Série: Caras e Caretas (1982-1989). O que transmitir ou não as novas gerações?

caras-e-caretas_serie_1982-1989Por: Morvan Bliasby.
Nestes tempos aziagos de “Escola Sem Partido“¹, golpes institucionais e outras ideias ‘jeniais‘, além de uma mesmice estarrecedora das SitComs, das Soap Operas, etc., numa revisita quase mandatória à década de 80 do Século XX, a sua explosão de comédias de situação e o começo da distensão “lenta e gradual”, como preconizavam os donos do mundo, entre as potências que alimentavam a fogueira da Guerra Fria. Deste caldeirão ultra efervescente se sobressai a SitFamily Ties“², nominada, no Brasil e em Portugal, respectivamente “Caras & Caretas” e “Quem Vem Aos Seus“, neste segundo estranho título temos, claramente, uma ironia, pois parece degenerar, e muito.

O Enredo

Steven (Michael Gross) e Elyse Keaton (Meredith Baxter) são dois hippies classe média típicos, economicamente falando, ultra liberais nos costumes e que se casaram havia duas décadas.

Um tanto quanto nonsense, no tocante à educação dos filhos, eles creem piamente que os filhos os seguiriam em seus valores, teriam uma vida “zen” e seriam filosoficamente parecidos com estes.

O tempo lhes mostrou o quão errados estavam, mormente no tocante ao filho mais velho, Alex (Michael J. Fox). Este, um executivo, na cabeça e nos valores (um admirador incorrigível de Ronald Reagan!). Isso mesmo. Reagan. Importante para nos ambientarmos. Reagan, Tatcher e a ideia do Estado mínimo, do tamanho de uma bacia, nas palavras dos próprios. Este é o ambiente da série. Alex utilizava chavões dos republicanos e portava até mesmo um cartão de sócio do clube dos conservadores. Inteligente, ganancioso, reacionário. uma cópia (carbono) exata de seus pais. Alex se encaixa perfeitamente no estereótipo do “self-made man”, tão usual, à época e hoje.

Já a moça, Mallory (Justine Bateman), ao contrário, relaxada, preguiçosa, fútil e cujo círculo de interesse consistia em compras, rapazes e… compras e rapazes.

Vem, a seguir, Jennifer (Tina Yothers), a caçula. Todo o seu sonho era ser uma pessoa normal. Dependendo da situação, razoável, não?

Family_Ties_castA série, malgrado de forma às vezes sutil, até demais, teve a virtude de discutir preconceitos, censura, gravidez adolescente, vício (drogas), relacionamento familiar e círculos criados em torno de interesses similares. Todos os personagens da série, inclusive os papeis satélite, contribuem para uma discussão sutil e ao mesmo tempo rica sobre os valores de então.

O sucesso estrondoso da Sit tem a ver com isso. quem sabe, além do fato de ter sido a propulsora e impulsionadora de celebridades precoces, como o Micheal J. Fox.

Mas a discussão subjacente da comédia de sucesso parece ser a questão educacional (não somente educativa, educacional, de finalidade da formação). Até que ponto a formação dos nossos filhos, de uma geração, por exemplo, pode ser vilipendiada, a ponto de achar que as coisas se repetirão por osmose. Que não precisaremos assumir uma posição mais protagonista, com relação ao tipo de pessoa humana que queremos formar, subvertendo, se necessário, os valores vigentes e até a educação formal, via escola. A ‘Escola Sem Partido‘, esta aberração imposta pelos nossos nefandos “amigos” ideólogos, daqui e d´alhures, por exemplo, é uma mostra de protagonismo às avessas, ou seja, não seja inocente de pensar que existe neutralidade em qualquer aspecto da vida. Tal movimento aposta na interdição do debate natural na escola, na vida, para a nova geração de zangões…

Séries como Family Ties e “Todo Mundo Odeia o Chris” são muito eficazes em, sob o pretexto de discutir amenidades, ir bem fundo nos costumes e preconceitos e acabam, neste roldão, se tornando fotografia de uma época. Family Ties parece bem atual, traçando um paralelo com o momento em que assistimos ao desmonte de vários Estados nacionais. Esta já é uma boa razão para assisti-la, como análise comparativa. Além dos canais da tevê paga, que vez por outra a reprisa, geralmente com o título original, além de poder vê-la nos sítios dos Estúdios originais ou nos canais de “stream“.

