Série: Caras e Caretas (1982-1989). O que transmitir ou não as novas gerações?

caras-e-caretas_serie_1982-1989Por: Morvan Bliasby.
Nestes tempos aziagos de “Escola Sem Partido“¹, golpes institucionais e outras ideias ‘jeniais‘, além de uma mesmice estarrecedora das SitComs, das Soap Operas, etc., numa revisita quase mandatória à década de 80 do Século XX, a sua explosão de comédias de situação e o começo da distensão “lenta e gradual”, como preconizavam os donos do mundo, entre as potências que alimentavam a fogueira da Guerra Fria. Deste caldeirão ultra efervescente se sobressai a SitFamily Ties“², nominada, no Brasil e em Portugal, respectivamente “Caras & Caretas” e “Quem Vem Aos Seus“, neste segundo estranho título temos, claramente, uma ironia, pois parece degenerar, e muito.

O Enredo

Steven (Michael Gross) e Elyse Keaton (Meredith Baxter) são dois hippies classe média típicos, economicamente falando, ultra liberais nos costumes e que se casaram havia duas décadas.

Um tanto quanto nonsense, no tocante à educação dos filhos, eles creem piamente que os filhos os seguiriam em seus valores, teriam uma vida “zen” e seriam filosoficamente parecidos com estes.

O tempo lhes mostrou o quão errados estavam, mormente no tocante ao filho mais velho, Alex (Michael J. Fox). Este, um executivo, na cabeça e nos valores (um admirador incorrigível de Ronald Reagan!). Isso mesmo. Reagan. Importante para nos ambientarmos. Reagan, Tatcher e a ideia do Estado mínimo, do tamanho de uma bacia, nas palavras dos próprios. Este é o ambiente da série. Alex utilizava chavões dos republicanos e portava até mesmo um cartão de sócio do clube dos conservadores. Inteligente, ganancioso, reacionário. uma cópia (carbono) exata de seus pais. Alex se encaixa perfeitamente no estereótipo do “self-made man”, tão usual, à época e hoje.

Já a moça, Mallory (Justine Bateman), ao contrário, relaxada, preguiçosa, fútil e cujo círculo de interesse consistia em compras, rapazes e… compras e rapazes.

Vem, a seguir, Jennifer (Tina Yothers), a caçula. Todo o seu sonho era ser uma pessoa normal. Dependendo da situação, razoável, não?

Family_Ties_castA série, malgrado de forma às vezes sutil, até demais, teve a virtude de discutir preconceitos, censura, gravidez adolescente, vício (drogas), relacionamento familiar e círculos criados em torno de interesses similares. Todos os personagens da série, inclusive os papeis satélite, contribuem para uma discussão sutil e ao mesmo tempo rica sobre os valores de então.

O sucesso estrondoso da Sit tem a ver com isso. quem sabe, além do fato de ter sido a propulsora e impulsionadora de celebridades precoces, como o Micheal J. Fox.

Mas a discussão subjacente da comédia de sucesso parece ser a questão educacional (não somente educativa, educacional, de finalidade da formação). Até que ponto a formação dos nossos filhos, de uma geração, por exemplo, pode ser vilipendiada, a ponto de achar que as coisas se repetirão por osmose. Que não precisaremos assumir uma posição mais protagonista, com relação ao tipo de pessoa humana que queremos formar, subvertendo, se necessário, os valores vigentes e até a educação formal, via escola. A ‘Escola Sem Partido‘, esta aberração imposta pelos nossos nefandos “amigos” ideólogos, daqui e d´alhures, por exemplo, é uma mostra de protagonismo às avessas, ou seja, não seja inocente de pensar que existe neutralidade em qualquer aspecto da vida. Tal movimento aposta na interdição do debate natural na escola, na vida, para a nova geração de zangões…

Séries como Family Ties e “Todo Mundo Odeia o Chris” são muito eficazes em, sob o pretexto de discutir amenidades, ir bem fundo nos costumes e preconceitos e acabam, neste roldão, se tornando fotografia de uma época. Family Ties parece bem atual, traçando um paralelo com o momento em que assistimos ao desmonte de vários Estados nacionais. Esta já é uma boa razão para assisti-la, como análise comparativa. Além dos canais da tevê paga, que vez por outra a reprisa, geralmente com o título original, além de poder vê-la nos sítios dos Estúdios originais ou nos canais de “stream“.

