Duas Vidas (2000). O que Faria da Vida que Resta e sem Saber o Quanto?

duas-vidas_2000_capabalanca_o-ter-versus-o-serCulturalmente nos Estados Unidos a chegada dos 40 anos de idade para o homem é como um rito de passagem. O porque dessa idade, talvez porque o homem ainda estaria em pleno vigor físico o que lhe daria mais tempo de ainda aproveitar a vida de maneira satisfatória caso venha a dar uma guinada nela. Ou até tenha começado quando a expectativa de vida era bem menor do que a de hoje. De qualquer forma, também podemos juntar um outro padrão comportamental muito arraigado por lá: “winner x loser“. Dois outros filmes que também abordam toda essa temática seriam: “Beleza Americana” e “Amigos, Sempre Amigos” (1991). Sendo que o primeiro, com Kevin Spacey, mostra essa balança dos 40 anos com um peso bem maior do que o segundo com Billy Crystal que nem seria por ser uma Comédia, mas sim por colocar como peso a relação com os amigos. Mas todos mostram: o peso do ser com o ter. O diferencial estaria no fato de que em “Duas Vidas” o protagonista é levado a fazer a tal revisão já que até então ele seguia com a vida tranquilamente.

Levo a vida como eu quero…
Eu compro o que a infância sonhou

duas-vidas_2000_01Assim, às vésperas de completar 40 anos idade uma criança surge na vida do protagonista levando-o a reavaliar se valera a pena até ali! Não apenas o presente, mas principalmente revisitando seu próprio passado. Agora, aí com um olhar onde entra também o peso da experiência de vida até então. Claro que um confronto com certos fantasmas é algo dolorido, mas que depois também pode ser revigorante. Enfim, esse rito de passagem na fase adulta, acrescidos de novos valores, com novas posturas, pode vir a deixar mais leve a vida dali para frente. Até em saber se teria comprado/realizado tudo que a infância sonhara e que ou qual valor teria para o futuro.

Em “Duas Vidas” temos Bruce Willis como Russ Duritz, um consultor de imagem. Um tipo de personal style multifacetado: assessorando e cuidando da imagem pessoal de políticos, executivos, desportistas… Altamente competente, antenado o que o faz ser um profissional bem respeitado e requisitado. Onde também tal e qual a personagem de Meryl Streep em o “O Diabo Veste Prada“, para ser manter no patamar alcançado e num campo muito competitivo, a cobrança também vem de si próprio: daí até colocando em segundo plano o lado da emoção. Ou mesmo sufocando-o tanto que nem mais se dar conta disso. Russ se tornara um cara frio que não se deixava levar por sentimentalismo.

duas-vidas_2000_03Falando nesse lado da emoção que na área psico seria o lado feminino… Ao lado de Russ, duas mulheres. Uma seria o suporte técnico de base, a secretária Janet, personagem da sempre ótima Lily Tomlin. Janet é também quase uma babá, ou a mãe, desse meninão, até por fazer suas vontades, como o colocando para dormir por telefone. A outra mulher em sua vida é Amy, personagem da atriz Emily Mortimer, que seria a assessora de Russ: uma agente em campo. Amy nutre um amor por ele, mas pelo jeito ele trancara o coração e jogara a chave fora. A grande questão era que ele não sabia lidar com os próprios sentimentos.

Tudo corria bem na vida do metódico Russ até a chegada de um garotinho, personagem do ator Spencer Breslin. Como uma lufada de vento ele veio trazer mudanças na vida de Russ. Agitar, bagunçar todo aquele ambiente esterilizado até de sentimentos… Assim, enquanto ajuda o garoto a procurar a encontrar sua casa, Russ é levado a se auto analisar. Até porque não se dá um tempo para as sessões de fato com uma psiquiatra (Dana Ivey). E o menininho é show! Vida longa para a carreira de Spencer Breslin!

Enfim, mesmo com todos os clichês até por ser uma produção da Disney – logo voltado para a Família -, o filme nos leva a sorrir, a se encantar e até a se emocionar. O Diretor Jon Turteltaub além de ter ao seu dispor o sempre ótimo Bruce Willis, ele conseguiu alinhar bem todo elenco e num timing perfeito deixando a trama com uma cara de uma história original. Lembrando que em “Duas Vidas” o culto às aparências como garantia de elevar o status social é uma crítica a sociedade atual que valoriza muito mais o ter do que o ser. Onde também o agir/reagir diante às adversidades pode no mínimo mostrar como conviver com os próprios fantasmas/defeitos. Até porque essa idade, 40 anos, também pode ser vista como o início dos primeiros anos do que resta da sua vida mesmo sem saber de quanto tempo ainda falta. O que fazer/agir a partir daí?

