Oscar 2016 – Apostando num Mundo Mais Justo, Sem Violência e Com Mais Igualdade Social!

oscar-2016_pontos-altosAntes mesmo da grande noite o Oscar 2016 levantou polêmica e de uma bandeira que pulou do ano anterior: o de não ter atores negros entre os finalistas. Verdadeiro! Onde até entendo o ato de boicotar o evento, mas… Vale lembrar que tendo uma chance de falar, mesmo que rapidamente, que será ouvido por milhões de pessoas. E foi o que fez Chris Rock aproveitando essa imensa platéia com o seu discurso na abertura do Oscar 2016. Que mesmo que ele tenha decorado o texto, deixou a impressão de não estar acreditando. Que estava livre para dizer tudo o que estava engasgado. Num quase receio de que a qualquer momento seria cortado. Ele falou bonito!

Com isso parecia que a Academia se redimia até pelo o do ano passado… Mas vale ressaltar que ela é a representante de mais de seis mil de eleitores. Que são eles com direito a voto que fazem as escolhas. Assim vieram deles o fato de não ter atores negros indicados nesse ano também. Agora, há também outros fatores. Um deles seria o peso da “divulgação” que alguns filmes recebem. Que por sua vez os levam a serem exibidos em muito mais salas. O que termina empurrando os demais para locais mais distantes, ou mesmo sendo exibidos em poucas salas… Que acaba diminuindo o público, logo de receberem mais votos.

Agora, bem que a Academia poderia divulgar após a festa da premiação, o número de votos de pelo menos os trinta mais votados… De qualquer forma há um outro e importante fator a ser considerado como bem disse Chris Rock: “O que a gente quer é oportunidade. Queremos que atores negros tenham as mesmas oportunidades. E não é só de vez em quando.” Bravo, Chris!

Assim, já desde o início o Oscar 2016 contou com discursos políticos, humanitários, sociais… Foram vozes a pedir um engajamento maior de toda a Sociedade!

Como o do Diretor de “A Grande Aposta“, Adam McKay, que levou o Oscar de Roteiro Adaptado. Lembrando ainda que o filme falou sobre uma tragédia que deixou milhões de pessoas sem casas e emprego… McKay aproveitou para pedir que deem um basta a isso! Que não votassem em candidatos comprometidos com Wall Street… E de quebra nem em milionários “esquisitos”… Um discurso que também cai como luva aqui no Brasil em relação aos golpistas… Bravo, McKay!

O Filme “Mad Max: Estrada da Fúria” saiu-se o grande vitorioso da noite com seis estatuetas – Figurino, Design de Produção, Maquiagem e Cabelo, Montagem, Edição de Som e Mixagem – que mesmo que sejam considerados técnicos, foram merecidos! Até porque na listagem dos finalistas faltaram principalmente o do Diretor George Miller, pelo excelente trabalho, e o da atriz Charlize Theron, pela sua magistral performance. Bem, mesmo tendo sido injustiçado em algumas categorias… Jenny Beavan, que levou o prêmio de Figurino, deixou também um importante seu recado! Em relação aos cuidados com a poluição da nossa atmosfera, e para que todos sejam mais gentis uns com os outros! Valeu, Jenny! O mundo está precisando muito disso: mais amor, menos ódio!

Um outro grande momento do Oscar 2016… Primeiro veio por quem apresentou uma das canções concorrentes… Alguém de peso! Não apenas por ser ele o vice presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, mas por se tratar de uma bandeira dele e desde quando ainda um Senador: quando então criou uma Lei contra a violência com as mulheres. Biden num discurso em tom ameno conclamou a toda a sociedade a abraçarem essa causa! Assim como a também tentarem mudar toda uma cultura machista! Great!

Uma expressiva apresentação pois a canção “Til It Happens To You” pertencia ao Documentário “The Hunting Ground“. Um filme que fala dos estupros em campus universitários americanos. Que também mostra que as direções dessas instituições se preocupavam mais em encobrir o fato em si. Além dos depoimentos, e até por eles, as vítimas além da violência sofrida, lutam por justiça e pelo direito de estudarem em paz. “Til It Happens To You” foi escrita e interpretada por Lady Gaga, cuja a apresentação contou com a presença de vítimas de violência sexual. Bem, a canção não levou a estatueta… Agora, por certo emocionou! Além de dar voz a essas pessoas! Bravo, Lady Gaga!

Ainda dentro deste triste contexto… O “A Girl in the River: The Price of Forgiveness“, ganhador como Documentário de Curta-Metragem. Ele conta a história de uma jovem que se apaixonou e ao tentar fugir enfrentou a “lei em nome da honra”… Por sorte sobreviveu e com coragem para contar essa história ao mundo. Até para mostrar a de centenas de mulheres que são mortas anualmente por essa mesma “lei”. Em seu discurso, a Cineasta Sharmeen Obaid-Chinoy disse que após assistir ao filme, o Primeiro Ministro do Paquistão decidiu mudar a lei que mata mulheres em nome da honra; além de exaltar aos homens que incentivam as mulheres a estudarem, em terem profissões… É! É tentar mudar um comportamento machista! Bravo!