Série: Caras e Caretas (1982-1989)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

¹ Uma ideia tão imbecil para se acreditar ter saído da cabeça de educadores. Felizmente, não!.
² No Brasil, curiosamente, uma novela, tempos após, recebeu o nome literal da comédia de situação: Laços de Família.

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Praia do Futuro (2014). Cenas que beiram o constrangimento.

praia-do-futuro_2013_cartazKarim Aïnouz escorregou feio no novo longa-metragem que tem como título a famosa praia de Fortaleza. O diretor já havia feito bons trabalhos como “Madame Satã”, “O Céu de Suely” e “O Abismo Prateado”, mas enfrentou dessa vez o desafio de um roteiro fraco, pobre, fragmentado, desnorteado, cheio de buracos e pretensioso, que somente um árduo trabalho de equipe poderia salvar. Não é o caso: Dá pena ver atores do quilate de Wagner Moura e Jesuíta Barbosa se esforçando em vão para dar alguma dignidade aos seus papéis em cenas que beiram o constrangimento.

praia-do-futuro_2013_diretor-e-elencoA estória gira em torno de um salva-vidas que larga sua vida do nordeste do Brasil para viver um relacionamento com um alemão em Berlim. A homossexualidade dos personagens flui naturalmente (inclusive com algumas raras e boas cenas de sexo), sem grandes conflitos ou profundidade em sequências mal editadas que oscilam abruptamente entre as duas cidades. Em contrapartida aos vários cortes rápidos que desorientam a plateia, há muitas cenas prolongadas em excesso a ponto de se tornarem chatas, inclusive com o mau uso de boa música, talvez com a intenção lograda de criar um estilo ou atmosfera especial ao projeto. O som direto sofrível agrava o trabalho do espectador em acompanhar à trama fraturada e rasa como um pires. Talvez fosse preciso inserir legendas às falas do menino Savio Ygor Ramos e do alemão Clemens Schick.

Infelizmente, a ousadia e a coragem de Wagner Moura em seu envolvimento num filme cujo tema ainda é cercado de preconceitos acabam se diluindo num trabalho sem força, sem alma, sem cinema, sem quase nada.
Por: Carlos Henry.

“Shame” (2011)

Shame” não foi o filme que “visualizei” quando li o roteiro de Abi Morgan (que sozinha, escreveu o medíocre “The Iron Lady”, 2011) e Steve McQueen. E, nem poderia imaginar que o filme receberia uma classificação NC-17. Não que pensei que o conteúdo do roteiro fosse assim tão fácil. Bem, achei o filme bem melhor do que a sua “fonte original”: uma crônica sobre vida de um jovem homem, que vive sozinho em uma cidade grande (New York), e, é viciado em sexo. Isolado, Brandon Sullivan (Michael Fassbender), vive em crise: parece não ter criatividade, ou relações primárias, e sofre muito com a visita inesperada de sua irmã Sissy (Carey Mulligan) .

Na verdade, a vida sexual de Brandon, é intensa. É intensa porque parece ser uma vida sem sentido: passa o seu tempo, assistindo videos pornos, em seu computador; ou apreciando sexo virtual; ou, se masturbando em casa ou no trabalho; paquerando, ou tendo relações sexuais com estranhos. Ninguém ao redor de Brandon, o conhece melhor do que a sua irmã, que deixa uma mensagem no telefone do rapaz: “Não somos pessoas ruins… apenas viemos de um lugar ruim…” É inquestionável que seria embaraçoso se fôssemos capazes de saber da vida sexual do outro, certo? E, como Brandon não diferente.