Então é isso! E que eu gostei muito! Nota 09!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Duas Vidas (Disney’s The Kid. 2000)
Ficha Técnica: na página do IMDb.

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Uma Família em Apuros (Parental Guidance. 2012)

uma-familia-em-apuros_2012Como bem diz a máxima: “O que uma geração faz, a seguinte desfaz!“. Filhos criados com total liberdade tendem a criar os próprios com uma rigorosa disciplina. Em “Uma Família em Apuros” temos essa inversão no modo de educar os filhos como pano de fundo. Mas na essência o que o filme aborda é o conflito que ficou com a única filha de um casal liberal. Sentiu a liberdade como ausência de amor. Assim, quando pode voou para bem longe desse ninho. E sem intenção de voltar. Mas eis que o destino resolve juntar todos. E agora tendo também a família dessa filha com genro e netos. Além de uma invisível presença dos outros avós.

Não importando o tempo o conceito a se seguir estaria em equilibrar o meio termo com o desejo de quebrar um ciclo. Pois em qualquer relacionamento saudável não se compra um pacote fechado. Ele é construído no dia a dia. E mais! Ciente de que há individualidades ali. Que em vez de anular cada uma delas é tentar encontrar pontes para harmonizar todo o grupo.

uma-familia-em-apuros_01Assim, de um lado temos a personagem de Marisa Tomei: Alice Simmons. Ela é a tal filha única que entendeu a liberdade com o não estar ligada aos pais. Como também pelo modo de ser deles, sentia vergonha deles. É mais uma inversão de valores: pais modernos x filha careta. Com isso mantém sua nova família afastada do que para ela seria uma má influência. Mais a roda da vida gira e um dia a leva a precisar da presença deles. Ter seus pais tomando conta de seus próprios filhos era viver seu pior pesadelo. De dar urticária. Para ela seria uma volta a um passado sem regras.

uma-familia-em-apuros_02Do outro lado temos os pais de Alice. Personagens de Billy Crystal (Artie Decker) e Bette Midler (Diane Decker). Creiam esse casal deu química! Era algo que me perguntei antes. Embora o peso maior seria a também química entre Billy Cristal e Marisa Tomei por estarem em primeiro plano. Enfim, todos em uníssono! Logo na chegada Diane sente e se ressente que os pais de seu genro Phill (Tom Everett Scott) é que são os avós queridos e sempre presente. Que ela e Artie só foram chamados porque os outros avós também tinham uma viagem. Mas Diane despista e decide aproveitar a chance para então conquistar o amor de seus netos. Só que Artie estava mais era preocupado em conseguir um novo emprego. Fora demitido justamente por imprimir um jeito familiar ao narrar os jogos no estádio local. Os patricinadores queriam alguém mais impessoal, que focasse nos resultados dos produtos anunciados e não dando um ambiente leve para os torcedores. Artie tinha o dom da oratória, mas de uma narração romântica demais para os tempos atuais.

uma-familia-em-apuros_03Por conta de uma promoção Phill teria que viajar e viu nisso uma saída para ele e a esposa terem uma segunda lua de mel. Com isso esses dias longes dos filhos – a adolescente Harper (Bailee Madison), o do meio Turner (Joshua Rush) e o pequeno Barker (Kyle Harrison Breitkopf) -, precisavam de alguém da família mais para supervisionar a casa – automatizada -, e os filhos que já seguiam quase um regime militar. Com também severas restrições alimentares. Principalmente em relação a doces: totalmente proibidos. Já dá para imaginar as cenas! Ótimas, por sinal!

