O Tambor (1979). Revisitando os Tempos Coléricos

o-tambor_1979_capaPor: Morvan Biliasby, de Blogue do Morvan.
Gunter-GrassNestes tempos de cólera, como diria Garcia Marques, nada melhor do que um filme para pensar, para refletir sobre o ambiente soturno que assola a todos. A recidiva das ‘soluções mágicas’ não é atributo exclusivo dos trópicos. Antes fora! Este filme, O Tambor, (Volker Schlöendorff, 1979 Die Blechtrommel, Tin Tambor, Tambor de Lata, literalmente), baseado na obra de Günter Grass (★ 16 October 1927 — ✝ 13 April 2015), parte da Trilogia de Danzig (hoje Gdańsk), cidade de nascimento do escritor, cidade esta que, não só por ser onde nasceu e viveu grande parte de sua vida, mas por vir esta a assumir importante papel no desenrolar das duas grandes guerras (a propósito, não esqueça o fato de o Solidariedade ter nascido ali).

O filme, a exemplo da obra magnífica de Grass, percorre toda a epopeia da família de Oskar, começando pela perseguição a seu avô, ainda nos estertores do século anterior, sendo este abrigado (literalmente) embaixo da saia daquela que viria a se tornar sua avó, Anna Bronski, centrando-se na primeira década do século XX, até a década de 30; mostra a ascensão do nazismo em toda a Europa e seus desdobramentos na vida de Oskar Matzerath (se você, por um momento, se lembrou de Amarcord, não estranhe. Há momentos em que as duas obras se parecem entrelaçar, mesmo que o prisma de ambas difira. Felinni fazia uma retrospectiva bem mais intimista e menos engajada, mesmo quando expõe o fascismo dos ´30), um menino aparentemente normal, mas que, em represália aos costumes (ou ao nazi-fascismo) se nega a crescer.

o-tambor_1979_02O filme mostra um Oskar perturbado pela infidelidade de sua mãe, com seu [dela] primo, mas, nas entrelinhas, fica claro o ambiente plúmbeo que grassa sobre toda a cidade de Danzig. A mãe de Oskar, Agnes, engravida, possivelmente de seu primo, Jan. Ela jura que não terá aquele bebê, pois lamenta a gravidez incestuosa (novamente, o expectador fica em dúvida se a razão da rejeição de Agnes não é pela condição política, extremamente desfavorável, pois não há provisões nem segurança para ninguém). Agnes morre. Sua morte se dá de forma nebulosa, confusa. Mesmo no sepultamento, veem-se os movimentos políticos, pró e contra os descendentes de judeus. Neste intercurso, mostram-se aos poucos os primeiros movimentos com vistas a uma resistência. Neste ínterim, Alfred, a quem Oskar odeia, claramente, contrata uma jovem para ser “dona de casa”. Oskar logo se interessa por Maria. Problema é que Alfred também e é ele quem se sucede no relacionamento, chagando a casar com a “housekeeper”, para desespero do pequeno Oskar. A tensão aumenta, é claro. Prestem atenção na cena em que Oskar tenta matar o futuro filho de Maria, com uma tesoura.

Ciúme, remissão ao “Ovo da Serpente“, ambos? O que me dizem? Igualmente remarcável é a cena em que a Armada russa invade a mercearia de Alfred e este tenta esconder seu “pin” nazista, na boca. Engasga-se, claro. O soldado russo interpreta como agressão e o mata, para felicidade de Oskar. No funeral de Alfred, um evento faz Oskar crescer. Nada diremos, pois é uma análise diacrônica, e não um “spoiler”!

Veja e reveja O Tambor. Vale demais. pela beleza da obra, bem como para entender aqueles conturbados tempos (e os d´ora, pois). Günter Grass é tido, na Alemanha, não só por ter sido laureado com Nobel e com várias outras comendas, como o mais importante escritor, depois de Göethe; nada mal para um alemão que nunca se furtou em colocar o dedo na ferida aberta do nazi-fascismo.

O Tambor (Die Blechtrommel. 1979)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Instinto Materno (2013). Jogos de Poder e Submissão

instinto-materno_2013O título em inglês desse longa romeno, “Child’s Pose”, em tradução literal, significa “posição infantil” ou “posição fetal”. Na ioga, trata-se de uma posição em que a pessoa, sentada sobre os tornozelos, projeta-se com os braços esticados para a frente, até tocar o chão, em uma atitude de aparente submissão.

