Caché (Hidden. 2005)

cache.jpg

Para mim, há filmes que me motivam muito mais a falar sobre eles. Claro que focados em meu olhar. Há até a frase de um outro, que cairia bem aqui:

Toda história tem três versões: a sua, a minha e a verdadeira. E ninguém está mentindo. Cada um recorda diferentemente.” (Robert Evans).

Em Caché, uma cena foi a motivadora. Até mesmo essa palavra me fez refletir se estaria de acordo. Até pelo o que aconteceu nesse trecho do filme. Foram segundos que arrepiaram. Chocante, foi sim, mas mais pelo o que… E aqui também entra a escolha do verbo adequado. O porque da atitude tomada por aquele homem. O gesto em si, seria até “normal” num filme de ação; ou mesmo num de violência gratuita. Mas não em Caché. O antecedente da história dele, aliás a história dos dois personagens, até o culminar desse gesto, teve um peso maior. Algo como: não saber segurar a onda.

Há certas tomadas de atitudes que soam como gritos silenciosos de pedidos de atenção. Algo como: “Oi, estou aqui!“, “Olhe para mim.“, “Dê cá um abraço.”, “Converse um pouquinho.”… São pedidos mudos que por vezes tresloucados na forma, mas que foram como uma última tentativa. E quando não são de fato a derradeira – aquela que não tem mais volta. Alguns desses pedidos, mesmo que incômodos, podem até serem vistos como atitudes infantis. Mas seja lá como foi, ou mesmo de quem partiu, não querem nada de material.

Porém, muitos perdidos em seus afazeres, não conseguem perceber que tem alguém ali tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Ou que até por um orgulho não reconsideram; não voltando atrás. Tão presos aos seus valores materiais, não vêem que o que querem, procuram, é um pouco de atenção, de carinho. Ainda mais se os erros do passado foram cometidos quando crianças. Embora erros na fase adulta também podem ser revistos.

Não sei. Por vezes, diante ou ante a atitudes extremadas, até dizemos: “O que tenho a ver com isso? Se eu seguro uma barra, ele também pode.” Mas há quem não segure. Como também, por que seríamos tão radicais para não ao menos parar e ouvir o que o outro tem a dizer? Seria algo tão vergonhoso voltar atrás?

Voltando para a “realidade do filme”… Até veríamos nas diferenças naquilo que levaram os personagens a uma “saída” para seus problemas, uma base para nossos argumentos. Explicando: Para quem viu o filme “Mar Adentro“, participou com o personagem, contra ou a favor, ou até com um: “Não sei o que faria no lugar dele!“. E claro, sendo um filme, podemos apenas assistir e mais nada. Em “Magnólia”, também vimos tomadas de atitudes; e no que elas geraram. Em “O Fio da Navalha” (The Razor’s Edge) houve o quase experimentar o que o outro passou para então entendê-lo melhor. E sobretudo, não julgar.

Em “Caché” a discriminação vai do plano emocional ao material. O ter pontuando a vida de um homem e das pessoas próximas; e também da que foi afastada. A tal cena mexeu comigo sim. Foi impactante! Mas mais do que falar sobre segregações raciais na França preferi falar sobre nossas atitudes e gestos com as pessoas. E de algum modo tentar decifrar suas mensagens. Pelo menos usar uma balança especial. Algo que o personagem do Daniel Auteuil não fez.

Assistam ao Filme!! Mesmo que seja apenas para descobrir quem filmava as fitas, se assim o quiserem.

Nota: 09.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Caché (Hidden). 2005. França. Direção e Roteiro: Michael Haneke. Com: Juliette Binoche, Daniel Auteuil, Maurice Bénichou. Gênero: Drama, Suspense. Duração: 117 minutos.

Anúncios