O que coloca mais pimenta nessa reaproximação principalmente entre pai e filha era que Alice adotara uma vida mais racional. Com tudo programado. Sem querer imprevistos batendo à sua porta. Mas eles não apenas acontecem, como costumam vir em séries. Assim, além de pai e filha passarem a vida à limpo, além dos netos se assustarem a princípio com uma vida caótica, além de Diane pela primeira vez fazer certas cobranças a Artie, Alice terá que reavaliar o seu papel de filha/mãe/esposa. Eram amarras demais soltas de repente.

uma-familia-em-apuros_04Uma Família em Apuros” não traz uma história tão incomum, nem no mundo do cinema, nem no real. Há muitos jovens de mentes retrógadas. Há muitos que perdem o sentimento família por focar nas conquistas materiais. O que o filme mostra está em se chegar ao equilíbrio entre esses valores: razão e sentimento, e não versus. Onde terá hora que a balança penderá mais para um, mas sem anular completamente o outro lado. Quais as regras deverão ser quebradas? Quais as que deverão se adequar de tempo em tempo? E o filme conduz toda a trama muito bem. Com o timming certo para cada problema e solução. Prendendo a atenção no desenrolar da história, sem a preocupação de se visualizar o final.

Sensível! Com boa dose de humor! Com ótimas atuações do elenco! Bom demais ver Billy Crystal e Bette Midler atuando porque ambos fazem parte da minha memória cinéfila! Assim como também em darem chance a Marisa Tomei mostrar que ela é mais que um rosto bonito em cena! Great!

Gostei! E de querer rever!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Uma Família em Apuros (Parental Guidance. 2012). EUA. Direção: Andy Fickman. Elenco: Billy Crystal, Bette Midler, Marisa Tomei, Tom Everett Scott, Rhoda Griffis, Dwayne Boyd, Madison Lintz, Gedde Watanabe, Karan Kendrick. Gênero: Comédia. Duração: 104 minutos.

Amor Impossível (Salmon Fishing in the Yemen. 2011)

No meio desse caminho não tinha somente pedras…

Há uma certa magia em “Salmon Fishing in the Yemen” por nos levar como numa das histórias das 1001 Noites. Mas de uma que ultrapassou fronteiras pois foi buscar parte dela em Londres; numa globolização bem atual. Começa por alguém que acreditou num sonho impossível. Ou “fundamentalmente inviável” como rebateu um outro personagem, mas que depois embarcou nessa jornada. Com isso, o filme tem como pano de fundo a visão de dois homens: de um grande sonhador com outro bem pé-no-chão. Ambos, inconscientemente, ajudarão o outro a saber lidar com o que o outro é em si próprios. A conciliarem o pensamento com o sentimento. A racionalizar uma paixão. Mas de uma paixão por peixes, e no caso, por salmão.

Com isso, o título dado no Brasil – “Amor Impossível” -, pode afastar muitos por acharem que se trata de um Romance como tema principal; levando-os a perderem um ótimo filme. E eu diria que esse é o único pecado: o de venderem o filme como uma Comédia Romântica. Título e até cartaz do filme apontam para isso. O Romance em si é um componente, já que a personagem feminina, Harriet (Emily Blunt), tem um papel mais importante na vida dos dois personagens masculinos. Já falo deles. Pois ainda quero ressaltar que o filme foca muito mais no Drama que os dois homens passarão, mas contado com um humor bem refinado; um humor inglês.

Além de Harriet, há uma outra personagem feminina que mostra o quanto ela é camaleônica. Que além de papéis dramáticos, faz humor elegantemente. A sempre ótima Kristin Scott Thomas. Se a personagem Harriet foi a isca, a da Kristin foi o anzol. A que uniu de vez os dois pescadores, por ter como pressionar um deles. Uma sim encontra-se em tentar definir o lado pessoal, e amoroso. Já a outra, no momento, pende mais para a carreira profissional do que a familiar. Há ainda uma terceira personagem feminina, vivida pela atriz Rachael Stirling, que acha que detém o controle em seu relacionamento, se dedicando mais a carreira. As três terão suas vidas alteradas por esses dois cavalheiros.

E quem seria esses dois personagens tão cativantes?

Um deles é muito racional, e terá que aprender a lidar com a porção emotiva; o tímido desabrochando. Já o outro muito extrovertido, que se deixa levar pelo sentimento. E é um desejo seu que será a mola de toda a trama. Por querer realizar a qualquer custo, e sem a análise fria e calculada do outro, mas que pelos percalços, terá que aprender a racionalizar sua vontade. Dinheiro não lhe falta. Dando muito trabalho ao outro em mostrar que seu sonho será possível. Cada um deles terá que tentar equilibrar em si mesmo: razão e emoção.