Pois submissão parece ser o tema central do filme de Calin Peter Netzer. Após atropelar e matar um garoto que atravessava uma rodovia, Barbu (Bogdan Dumitrache) é preso em flagrante. O incidente torna-se a chance de ouro para que sua mãe, Cornelia (Luminita Gheorghiu) tente, a todo custo, uma reaproximação com o filho. Controladora e autoritária, frequentadora das altas rodas sociais de novos-ricos, Cornelia inicia uma empreitada de telefonemas e contatos com autoridades para livrar o filho da investigação policial e do devido processo. Com isso, acredita que trará o filho de volta a seu convívio.

Tomar a frente do caso é a atitude esperada dessa mãe que quer superar a “síndrome do ninho vazio”, pois dedicou a vida ao único filho. Homem na faixa de seus trinta anos, vivendo com uma mulher que não é o modelo de nora desejada por sua mãe, Barbu rejeita o modo de vida de Cornelia, e luta em manter-se fiel a princípios éticos. De início, uma estória que aponta a falta de limites do amor materno que sufoca a ponto de anular o objeto amado, Child’s Pose amplia sua visão da questão familiar para outro ponto: as relações de poder das classes dominantes sobre as dominadas. Ao interferir no andamento do inquérito junto à polícia, tentar o suborno de uma testemunha e um acordo com a família da vítima, Cornelia sintetiza o pensamento – e as ações subsequentes – de uma parcela privilegiada da sociedade romena, certamente formada após a queda da ditadura de Ceausescu em 1989, onde todos os meios são válidos para burlar a lei e manter seus pares a salvo da punição. Assim como em outras partes do mundo, o público e o privado confundem-se, realidade que aqui conhecemos muito bem.

Vencedor do Urso de Ouro e do Prêmio da Crítica em Berlim em 2013, o filme traz uma interpretação brilhante de Luminita Gheorghiu. Aos 64 anos, sua Cornelia não dá tréguas a qualquer fragilidade mostrada pelos outros personagens – Barbu, seu marido Domnul, a nora Carmen –, sem abrir mão de sua própria sensibilidade. No entanto, mesmo tal sensibilidade, que lhe permitiria compreender o luto da família do menino morto, está permeada pelo egoísmo, pois ela própria apenas sente algo semelhante ao perder o controle sobre a vida do filho. E esse amor que a todos consome, ao final, será a mola propulsora de todas as suas atitudes.

Child’s Pose é notável não só por mostrar a luta incansável dessa mãe devoradora, mas também por denunciar as relações sociais que tantos acreditam ocorrer apenas em nosso país. Mas que são mais comuns do que imaginamos.

Por Eduardo Carvalho

Instinto Materno (Pozitia Copilului. 2013). Romênia. Direção: Calin Peter Netzer. Roteiro: Razvan Radulescu e Calin Peter Netzer. +Elenco. Gênero: Drama. Duração: 112 minutos.

A Primeira Coisa Bela (La Prima Cosa Bella. 2010)

Mama! Por que eu sou tão triste?

Pode um Sol fazer mal aqueles que tanto ama? Ainda mais se o que mais quis foi iluminar as faces desses seres. Mais ainda nos períodos de trevas. Por outro lado, pode alguém não saber lidar com alguém tão carismático a ponto de lhe desnortear por tanta luz que irradia? Essas são algumas das reflexões desse filme. Que basicamente “A Primeira Coisa Bela” nos mostra uma relação entre mãe e um filho.

Ela, a mãe, é o Sol dessa história e em via de se extinguir: por conta de se encontrar em fase terminal. Ela é um ser de tanta luz, que nem esse fato a aquebrantou. A cada amanhecer resplandece com tanta alegria que causa admiração entre o corpo médico e os demais internos. Na primeira fase, que conheceremos por flashback do filho, ela, Anna Michelucci, será interprtada por Micaela Ramazzotti. Já na fase atual, quem fará é a atriz Stefania Sandrelli. Não sei se por carência de um excelente maquiador que o Diretor Paolo Virzì preferiu assim, em colocar duas atrizes. Mesmo com todo o processo penoso de um câncer, seriam um salto de quase três décadas entre as duas fases mostradas. Mas ficou melhor assim, já que o peso de uma maquiagem ao envelhecer essa personagem, por certo tiraria o viço ainda existente nessa criatura esfuziante.

