Série: Sessão de terapia (2012 / )

sessão-de-terapia_theoPor Leandro Salgentelli.

sessao-de-terapia_selton-melloGeralmente quando temos algum problema emocional ou físico, recorremos a alguns mediadores de respostas. Fazemos isso na boa intenção de buscar algo, uma segunda visão da qual muitas vezes nós mesmos não conseguimos ver. Buscamos essa ajuda através de Deus, religiões, médicos ou psicanálise. Uma analise é feita da nossa própria jornada. Confessamos nossos traumas, medos, segredos, em busca de uma alternativa ou uma intenção para compreensão. Não é à toa que acompanho a série “Sessão de terapia”, dirigido por Selton Mello, protagonizado por Zécarlos Machado interpretando o Psicanalista Dr. Theo Cecatto, que, agora, no inicio de agosto iniciará a 3º Temporada no canal GNT. Estar confinado e saber o que acontece com pessoas aparentemente lúcidas — uma ambição, eu diria.

Sentado no divã é como fazer uma confissão, é rasgar o peito e se abrir de tal maneira que muitas vezes nem nós mesmos não compreendemos o fato daquilo que estamos falando. É por isso que muitas pessoas logo após a primeira sessão numa mais voltam. O medo que toma ao olhar para si mesmo é a sensação de loucura.

Tenho vários amigos que afirmam a dizer que jamais passaria com um analista para saber de uma teoria da qual já sabem e que, segundo eles, encontrar o terapeuta na rua, o mesmo que sabe de sua vida toda: “Não, obrigado. Terapia é para loucos”. E, em contrapartida, sabemos que o valor de uma sessão não é lá muito associável com o nosso bolso. Terapia fica para outra vida. Mas, como sou fã de psicanálise e de tudo aquilo que me faz refletir sobre algo, sento na primeira cadeira e não perco o espetáculo.

Algumas pessoas passam anos fazendo analise, abrindo e fechando feridas. Numa busca de curar a alma das aflições que vamos tendo ao longo do tempo. Não há um tempo determinado para ficarmos pronto e ganhar alta desse processo introspectivo. Não sabemos se é um ano, dois; três, 8. A análise buscar e rebuscar a essência de nós mesmos. O processo é lento, mas transgressor.

sessão-de-terapia_agenda-theoSessão de Terapia, caso você ainda não tenha acompanhado, mostra como somos nós ao se abrir, como é complicado falar de si mesmo e como é difícil encarar algumas verdades sobre quem somos e por que somos. Já dizia os psicanalíticos: tudo há uma resposta. Ou seja, tudo há uma explicação, no fundo, no introspectivo, o quebra-cabeça se encaixa.

A mulher que diz que não tem magoa de ninguém, no fundo ela apenas está camuflando a verdade sobre si mesma. O homem blindado, no fundo ele simplesmente tem medo de demonstrar o seu lado frágil. Quem diz que nunca magoou ninguém, porque de alguma forma nunca se exaltou, no fundo não percebeu que silêncio demais também machuca. Quem tem bondade excessiva, tem maldade escondida.

O homem que é muito controlador, no fundo tem medo do desequilíbrio. A mulher que é muito medrosa, no fundo continua sendo aquela criança teimosa. O homem que tem muita certeza, no fundo tem medo da dúvida. A mulher que se apegou a tristeza, no fundo ela apenas está justificando sua existência.

Pois é, somos um abismo. Somos um oceano de sentimentos cheio de fúria, a nossa dor fala, e fala alto. Se a gente desse espaço para o introspectivo e mergulhasse no fundo de dentro de nós, enxergando de outra forma as causas que nos aconteceram e deixasse vir à tona toda verdade, veríamos a cura para dor existencial. E se a gente percebesse que nunca estaremos prontos, que sempre haverá outras frustrações, deduzo que nem precisaria de terapia. Mas como disse Freud, há um bom tempo atrás: Nenhum ser humano é capaz de esconder um segredo. Se a boca se cala, falam as pontas dos dedos.