Clichê ou não, e até fora da ficção, passam a ideia que o introvertido padece mais que o extrovertido para vivenciar uma emoção. Numa liberdade total cujos grilhões fora ele mesmo que criou. Talvez  por conta disso pendeu para o personagem de Ewan McGregor ser o protagonista dessa história. Daí apresentarem o filme como romance. Mas ora bolas! Amar não se fecha em por uma pessoa. Alguém muito fechado, muito voltado para as coisas práticas, onde espera que tudo tenha uma finalidade, pode, por exemplo, não entender em alguém ficar horas em silêncio para pescar um peixe e depois devolvê-lo ao seu habitat. Menos ainda, em ver nisso uma conversa com o Altíssimo. O que nos leva a outra ponta. De que se passa a ideia de que o extrovertido não vivencia o drama em dar coerência naquilo que faz. Que leva tudo na brincadeira. Cabendo a Amr Waked fazer o Sheikh Muhammed. Um idealista, que ao levar esse pequeno prazer para a sua terra natal, o faz também por uma religiosidade. Pois vê como um momento de meditação quando está pescando salmão.

Além disso o filme traz o jogo político onde as fichas parecem estar todas marcadas. Quem faz essa ponte é Patricia Maxwell (Kristin Scott-Thomas), assessora do Primeiro Ministro inglês. Pois vê nesse desejo do Sheik um jeito de amenizar a imagem da Inglaterra com os países do Oriente Médio, além da imagem desse político em solo britânico. Se de um lado há o dinheiro pagando alto por um sonho, de outro há o interesse político por um poder semelhante. Só que nesse filme fica mais na comicidade. Querendo ver um lado mais dramático desse profissional – assessor de imprensa de político -, deixo a sugestão do “Tudo Pelo Poder“.

Então é isso! Um filme de se acompanhar com brilhos nos olhos. Não apenas para os amantes de pescaria, mas principalmente para os que possuem um forte lado aventureiro. Cenários deslumbrantes. Trilha Sonora que nos embala no desenrolar dessa história. Aplaudindo também o Diretor Lasse Hallström que pela junção de tudo e todos fez um filme que vale muito a pena ver e rever.

Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Amor Impossível (Salmon Fishing in the Yemen. 2011). Reino Unido. Direção: Lasse Hallström. +Elenco. Gênero: Drama. Duração: 107 minutos. Classificação etária: 12 anos. Baseado no livro homônimo de Paul Torday.

Os Idiotas (Idioterne. 1998)

Por: Eli@ne L@nger.
os-idiotas_posterPorque algumas pessoas cismam em ver com estranheza e incômodo os portadores de Síndrome de Down – os ‘idiotas’? O que lhes ocorre internamente? Além do dó – sentimento de impotência diante de uma situação que não pode ser alterada – há algo mais? Uns reagem com repugnância, outros com sarcasmo; há quem se divirta com aquilo que vê e julga como insensato. Mas quem é o insensato, afinal? O que, exatamente, vem a ser a ‘razão’? Quem a tem?

São perguntas que o grande filme do cineasta Lars Von Trier nos lança através deste filme pouco divulgado e ‘desinteressante’. Desinteressante é olhar pra sua própria dose de idiotia! Desinteressante é se ver retratado em sua idiotice através do outro que lhe serve de espelho. Nada, nada interessante é tomar consciência de que não somos perfeitos, que temos em nós um lado do qual nem gostamos de tocar com o dedo mindinho do pé. Um lado tão rejeitado que cai direto na inconsciência, mas isto não implica em sumir: está lá! Aguardando…

Gostei do filme porque ali, não se aguardou nem guardou é NADA. O diretor se atreveu a mostrar este outro lado que existe em cada um e em todos, em todos e em cada um com suas peculiaridades. Permitiu-se e aos atores a possibilidade de conhecer este lado e de integrar à personalidade total, tanto que saíam pelas ruas, bares, com este lado exposto, mas sem perder a consciência de si mesmos.

Nos faz pensar em quem é, de verdade, o idiota? O que fazem conosco? Porque não nos é permitido ser aquilo que somos DE VERDADE, nossas neuras, nossos dramas, nossas mazelas? Todos temos, oras bolas! Porque temos que nos mostrar sempre felizes em plena infelicidade? Porque o diferente é menos legal? A piedade, muito ‘nobre’… Porque? E pra que? Somos assim tão diferentes dos deficientes mentais? Fisicamente, talvez. Mas e todo o resto? Todos temos a nossa própria quota de idiotia que é solapada, expurgada em prol da sociedade.