Quando Sissy se instala no apartamento do rapaz, por um tempo indeterminado,  será possivel notar que relação entre eles, é tão ambígua quanto complicada de entender. A presença de Sissy faz Brandon se sentir mais deprimido, e irritável. É fácil ver que ele é incapaz de descobrir a fonte de sua angústia, o que torna o desempenho Fassbender extremamente complexo e delicado. Há um monte de cenas que vemos Brandon culpando Sissy, mas nunca ele próprio por a sua ansiedade crescente. Ele parece ser incapaz de tomar decisões saudáveis e nunca parece reconhecer as conseqüências de suas ações.

Parece ser mais fácil de entender vícios em substâncias ilegais, alimentos ou bebidas alcoólicas, do que um vício de comportamento como o sexo. Dependência de substâncias envolve colocar algo estranho em seu corpo — bebida, ou cocaína. Sexo faz parte da natureza humana, e por tal, é mais privado!. Por exemplo: a vida de Brandon não é focada apenas em ter um orgasmo —  em várias cenas, Brandon passa longos períodos apenas pesquisando, sem nunca ter um orgasmo ou mesmo uma ereção. Quando ele tem um orgasmo, fica o vazio– o alívio da tensão emocional através do sexo anônimo. No rosto de Brandon fica a expressão de culpa e vergonha.

Steve McQueen é um grande artista. Um cineasta incrível, cujo primeiro filme “Hunger” (2008), é uma pequena obra de arte. O filme trata da vida de Bobby Sands, o líder da greve de fome do IRA em 1981. É um filme bem superior a “Shame”, porque este último não tem uma estória em si. “Shame” é apenas uma “cronica” de um ser humano viciado em sexo.  Não sabemos muito do passado de Brandon, e nem mesmo que tipo de relação ele teve e tem com Sissy. E não existe uma conclusão para o fim do seu vicio, até porque McQueen fez o seu filme sem qualquer senso de julgamento em relação a Brandon.

Achei o desempenho de Fassbender, nada mais, nada menos do que perfeito. Foi injusto, que o seu esforço não lhe valeu uma indicação ao Oscar, principalmente porque ele tinha nas mãos, o personagem mais complexo de se construir. Fassbender me chamou a atenção pela primeira vez, em “Fish Tank” (2009), filme britânico muito elogiado. Este filme faz um excelente olhar na vida de uma adolescente que cresce no bairro pobre. Ela se sente mal- amada e presa no meio familiar sem estrutura. A mãe é promíscua e alcoólatra, que traz para casa, o seu belo e misterioso namorado interpretado por Fassbender, que roubou o filme para si. Fassbender é melhor do que filme. Ele, mais uma vez me surpreendeu em “Hunger” (2008). E o seu Edward Rochester, em “Jane Eyre” (2011), é perfeito.

Porém, a maior surpresa em “Shame” é Mulligan, que esteve adoravel em “An Education” (2009), mas aqui, ela me surpreendeu, não porque ela aparece totalmente nua, mas porque a sua Sissy me apresentou uma atriz madura. A vulnerabilidade e veracidade que Mulligan deu a Sissy, me fez amá-la como atriz. A cena que ela canta “New York, New York”, é bastante triste, mas tem outra cena, quando Sissy e Brandon estão discutindo, sentados no sofá, é de querer rever. No fundo, a Tv está ligada, mostrando um desenho animado em preto-e-branco. Os quadros feitos por McQueen, mantem Mulligan à direita e Fassbender à esquerda. Quando a cena intensifica, lágrimas começam a cair do rosto de Mulligan, mas mais importante é que elas caem do seu olho direito. As lágrimas não são imediatamente visíveis, até que elas estão penduradas suavemente no seu queixo e rolam no seu pescoço. A intensidade do diálogo, é uma coisa, mas a sutilidade emocional do que eles falam, fortemente me emociou.