Sessão de Terapia. Brasil. Direção: Selton Mello. Início 2012. Baseada na Serie israelita BeTipul, do psicanalista Hagai Levi; e na versão americana da série, In Treatment. A 3ª Temporada (2014) conta com roteiros originais, uma vez que a a Série original teve apenas duas temporadas.

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Livro: Divã, de Martha Medeiros.

diva_livro_martha-medeirosPor: Gilberto Ortega Jr.

Eu realmente gostaria de ter um motivo mais inteligente ou diferenciado para comprar, e ler, este livro: Divã. Mas a verdade é que eu não tenho uma justificativa, além da minha clássica: vi um pedaço do filme na televisão, mas como prefiro ler o livro a ver o filme foi o que fiz, o comprei e guardei durante um bom tempo, e somente agora me sobrou tempo pra que eu pudesse ler ele.

Mercedes é uma mulher, de quarenta e poucos anos, que decide fazer análise, isso a leva e pensar e repensar sua vida e condição, o que resulta sempre em mais dúvidas do que respostas. Porém é como se ela passasse a se descobrir mais, a tirar o conforto da prioridade… É com se ela decidisse pensar isso é confortável, não machuca ninguém, mas me faz feliz?

O que me ajudou muito a gostar facilmente do livro é que há uma empatia muito grande entre o texto de Martha Medeiros e o leitor, não no sentido de sei como uma mulher de 40 anos se sente, mas no de muitas vezes pensar isso é tão simples e comum que poderia ter acontecido comigo ou com qualquer um.

Nunca assisti a um atropelamento. Nunca fui cantada por um amigo de um filho meu. Nunca fui assaltada. Nunca ganhei um concurso. Não saberia dizer qual seria minha reação diante disto tudo. O que eu vivi até hoje foi o que costuma ser vivido por todos…” (Página 167)

Todos os capítulos são curtos de no máximo quatro páginas, e vão desfilando acontecimentos que vão desde lembranças do casamento dela, passando por perda de virgindade, morte de pessoas próximas, amantes, relacionamentos com parentes que ela não se dá muito bem, e tudo isso vem mesclado com reflexão e bom humor.

De uma hora pra outra, meu corpo mudou, fiquei mais matrona e menos temperada. Eu que dormia de cobertor em fevereiro, passei a sonhar com frigoríficos e excursões pela Sibéria.” (Página 140)

Ouvi muito falar que ele dava pra ser lido em uma sentada, mas eu preferi ler alguns capítulos e tomar um ar pra que tudo fosse se encaixando de forma calma e natural em mim. Como se fosse constantes mergulhos na alma de alguém, e assim como mergulhar na água exige que voltemos para respirar, tive que sair de fora do livro para ir tomando fôlego e deixando tudo se encaixar em mim.

Por: Gilberto Ortega Jr. Blog Ler Até a Exaustão.

Um Método Perigoso (A Dangerous Method. 2011)

Assim como Jung, David Cronenberg transpôs o seu limite de segurança ao nos trazer essa história. Se para um ator é prova de potencial quando interpreta personagens tão distintos, pode-se esperar que o mesmo também aconteça com um Diretor: quando ele faz uma leitura tão diferente do que vinha fazendo até então. Cronenberg muda o seu método e nos leva numa viagem belíssima entre Zurique (Suiça) e Viena (Áustria) para mostrar o início e o fim de uma amizade que ainda hoje dá o que falar: entre Jung e Freud. Tendo como elo a então paciente Sabina Spielrein. Meus aplausos a Cronenberg! É um filme de querer rever.

Um Método Perigoso” não é apenas para os discípulos, os apaixonados, os fãs, os admiradores desses dois Mestres, já que o filme não é muito didático. Digo isso porque muitos podem deixar de ver o filme achando que terá muitos termos médicos. Se consegue entender mesmo quando Jung clinica Sabina, como também nos diálogos ou nas leituras das cartas entre Jung e Freud. Aliás, o Roteiro prende tanta a atenção, que mal dá tempo de se deleitar com o esmero do cenário, das vestimentas, das paisagens… Fotografia deslumbrante.  E mesmo a trama focando muito mais em Jung, há uma visão impessoal entre ele e Freud. Cronenberg deixa para que o expectador continue com o seu gostar por cada um deles.