Tudo é permitido, mas só pros ‘idiotas’. “Deus, suportai-vos uns aos outros”… Pros ‘normais’, nem tudo é permitido. É preciso ser idiota demais, pra ser o q se é? E a variedade de idiotices? Quem são os idiotas, afinal? TODOS, TODOS NÓS!

Os Idiotas (Idioterne). 1998. Dinamarca. Direção e Roteiro: Lars von Trier. Elenco. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 117 minutos.

Curiosidade: O filme é um dos exemplares do movimento Dogma 95, criado por diretores dinamarqueses e que prega um cinema mais simples, sem artifícios.

Há Tanto Tempo que te Amo (Il y a longtemps que je t’aime. 2008)

ha-tanto-tempo-que-te-amo1Há quem em determinados momentos da vida se vê diante de um dilema. Onde sua decisão deverá ser calcada ou na razão – pura e simples -, ou na emoção. Principalmente se for um ato punido por lei. Difícil será avaliar por si próprio se sua decisão ficou totalmente num lado apenas. De qualquer forma, sendo um ato criminoso ou não, se premeditou, se decidiu fazer conscientemente, terá que arcar.

A personagem principal da trama Juliette (Kristin Scott Thomas) sai da prisão após 15 anos. Cumpriu a pena por assassinato. Ainda em condicional terá que comparecer a Delegacia a cada 15 dias para assinar um prontuário. Aqui, acaba por despertar a simpatia do Delegado. Ambos amargurados pelo rumo que tomaram em suas vidas. Ainda comentando um pouco sobre essa relação, parte dele um outro crédito a ela para uma volta a sociedade. Mesmo não sabendo o porque ela fez o que fez, ele credita nela uma oportunidade de um recomeço.

Juliette aceitou o seu crime. Nada poderia lhe doer mais do que tivera que fazer. Mas houve uma dor se não maior, tão dolorida quanto. A de ser excluída pela própria família: os pais e uma irmã caçula. Todos aqueles anos sem nenhum contato.

Mas é essa sua irmã, Léa, que a acolhe em sua casa. Junto a sua família. Pois agora não era mais a menina que fora obrigada pelos pais a esquecer de Juliette. Ainda ressentida, Juliette já deixa claro que quem a procurou fora o pessoal do Serviço Social. Léa entende a armadura da irmã, e diz que eles fizeram muito bem em procurá-la.

Quem ela matou é dito logo no início. O porque apenas no finalzinho. Deixo a sugestão que não fiquem voltado apenas nisso. Pois além de perderem um pouco do crescimento dessas duas mulheres – e isso eu ressalto por mostrar o universo feminino com muita sensibilidade -, poderão não perceber tudo mais. No que resultou na vida de todos com aquela tomada de decisão de Juliette a quinze anos atrás, como na dos demais com a convivência atual com ela.

Um outro ponto que quero salientar, é sobre o de empregar ex-detentos. Eu destaquei isso também num outro filme, recentemente. No ‘Evidências de um Crime‘. Quando esse assunto é abordado num filme abre caminho para uma diminuição no preconceito que há no mundo real. Essa chance deles voltarem de fato a sociedade após cumprirem sua sentença. Tendo um emprego já terão como começar uma vida nova.

Há tanto Tempo que Te Amo‘ é um líbelo ao amor fraternal. Mesmo a mais forte das criaturas há de chegar uma hora que vai precisar da mão estendida de alguém não tão forte. As lembranças pesadas, o tempo se encarregará em apagar. São, foram os espinhos…

O filme aborda um outro tema que de certa forma também é algo que ainda não é tão aceito pela sociedade. Daí também é interessante o debate que fará surgir após assistirem. Mas é melhor parar por aqui para não correr o risco de trazer spoiler. Por hora só uma dica: está relacionado com o tal crime cometido por Juliette.

Assistam! É um filme belíssimo! Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Há Tanto Tempo que te Amo (Il y a longtemps que je t’aime). 2008. França. Direção e Roteiro: Philippe Claudel. Elenco: Kristin Scott Thomas (Juliette Fontaine), Elsa Zylberstein (Léa), Serge Hazanavicius (Luc), Laurent Grévill (Michel), Frédéric Pierrot (Capitaine Fauré). Gênero: Drama, Suspense. Duração: 115 minutos.