Eu não posso esperar para rever “Shame” quando chegar em DVD. É apenas o segundo filme de McQueen, mas isso apenas prova que ele é um cineasta maravilhoso!.

Nota: 9,0

A Condenação (Conviction. 2010)

A história em si foi o que me motivou mais a ver esse filme. Em conhecer essa mulher que lutou por anos tentando inocentar o irmão. Já imaginando que com isso ela deixaria outras vidas à margem. Mais do que um amor fraternal, haveria um amor maternal dentro de si. Mas e para os próprios filhos, eles ficariam mesmo de lado durante essa missão? Lugar comum ou não, há no coração de uma mãe o se doar mais ao filho que tem mais chance de sair do caminho. O que tem uma mente mais suscetível as tentações da vida. Como na Parábola, essa irmã/mãezona vai em busca da ovelha desgarrada.

O título original é perfeito, pois se não tivesse tanta convicção da inocência do irmão o mesmo iria apodrecer na prisão.

Em ‘A Condenação’ a história é dessa personagem – Betty Anne Waters -, muito bem interpretada por Hilary Swank. Nossa! Tem hora de desejar que o irmão seja mesmo inocente por causa dela. E que quando entra em cena a personalidade do irmão… Essa convicção ganha uma oitava maior. Bravo Betty Anne!

Sam Rockwell é quem faz o Kenny, o irmão de Betty. Nossa! Ele quase rouba todas as cenas. Perfeito no papel! Talvez por conta de sua performance que no Brasil escolheram como título “A Condenação“. Com o desenrolar da história Kenny me fez pensar no personagem de River Phoenix do filme “Conta Comigo” (Stand by Me. 1986). Por conta de um temperamento instável, por vezes bem agressivo, fica mais fácil de induzir a todos que acreditem na culpa dele. Que o condenem mesmo sendo inocente.

O filme é longo, mas não perde o ritmo, como também deixa um querer ver de novo pelo menos até o julgamento onde condenaram Kenny por assassinato em primeiro grau. Onde mulheres se voltaram contra ele em testemunho, além de uma policial, Nancy Taylor, tentando mostrar serviço. Papel esse interpretado por Melissa Leo. Perfeita. Uma das mulheres que testemunhou que fora ele o assassino é interpretada por Juliette Lewis. Meio irreconhecível, mas também perfeita. Essas duas, mais a mãe da filha de Kenny, conseguem nos transmitir indignação pelo o que fizeram. E com isso das atrizes merecerem aplausos pela performance.

A Condenação” começa num tempo próximo ao presente da história. Em flashback conhecemos um pouco desde a infância desses dois irmãos. Dos dois, mesmo sendo Betty a caçula, há nela a força de salvaguardar o irmão. São arteiros os dois, mas com o temperamento pavio curto dele, e a falta de paciência dos adultos, Kenny cresce com a fama de bad boy. Com isso num local pequeno o “Recolham os suspeitos de sempre!” Kenny é sempre indiciado.

Voltando a falar do amor maternal… A mãe de Betty e Kenny praticamente só os trouxera ao mundo. O que aumenta em Betty o amor até como proteger o irmão. Mais tarde com o primeiro filho Betty chega a dizer que nunca seria como a mãe dela foi. Mas com a condenação do irmão, mesmo estando sob o mesmo teto com seus filhos, mesmo tentando ser presente na vida deles, era como se estivesse ausente. Seus filhos foram crescendo vendo a mãe com o tio dominando seus pensamentos e atos. Ela até voltou aos estudos. Queria muito cursar Direito, ser advogada, e tentar achar um jeito de inocentar o irmão. Por tudo isso, não tem como julgá-la negativamente. O máximo seria em se perguntar se faríamos o mesmo ou não. Mas há mais reflexões. Tanto dos filhos da Betty com ela. Como de quem seria Kenny se não fosse o amor da irmã.

A condenação do irmão acontece em 1983. De lá para cá a ciência evoluiu fazendo com que as Leis se adequasse em aceitar novos meios de se provar algo. Era uma nova porta que se abria. Mas… Outros obstáculos pareciam não evoluir. Admitir que errara, era um deles.