Também teve o do Diretor Asif Kapadia pelo Documentário ganhador da estatueta: “Amy“. Uma obra que disseca com raro discernimento as dificuldades que Amy Winehouse enfrentou no decorrer da vida. Ao receber o prêmio Kapadia diz que quis mostrar ao mundo não aquela menina dos tabloides, mas sim a bela menina: inteligente, espirituosa, talentosíssima… A menina que silenciosamente pedia por cuidados… Ainda não vi o filme, mas já se mostra um respeito nessa homenagem!

Chegando então no grande esperado da noite… “O Regresso” além do prêmio de Fotografia, deu novamente o de Direção para Alejandro G. Iñarritu! Que seguiu também por um discurso que espera por mudanças: “Tem uma fala no filme em que Glass (DiCaprio) diz para seu filho mestiço: ‘Eles não te escutam, apenas veem a cor da sua pele’. Então, que maravilhosa oportunidade nossa geração tem de nos libertar de todo preconceito e nos assegurar de uma vez por todas que a cor da pele seja tão irrelevante quanto o tamanho do nosso cabelo“. E mesmo que esperado o de Ator para Leonardo DiCaprio… Este, que até fora mencionado no discurso de Chris Rock… DiCaprio também deixou o seu recado: “A mudança climática é real. Está acontecendo agora. É a ameaça mais urgente… precisamos trabalhar coletivamente e parar de procrastinar. Precisamos apoiar os líderes do mundo todo que não falam pelos grandes poluidores e grandes corporações, mas que falam por toda a humanidade. E por bilhões de pessoas que serão as mais afetadas pela ganância política.” Bravo para Iñarritu e DiCaprio!

Mas o prêmio maior foi para “Spotlight: Segredos Revelados” que além deste, o de Filme, levou também o de Roteiro Original. Sendo que na premiação máxima, para mim competia mesmo com o “O Regresso“, já que não acreditei mesmo que “A Grande Aposta” levaria esse prêmio, como citei aqui. Bem, de qualquer forma estava bem cotado! Lembrando que o filme retrata uma investigação jornalística sobre crimes de pedofilia praticados por padres… “Spotlight: Segredos Revelados” não deixa de ser algo relevante… Mas de 2002 para cá… Há o Papa Francisco! Um Papa que, diferente dos antecessores, não esconde para debaixo do tapete os erros da Igreja Católica… De qualquer maneira, foi válido o pedido feito por um dos produtores do filme: “Esse filme deu voz aos sobreviventes e este Oscar amplificou esta voz, que esperamos que se torne um coro que vai ressoar até o Vaticano. Papa Francisco, está na hora de proteger nossas crianças e restaurar a fé.“. Pedofilia é algo sério, por demais! Que reforça a premiação!

E entre outros mais discurso… Ressalto também o de Sam Smith ganhador de Canção OriginalWriting’s On The Wall“, do filme “007 contra Spectre“: “Quero dedicar este prêmio à comunidade LGBT de todo o mundo. Estou aqui esta noite como um homem gay orgulhoso e espero que um dia possamos estar todos juntos como iguais”. Um discurso mais do que apropriado até porque o homossexualismo ainda hoje além de sofrerem por um forte preconceito, é até criminalizado em certas culturas. Bravo, Sam!

Assim, que bom que todo o glamour da entrega do Oscar permaneça mais no Tapete Vermelho… Que mais uma vez alguns dos premiados não ficaram só nos agradecimentos usuais… Usando o tempo e o imenso público com discursos onde abraçaram por causas maiores: de caráter social, humanitário, político, ecológico… Enfim, além de ter dado vez e voz ao Chris Rock com a causa racial, o Oscar 2016 conclamou a todos por mudanças de posturas, por uma consciência pela coletividade, para irem além do próprio umbigo. Com isso, um “Oscar goes to” para todos eles! Great!

Curiosidade: Além das premiações mencionadas, também ganharam o Oscar 2016:
– Atriz: Brie Larson, “O Quarto de Jack”
– Atriz Coadjuvante: Alicia Vikander, “A Garota Dinamarquesa”
– Ator Coadjuvante: Mark Rylance, “Ponte dos Espiões”
– Trilha Sonora Original: “Os Oito Odiados” (Ennio Morricone)
– Efeitos Visuais: “Ex Machina”
– Animação: “Divertida Mente”
– Curta de Animação: “Bear Story”
– Curta-Metragem: “Stutterer”
– Filme Estrangeiro: “O Filho de Saul” (Hungria)

Anúncios

Casa Grande (2014). Até que Ponto Somos uma Democracia Racial?

casa-grande_2014_01Por: Eunice Bernal.

