Os Amantes Passageiros (2013). Apertem os cintos… nesse voo penas irão brilhar!

os-amantes-passageiros_2013O Diretor Pedro Almodóvar após a obra prima no Drama “A Pele que Habito” resolveu tirar o pé do freio e se soltar. Bom para nós, seus fãs, que nos divertimos juntos com ele. Afinal, é uma ótima Comédia almodoviana que está nesse voo. Onde sugiro se desligarem do politicamente correto porque ele dessa vez veio foi com ‘gays à beira de um ataque de nervos‘. Também porque dessa vez ele resolveu dar um Boa noite Cinderela em quase todas as mulheres dentro desse avião. Quase porque deixou acordada apenas a rameira (Norma, personagem de Cecilia Roth) e a virgem “religiosa” (Bruna, personagem de Lola Dueñas); atrizes carimbadas pelo diretor. E foi ótimo também porque não colocou o Brasil como paraíso para fugitivos da lei. O destino final seria o México.

os-amantes-passageiros_almodovar_penelope_banderasPois é! Uma viagem que iria para a Cidade do México nem chegou a sair do espaço aéreo da Espanha. Tudo porque após levantar voo foi descoberto uma grande falha técnica que obrigava a não apenas voltar, como também a aterrissagem poderia ser arriscada. E a tal falha fora por um descuido de um mecânico, em cena com participações especiais de Antonio Banderas e Penélope Cruz. Homenagem aos dois que já atuaram em outras Comédias de Almodóvar. O casal já protagoniza um dos temas dessa história: o amor que costuma cair de paraquedas na vida das pessoas, mas que por conta de um acidente do destino pode desaparecer, ou até se ver obrigado a escolhas nada felizes.

Bem, como a classe econômica tinha um número muito maior de passageiros, o que levaria a dificultar o trabalho dos comissários de bordo, o comandante (Antonio de la Torre) decide dopá-los, inclusive a tripulação desse setor, que no caso eram mulheres. Ficando apenas os poucos passageiros da área executiva para serem entretidos.

Na primeira classe, além de Norma e Bruna, temos como passageiros: – o Sr. Más (José Luis Torrijo) um alto executivo do setor financeiro que está fugindo de uma investigação policial; – Infante (José Maria Yazpik), um mexicano para lá de misterioso; – Ricardo (Guillerme Toledo), um ator que aceita um papel numa novela mexicana como forma de dar um tempo no assédio das fãs; e um casal de recém casados, cujo noivo resolve aproveitar-se da situação. Onde os três comissários de bordo, três gays para lá de assumidos, – Joserra (Javier Cámara), Fajas (Carlos Areces) e Ulloa (Raúl Arévallo) – tem como missão de distrair esses passageiros e com isso evitar pânico à bordo.

Acontece que tirando o comandante e o co-piloto Benito (Hugo Silva), os demais estão mesmo viajando às cegas. Sem saber a real situação do voo ficam com os nervos à flor da pele. Bebem. Trocam confidências. Fazem juras secretas. Outras nem tão secretas assim pois o único telefone para se despedirem com quem está em terra está com o sinal aberto, o que deixa a conversa ser ouvidas por todos. Numa dessas conversas há a participação de mais três atrizes que já trabalharam com Almodóvar: Blanca Suárez, Paz Vega e Carmen Machi.

E o avião segue pelos céus da Espanha a procura de uma pista livre para pousar e se possível em segurança. Entre confissões, rendições, saídas do armário, sexo, drogas e muita tequila somos brindados também com um memorável número musical com Joserra, Fajas e Ulloa cantando “I’m so Excided”.