Os Personagens:
– Os que seguem os pensamentos freudianos podem não ver, por exemplo, a arrogância desse, a ponto de se incomodar com a riqueza de seu então mais dileto discípulo. Freud tinha que ser mais prático, mais direto no que estava implantando. Pela personalidade, eu diria que se tivesse mais dinheiro também teria saído da sua zona de conforto. Se uniria o se achar superior com o não ter que dá satisfação a ninguém. Bem, não há demérito em suas teorias, que como sua bandeira diz – comprovadas. Como não sou estudiosa em Psicanálise, ela sempre me remete aos filmes de Woody Allen (Amo!). Somado ao que vi nesse filme, continua a impressão que o que a Psicanálise faz é atestar o que a pessoa tem, mas dando a ela uma massagem de ego. Não mete o dedo na ferida!

Jung, por conta do dinheiro, pode sair da zona de conforto do método adotado até então. O dinheiro da esposa deu a ele mais tempo para outros voos. Suas pesquisas o levaram a até trair a esposa, com a Sabina. Esse relacionamento íntimo, pelo menos para mim, não se deu num nível sado-masoquismo. Mesmo que a tara da Sabina o levasse a isso. Acho que Jung quis conhecer o seu lado de prazer carnal, explorando o seu íntimo. Mas o que extraiu mesmo dessa relação com Sabina, foi algo como uma conversa com um lado feminino: algo como um ânima universal. Jung teve nelas, e com elas – esposa e amante -, o apoio e a ajuda em seu crescimento profissional. Se a máxima diz que por trás de um homem brilhante há uma inteligentíssima mulher, com Jung houve duas.

Sabina Spielrein tinha uma inteligência nata. Diria mais. Que a sua intuição tinha um dial preciso na maior parte das vezes. Ao ser tratada por Jung usando “a cura pela fala”, a psicanálise, que a ajudou a se autocontrolar, também deu asas a sua imaginação que depois pode então dar um sentido prático a essas ideias. Mas Sabina perdeu um pouco o foco pela paixão por Jung.  Ela poderia ter visto que quem administrou esse tratamento fora um profissional nada ortodoxo, logo não deveria ter colocado todos os créditos da sua cura no método freudiano. Até porque Jung já estava implantando um método próprio, mesmo ainda não se dando conta. E a bem da verdade, por um clima ainda machista, ambos enriqueceram seus estudos por observações dela.

As Performances:
Michael Fassbender foi uma escolha mais que perfeita. Ele imortaliza na tela Carl Gustav Jung. Bravo! Seu Jung veio para ficar na memória afetiva até dos apenas cinéfilos.
Viggo Mortensen já desempenhou, e bem, outros personagens com o Cronenberg, como em “Marcas da Violência” (2005) e “Senhores do Crime” (2007). Nesse aqui ele até consegue levar bem o seu Freud, mas não a ponto de arrebatar. Algumas vezes meus olhos batiam no peito dele, meio que em busca de uma estrela de xerife do Velho Oeste. Ficou bonachão.
Vincent Cassel sim, marcou uma bela passagem. A ponto de querer vê-lo num filme com o seu Otto Gross como protagonista.
Keira Knightley mais parecia um clone da Winona Ridder. A ponto de eu pensar em porque essa outra atriz é que não estaria fazendo a Sabina Spielrein. Ela se perdeu na construção dessa incrível personagem. Sabina Spielrein merecia uma performance memorável.

Então é isso! O filme “Um Método Perigoso” tirando alguns pontos baixos, como a escolha da atriz Keira Knightley, é muito bom e deixou muita vontade de rever.
Nota 08.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Um Método Perigoso (A Dangerous Method. 2011). Reino Unido / Canadá. Direção: David Cronenberg. Elenco: Viggo Mortensen, Keira Knightley, Michael Fassbender, Vincent Cassel, Sarah Gadon, André Hennicke, Arndt Schwering-Sohnrey, Mignon Remé, Mareike Carrière, Franziska Arndt, Wladimir Matuchin, André Dietz. Gênero: Biografia, Drama, Thriller. Duração: 111 minutos. » O filme foi baseado na peça teatral ‘A Cura pela Fala’ (The Talking Cure), de Christopher Hampton, que por sua vez baseou-se no livro ‘A Most Dangerous Method’ (Um Método Muito Perigoso), de John Kerr. Sem esquecer que Christopher Hampton é quem assina o Roteiro do filme.