Todo brasileiro traz na alma e no corpo a sombra do indígena ou do negro.” (Gilberto Freyre)

O Cinema Brasileiro quando quer também sabe fazer bonito não deixando nada a desejar ao de outras nacionalidades, e de vez em quando nos brinda com um de tema excepcional e atual condizente aos anseios e desejos de nossa gente. O nacional do momento que destaco é CASA GRANDE, um drama, às avessas, com argumento e direção do jovem carioca Fellipe Barbosa que conta com Karen Sztajnbeg na elaboração do roteiro. Estiloso! Usou e abusou do formato simples de narrar, porém, com capricho, contando de uma forma inusitada um drama familiar real mesclando situações cotidianas desta sociedade.

O filme me chamou a atenção mais por um dos assuntos abordados na história, e que na época de sua implantação no país, gerou polêmica e a sociedade viu-se num impasse, dividida entre ser favorável ou não; seria benéfico ou daria dor de cabeça à população, e parece que até agora ninguém chegou a conclusão alguma, mesmo sabendo que se tornou lei e já vigorando tanto que muitos vieram a usufruir, porém, a questão ainda impera.

casa-grande_2014_02Casa Grande é baseado em fatos reais, na vida do próprio diretor do longa. Conta história de Jean, narrado em primeira pessoa, um adolescente de 17 anos, sua irmã Nathalie e seus pais Sonia e Hugo; família rica e feliz que, de repente, se encontra em séria dificuldade financeira decretando falência justamente no momento em que o filho mais precisa de atenção e apoio porque vai prestar concurso para ingressar na faculdade; fase de escolhas de carreira na vida do jovem brasileiro, momento único, curso preparatório, pré-vestibular, estresse, noites insones debruçados em livros pensando em rumos a seguir na vida que muitas vezes deixa essa fase da vida e a juventude insegura e por isso vale contar com apoio e compreensão dos entes queridos. O filme já nasceu grande de ideias, apesar de o diretor ser bem jovem, já traz na bagagem este seu primeiro ‘filho’ de dar inveja santa a colegas de profissão e aos mais experientes, pois o filme imediatamente conquistou alguns prêmios quando foi lançado em 2014. Sei lá, uma ideia que já passeava pelo país, e ele sortudo, se apropriou.

A família de Jean vive em uma mansão na Barra da Tijuca, um dos bairros considerados nobres da elite carioca; com piscina, carros na garagem, três empregados, enfim, uma vida, antes, financeiramente, digamos, confortável. O filho estuda no tradicional Colégio São Bento, uma das melhores escolas particulares do Rio de Janeiro referência em Educação e Conceito A no país. De repente, a história dessa família, muda radicalmente para o lado B da vida quando o patriarca começa a perder seus investimentos e bens, e por vergonha não revela isso aos filhos, amigos e vizinhos passando a viver de aparências. O filme é bem um reflexo da crise atual que o Brasil atravessa. A história é espelho da sociedade brasileira; talvez sirva apenas para esta nacionalidade por ser assunto mal resolvido deste país.

casa-grande_2014_03O motorista da família, um senhor de meia idade vindo da região nordeste do país era quem levava o rapaz todos os dias à escola e ia buscá-lo; davam-se bem, consideravam-se amigos, e no caminho, altos papos entre ambos; por causa da crise financeira que a sua família estava passando e por contenção de despesas, o motorista foi despedido e felizmente conseguiu outro emprego em seguida na Comunidade da Rocinha, próximo de onde ele vivia com a família. Rocinha está localizada na zona Sul no Rio, espremida entre o Leblon e São Conrado – caminho que divide a Zona Sul do RIO da Zona Oeste e Norte, e no enredo isso está explícito para mostrar como é composta a sociedade brasileira, (pobres e ricos) e como e onde se vive = casa grande X senzala = as raízes do Brasil Sudeste X Nordeste; os bairros são chamados em outras sociedades de distritos, e como distrito o país está dividido em abastados e miseráveis. Mas todos podem viver pacificamente na CASA GRANDE, o direito de ir e vir é igual para todo cidadão brasileiro, amparado perante lei, com os mesmos direitos (Bem, isso está claro na Constituição Federal). A Comunidade Rocinha (lembra um muro isolando tribos porque para ir de um lado a outro o caminho é esse, ou atravessando um túnel ou indo pelo elevado do Joá) ou os ricos dos pobres grifando as desigualdades sociais.

casa-grande_2014_04Sem motorista, Jean passou a ir à escola de ônibus e, graças a essa mudança radical em sua vida, conheceu na viagem uma garota – Luisa (Bruna Amaya) que estudava no Colégio Pedro II – também Educação de excelência e qualidade em Ensino, só que esta difere da outra por ser da rede pública Federal (Pedro II, apesar de ser Escola Pública, é considerado uma das melhores do Estado, comparado ao Colégio Militar e a algumas Escolas Particulares), e o casal passou a ter um relacionamento mais que amizade. A jovem embarcava no meio do caminho e descia no ponto da Rocinha. Começa aí para Jean descoberta de um sentimento novo e de amor, além da atração física e desejo que nutria por Rita, a empregada mais jovem de sua casa, e por isso suas as investidas constantes nas madrugadas para encontrá-la em seu quarto para ganhar sua confiança e carinho, e ela sempre arrumava jeito de lhe dar atenção, de ouvi-lo e conversas triviais e não passava disso e o desejo dele pela moça não passava do platônico até então.