Série: Caras e Caretas (1982-1989)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

¹ Uma ideia tão imbecil para se acreditar ter saído da cabeça de educadores. Felizmente, não!.
² No Brasil, curiosamente, uma novela, tempos após, recebeu o nome literal da comédia de situação: Laços de Família.

Enfim Viúva (Enfin veuve). 2007

Como a máxima popular bem diz: “Viúvo, é quem morre!” Mas também há uma boa parcela que acha que o cônjuge que ficou deve guardar luto para sempre. Ou, quando não o vêem como alguém pronto para ir para um asilo. Agora, o que essas pessoas achariam que aquele que não morreu, adorou essa viuvez para enfim ir viver com um novo amor?

Continuar uma relação após tantos anos, se faz necessário mais que criticar, seria em tentar entender porque um deles mantém um relacionamento extraconjugal. A questão nem é pelo fato de que em “Enfim, Viúva” a pulada de cerca foge do padrão comum, por vir da mulher, e não do homem. Para mim, o que vem primeiro é o fato de que se ambos se propõem a terem uma relação monogâmica, assim deveriam seguir. Ou então, separarem de vez.

A ainda não viúva, Anne-Marie (Michèle Laroque) parece que acordou para a vida, ao conhecer Léo (Jacques Gamblin). Ele tem um pequeno estaleiro. Gosta de viver à beira mar. Sua casa é sobre uma balsa ancorada. Já ela sonha em viver num chalé nas montanhas; e num local em especial. Anne mora numa bela mansão na praia, com o marido: um importante cirurgião plástico. Um cara meio enfadonho com a vida, e que acha que ela está precisando de uma plástica no rosto. Se ele acha que a mulher perdeu o poder de sedução, se enganou por completo.

Num dia em que demorou demais com Léo, onde planejavam que ela saísse de casa e viajasse com ele por uns dois anos na China, ao chegar em casa, Anne encontra o filho, a nora, o neto, a irmã e uns amigos do casal. Assustada, ao procurar saber o motivo de todos ali, precisa fazer força para não vibrar de alegria. Ficara viúva.

Mas o que parecia ser um convite a viver a vida como estava querendo, caiu foi num aprisionamento maior. Dai para frente enquanto tenta até não magoar os sentimentos do filho, de cá vamos acompanhando-a, ora rindo muito com ela, ora na torcida para que vá viver a vida como desejara.

Um filme que vale a pena ver e rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Enfim Viúva (Enfin veuve). 2007. França. Direção: Isabelle Mergault. Elenco: Michèle Laroque, Jacques Gamblin, Wladimir Yordanoff, Tom Morton, Valérie Mairesse, Claire Nadeau, Eva Darlan. Gênero: Comédia Dramática. Duração: 93 minutos.

A Suprema Felicidade (2010)

Arnaldo Jabor, o excelente cineasta dos ótimos “Eu te amo” e “Tudo Bem” quebra o jejum de décadas e reestreia nas telas com “A Suprema Felicidade”. O diretor vem sendo duramente criticado por ser pessoal e nostálgico nesta última obra, esquecendo que Fellini, Ingmar Bergman e outros gênios já fizeram o mesmo em vários de seus trabalhos.

Munido de um elenco excelente, Jabor reinventa suas próprias reminiscências com maestria, sensibilidade e experiência, criando cenas que provavelmente não serão esquecidas facilmente. Evitando um roteiro linear, a ação se concentra numa família comum no meio do século XX desfilando tipos e situações que poderiam se misturar às lembranças de qualquer um. O protagonista é o menino Paulinho (Caio Manhent) que aparece em várias idades sem ordem cronológica. Quando os hormônios afloram, o rapaz (Jayme Mataraz) se envolve com uma estranha cantora médium (Maria Flor envolvida com espíritos e ectoplasmas) e com uma belíssima artista de cabaré (Tammy Di Calafiori) sem perceber que o melhor amigo também se interessa por ele.

