dos casos. Com isso sente que caiu ali de para-quedas. Aos poucos desvenda o seu próprio mistério. Em busca de adrenalina… terá a sua perdição ao se envolver numa relação explosiva com um agente da B-613, que até por conta disso Huck e Olivia a mantém em “monitoramento”.

Essa B-613 é… Digamos que é mantida por um “caixa 2” do Congresso. Eles sabem que o dinheiro terá que ser liberado, mas sem saber para que.

Olívia: É tão engraçado.
Cyrus: O quê?
Olívia: Eles são todos assassinos. Reston, Sally, Fitz… o debate presidencial. É literalmente a fileira de assassinos (em referência ao apelido do time dos Yankees, Murderers Row). Não importa quem seja eleito, eles são todos assassinos.
Cyrus: Ninguém é perfeito.”

serie-scandal_elencoAlém deles, destaque para outros personagens que continuarão na Série:
– President Fitzgerald “Fitz” Grant (Tony Goldwyn): Do Partido Republicano. Só irá saber como ganhou de fato a eleição mais tarde. Casado. Tem três filhos: Jerry, Karen e Teddy. Mais parece um menino mimado que recebeu tudo de bandeja. Ou que teve tudo facilitado pois o queriam na Casa Branca. De verdadeiro mesmo seria o seu amor por Olivia. Por ela até abandonaria a presidência. Mas isso também não estaria nos planos daqueles que o colocaram “no topo do mundo”.
– Mellie Grant (Bellamy Young): Primeira Dama dos Estados Unidos. Sabe do caso de Olivia com Fitz. Muito ambiciosa, acaba engolindo sapos demais. Domina bem a arte da manipulação.
– Cyrus Beene (Jeff Perry): Chefe de Gabinete e “braço direito” do Presidente. Cy vive e respira todo o jogo de poder conquistado. Mantém uma relação de amor e ódio por Olivia: amor em admiração pelo talento dela, e ódio por quase sempre ter que recorrer a ela. Por conta das “ideologia” de Fitz, esconde a sua homossexualidade. Até que ao conhecer o tempestuoso James Novak (Dan Bucatinsky), se apaixona assumindo de vez a relação em um grande baile na Casa Grande. Uma relação que terá de tudo, de tudo mesmo ao colocar em cheque o “animal político” Cy…
– Jake Ballard (Scott Foley): Amigo antigo de Fitz, que ao receber desse uma missão, acaba abalando essa amizade. É que Jake se apaixona por Olivia. O que o coloca também como mais um a protegê-la. Mas aí a B-613 entra em cena…
– David Rosen (Joshua Malina): David tinha um alto cargo na Promotoria do Estado. Sendo um calo no pé para Olivia por não concordar com os métodos que ela empregava. Até que acaba perdendo esse emprego e um pouco da credibilidade ao investigar o caso Defiance sobre a eleição presidencial. Quando então e ainda sempre tentando seguir a lei, passa a ser um Promotor Distrital. David se apaixona por Abby e ela por ele.

serie-scandal_pais-de-olivia-popeAinda vale destacar mais esses que também continuarão nessa 4ª Temporada: são os pais de Olivia. Rowan Pope (Joe Morton), o pai e Maya (Khandi Alexander), a mãe. Bem, Olivia já descobriu que ele era o temido Comandante da B-613 e que também a mãe além de estar viva é uma terrorista perigosa. Bem servida de pais essa jovem, hein! Resta saber o que aprontarão agora.

A Série “Scandal” teve início em 2012. Agradando a muitos desde então! Eu virei fã! A 3ª Temporada foi abreviada por conta da gestação já avançada da atriz Kerry Washington, que aliás ganhou uma menina. A nova temporada aqui no Brasil estreia no dia 5 de março, às 22:30h, pelo Canal Sony. Estou aguardando ansiosa!

Leviatã (Leviathan. 2014)

Leviathan 01Por Eduardo Carvalho.

Todo o poder vem de Deus.”

Um sistema político, ainda que não teocrático, mas imbuído de ideais divinos, fará qualquer coisa, justificando suas ações em nome de uma divindade. E o homem comum, inferior a tudo isso, sofrerá as consequências de tais ações.

Leviathan_2014_02.jpgEm “Leviatã”, Kolya é o homem comum, que vive em uma pequena cidade litorânea russa, com filho adolescente e a segunda esposa, e que terá que enfrentar o poder estabelecido. Sua pequena propriedade é alvo da especulação imobiliária, promovida pelo prefeito beberrão, Vadim. Esse pequeno Yeltsin local é apenas um dos componentes de uma Rússia corrupta que emergiu do submundo à luz, com a queda do regime soviético. Além do prefeito, a polícia e o poder judiciário oprimem esse cidadão comum, que tenta lutar honestamente para ver seus direitos reconhecidos. Para tanto, Kolya conta com a ajuda de um velho amigo, Dmitri, agora advogado. Ao tentar jogar com as mesmas armas do prefeito, porém, eles se veem diante de uma força maior: uma vez que aquela cidadezinha litorânea, na visão do diretor Andrey Zvyagintsev, é construída como uma miniatura da sociedade russa, o governo é mostrado como apoiado por uma igreja também corrupta, onde poder espiritual e político atuam juntos para a perpetuação de todo esse grande sistema.