A trama aborda assuntos relevantes e continuamente atuais; entre eles destaco dois:

livro_casa-grande-e-senzala_gilberto-freyrePrimeiro que me reportou imediatamente à obra Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre trazendo à tona algumas lembranças de QUEM SOMOS, e a formação sócio-econômico-político-cultural do povo brasileiro no contexto da miscigenação entre brancos, índios e negros; ricos e pobres, de oportunidades (des)iguais para todos; de escolhas entre estudar em escola particular ou pública; patrão e empregado; casarão x casebre ou melhor, Casa Grande e Senzala, além dos muros regionais, que, sutilmente, discrimina e divide o país. Não sei se Fellipe Barbosa fez de propósito apostando nesse título ou seria mera coincidência. Independentemente de qualquer motivo, ele fez a coisa certa e foi feliz na escolha tornando a obra aberta a tantas reflexões, principalmente no que tange a atual situação do país – e crise econômica não escolhe classe social. E Gilberto Freyre diz que “Casa Grande” é moradia de todos: do proprietário, escravos, parentes, filhos, esposa, amantes, padres, políticos cachorro e papagaio. O sociólogo diz que este domínio se estabeleceu incorporando tais elementos e não os excluindo. Ele também desmistifica a ideia de que no Brasil teria uma raça inferior devido à miscigenação. Antes, aponta para os elementos positivos da formação cultural brasileira, oriundos desta miscigenação entre culturas tão distintas, ou seja, o Brasil do ‘todos juntos e misturados’!

Quando fala em democracia racial, você tem que considerar que o problema de classe se mistura tanto ao problema de raça, ao problema de cultura, ao problema de educação. (…) Isolar os exemplos de democracia racial das suas circunstâncias políticas, educacionais, culturais e sociais, é quase impossível. (…). É muito difícil você encontrar no Brasil [negros] que tenham atingido [uma situação igual à dos brancos em certos aspectos…]. Por quê? Porque o erro é de base. Porque depois que o Brasil fez seu festivo e retórico 13 de maio, quem cuidou da educação do negro? Quem cuidou de integrar esse negro liberto à sociedade brasileira? A Igreja? Era inteiramente ausente. A República? Nada. A nova expressão de poder econômico do Brasil, que sucedia ao poder patriarcal agrário, e que era a urbana industrial? De modo algum. De forma que nós estamos hoje, com descendentes de negros marginalizados, por nós próprios. Marginalizados na sua condição social. […]. Não há pura democracia no Brasil, nem racial, nem social, nem política, mas, repito, aqui existe muito mais aproximação a uma democracia racial do que em qualquer outra parte do mundo. Gilberto Freire. Casa Grande & Senzala” foi publicado em 1933 e parece que foi hoje, não acha?

casa-grande-2014_02Em segundo lugar, destaco na obra do roteirista a abordagem da Lei de Cotas Raciais. O jovem leva Luisa à sua casa onde está acontecendo um churrasco, e lá estão alguns parentes e amigos da família. No meio da festa surge o assunto ENEM, Vestibular, Carreira e também a Lei de Cotas Raciais. A namorada de Jean muito eloquentemente começa a explanar sobre suas raízes, dizendo o porquê de suas características físicas. Diz que a mãe é mulata e o pai japonês. E daí começa a ‘discussão’ sobre Cotas Raciais para ingresso ao nível superior, perguntam se ela escolheria ou não se inscrever por meio de Cotas. Falar sobre Cotas Raciais é um assunto delicado e o brasileiro ainda não chegou a um denominador comum; difícil se situar e não alterar o tom de voz; uns sendo a favor e outros contra. E ninguém se entende. Um diz que Cotas é uma forma de preconceito que isso não é fator para medir intelecto de ninguém. Como em qualquer roda de conversa que o assunto surge sempre acontece de ter defensores e atacantes para as duas correntes – dos favoráveis à lei de Cotas e dos contrários. É claro que esse almoço na casa de Jean também não acabou bem.

A Lei de Cotas foi regulamentada em 2012, e promove diversas políticas públicas para os afrodescendentes visando criação de oportunidades e a igualdade racial. É atribuída 50% das vagas em instituições e Universidades Federais destinadas a estudantes egressos de escolas públicas e com renda familiar igual ou inferior a um salário mínimo e meio per capita, e a outra porcentagem de cota a critérios raciais (negros, pardos e indígenas). Ninguém também se entende quando a cota é para estudante de Escola Pública, pois Colégio de Aplicação, Pedro II, Fundação Osório e Colégio Militar são alguns dos Públicos de Educação de qualidade, e usar a lei de cotas para concorrer a uma vaga é tirar a chance de outros candidatos sem cotas conseguirem pontuação para ingressassem. Concorrência desleal? E voltando a citar Casa Grande & Senzala de Gilberto Freire, ele diz também o seguinte: Não é que inexista preconceito de raça ou de cor conjugado com o preconceito de classes sociais no Brasil. Existe. É verdade que a igualdade racial não se tornou absoluta com a abolição da escravidão. (…). Houve preconceito racial entre os brasileiros dos engenhos, houve uma distância social entre o senhor e o escravo, entre os brancos e os negros (…).