ROMÂNTICOS ANÔNIMOS (Les Emotifs Anonymes)

Românticos Anônimos tem momentos impagáveis! Com situações extremas e exageradas passa longe da caricatura permitindo que o tímido se veja ali bem representado por aqueles seres tímidos ao limite da patologia.
Ela é uma criadora de chocolates, perfeita no que faz, elabora as texturas, sabores e aromas fabricando os melhores chocolates do mundo, mas possui uma imensa timidez daquelas que não permite ser o centro de atenções. 
 Ele é dono de uma fábrica de chocolates decadente á beira da falência, tímido e incapaz de se aproximar fisicamente das pessoas, principalmente mulheres. Perde a voz, tem sudorese e ambos provocam o caos. Conscientes das suas limitações ambos se cuidam, ele com um terapeuta que lhe recomenda exercícios, ela num grupo de ajuda cujos depoimentos começam sempre com a frase “eu sou emotivo”(a).
Não há nada que façam que não termine em trapalhadas, mas tudo é tão natural! O filme é delicioso feito  comida caseira, daquelas que sem nenhum aspecto mirabolante, satisfaz e deixa feliz. Nenhum rosto famoso, nenhuma beleza extraordinária, nenhum efeito especial, apenas um filme onde os não tímidos e sem neuroses  (ou sem nenhuma extrema) devem se sentir duplamente feliz por não correrem tantos riscos na vida.
A moça vai procurar um emprego e devido a dificuldade de comunicação consegue um cargo que nada tem a ver com ela, de representante comercial de uma fábrica cujos  produtos  perderam mercado por  falta de inovação. Ela é guerreira, vai à luta e eles vão conseguindo resultados positivos nas soluções complexas de problemas simples como sair, se apaixonar, sim mesmo o que e solução torna-se um problema de soluções deliciosas encontradas pelo diretor  Jean-Pierre Améris.
Engraçado, simples, divertido, doce como um bom chocolate  Vale a pena ver!
Nota? 10
Gênero: Comédia e Romance
Duração: 80 min.
Origem: França e Bélgica
Estreia: 23 de Dezembro de 2011
Direção: Jean-Pierre Améris
Roteiro: Jean-Pierre Améris e Philippe Blasband
Distribuidora: Imovison
Censura: 10 anos
Ano: 2010

VIP’S (2010)

cartaz

Antecipando o meu comentário sobre este filme: Eu me diverti muito assistindo!
Bem realizado, ágil, tomadas ótimas, o filme Vip’s tem uma série de pontos positivos que de longe superam os aspectos negativos. Wagner Moura sobra nesta personagem emprestando-lhe, energia, carisma, carência, uma tremenda coerência na sua total incoerência.

No início ele era penas “Bizarro”, estudante

É bem verdade que nos sentimos um pouco perdidos em algumas situações, como por exemplo nas aparições do pai de Marcelo quando não sabemos se ele é real ou um delírio, fato que só descobrimos ao longo do filme, mas devo confessar que na minha opinião como “público” de cinema e não “cinéfila”, quando assisto um filme quero justamente isso: surpreender-me, sentir-me envolvida à medida em que o filme se mostra e se desvenda. E foi isso que Wagner Moura me proporcionou ao me envolver absurdamente com o seu absurdo Marcelo! Com aquele rostinho que conversa com a câmera e voz gostosa de ouvir.