Aqui, de uma espécie de drama de denúncia política, o filme revela uma nova faceta, ganhando ares de tragédia. Uma vez que “todo o poder vem de Deus”, nas palavras do bispo conselheiro de Vadim, inicia-se todo um conjunto de “circunstâncias”, criando um turbilhão de desgraças sobre Kolya, esse Jó contemporâneo incapaz de lutar contra o monstro que o engole, monstro que é metade secular, metade temporal. É o Leviatã hobbesiano aliado ao Leviatã bíblico, uma das grandes construções de um roteiro formidável, merecidamente premiado em Cannes, e que dá o norteamento trágico ao filme.

Leviathan 05A escolha do diretor e co-roteirista Zvyagintsev pelo tom fatalista dá-se desde os planos abertos e escurecidos da natureza do Mar de Barents no início, emoldurados pela abertura solene da ópera “Akhenaton” de Philip Glass – o faraó que quis mudar o sistema de crenças de sua cultura, morrendo vítima das “circunstâncias”. O peso do filme é quebrado por algumas personagens e situações, como a quase caricata esposa do policial e a sequência do tiro ao alvo, quase um sketch de sátira política, para, logo em seguida, o destino se abater implacavelmente sobre os personagens. Importante ressaltar que, como tragédia que é, os personagens não apresentam grandes complexidades ou ambivalências, quase que encarnando estereótipos, ou mesmo arquétipos. São meros joguetes do destino que irá se desenrolar naquele palco. Kolya é um ingênuo, que teima inocentemente em não entender a trama que se abateu sobre sua cabeça. Alcoólatra como o protagonista, Vadim é, a seu modo, uma marionete a serviço de forças econômicas e políticas superiores. Dmitri, idealista e crente dos fatos e não da religião, acredita ser capaz de derrubar o sistema preestabelecido, revelando também sua parcela de ingenuidade. Lilya é a personagem mais típica da tragédia, a esposa que nunca sorri, carregando todas as culpas do mundo pelo que ocorreu ao marido. Diante dessa força inexorável, pode-se pensar que, se “Leviatã” fosse filmado pelos irmãos Coen, ele se chamaria “Um Homem Sério”.

Leviathan 09Difícil compreender de uma só tacada as sutilezas do diretor. A figura da baleia na praia como metáfora de um Estado morto, mas ainda presente, pronto a devorar esse Jonas? As cenas que retratam um Kolya bêbado observando a abóbada da igreja em ruínas, e o filho do prefeito olhando o teto da igreja, contrastam a velha e a nova Rússia. O confronto entre o discurso do padre a Kolya e a fala final do bispo durante a missa revela um abismo entre a sinceridade/ingenuidade do representante do baixo clero, e as palavras hipócritas daquele que caminha pelos grandes círculos do poder. A busca pela verdade, tão propalada, nada mais é do que uma falácia.

Sátira, drama, tragédia, “Leviatã” possui referências iniciais no pessimismo típico da literatura russa, para então aproximar-se de um ideal grego, construindo uma hábil denúncia de um país tomado pela corrupção em todos os níveis, de tal modo que tal câncer parece ter entrado em metástase. Ao fechar seu filme com as mesmas paisagens tomadas pelas ondas furiosas que o iniciaram, Andrey Zvyagintsev mostra que não vê saída para o que ocorre em seu país. Melhor para nós, que ganhamos essa obra feroz e magistral.

O Sequestro de um Herói (Rapt. 2009). A vítima como ela é…

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Por Roberto Vonnegut.
Mais uma vez um filme excelente sem maiores divulgações… Não bastasse isso, o filme “Rapt” ainda foi ridiculamente batizado de “O sequestro de um herói“, em completa oposição ao tratamento nada maniqueísta dado pelo diretor Lucas Belvaux.

O-Sequestro-de-um-Heroi_2009_ivan-attalO filme gasta escassos minutos na abertura para nos mostrar quem é Stan, o presidente de uma empresa que encarna o profissional de sucesso, rico, com conexões políticas e com alguns segredos que o diretor nos mostra en passant. O nome original do filme, rapto, não foi dado à toa: mal passada a rápida introdução acontece o sequestro. Ao mostrar em detalhes o que acontece durante o sequestro – tanto no esconderijo dos sequestradores quanto no comportamento dos envolvidos – família, empresa, advogado e uma polícia pintada com cores bem desfavoráveis, o filme centra seu foco no que acontece com a vítima.