A frase no alto do texto é meio sussurrada por esse filho, e já na fase atual. Ele é Bruno (Valerio Mastandrea). Um Professor, que no passado sonhou ser um Poeta. E que se sente um perdido na vida. Mesmo mantendo uma relação estável com alguém de mais posse do que ele. Mesmo tendo ele próprio preferido abandonar seu passado ainda adolescente. Muito embora só tomou essa decisão sob um certo patrocínio: de alguém que também se ressentia da presença marcante de Anna. Mas Bruno parecia ainda preso a esse rebelde sem causa.

Quem vai buscar pessoalmente Bruno, é sua irmã Valéria (Claudia Pandolfi). Ela que de certa forma era a quem mais admirava a mãe a enfrentar as vicissitudes da vida. Mesmo ainda criança, assim ainda sem consciência de fato com o que acontecia a sua volta. Com isso, ela não entendia muito a fuga do irmão. Nem lembrando muito da violência do pai. Esse era outro que não soube entender Anna. Valéria, sem maiores pretensões por uma carreira profissional, casou cedo e foi tentar ser o Sol para a sua própria família: marido e dois filhos. Mas seus filhos também admiravam a avó. Um deles meio que idolatrava o tio Bruno, mas pelo o que a avó contava. Anna meio que fantasiava a realidade, mas não como fuga, e sim como um jeito de prestar mesmo a atenção no que poderia tirar de positivo. Um jeito Amélie Poulain de ser. Bela por demais, despertava a luxúria dos homens, e uma inveja pelas mulheres na pequena cidade de Livorno.

A princípio Bruno se nega a voltar a cidade natal, não se sente preparado para revisitar antigos fantasmas. Mas como se encontra também com dificuldade em enfrentar o seu momento atual, se deixa levar. No fundo, talvez sua maior frustração seja o de se deixar levar por mulheres mais decididas. E nessa volta, ele fará um grande mergulho e conduzido por sua mãe, mas por conta de uma fuga dela do asilo. Ela queria, tinha ainda umas coisas a fazer. Ou melhor, ainda a vivenciar antes de morrer.

E é nessas últimas horas vividas com a mãe, que Bruno descobrirá suas próprias verdades. Será um divisor de água em sua vida. Enfrentando seus medos. Mas pelo seu day after, no final do filme, eu sonorizei um “Nossa!”. Detalhar o porque, seria trazer um grande spoiler. Mas ressalto que meu uma certa pena no porque ele conseguiu se libertar dos seus grilhões.

O título do filme – A Primeira Coisa Bela -, é o nome de uma canção que Anna cantava junto com os filhos nos piores momentos, e o fazia para que sorrissem para a vida. Como na máxima: “Quem canta seus males espantam!”

Então é isso! É um mergulho num universo masculino, numa parada para revisão, mas que de certa forma foi o destino que o livrou de uma prisão que ele próprio construiu. Por isso, e muito mais, eu digo que o filme é muito bom! Mas que não me deixou vontade de rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Primeira Coisa Bela (La Prima Cosa Bella. 2010). Itália. Direção: Paolo Virzi. +Elenco. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 122 minutos.

Tão Forte e Tão Perto (Extremenly Loud and Incredibly Close, 2011)

ImagemEm junho passado, uma amiga minha do Brasil, veio me visitar, e ela muito me falou do escritor Jonathan Safran Foer, em especial do livro, “Extremely Loud, Incredibly Close.” Logo dei uma pesquisa, e fiquei a saber que o director de “The Hours (2002) Stephen Daldry estava dirigindo a versão do livro para o cinema.

Ela me encorajou a ler o livro, e até cheguei a ler algumas paginas, mas não me envolvi pela leitura, e resolvi esperar para ver o filme. O enredo é sobre um menino que busca por uma fechadura por toda cidade de Nova York. Ao achar uma chave nos pertences do pai, ele acredita que seu pai – que morreu nos ataques de 11 de setembro de 2001 – propositadamente lhe deixou o objeto. O enredo muito me fez lembrar de “Hugo” de Martin Scorsese, pois temos em “Extremely Loud, Incredibly Close”,  um menino inteligente e bonitinho, um pai falecido e um mistério.

ImagemUm ano depois dos ataques de 11 de setembro, Oskar Schell (Thomas Horn) ainda sofre com morte de seu pai, Thomas (Tom Hanks). Oskar e sua mãe, Linda (Sandra Bullock), ainda vivem em Nova York, em frente ao prédio onde vive a avó do menino.