Marcelo a princípio apelidado de Bizarro, aquele colega adolescente que todos tivemos oportunidade de ter na nossa sala de aula, o esquisito, imitador que tumultua as aulas. Atenção! É a partir daí que vai se desdobrando a personalidade desequilibrada do rapaz, que tem um sonho e não opta pela maneira correta de realizá-lo.

em busca do sonho…

Wagner como Henrique Constantino e Amaury Jr

Talvez a condução do filme, o tratamento do roteiro decepcione críticos e pessoas que o assistirem buscando as semelhanças com a personagem e os fatos da vida real, mas sinceramente um conselho para quem quiser: Vá para ver um filme, participar de uma história e sairá do cinema feliz ou muito satisfeito. Com cenas aéreas bem feitas, momentos ligeiros de suspense, o roteiro prioriza a aventura em detrimento do drama. Wagner e seu Marcelo que também é Carrera, que também é Dênis, que também é Henrique Constantino vai envolvendo e ficamos numa situação um pouco parecida com a da sua mãe: torcendo para que em algum momento ele “dê certo”, que deixe de ser “um ninguém”. Gisele Fróes faz aquela mãe digna da composição de Chico Buarque, “o Meu Guri”, encarna com perfeição a cabeleireira de um salão de fundo de quintal, mãe de um filho doce e monstro sobre o qual ela não tem nenhum controle e para isso não se esforça, limitando-se a ser o seu porto-seguro, sua cidade, seu cais, o local para onde ele volta para se recuperar e entrar em gestação de nova personalidade. Embora essa personagem ou o tramento dado a ela possa ser  fictício, não está longe da realidade de milhares de mulheres que investem na idéia de que “ser mãe é padecer no paraíso”, ainda que sem nenhum juízo.

Wagner como Henrique Constantino e Amaury Jr

Marcelo como Henrique Constantino e Amaury Jr

Por assistir o filme no seu lançamento e por estar à sua espera desde o dia em que vi o cartaz, simplesmente não li nada a respeito antes, indo depois, em busca de informações e descobrindo que Marcelo Nascimento da Rocha é real, existe e é portador de uma extensa ficha criminal. Descobri que algumas passagens do filme são reais outras não. O roteiro de Bráulio Mantovani, e Thiago Dottori, é baseado no livro de Mariana Caltabiano, “VIPS – Histórias Reais de um Mentiroso”. A antológica entrevista exibida por Amaury Jr (que participa do filme) com Marcelo fazendo-se passar por  Henrique Constantino, filho do proprietário da Gol, aconteceu e dá um molho especial a esta obra que corre o risco de receber a culpa de mais fantasiosa que a realidade.

Roger Gobeth , Juliana Schalch e Wagner Moura

Os comentários que a personalidade real é criminosa e a personagem ficcional é louca, psicótica etc me parecem apenas uma questão de escolha da produção e direção, que se inspira num drama real para criar propostas de segmentos para as  visões de cada espectador. Particularmente achei um mérito mostrar dessa forma evitando apologia à mente criminosa do inspirador da história que Wagner Moura não quis conhecer. Fico cada vez mais fã deste ator e muito feliz com essa personalidade que criada por ele.

Jorge D’Elia, o Patrão e Wagner como “Carrera”

Vi o Marcelo criado por Wagner como alguém verdadeiramente solitário e desprovido de referências, incapaz de encarnar a si mesmo que por si, possui apenas cúmplices arregimentados pelo seu carisma, fascínio e enorme poder de persuasão. Imagino que deva ser complicado para alguém ser apenas filho sem pai, de mãe pobre e cabeleireira, depois de experimentar as deferências da alta sociedade e celebridades para com um VIP, uma vez que não se trata no filme de alguém mau, mas um caráter distorcido numa personalidade fragmentada numa pessoa sem paciência para se preparar para as oportunidades, alguém que precisa, que tem que se dar bem, carregando seus princípios duvidosos e valores contraditórios como: transportar drogas pode, transportar armas não pode.

Os apreciadores e adeptos da psicanálise certamente verão esse filme mais de uma vez. E  confesso que, mais uma vez assistindo me divertirei como na primeira vez!

Fico por aqui na tentativa de evitar os “spoilers”. Largue esse blog, vá ver o filme e volte pra conversarmos!!! Continuar lendo

AntiCristo (AntiChrist. 2009)

willem-dafoe-and-charlotte-gainsbourg_anticristoVon Trier,  cineasta dinamarquês, não poupa esforços para fazer de sua obra a mais complexa amostra de cultura de 2009 no mundo. Mal compreendido no Festival de Cannes, onde fora questionado do por que fez esse filme, defende-se como pode e deve, entenda como quiser:

“Trabalho para mim mesmo. Não devo satisfação a ninguém. Não tive escolha (ao fazer o filme). Foi a mão de Deus, eu temo. E eu sou o maior diretor de cinema do mundo. Não sei se Deus é o melhor Deus do mundo”, completou.