Stan Graff, numa interpretação fantástica de Yvan Attal, é privado de sua liberdade em dois tempos. Nas mãos dos sequestradores ele perde a liberdade de ir e vir – nada agradável, mas ele entende que este é o jogo e se ajeita. Nas mãos da família e da polícia, Stan se descobre prisioneiro da última (para sua “proteção”) e repudiado pela primeira. Sua esposa, por exemplo, parece dizer que, enquanto ele passava umas férias sendo torturado e ameaçado de morte, sem banho e com comida ruim, a família ficou na mansão sofrendo – e espera dele no mínimo um pedido de perdão.

O-Sequestro-de-um-Heroi_2009_01Não espere de Rapt muitas explicações: Quem sequestrou? Por que? Como ficou uma certa dívida? Rapt não perde tempo com questões triviais e segue célere desnudando a crueldade de todos os personagens. [*]

O filme é bem dirigido e tem excelentes interpretações – André Marcon está ótimo como o executivo Peyrac, e Gérard Meylan, na pele do Marselhês, cria um personagem cativante [**]. Se achar o DVD, tente ver.

Ah, antes que eu esqueça. Se quiser saber de onde saiu o argumento para o filme, procure “Baron Edouard-Jean Empain” no teu site de buscas preferido, ou gaste seu francês lendo a entrevista que ele concedeu trinta anos depois do episódio. Elegante, ele fala em detalhes do sequestro e só de leve lembra de como a família e os colegas de trabalho o receberam. Pra bom entendedor, basta.

[*] já está no forno a refilmagem roliudiana – imagino que com final diferente e alguns efeitos especiais. E um carro de milionário para o empresário.

[**] saiu sem querer…

Por Roberto Vonnegut.

O Sequestro de um Heroi (Rapt. 2009). Bélgica / França. Direção e Roteiro: Lucas Belvaux. +Elenco. Gênero: Drama. Duração: minutos.

Um Tour pelo Oriente Médio Através dos Filmes

onde-no-mundo-esta-osama-bin-ladenUm tempinho atrás li que o Turismo por regiões em conflitos está sendo bem rentável. Eu, mesmo com todas as belezas naturais, não iria. Preferindo conhecer certos lugares através dos filmes. E para quem quiser fazer o mesmo, trago um tour pelo Oriente Médio, e um pouco além. Vem comigo!

Se na infância o que vinha de toda essa região do planeta eram as histórias das Mil e Uma Noites, atualmente o que os noticiários nos trazem maciçamente são as guerras. Internas e externas. Dependendo de quem quer que ela seja divulgada. Me faz lembrar da frase dita por uma jornalista ao seu chefe que abortara a sua reportagens por ordens superiores, essa:

Se ninguém ver, talvez signifique que não tenha acontecido.”

Ou, como querem que seja divulgado a notícia. Às vezes fazem de um cordeiro, um leão. Certeza mesmo, temos que há o interesse material por trás de tudo. As tidas guerras santas, as ideologias são apenas para fazer a cabeça do povão.

Por vezes, ficamos nós presos aos esteriótipos que nos passam. Foi até para clarear a impressão que eu tinha dos homens-bombas, que assisti “Paradise Now“. Limpar, limpou, mas não a ponto de aceitar tal coisa. Fora dos bancos escolares, se quisermos saber mesmo o que de fato ocorre por lá, precisaremos fazer uma filtragem nas News. Ou, usar também um filtro nas histórias que os livros e os filmes contam. No filme “O Preço da Coragem” (A Mighty Heart), uma jornalista, por conta de vivenciar um grande drama – o marido ser seqüestrado por ser americano, judeu, e repórter de um influente jornal -, ela tenta ser imparcial no relato. O filme é baseado num caso real.

as-1001-noitesNum resgate às lembranças da infância, temos alguns Animações, ou mesmo filmes do tipo sessão-da-tarde, para mostrar um pouco de tão rica são as histórias dessa região. Tais como: “Ali Babá e os Quarenta Ladrões“, “Aladim e a Lâmpada Maravilhosa“, “Simbad, o Marujo“, “As Mil e Uma Noites” (Nights Arabian)… Assim, a Sherazade que há em nós, pode passar aos mais jovens que com criatividade podemos ir longe. E numa visão bíblica, o “O Príncipe do Egito“.

Ao fazer uma pesquisa, eu encontrei um, que fiquei com vontade de ver. É esse: “As Aventuras de Azur e Asmar“. ‘A história de Azur e Asmar é disfarçadamente armada para fazer ponte com a atual relação entre europeus e africanos/árabes. Durante a ação, situações de choque entre uma cultura e outra, mostrando o quanto a intolerância entre Ocidente e Oriente é absurda. É antes de tudo um filme sobre descobertas. Sobre abrir a cortina que esconde a beleza de uma cultura e desvendar seu colorido, sua estranheza e complexidade.‘ Tem mais aqui.