ImagemPara quem perdeu um ente querido, sabe como é dificil largar os pertences do morto – é uma das coisas mais difíceis de fazer.  E por tal, é facil sofrer e sentir a dor de Oskar, principalmente quando ele fica escutando a voz do pai. Nada de errado em ser um filme emocionalmente devastador – drama tem que ser emocionante  e achei que Daldry sabesse conduzir isso, mas..-

Entre um choro aqui e ali, Oskar decide resolver o mistério deixado por seu pai, envolvendo a chave, os nova-iorquinos com sobrenomes Black (todos os 472 que vivem na cidade!), a voz do pai deixada na secretária eletrônica e um  pandeiro. Assim começa as aventuras de Oskar.

Três coisas que achei problematicas no filme:

1- Mesmo que Hanks tenha um tempo limitado no filme, ele desempenha um personagem tão idealizado como “o melhor pai que já viveu no mundo”, que me pareceu falso, enquanto a mãe de Bullock parece tão negligente que, quando a explicação plausível para a sua longa ausência é justificado, eu me perguntei: que tipo de mãe deixaria o seu filho de 11 anos sozinho numa cidade grande como Nova York, e ser também acompanhado por um idoso estranho?. Quando o filme me deu a resposta para a tal atitude da mãe, desejei que tivesse um pandeiro para jogar na cara dela!.

2- Apesar de Oskar achar que a chave vai trazê-lo para mais perto de seu falecido pai, nunca que se pode acreditar por um momento que a essência da trama fosse para uma aventura no estilo “ o que vale é jornada, e não o destino” que terá o menino. A estrutura do filme não me prendeu – a busca de Oskar por respostas- suas idas de um endereço para outro.

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3- Nem quero criticar o ator Thomas Horn, pois esse é seu primeiro filme, e ele mostra ter potencial para ser um bom ator, mas o seu personagem, me fez lembrar da Mattie (Hailee Steinfeld) de “True Grit” (2010). Horn decorou muito bem os dialogos que tinha que decorar. O menino é o narrador do filme, e se sabe dos seus pensamentos e decisões privadas antes de ocorrer ação, por examplo: ele mente muito! Mas o roteirista  Eric Roth e Daldry exagera ao fazer uso de voice- over, pois todas as vezes que Oskar mente, vem aquela  justificativa como se os outros personagens acreditassem na mentira deleCompreendo que Oskar é um menino assustado, chocado pela morte do pai, mas o seu comportamento, e atitudes de  superioridade chega a irritar. Que prazer alguem poderia ter em ter a companhia de um menino tão arrogante?. Quando ele é acompanhado pelo velho (Max von Sydow), ficamos a saber que o misterioso senhor é incapaz de falar – isso significa que o garoto vai falar ainda mais. Fala tanto que me deu vontade de gritar : “Shut the F* up” !.  Desde “True Grit” – com aquela menina falante e irritante, vivida pela gracinha da Steinfeld-, que eu não tinha visto um personagem tão chato quanto Oskar.

Menos ruim, mas não perfeito :

ImagemMax Von Sydow até poderia ter roubado o show para si, se a sua personagem tivesse sido bem desenvolvida e bem conduzida, pois as cenas mais interessantes do filme, são as que ele aparece. A química entre ele e Horn é bastante vaga, e quando Von Sydow sai de cena, a alma do filme vai junto!. Sou um grande admirador desse veterano ator, especialmente por causa de sua grande expressividade, e esforço, e fico triste que ele ganhe uma indicação ao Oscar por um papel tão superficial.

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Faz um tempinho que venho escutano a trilha que Alexandre Desplat escreveu para o filme. Particularmente achei esse o seu melhor trabalho entre as trilhas que ele escreveu para 5 filmes diferentes em 2011. Mas quando ouvi as suas musicas emoldurando a fotografia de Chris Mendes (com uso de edge blur em algumas cenas) senti que Nova York nunca pareceu um lugar tão monótono e nada maravilhoso. A trilha sonora  é linda, mas não achei que case com o filme!.

No geral, “Tão Forte e Tão Perto ” é decente tecnicamente, mas esperava algo mais emocionalmente envolvente e um pouco menos manipulador. Eu certamente não queria sair do cinema como sai depois de “United 93” (2006), totalmente devastado pelo ocorrido em 11 de setembro, mas pelo menos os produtores deveriam ter  – extremamente -,  se preocupado mais com o mundo de Oskar do que ter investido – incrivelmente-, em tudo, pensando no Oscar!.

Nota 5,0

P.S.: Para minha surpresa, “Tão Forte e Tão Perto ” foi indicado para melhor filme, e melhor coadjuvante para Von Sydow. Indigna consideração!.