Se o brasileiro é um povo miscigenado, resultado de negro, branco, índio, vermelho, japonês, verde e amarelo, por que deveria existir uma política de cotas raciais? Os investimentos em educação no país estão cada vez mais precários que a condição de todo cidadão independentemente de raça se igualou. As pessoas que discordam das cotas raciais afirmam que ela é discriminatória e causa conflito racial. Em um país com grande diversidade racial, as dificuldades são encontradas no momento de decidir se uma pessoa é branca ou parda. Parece que a nação brasileira redescobriu o Brasil, deu volta ao mundo e parou no mesmo lugar.

casa-grande-2014_cartazO filme pretende ainda ser uma crítica à alta sociedade, como explica o próprio diretor: “Busco trazer perguntas nesse filme. Por que a gente deseja tanto? Qual a vantagem disso? Por que viver assim?Fellipe Barbosa. O direito de ir e de vir é lei. Um ponto alto do filme todos iguais, oportunidades iguais, direitos iguais. Casa Grande ou Senzala não faz diferença… Conclui-se que todos carregam no dna certo parentesco, a condição financeira pode ser o muro, abismo social, mas nada impede que se pule passando para o outro lado. É o que Jean fez indo à Senzala; é o que Severino fez indo à Casa Grande. E despido a diferença entre pobre e rico desaparece. O Poster do filme conclui essa ideia.

Como dizia um pensador “Entrar na Faculdade é muito fácil; difícil é sair” (com o canudo ele quis dizer). E acrescentava que infelizmente sempre haverá ricos e pobres. A riqueza pode ser do eu interior em potencial e se pode escolher ser rico assim ou pobre de espírito. No final das contas, conseguindo passar pela peneira, pelo funil ou pulando o muro, a luta será constante e indispensável para a vida que não costuma distribuir cotas para se chegar aos finalmentes, ou àquilo que se almeja conseguir para se chegar a algum lugar. “Até que ponto nós somos uma democracia racial?” Foi o que perguntou Lêda Rivas para Gilberto Freyre. Cabe a cada um tentar encontrar a resposta.

de Eunice Bernal.

Série de Tv: Nip/Tuck – Estética

O que você não gosta em si mesmo?

Essa é a primeira pergunta que Nip/Tuck faz. Afinal, o quanto a beleza é importante para você?

Fenômeno de audiência nos Estados Unidos (pelo menos nas primeiras temporadas) e exibida durante a madrugada no SBT, se Nip/Tuck não for a série mais polêmica já feita, então deve estar entre as dez dessa classificação. Estamos falando de um verdadeiro desfile de temas pesados que engloba, dentre tantos exemplos, ética, violência, pedofilia, estupro, psicopatia, homossexualismo, corrupção, drogas, suicídio, divórcio, pornografia, preconceito racial, críticas à igreja e, é claro, o que não poderia faltar, Estética (que não por acaso, é o nome da série no Brasil, escolha perfeita).

Cada episódio é um paciente diferente, mas não dá para se referir a Nip/Tuck como uma série médica do tipo House. Cada paciente aqui sofre de algo muito mais do que externo, o que querem operar realmente são seus egos, querem transformá-los em algo que admirem, o que na maioria das pessoas remete à beleza e aproximação do próximo. A estética se faz bastante presente, pois tudo gira em torno de aceitação social, logo a aparência física é o alvo principal de críticas da série.

A premissa em torno de dois cirurgiões plásticos bem requisitados de Miami, Sean McNamara (Dylan Walsh) e Christian Troy (Julian McMahon). Eles são sócios numa clínica chamada McNamara/Troy, onde operam pacientes, até mesmo, gratuitamente (dependendo da situação). Além de sócios, Sean e Christian são melhores amigos. Christian é quase parte da família, apesar de ter se envolvido com Julia (Joely Richardson), esposa de Sean, na faculdade. Sean e Julia têm um problemático filho adolescente, Matt (John Hensley), que não por acaso se entende melhor com Christian. A vida dos pacientes sempre afeta a vida social dos sócios, gerando situações em que haverá muito mais do que apenas ética para discutir. Christian usa seu charme para seduzir o máximo de mulheres que conseguir, enquanto Sean precisa lidar com os problemas da família e se salvar com Christian de alguns problemas sérios que acabam entrando ao longo dos episódios.

É claro que algumas instituições voltadas para a educação televisiva já tentaram fechar a série pela quantidade de temas polêmicos. Mas dentre todas as séries de sucesso por aí, talvez essa seja a que as pessoas mais precisem ver, para aprenderem a enxergar as coisas sob outro ângulo, sem muita alienação. Cada episódio apresentado poderia gerar uma quantidade transbordante de matérias nesse site, pois são carregados de mensagens sociais que precisam ser alertadas. Se quiserem exemplos mais objetivos, leiam o parágrafo abaixo (que há spoiler).