Outro filme que ainda atrairia um público jovem para uma aula de história disfarçada, é o “O Caçador de Pipas“. Com a invasão do Iraque, o Bush achou que tudo terminaria logo, mais ainda há distúrbios. Pior! Os talibãs estão ganhando terreno. Para conhecer um pouco mais dos conflitos ocorridos no Afeganistão que inflamou a esses fanáticos, além de saber como e porque o Congresso dos Estados Unidos ‘cooperam’ com os que estão em guerra, cito dois: “Jogos do Poder” e “Tiros em Columbine“.

Também onde podemos ver um passado mítico daquela região, seriam em alguns Clássicos, tais como: “O Rei dos Reis“, “Os Dez Mandamentos“, “José e Seus Irmãos“, “Ben-Hur“, “Cleópatra“, “David e Betsabá“, “Spartacus“… São filmes que as televisões costumam passar próximo ao Natal. Mas já fica um adendo em conferir também a geografia do local.

oriente-medioSe a geo-política dessa região já era uma babel no passado longínquo, atualmente é um barril de pólvora. Mais que conquistar territórios como na época das Cruzadas, o agora é marcar o território com companhias petrolíferas. Com acordos entre nações que nem vizinhas são. Essa paz sedimentada pelo ouro negro, foi o que ocorreu entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita. Mas até quando essa paz resistirá? Eu já listei para ver o “Syriana – A Indústria do Petróleo“.

Na guerra, o único heroísmo é sobreviver“. (Samuel Fuller)

the-kingdomHá uma safra de filmes que estou pretendendo ver. Um deles, é o “O Suspeito” (Rendition), onde um egípcio é torturado, de acordo com a lei Extreme Rendition, por ser suspeito de ser terrorista. Baseado em fatos reais. Outro, “O Reino” (The Kingdom), quando um terrorista detona uma bomba no interior de uma zona residencial americana em Riad, na Arábia Saudita, desencadeando um incidente internacional. Agentes do FBI e oficiais sauditas na caça ao terroristas. Juntos? Irei conferir. Também o Documentário “Caminho para Guantánamo” (Road to Guantanamo), onde três jovens britânicos com origem paquistanesa são levados presos por suspeita de terrorismo. E eles eram inocentes. Esse outro, o “Rede de Mentiras” (Body of Lies), no qual um ex-jornalista ferido na Guerra do Iraque é contratado pela CIA para ajudar na captura de um líder da Al Qaeda na Jordânia. Mais um seria o “Nesse Mundo” (In This World), onde dois refugiados do Afeganistão que viviam em um campo em Peshawar tentam escapar para a Grã-Bretanha, procurando uma vida melhor. A perigosa jornada os leva até a “rota da seda”, passando pelo Paquistão, Irã e Turquia, até chegarem a Londres.

where-in-the-world-is-osama-bin-ladenFiquei com vontade de também ver esse filme documentário: “Onde no mundo está Osama Bin Landen?“. ‘O Diretor Morgan Spurlock está decidido a encontrar SOZINHO a pessoa mais “não encontrável” do planeta. Se o FBI e a CIA não conseguiram ainda, talvez ele seja nossa última esperança não é? Usando uma narrativa documental repleta de humor ácido, semelhante ao quem vemos nas produção de Michael Moore, o filme mostra a jornada de Morgan pelos locais que possam servir de esconderijo do terrorista mais procurado do mundo.‘ Tem mais aqui.

Ainda na linha de comédia, deixo a sugestão do “A Banda“, onde egípcios e israelenses para se entenderem fazem uso da língua inglesa. Mas também mostra que o que realmente nos difere, são os muros das fronteiras. Isso claro, para nós seres pacíficos.

E para terminar, um que envolve guerras por etnia e religião, onde uma mãe abdica de seu único filho, o único que o horror da guerra não matou, para que ele sobreviva. Mais! Para dar a ele a chance de ser alguém. O filme é “Um Herói do Nosso Tempo” (Va, Vis et Deviens). Ele foi um dos sobreviventes da Operação Moisés, que o governo israelense resgatou em 1984, no Sudão.

palestina-israel-libanoPor fim, quem sabe um dia, uma Sherazade surja a cada um desses fomentadores de guerras, e os façam parar, por mil e uma noites, como também mil e um dias. E então, os outdoors com paisagens bucólicas virão nos mostrar e convidarmos a conhecer um Novo Oriente Médio. Um reino de paz e fantasias!

See You!

Por: Valéria Miguez (LELLA) (Em 27/09/08).