Betty fora o tempo todo incansável. Só se deixou abater por causa de um motivo. Que lhe quebrantou sua alma. Por sorte o destino colocara em sua vida uma amiga de verdade: Abra Rice. Mais uma magistral interpretação nesse filme, e de Minnie Driver. Pois é! Como se não bastassem tantos temas abordados nesse filme, ele nos presenteia com essa linda história de amizade. Abra entra na vida de Betty como uma lufada da brisa da manhã. Traz vida nova! É daquela que diz a verdade com convicção de que o faz por gostar, por querer bem, a amiga. Abra nos mostra que amizade como a dela está ficando mais raro. Pois muitos só querem amigos para massagear o ego.

Por tudo isso, e muito mais que eu dou Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Condenação (Conviction. 2010). EUA. Direção: Tony Goldwyn. Roteiro: Pamela Gray. +Elenco. Gênero: Drama. Duração: 107 minutos. Baseado em fatos reais.

Entre Irmãos (Brothers. 2009). Se nem os dedos da mão são iguais…

Entre Irmãos nos leva a algumas reflexões. Embora trechos dele remete a outros filmes, num todo, ele ganhou uma estória única: a relação entre dois irmãos. Num momento da vida deles. Como canalizaram os ressentimentos guardados com os acontecimentos presente. Mais! Será que o amor constrói, ou destrói a vida de um homem? E o desamor, que consequências futuras trará? Já adiantando que mesmo sendo um bom filme, não me deixou uma vontade de rever.

A relação entre esses dois irmãos – Sam (Tobey Maguire) e Tommy (Jake Gyllenhaal) -, não é transparente. Embora se gostem, não há intimidades, entre eles. Como se vivessem em lugares distantes. Há um tipo de competição entre eles. Inconscientemente. Traçando um paralelo com a realidade… Que como toda relação entre irmãos, essa competição começa na primeira infância. Como também, com o passar dos anos ela se intensifica. Mais! Em vez de acabarem com ela, é alimentada pelos próprios pais. Por conta das comparações entre seus filhos. Será que não entende que cada um é um ser único?

Como se quebra um ciclo vicioso desses? De imediato: seria se dando conta de que tem algo errado consigo próprio, e que não tem como resolver sozinho. Do contrário, poderá chegar num momento que irá explodir. Mais que arcar com as consequências, não deve é transferir para outros, esse seu erro.

O Mito Caim e Abel não se encaixa nessa história. Já que Sam sempre recebeu muito amor do pai, Hank (Sam Shepard). Era tido como o filho exemplar. Se ele fez o que fez, fora levado… talvez por uma superproteção. Sam pelo seu temperamento meio introvertido, pelo peso em ser um bom filho, tenha preferido seguir a carreira militar para sentir-se sobre controle. Nem era porque o pai também fora um militar. Sentia-se muito mais em casa no Quartel, do que em sua própria casa. Mas uma coisa era estar aquartelado, em plena segurança. Outra coisa era estar num campo de batalha. Ai, se vive e como se comete atos desprezíveis.

Guerras! As insanidades, as atrocidades… cometidas e avalisadas por ela. Onde não há códigos de ética, já que atendem aquele que se sente soberano. Ou, as potencias que lucram fomentando as guerras. Por trás delas, uma indústria maior: a bélica. Embora fato real como o com o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, até por não respeitarem a Bandeira da ONU, os Estados Unidos pecaram em invadir o Iraque. Como também em “convencer” até as crianças de seu país, que estavam indo combater o povo mau. A ONU também, nessa Guerra, se preocupava mais com os combustíveis, do que com a população inocente… A estória desse filme, é um desdobramento dessa invasão. No Afeganistão.