Cavalo de Guerra (War Horse, 2011)

cavalo-de-guerra_2011_cartazPor Rogério Silvestre.
Vi a aclamadacavalo-de-guerra-2011_01 peça de Nick Stafford, e amei!. Li o roteiro de Richard Curtis e Lee Hall antes de ir ao cinema. E, embora nunca tenha lido o livro de Michael Morpurgo que deu origem tanto a peça quanto ao filme, sei que “War Horse” é uma obra da literatura infantil.

Honestamente, fiquei surpreso quanto li algumas criticas negativas sobre o filme de Steven Spielberg. Achei de puro mau gosto que alguns criticos tenham comparado esse filme com o resta da obra do cineasta. Bem, o sentimentalismo tem sempre sido marca nos filmes do diretor de “E.T.” E, em “Cavalo de Guerra”, me senti conquistado pela emoção. Melhor dizer que me rendi a essa emoção em vez de tentar questionar as minhas próprias reações emocionais.

O filme começa no seio de uma família de agricultores. O pai (Peter Mullan) é um falido veterano de guerra, tentando ter sucesso como agricultor. Enquanto isso, seu filho Albert (Jeremy Irvine) rapidamente cria um vínculo com um cavalo chamado Joey, que foi comprado para ajudar a família na agricultura. Com o advento da guerra, o pai, desesperado por dinheiro vende Joey para o exército britânico. Albert, que é muito jovem para se alistar, sofre com a idea de perder Joey, mas o capitão Nicholls  (Tom Hiddleston) – que muito faz lembrar do capitão Ashley Wilkes, de Leslie Haward, de “E o Vento Levou”-,  assegura ao garoto que ele vai tomar conta do cavalo e trazê-lo de volta no final da guerra. Esta é apenas a primeira de várias vezes que Joey vai mudar de proprietários no decorrer no narração.

cavalo-de-guerra-2011_02O retrato de devastação da Primeira Guerra Mundial é vista através dos olhos Joey.  Com uma encarnação mítica, quase sobrenatural, o cavalo tem grandes qualidades: leal, nobre, determinado e forte. No entanto, Joey não é apenas esse vaso simplista de valores universais, ele é também, às vezes teimoso, e obstinado. Tem seus momentos de grandeza, mas também seus momentos de fraqueza e medo da perda. Por exemplo a sequência mais comovente do filme é justamente uma que ilustra Joey correndo bravamente e assustado, em meio aos campos de batalha, no norte da França.  Ah, as cenas de batalha são lindamente bem feitas, mas sem serem graficamente sanguentas como as que Spielberg fez em “Resgate do Soldado Ryan”. Aqui, nenhuma gota de sangue é derramada, pois Spielberg respeita o público mais jovem, nos fazendo focalizar tudo sobre o ponto de vista de Joey.

cavalo-de-guerra-2011_03Spielberg reúne um bom elenco britânico – David Thewlis, Emily Watson, David Kross (de “O Leitor) e Eddie Marsan -, apenas para mencionar uns poucos, porém nenhum desses atores se destacam. Todos tem boas atuações, mas não me importei com suas personagens. O novato Jeremy Irvine cresce no decorrer da projeção do filme, mas mesmo assim, não oferece nada de tão especial. Também achei uma chatice o avô feito por Niels Arestrup, que tem a mesma cara da sua personagem em “Un prophète” (2009), e de sua neta adolescente Emilie (Celine Buckens). O personagem que mais gostei, o capitão feito por Tom Hiddleston, morre logo no inicio do filme.

Mas isso não diminui as qualidades de “Cavalo de Guerra”, pois a verdadeira estrela é o cavalo — ou melhor, os cavalos que interpretam Joey, em que o foco permanece apesar de alterar as configurações e outros personagens vêm e vão, muitas vezes tragicamente. Os treinadores de animais faziam um trabalho realmente magistral ao transmitir a personalidade, emoções e pensamentos do belo cavalo. E, isso é também muito mérito do fotografo Janusz Kaminski!

cavalo-de-guerra-2011_04Este ano, muitos cineastas têm olhado com carinho para o passado em busca de inspiração. Scorsese celebra o nascimento do cinema em “Hugo”; Hazanavicius homenageou a transição do cinema mudo para o falado em “The Artist”, e para não ficar de fora, Spielberg remete para um modo antigo de cinema – mais do que qualquer filme do cineasta fez na década passada, “War Horse”, incorpora as características do grande cinema clássico de Hollywood, incluindo uma citação visual de “E, o Vento Levou…”, nos segundos finais do filme. Fiquei todo arrepiado, até deu uma vontade de ver Scarlett O’Hara ali com um punho erguido prometendo nunca mais sentir fome novamente.  Emocionante!!