Os filmes de Almodóvar são para serem sentidos. Até porque em todos há a sua assinatura mesmo quando ele faz é a leitura de um roteiro que não escreveu. O que não é o caso desse que ele assina o Roteiro também. Muito embora “Os Amantes Passageiros” também pode ser visto como uma crítica política ao país. Com a crise instalada nos países europeus. De qualquer forma é muito mais um filme para seus fãs, e os que se permitem serem levados por ele. Almodóvar é: ame-o ou vá ver outro filme. Eu vi, amei e fiquei com vontade de rever. Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Os Amantes Passageiros (Los Amantes Pasajeros. 2013). Direção e Roteiro: Pedro Almodóvar. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 90 minutos. Classificação: 16 anos.

Anúncios

Corações Perdidos (Welcome to the Rileys. 2010)

coracoes-perdidos_2010Por Norma Emiliano.

A dor é suportável quando conseguimos acreditar que ela terá um fim e não quando fingimos que ela não existe”. Allá Bozarth-Campbell

A morte de um filho, principalmente jovem, bem como a da mãe quando se é criança, provoca sentimentos ambivalentes, nos quais a culpa, a raiva, o desalento constroem muros, isolando as pessoas até de si mesmo.

O filme Corações Perdidos cruza as vidas de um casal (Lois e Doug), que perdera sua filha adolescente, e de uma jovem órfã (Allison) que perdera a mãe desde os cinco anos.

O silêncio impera entre o casal que não fala da morte e de nada que os incomode; na casa, o quarto da filha mantém-se intacto sinalizando a negação da morte. Alisson vaga solitária pela vida sem amor a si própria, trabalhando como strip, sujeitando-se à prostituição.

Na trama, Lois, após a morte da filha, fica deprimida, não consegue sair de casa e sua relação com Doug é distante e conturbada. Ele vive uma relação extraconjugal, e a morte abrupta da amante o deixa sem direção. Porém, quando viaja à negócios, seu encontro com Allison lhe desperta os cuidados paternos e ele abandona a esposa.

Lois tenta superar seu pânico e vai ao encontro do marido e acaba também se envolvendo com as questões de Alison. No desenrolar do roteiro, Allison fará com que o casal lembre-se do real motivo que os uniu e sua relação com eles transforma suas vidas.

O luto é inevitável; superar a dor da perda é um processo cujo tempo é subjetivo, pois cada pessoa tem um “tempo emocional”. No filme os personagens encontram-se aprisionados à negação, “dormência emocional”. O cruzamento das histórias (casal e jovem prostituta) dispara o movimento para cura através da quebra do silêncio, da recuperação da autoestima e da mudança de hábitos.

Um Homem Misterioso (The American. 2010)

O título dado no Brasil até que trouxe uma peça para se tentar descobrir quem seria o tal homem. Mas quem seria ele? Um matador de aluguel? Um, de muitos que há por ai. O título original diz de onde esse veio. E virou uma alcunha, quando dele falavam no lugarejo onde se instalou por um tempo. Um lugar encravado numa das montanhas da Itália: Castel del Monte.

Antes de ver o filme ao ler uma sinopse ela me fez pensar em ‘Layer Cake‘. Primeiro fiquei a pensar se teria o mesmo desfecho. Depois, se esse aqui seria tão bom quanto o outro. E o que traria de diferencial entre tantos filmes com matadores profissionais.

Verdade seja dita, o carimbo do passaporte veio com essa dobradinha, esses dois colírios: George Clooney + Paisagens da Itália.

Seu personagem já no início do filme mostra que ele não é um qualquer, que mata sem dó nem piedade. O que faz criar uma expectativa maior com relação a trama. Ainda o vemos se cercar de cuidados quanto a sua segurança. Mas a estória perdeu o rumo depois dai. Ou eu que viajei demais por ter o George Clooney no elenco desse filme, esperando por um bom drama.

No livro, o qual foi baseado, até pode render uma boa estória. Mais ainda se aprofundou na relação dele com o pároco local. Culpas, expiações, pecados, absolvição… se houvesse mais no filme, ai sim seria um bom diferencial: a amizade dos dois.

O Padre, sem saber, o ajuda a construir uma arma. A arma que será usada para matar alguém. E quem seria esse alguém? Como quem estaria por trás de tudo? Mais até, ele estaria ali só para construir essa arma?