“Na guerra, o único heroísmo é sobreviver“. (Samuel Fuller)

Em outras palavras: melhor ser um covarde vivo, do que um herói morto. Agora, é um “vale tudo” mesmo para se manter vivo? Sam mostrou que não estava preparado para esse “poder de matar”. Mas alguém em sã consciência estaria? Mais! Será que faríamos o mesmo que ele? E o que faríamos depois?

Bem, Sam transferiu sua culpa em quem não tinha nada com isso. Por conta disso, é que se eu fosse definir esse filme numa única palavra, ela seria transferência. Mas já dizendo aos da área psico, que aqui eu não sei se teria o mesmo significado do que tem para vocês. Porque esse transferir seria em arrumar um outro pretexto onde culpar alguém por algo, com isso fugindo do seu problema. Não é fuga, mas um descarregar. Sam, por exemplo, não fez aquilo que cobrou do irmão…

Agora ele, seu irmão Tommy. A ovelha desgarrada… Tommy, mais expansivo, ou seria mais explosivo? Um rebelde com causa… Está saindo da prisão, às vésperas de Sam embarcar para o Afeganistão. Como está em condicional, sabe que terá que se comportar. Pagando pelo seu erro. Mas faltava ainda se libertar de outras prisões… Fiquei pensando se alguém mais extrovertido, ou com propensão a ser assim, se levaria mais chances de uma volta por cima.

Sam é dado como morto. Recebeu enterro como Herói de Guerra. Tommy, primeiro se rebela com essa notícia. O amava. Mas sabendo também que ganharia mais um estigma se não se endireita-se de vez. O estigma seria: ‘Por que ele morreu, e não eu?’ Para a Família ele nada valia. Assim, resolve ajudar a cunhada, Grace (Natalie Portman) cuidar das suas sobrinhas: Isabelle (Bailee Madison) e Maggie (Taylor Geare). Carismático, Tommy acaba conquistando as três. Por tabela, uma aproximação do pai.

Ao voltar para a casa… com um pesado fardo… Sam percebe que sua casa ganhou vida com a sua “morte”. Que sua Família estava feliz com o novo Tommy. Mas quem de fato mudara? Sam ou Tommy? Mesmo tendo vivido num inferno, Sam teria o direito de descarregar naqueles que o amavam tanto? Quem mostrou-se mais apto a resolver a questão? Tommy, ao longo da vida, viu, viveu, as mazelas do ser humano. Sam e Hank, só viram, viveram esse lado sombrio da humanidade, nas Guerras.

Sobre os atores… O homem-aranha cresceu! Brincadeirinha! É que ainda está vivo na memória esse personagem de Tobey Maguire. Ele até que atuou direitinho nesse aqui. Mas queria o seu Sam mais arrebatador. De fazer dele um quase vilão, quando fez o que fez. Jake Gyllenhaal sim, esse quase rouba o filme. Só não fez, porque a trama do filme se destaca mais. É uma estória “patrocinada” pela cultura de guerrear com a desculpa de combater o mal. Como a não enxergar que, diante de um desafio, quais valores sobressairão. Em relação aos outros atores, uns, também atuaram direitinho.

Como falei no início, é um bom filme. Vale ser visto mais pela estória desses dois irmãos. A Trilha Sonora está ótima! Mas o filme por um todo não me deixou saudades.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Entre Irmãos (Brothers). 2009. EUA. Direção: Jim Sheridan. +Cast. Gênero: Drama, Guerra, Thriller. Duração: 105 minutos.

P.s(17/03/10): Faltou contar que o ciclo dessa Família iria continuar. Na cena do aniversário da caçula, a filha mais velha mostrou-se ser igual ao pai. Para sua felicidade pessoal, não se intimidaria em mentir, humilhar, magoar, ferir… quem quer que fosse.

Mar Adentro (2004)

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Um filme emocionante! E o que mostra? “Um homem tetraplégico que luta na justiça pelo direito de morrer.” Que luta também com os dogmas religiosos. Uma morte digna – é seu desejo. Um personagem adulto, lúcido, determinado. Sua bandeira: “Viver é um direito, não uma obrigação.