Polêmico.

AntiCristo (nome também de uma bela obra de F. Nietzsche – Filósofo Alemão) foi realizado pelo diretor num momento em que tentava superar uma crise de depressão. Segundo ele:

“Não conseguia trabalhar. Seis meses depois, apenas como um exercício, escrevi um roteiro. Foi um tipo de terapia, mas também uma procura, um teste para ver se eu ainda faria algum filme”.

E fez bonito!

A Depressão não é um fetiche burguês, um piti nostálgico que liga nada a lugar algum. Não. A Depressão corrói o sujeito por dentro entre uma Melancolia faltosa e um vazio absoluto que vai aos cumes do desespero. No texto Luto e Melancolia, Freud conceitua Luto como um trabalho psíquico que diz respeito a  reação à perda de objeto de investimento libidinal, onde uma de suas maiores características é a incapacidade de investimento em outro objeto. O momento do luto, portanto, é do sujeito se recompor de tal perda para então conseguir investir energia em outro objeto.

Sabedoria popular: Não dizem que cura-se um mau de amor com um amor mais especial? Exatamente. No momento em que “aparece” um amor mais especial é o momento em que o sujeito já dá conta de investir energia em outro.

E a Melancolia que é agente direta da Depressão? Conceitualmente é a mesma coisa do Luto, porém com nuances mais delicadas. Primeiramente, demora demais para cessar o tempo de reação à perda. Segundo, uma das maiores características é a Autodepreciação. A autodepreciação é importante para entender que na verdade quando o sujeito diz: “eu não presto pra você, sou chato, mau, idiota etc” ele está dizendo que o objeto de seu investimento libidinal que não presta 😉 . Por isso, os suicidas escrevem cartas maravilhosas: “Eu não presto, o mundo é bonito demais pra mim” ou “Essa vida não me traz mais nada, não compensa ficar nela para te dar trabalho” e por aí vai, no fundo trata-se de um ódio absoluto que ao invés de ser dirigido pra fora é dirigido pra dentro, pra si próprio. Autoagressividade. O Suicida quando se mata está matando o objeto de amódio. Por isso, também, a carta. É preciso que ele culpe o objeto a ponto de deixá-lo – o objeto – com o máximo sentimento de culpa que ele puder.

Obviamente que o assunto não cessa aqui, é longo, vasto e in-tenso. Mas com essas premissas em mão é possível entender melhor a obra de von Trier que se divide em capítulos que pelos títulos já se tem uma noção do que virá.

Respeitar o Luto é de suma importância tanto pra quem sente, quanto para quem convive com um sujeito de e em luto. Explicações racionais não são alcançadas para quem sofre. Não adianta um médico dizer para um sujeito às raias do desespero: “Você tem depressão”. E daí? Saber disso não o cura!!! O diagnóstico serve mais para o profissional como forma de saber como vai trabalhar com aquela pessoa do que para a pessoa em si que nem sabe o que fazer com isso…

Além disso, o filme é uma crítica direta ao americanismo do fast food terapêutico, onde são pautados no Behaviorismo que privilegia apenas a consciência do sujeito. Mas, isso é um longo assunto que pode ser massacrante para um blog onde a pauta é cinema rsrsrs. Freud, felizmente, não morreu.

Paciência, silêncio e atenção são elementos básicos para assistir o filme. Ele lida com questões humanas densas, feridas, fraturas expostas. Segundo Freud, quando se abre uma caixa de escorpiões o que encontrará lá dentro? Escorpiões. Não se iludam.

Por: Deusa Circe, Vampira Olímpia (Vamp) e Morgana.

AntiCristo – AntiChrist

Direção: Lars von Trier

Gênero: Complexo demais para defini-lo, mas … Thriller Psicológico, Terror

Dinamarca – Alemanha – França – Suécia – Itália – 2009