Logo nos primeiros episódios nos deparamos com uma situações assustadoras, um homem fugindo de seu país tentando mudar seu rosto para não ser preso por ter estuprado uma menina de 5 anos. Os cirurgiões não sabiam da verdade e fizeram a cirurgia (já que também estavam fazendo por um preço bem mais alto do que o justo), após isso somos apresentados ao pai da criança, que ameaça Sean e Christian de contar para a polícia. Em troca eles terão de operar mulheres vindas de outro país transportando drogas dentro de implantes de silicone. Essas jovens foram enganadas pelo traficante, que prometia uma carreira de modelo para elas nos EUA. Se Sean e Christian contarem a verdade para a polícia podem ser presos e jamais operar novamente, se permanecerem quietos terão que abraçar a corrupção. Julia, com praticamente 40 anos, está tentando voltar à faculdade (que largara na época por conta da primeira gravidez), lá fará amizade com um jovem que a desejará. Matt está passando pela experiência da perda da virgindade e quer fazer uma circuncisão antes que aconteça, porém descobre que sua namorada é lésbica.

O debate de Nip/Tuck vai além de qualquer questão clichê. Se você já conhece a série, sabe do que estou falando. Há certas coisas tão abomináveis que ela denuncia que nos deixa indignados só de lembrar, como por exemplo a clitoridectomia (ainda há mulheres que sofrem de castração genital por obrigação religiosa). Mas são coisas que precisam ser mostradas para que no futuro não aconteçam novamente.

Se há telespectadores que assistem a série por conta dos temas sérios, também há aqueles que são atraídos por conta da sensualidade dela. Em relação ao sexo, ela não se limita ao expor a vida sexual dos personagens. Aqui não há conflitos prolongados de adolescentes (Matt serve para isso, mas não é o protagonista e seus problemas têm argumentos, ao contrário de algumas séries teens que não quero citar), logo o sexo é descompromissado e puramente por prazer, sem aquele estardalhaço de triângulos amorosos que estão na moda. O drama da série vai muito além de com quem o personagem está dormindo, as questões sociais não cessam, o que mantém a pessoa sempre refletindo sobre as críticas.

A interpretação dos atores é excelente, de uma qualidade quase inédita na TV. Cada um combina naturalmente com seu personagem. Além deles há sempre a participação de alguma estrela por temporada. Já passaram por lá Alanis Morissette, Famke Janssen, Rhona Mitra, Brooke Shields, etc. E o mais interessante é que não são meras participações, elas interpretam personagens coerentes que realmente têm a ver com a história. Por exemplo, Famke Janssen rouba a cena como Ava Moore, uma das personagens mais marcantes de toda a série.

Uma das características mais importantes da série são as cirurgias plásticas. Previamente aviso para quem for assistir que é melhor se preparar para o sangue, pois eles mostram a maior parte das cirurgias ao som de alguma música legal (pois é, a trilha sonora também está de parabéns, há muita coisa boa ali). Entretanto isso até chega a ser bacana, o público poderá conferir o que realmente acontece numa mesa de cirurgia, assim vê se “vale a pena” passar por aquilo apenas por estética.

Antes de concluir, queria relembrar o fiasco de uma novela da Record (Metamorphoses) que apostou nas cirurgias plásticas na época em que Nip/Tuck estava no auge. E olha que tinha até a incrível Zezé Motta no elenco, nem ela salvou.

Nip/Tuck foi criada por Ryan Murphy (atual criador de The American Horror Story). Indicada a vários Emmys e vencedora do Globo de Ouro na categoria de Melhor Série Dramática, do Emmy de Melhor Maquiagem para Série/minissérie/filme, do Saturn Awards de Melhor Ator para Julian McMahon, etc.

Por Alexandre Cavalcante da Silva (Alex).

Nova York, Eu Te Amo

O filme Nova York, Eu Te Amo é uma colcha de retalhos sobre o projeto “franquia” seguindo o modelo de Paris, Eu Te Amo de 2006. São várias situações, várias histórias de amor e de encontros sob diferentes prismas, algumas confusas, outras nem tanto.

Trânsito caótico, pessoas brigando pelo mesmo táxi; a eterna questão do preconceito racial, a calma e a paz que a convivência na terceira idade traz; na passarela pessoas conhecidas no meio de anônimas. A selva de pedra, a Estátua da Liberdade imponente, um convite ao mundo para ela conhecer.

A miscigenação começa pelos onze contadores dos curtas-metragens; a maioria de nacionalidade não-americana. Há cineastas de origem indiana, japonesa, árabe, chinesa etc; pode-se constatar no final, nos créditos a pluralidade de países representados, exceto Brasil, ficou de fora desta vez como foi em Paris, Te Amo, representado por Walter Salles e faltando também de origem hispânica  para criar esse fantástico mosaico que a cidade representa.

Cada qual narrando uma história de amor, à sua versão para a mesma cidade; contando o encontro de todos os povos num só lugar. Uma das historias achei um tanto incompreensível, meio surrealista sobre uma diva que depois de anos volta a se hospedar no mesmo hotel e relembra de cenas que não se sabe exatamente o propósito.