Além dos dois colírios citados, outro ponto que fica no filme, e a título de curiosidade, está em mostrar que para quem entende do assunto, aquilo que as barreiras alfandegárias não enviam, encontrará as outras peças, ferramentas e materiais, numa oficina de desmanche de carros. As sucatas se transformando em uma arma que atinge o alvo de longe.

Um outro ponto negativo do filme, foi a falta da espontaneidade dos italianos. Do modo de falarem também por gestual. Até a língua italiana que eu gosto de ouvir, foram pouco usadas. Como desculpa: prostitutas aprendendo a língua inglesa. Para mim o real motivo seria que os americanos, em maioria, não gostam de verem legendas em filmes.

E ao término do filme me peguei a pensar se um outro Diretor teria feito da estória um bom filme. Como também me fez continuar gostando muito de ‘Layer cake’. Já que ‘Um Homem Misterioso‘ é bem mediano. Mesmo com os dois colírios – Clooney e Itália -, não recomendo. No máximo, esperem passar na tv.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Um Homem Misterioso (The American). 2010. EUA. Direção:  Anton Corbijn. Elenco: George Clooney (Jack / Edward), Thekla Reuten (Mathilde), Irina Björklund (Ingrid), Johan Leysen (Pavel), Paolo Bonacelli (Padre Benedetto), Violante Placido (Clara), Filippo Timi (Fabio), Anna Foglietta (Anna), Patrizio Pelizzi (Antonio). Gênero: Crime, Drama, Romance, Suspense. Duração: 105 minutos. Baseado no livro de Martin Booth, ‘A Very Private Gentleman’.

Sempre Bela (Belle Toujours). 2006

Manoel de Oliveira não é um diretor fácil. Desta vez, revisita dois personagens de um clássico extraordinário: “A Bela da Tarde” (Belle de Jour). Daí o jogo lúdico com o título original do curioso “Sempre Bela” (Belle toujours) que cria um encontro casual entre Severine (Bulle Ogier, estrela de “O Discreto Charme da Burguesia”, já que Deneuve recusou o papel) e Husson (Michel Picolli do primeiro filme) 40 anos após os acontecimentos que marcaram a polêmica estória de Joseph Kessel magistralmente adaptada para as telas.

Severine está mudada e um tanto arrependida por ter cedido aos seus perversos impulsos eróticos na juventude, quando foi flagrada por Husson se prostituindo por puro prazer em suas tardes ociosas. O reencontro é embaraçoso e aflitivo porque ela quer saber se Husson contou ao marido sobre suas atividades escusas.

Apesar da curta duração, o ritmo é lento e Manoel permite longas e repetidas tomadas de Paris e monumentos, entre diálogos ricos como os travados com o barman, que explica sua profunda experiência com a psicologia humana por conta de sua presença supostamente neutra. O diretor flerta abertamente com o movimento surrealista de Buñuel ao adicionar personagens bizarros como as estranhas prostitutas do bar e inserindo uma cena aparentemente sem sentido com uma ave visitando um restaurante num momento chave.

É fortemente desaconselhável aos fãs do cinema frenético de cortes epiléticos que podem estranhar uma sequência inteira de um jantar completo em silêncio e à luz de velas. No entanto, as almas sensíveis vão se deliciar com esta humilde e precisa homenagem a um grande filme de Buñuel, retornando o tema da impulsividade humana e suas consequências amenizadas ou exacerbadas com o passar do tempo.

Carlos Henry

Sempre Bela (Belle Toujours). 2006. França / Portugal. Direção e Roteiro: Manoel de Oliveira. Elenco: Michel Piccoli (Henri Husson), Bulle Ogier (Séverine Serizy), Ricardo Trêpa (Barman), Leonor Baldaque (Prostituta nova), Júlia Buisel (Prostituta velha), Lawrence Foster (Regente da orquestra). Gênero: Drama. Duração: 68 minutos. Inspirado em livro de Joseph Kessel.