Me tocou fundo… Chorei várias vezes ao longo do filme. É lindo em fotografia! Em trilha sonora! A viagem que Ramón faz ao som de “Nessun dorma” (Turandot) arrepia!! Merece aplausos também por abordar um tema como a eutanásia de maneira… inteligente??? Não sei se seria essa a palavra, mas com certeza o faz num ponto de vista de alguém lúcido; e adulto. Logo, não será uma perda de tempo assistir esse filme.

Antes de vê-lo, revi o “Antes do Pôr-do-Sol” (Before Sunset). Um filme bom de rever! Por mostrar as identificações e as diferenças que aproximam ou afastam as pessoas. Mas principalmente fala também de fatos inesperados que mudam a vida das pessoas.

Mudanças inesperadas…

Dependendo de quem ou como ocorre, ela deixa a sensação de perda, de ficar sem chão; sem norte. Mas também há pessoas que até numa adversidade buscam por alternativas. Por vezes não é fácil lidar com o novo rumo que a vida tomou. Para quem está de fora é tão fácil julgar, criticar. Por outro lado para quem o vivencia, ou até vivenciou uma dessas  “trombadas do destino” entende, ou pelo menos tenta entender, não julgando precipitadamente. Nem movido só pela emoção.

Mas em “Mar adentro” a mudança é irreversível. Castradora. Opções chega a ser um eufemismo para esse personagem. De um jeito ou de outro o filme nos leva a refletir. Reavaliar conceitos. Posturas. Atitudes. E sobretudo, o filme emociona!

O acidente de Ramon…

Pode ser uma viagem minha, mas… Há um detalhe sobre o acidente que eu precisaria revê-lo para talvez tirar essa dúvida. Fatalidades acontecem. Mas alguns imprevistos ao serem analisados mais friamente com o passar de um tempo mostram que foram simplesmente ignorados alguns sinais tanto anteriores, como até durante. Então voltando ao acidente de Ramon. Ele sabia do risco naquele salto. Uma coisa seria mergulhar aproveitando uma maré alta, já que essa leva um tempo maior para baixar. Outra bem diferente é em mergulhar aproveitando uma onda. Já que nesse caso o tempo é mínimo, precisando ficar antenado ao salto.

Daí não sei se a idéia do suicídio, ou mesmo o não ligar para a vida, já estava em seu inconsciente. Sei lá… Uma tristeza profunda já passava por ele. Uma certa apatia com a vida que levava. Era jovem, podia tentar mudar, sair daquela rotina. Teria medo em ousar sair dali? Bem, de qualquer forma, o destino o reteve por ali. Enfim…

Não sei se numa segunda vez, eu irei chorar tanto quanto da primeira. Mas com certeza quero rever esse filme um dia. Eu amei! É emocionante todo o drama de Ramon numa excelente performance de Javier Bardem.

Nota Máxima.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Mar Adentro. Espanha. 2004. Direção: Alejandro Amenábar. Com: Javier Bardem, Belén Rueda, Lola Dueñas, Mabel Rivera, Celso Bugallo, Clara Segura, Joan Damau, Alberto Jiménez . Gênero: Drama, Biografia. Duração: 125 minutos.

Os Sonhos – Ramón Sampedro
Mar adentro, mar adentro,
E na leveza do fundo,
Onde se cumprem os sonhos,
Juntam-se duas vontades
Para cumprir um desejo.
Um beijo incendeia a vida

Com um relâmpago e um trovão,
E em uma metamorfose
Meu corpo já não era meu corpo;
Era como penetrar no centro do universo: O abraço mais pueril,
E o mais puro dos beijos,
Até sermos reduzidos
Em um único desejo: Seu olhar e meu olhar
Como um eco repetindo, sem palavras:
Mais adentro, mais adentro,
Até o mais além do todo
Pelo sangue e pelos ossos. Mas sempre acordo
E sempre quero estar morto
Para seguir com minha boca
Enredada em seus cabelos”.