O charme da burguesia e da 5ª Avenida; A ponte do Brooklyn e o centro financeiro de Manhattan; o revoar dos pássaros, diretores mostram os elementos que ligam aqueles que trabalham e circulam pelas ruas e avenidas, através de costumes, religiões, diversos sotaques, sinais fechados, pedestres, turistas…

O novo trabalho é assinado por diretores que foram escolhidos justamente por representarem o elemento de liga entre todos aqueles que circulam pelas ruas de Nova York à revelia de sobrenomes, raças, credos, nações e sotaques. O filme é arrumado e editado de tal forma que quase não se nota nessa versão nova-iorquina o limite entre um filme e outro, onde uma história termina e outra começa; não está evidente, e um personagem acaba transitando pelo espaço da próxima história.

Curtas para todos os gostos. Gostei da história do músico interpretado por Orlando Broom e por Christina Ricci; ela fazendo uma leitora assídua dos escritores russos, em especial Dostoievski, e o casal só se conhecia por telefone, até que um dia ela toma coragem e bate à sua porta.

Nova York, Eu te Amo é um filme de sentimentos e relacionamentos casuais ou não.

O próximo projeto está previsto para 2010, e será sobre uma cidade brasileira, ou melhor Rio, Eu Te Amo!

Sim, Rio, Eu te Amo! Uma declaração de amor.

Karenina Rostov

_____________________________________

Sinopse:

Na cidade que nunca dorme, o amor está sempre presente. Conexões humanas espontâneas, surpreendentes e eletrizantes criam um caleidoscópio que bombeia o coração da cidade. De Tribeca ao Brooklyn, passando pelo Central Park, pequenos contos dirigidos por dez realizadores de todas as partes do mundo exploram os cinco cantos de Nova York, compondo um retrato complexo e apaixonante de seu rico universo urbano.

Cast.

Biografia do diretor:

– Jiang Wen nasceu em 1963, na China.

– Mira Nair nasceu em 1957, na Índia.

– Shunji Iwai nasceu em 1963, no Japão.

– Yvan Attal nasceu em 1965, em Israel, mas cresceu na França.

– Brett Ratner nasceu em 1969, nos EUA.

– Allen Hughes nasceu em 1972, nos EUA.

– Shekhar Khapur nasceu em 1945, na Índia.

– Natalie Portman nasceu em 1981, em Israel, mas cresceu nos EUA.

– Fatih Akin nasceu em 1973, na Alemanha.

– Joshua Marston nasceu em 1968, nos EUA.

– Randall Balsmeyer nasceu nos EUA.

____________________________________________

Nova York, Eu Te Amo faz parte do projeto concebido pelos produtores franceses Emmanuel Benbihy e Marina Grasic. A ideia é convidar vários cineastas a fim de dirigirem histórias que se passam numa cidade. Paris, Eu Te Amo (2006) foi o primeiro filme da série e o próximo, Rio, Eu Te Amo será filmado na cidade brasileira, com estreia prevista para 2011.

Os produtores propuseram aos cineastas convidados que filmassem em 24 horas, editassem em uma semana e mostrassem as características marcantes de cada local da cidade onde filmaram. Por isso, Nova York, Eu Te Amo tem muitas cenas rodadas nas particulares ruas de Nova York. Diferentemente de Paris, Eu Te Amo, que tinha segmentos bem distintos, preservando de uma forma bem clara a identidade de cada diretor, este segundo filme do projeto soa mais como um longa sobre pessoas que vivem em Nova York do que uma união de curtas-metragens, como ocorria na produção sobre a cidade francesa.

Conduzindo Miss Daisy (Driving Miss Daisy. 1989)

A História terá de registrar que a maior tragédia deste período de transição social não foram as palavras ácidas e as ações violentas das pessoas más, mas o assombroso silêncio e a indiferença das pessoas boas.” (Martin Luther King. 1929/1968 )

Rever esse filme após um longo tempo, além do prazer, me levou a outros vôos. A lances do passado, como também a alguns bem mais recentes. Por conta da amizade entre os dois tão diferentes personagens: Miss Daisy (Jessica Tandy) e Hoke (Morgan Freeman); falo sobre isso depois. Mas também foco sobre outro aspecto desse filme e que tem a ver com a citação inicial.

A história do filme é contemporânea a Martin Luther King. Logo há o enfoque do preconceito no geral. Porque além da tal diferença entre os dois personagens, um negro e uma branca, há também sobre religiões e até os que a própria sociedade acabam mascarando. São pequenas atitudes, falas, que incorporadas na rotina diária dá a entender a pessoa de que não é preconceituosa. Por vezes é preciso que outra pessoa o leve a notar e o que o faça repensar. Há um outro enfoque também, o de que por razões comerciais, o de que para não apenas não perder clientela, mas também para obter futuros clientes, a pessoa prefira se omitir.