Há um bom tempo, venho escutando a belíssima trilha sonora de John Williams. Achei que no filme, as faixas são excessivamente tocadas, mas embasam essa proposta do cinema clássico de Hollywood, que Spielberg homenageia!. “War Horse” não é o melhor filme de Spielberg, e nem está na minha lista entre os 10 melhores filmes que assisti esse ano, porém o mesmo me envolveu tanto que quero ve-lo novamente na tela grande!. Sua cara de Oscar vem lhe rendendo criticas negativas, mas se ganhar – o que acho impossivel-, pode ser uma maneira muito boa de homenagear o passado!.

Nota 8.5

“J. Edgar” ( 2011)

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J. Edgar Hoover era gay? Será que o seu amigo, Clyde Tolson era gay? Será que eles tiveram uma estreita amizade ou era algo mais? Talvez estas perguntas são a chave para entender o novo filme de Clint Eastwood. Se eu podesse definir o que exatamente o filme “J. Edgar” é, eu deria que é a história da relação do diretor da FBI, com o seu amigo Clyde Tolson e o desprezo de ser desaprovado por sua mãe. É uma história de um homem em todas as frentes com as barreiras que ele deveria superar para fazer qualquer coisa, mas a parede que ele nunca foi capaz de romper foi o que lhe permitiria finalmente aceitar Tolson como um amante e não apenas como um bom amigo. Pena que tudo isso é apresentado de  uma forma sem sentido, e, finalmente, coloca menos ênfase sobre o que poderia ser considerado aspectos mais interessantes da vida Hoover.

J.Edgar” tem algo de “ Brokeback Mountain” (2005), e “ O Discurso do Rei ( 2010), mas a única diferença é que a amizade entre o rei George VI e seu terapeuta parecia uma amizade de verdade, assim como o amor dos cowboys em Brokeback Mountain. Esses filmes tinham uma história para contar, e não uma dica e, assim se esconder como Eastwood e o roteirista Dustin Lance Black faz. Não há uma evidência histórica concreta sobre a homosexualidade Hoover, mas o filme sugere demais sem ser sutil, pois muito poderia ser dito em um olhar, mas revela demais, e não soa verdadeiro, quando tenta “dizer” que Hoover era um homossexual enrustido e até um cross- dresser !.

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Eastwood conta a história de Hoover em uma narrativa fraturada, traçando mais de 5 decadas. O filme desnecessariamente vai e volta entre diferentes eras com Hoover recitando as suas memórias, contando as vitórias do passado e construindo a história para se adequar a sua imagem. Por que Eastwood não apenas narrou o filme de forma linear? E por que, ele não contratou atores para viver Hoover e Tolson nas suas versões mais velhas, em vez de transformar as personagens em caricaturas de espuma de borracha?

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Leornardo DiCaprio realmente se entrega ao personagem- mesmo com a maquiagem exagerada, ele se sobressai com dignidade, mas o mesmo não diria do competente Armie Hammer, que alem da borracha na cara, exagera na tremedeira!. Ja Naomi Watts tem o desempenho mais convincente do filme, e oferece uma personagem com mais perguntas a serem feitas. Quem foi essa mulher que dedicou sua vida inteira a carreira profissional, nunca se casou e ficou com Hoover até a sua morte? O filme não se preocupa em responder a estas perguntas, mas talvez o desempenho Watts nunca foi feito para ofuscar todos os outros. E, detalhe, a sua maquiagem suada em Watts é a unica que parece natural!

Eastwood e o diretor de fotografia Tom Stern, mais uma vez usam os tons de cinza de aço, limitando a quantidade de cores no filme-  escuro demais!. O diretor também continua escrevendo a trilha sonora para os seus filmes, aqui usa tons suaves de piano, assim como temos ouvido em praticamente todos os filmes que ele compôs sozinho, e acrescenta mais um aspecto negativo em “J. Edgar”, dando ao seu filme uma alma cansada e preguiçosa. A edição também é uma outra bagunça. Mas sera que se os editores Joel Cox e Gary D. Roach tivessem cortado 40 minutos do filme, o mesmo ficaria menos chato? Não sei não…

No final, “J. Edgar” é um filme que apresenta uma falta de confiança enorme, mas mesmo assim pode dar o Oscar de melhor ator a DiCaprio!. Ele merece mesmo que vença por um filme ruim!

Nota 5