Um Quarto Em Roma (Habitación en Roma. 2010)

Vários diretores já se trancaram em um único ambiente para dar vida a roteiros diversos,  o que significaria nenhuma novidade para este Julio Medem. No entanto, além da inovação do casal trancafiado no quarto em  Roma ser formado por duas mulheres (lindas, diga-se de passagem) o  ambiente único,  geralmente  claustrofóbico desta vez,  é arejado pela atuação convincente de Elena e poderosos auxílios como sensível fotografia, vigor da trilha sonora e  interação entre a vida naquele quarto com hora certa para se extinguir, influência da vida exterior e a presença desta através das incursões do garçom e produtos eletrônicos modernos.  Elena Anaya e Natasha Yarovenko dão vida a personagens muito interessantes e diferentemente do que imaginei, não é aventura do corpo que toca o coração, mas justamente o contrário.

Existe um crescendo na confiança que vai aos poucos se estabelecendo entre as duas mulheres. A célebre atitude de dar nomes inventados à ” paquera da hora”  que acabamos de conhecer, já mostra que havia se não o desejo ou  curiosidade, pelo menos uma certa intenção entre aquelas duas estranhas, por mais que a princípio a atmosfera romântica não prevalecesse.  Não mostrar quem são na vida lá fora, a derrubada dessas mentiras que visam proteção ou mesmo torná-la seres mais interessantes, fez-me pensar como é curioso o ser humano, que mesmo numa situação transitória e vivendo momentos com prazo definido para um final, não deixa a peteca cair. O corpo, o sexo é alvo de tanta teorização e no entanto estando duas mulheres nuas num quarto, escondem seus nomes e suas histórias como forma de protegerem suas vidas. É a potencialização do pensamento difundido por aí que entre quatro paredes tudo e válido desde que ali se mantenha.

Os diálogos tem muito de fábula e a fotografia é de grande  beleza plástica, onde ver duas mulheres fazendo sexo não choca e ainda estimula. Interessante perceber a co-atuação da tecnologia moderna interagindo e oferecendo informações sobre a vida extra-quarto das personagens, arejando o “Quarto de Roma”

Natasha (Natasha Yarovenko) moça heterossexual se  vê num quarto com Alba (Elena Anaya) moça homossexual e por aqueles motivos que não se explica se envolvem numa intensidade onde qualquer um poderia  enxergar a si próprio. Elas vão se revelando uma para a outra entre pequenas e grandes mentiras a respeito de si mesmas, os grandes dramas que cada uma carrega na vida real, em 12 horas vivem um relacionamento com densidade  infinitamente superior a muitas relações que sobrevivem do lado de  fora.

Por que carregam esses dramas em suas histórias, não consegui entender, confesso que sou inexperiente em Julio Medem e , não ouso afirmar que em suas histórias pessoas encucadas fazem sexo bem e se entregam à curiosidade até que ela se torne prazer e se vista de amor.  À pergunta que me surgiu durante a exibição:  será que uma pessoa sem fatos pesados na sua biografia, não se entregariam daquela forma ao amor ou a um sexo de uma forma fora do seu habitual ? Tentarei responder vendo outros de seus filmes.

O requinte de detalhes nos leva a ver a cena em que  Natasha, a mulher heterossexual  solicita um vibrador  ou algo que a penetre enquanto que a lésbica afirma não utilizar esse tipo de recurso, pode para alguns, confirmar a lenda que a penetração é indispensável ao prazer feminino como pode desmentir  a verdade que o falo acompanhado do corpo é inteiramente  dispensável em detrimento  de qualquer coisa em forma similar ou mesmo uma garrafa de vinho da Toscana…

Amigos que assistiram antes de mim comentaram sobre a falta de consistência dos diálogos do que discordo, entendo que deve ser complicado diálogos profundos e complexos estando-se em par num quarto de hotel, diante de um corpo atraente, perante alguém que admira e demonstra gostar do que vê, da mesma forma que ter atenção nos diálogos diante de cenas tórridas não deixa de ter certa porção desafio… Contudo, não é justificada a piadinha de que com aquelas moças nuas e suas ações na tela o filme seria apenas imagens a se observar… Esta reclamação, não tenho .

O filme mostra muito do que uma mulher  pode ser capaz quando tem sobre a pele o toque certo, o quanto falar de si pode ser importante no trajeto cama-chuveiro-banheira. Mostra a capacidade do ser humano de se envolver e encantar, vivendo um grande amor num espaço pequeno e  tempo reduzido, em que muitos sequer conseguiriam entrar no primeiro sonho. É grande a capacidade de amar das mulheres, ouvir a voz do corpo pode ser muito diverso de buscar a traição, no momento em que se está onde se está,  estaremos sempre fiéis a nós mesmos.

Se tivesse que dar uma nota no filme como um todo, incluindo os diálogos daria um honroso 8.

Um Quarto Em Roma (Habitación en Roma)

Espanha, 2010

Gênero: Drama

Diretor: Julio Medem

Elenco:  Elena Anaya (Alba) Natasha Yarovenko (Natasha) Enrico Lo Verso (Max) Najwa Nimri (Durne)

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