Indo de um extremo ao outro, o filme mesmo contando a história numa data específica, ele infelizmente tornou-se atemporal. Digo que infelizmente porque até o preconceito disfarçado ainda existe. E não me refiro a trocas de certos termos por outros politicamente corretos. Nada encobrirá o fato de se achar superior a outra pessoa.

No filme há passagens que dependendo de quem fala como de quem ouve, poderia passar incólume. De um jeito bem-humorado e sem fincar raízes. Mas por outro lado, há quem as professem sempre, e mais, as liberam numa situação extremadas, cheias de ódio. Sendo esse o lado ruim em perpetuar certos preconceitos. Exemplificando com uma fala do Hoke com o filho de Miss Daisy (Dan Aykroyd) na entrevista para o cargo de motorista para sua mãe: “Gosto de trabalhar pra judeus. Eu sei que tem quem diz que vocês exploram e enganam a gente… mas que ninguém venha dizer isso perto de mim.” Quem tem conhecimento do Holocausto, sabe a extensão disso. Mesmo nos dias de hoje onde há uma gama maior de informações do que na época do filme, pensamentos assim ainda são proferidos e pejorativamente.

Ainda no enfoque do preconceito, e sobre os dois outros lances que citei, o exemplo foi durante uma mesma cena. Mãe e filho comentando sobre a ida a um jantar para Martin Luther King. Ele declinando o convite por temer retaliações a sua Tecelagem. Como também percebendo uma ligeira mudança na mãe por querer ir. Nesse seu repentino interesse por Luther King. Em ouvir o que ele diz, pessoalmente, e na presença de outras pessoas conhecidas. Ela se sente chocada, rebatendo não ser preconceituosa. Mas a postura até então, dava mostras que trazia algo sim. E o que a fez realmente repensar, como também a ter uma nova postura, fora a convivência com o seu motorista.

Agora, entrando no valor de uma amizade. Porque é o mais belo que esse filme traz.

Num fórum sobre filmes que trazem longas amizades; que eu mesma abri após rever o “Nunca Te Vi, Sempre Te Amei” (84 Charing Cross Road), uma colega, Janete, citou esse. Que me fez ficar com vontade de rever. E o fiz. “Conduzindo Miss Daisy” é um líbelo a uma amizade que fica como um divisor de água.

Voltando a ele… Ainda na entrevista, o filho de Miss Daisy o avisa que a sua mãe tem pavio-curto. O prevenindo que irá conviver com uma pessoa muito difícil. Mas para Hoke isso não seria problema. Pelo seu temperamento extrovertido, pelo seu jeito irreverente de ser, isso não seria mesmo nenhum obstáculo. Tanto que com o passar dos dias ele enfim quebrou o gelo, a empáfia dela.

Ele me levou a pensar em mim. Ela, me fez pensar numa amiga de infância que certa vez falou: “Quer me dá o direito de brigar contigo?” Ela tinha um gênio difícil, mas que a mim não intimidava. Nesse lance, eu respondi algo assim: “Dou! Mas pode ser na 2ª feira? Hoje ainda é 6ª feira. Só vamos embora na 2ª. Aqui não tem tv, nem rádio. Com você emburrada, nós vamos fazer o que? Vamos é perder o final de semana.” Ela começou a rir, eu também. E a discussão tinha sido por bobagem; eu atendera um pedido da mãe dela e fora até por ganhar mais tempo para aproveitarmos aqueles dias.

Ele ao conquistar a amizade dessa senhora, me fez pensar em algo que costumo dizer: de que não procuro por amigos na saída de uma linha de montagem. As diferenças de opiniões, de pensamentos também são interessantes. Agora, o que incomoda é quando temos que pisar-em-ovos nesse convívio, quando há intimidação, quando ficamos tolhidos em sermos nós mesmos. Mais até! Quando estampam num outdoor algo do tipo – “Já deveria me conhecer!”, num tom de que ela quem sempre tem razão. Bem, aí é hora de parar e repensar nessa via de mão única.

Esse jeito de pensar, de agir, demonstra sapiência. Ele, em nenhum momento a fez mudar sua postura. O fato de aceitar a soberba dela, não era apenas pela relação empregado e patroa, mas sim porque aquilo era problema dela; e não dele. Ao contestar, quase numa desobediência, o fez por conta de algo fisiológico: queria urinar. Lances assim é que são relevantes. Catequisar não mantém uma amizade verdadeira. Nem muito menos a intolerância. Miss Daisy mudou, e para melhor, porque viu na atitude de Hoke algo como um “Acorda!”, sentiu como um tapa na testa. Aprendeu a dar valor aquela amizade, ao grande e eterno amigo. E eu não segurei as lágrimas, no final e um pouco antes.

Enfim, um filme que vale muita a pena rever, sempre. Ah! Eu procurei no Youtube a música tema, de Hans Zimmer. Nesse Trailler terão um refresco de memória. Dou nota máxima em tudo.

Por: Valéria Miguez.

Conduzindo Miss Daisy (Driving Miss Daisy). 1989. EUA. Direção: Bruce Beresford. Elenco: Morgan Freeman, Jessica Tandy, Dan Aykroyd. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 99 minutos.