O avô (Marco Nanini) é músico e sugere o título em vários momentos. É casado com uma polaca vivida pela ótima e subestimada Elke Maravilha. Dan Stulbach faz o papel do pai aviador com a perfeição de sempre e Mariana Lima vive a esposa intensa e atormentada pelo constante fantasma da traição. Há personagens e cenas paralelas que pouco acrescentam ao roteiro mas colorem e floreiam o enredo com eficiência, como o pipoqueiro desbocado (João Miguel de “Estômago”), o padre afetado (Ary Fontoura) que ameaça as crianças com as punições divinas ao pecado do “sexo solitário”, a mãe bêbada (A talentosíssima Maria Luísa Mendonça) que agencia a própria filha adolescente e a interessante sequência de homicídio num movimentado e decadente prostíbulo.

As memórias do autor podem confundir-se com as do expectador mais sensível que é lembrado o tempo todo de que é apenas uma obra de arte flertando com os sentimentos, a descoberta do sexo, a ambiguidade, o carnaval daqueles tempos em imagens reais, o sobrenatural, a música e o glamour de alguma época. Apesar do desfecho não corresponder ao nível geral do filme, “A Suprema Felicidade” é puro cinema e um deleite para os sentidos.

Carlos Henry

Um Sonho Possível (The Blind Side). 2009

Sendo baseado num caso real, já seria uma grande motivação para ver ‘Um Sonho Possível‘. Mas nesse em especial, houve um aditivo a mais: o fato da Sandra Bullock ter ganho o Oscar de Melhor Atriz. Dos filmes listados para essa final de 2010, só tinha visto até então, ‘Julie & Julia‘. E… Um Oscar por esse personagem? Bem, tentando entender o porque do prêmio… Ela conseguiu não ser a Sandra Bullock. Não mostrou as caretas tão delas. Em ‘Crash – No Limite‘ ela já havia mostrado que sabe fazer um Drama, não apenas Comédias Românticas. Mas nesse ficou um pouco travada. Como a seguir à risca um manual. Muito embora não tenha me levado a pensar durante o filme se outra atriz teria feito desse personagem memorável. O que eu já defino como uma boa atuação.

Mas seria porque a personagem ou mesma a estória do filme soasse como americana demais? Isso ficou ainda mais nos meus pensamentos quando no final do filme apareciam fotos dos reais personagens dessa estória enquanto subia os créditos. As deles num show de tv com platéia me fez pensar no personagem da Ellen Burstyn em ‘Réquiem para um Sonho‘. Há por lá essa cultura de mostrar na tv a Família… Bem, pelo menos a desse filme aqui tinha de fato algo a ser mostrado.

Aprendemos em criança que uma boa ação não deve ser propagandeada. Mas a desse filme não teria como passar despercebida. Uma família lourinha resolve adotar um jovem negro. Em plena Mississipi. Palco de grandes tragédias por conta do racismo. Sendo uma Família da Classe Alta da cidade o fato em si não passaria despercebido. Não naquele local. E indo além um pouco: o mundo carece de mais oportunidades aos menos favorecidos. Dai um feito desse deve sim ser mostrado para que motive outros mais a fazerem coisas assim. Até porque também lembrei dessa frase do filme ‘O Declínio do Império Americano‘ (Filme esse que quero rever, sendo que dessa vez junto com ‘As Invasões Bárbaras‘.):

A História não é uma ciência moral. A legalidade, a compaixão, a justiça são estranhas à História. Isso significa, por exemplo, que os negros da África do Sul estão destinados a vencer um dia, enquanto os negros americanos, provavelmente, não conseguirão.

Parece cruel, mas de fato para muitos faltam uma oportunidade. Por menor que seja. Por vezes a própria mãe precisa tomar uma decisão: em salvar a vida de um filho. Em dar a ele uma chance de crescer com dignidade. Há um filme comovente nesse tocante: ‘Um Herói do Nosso Tempo‘. Há também quem receba tantas oportunidades que termina por não dar valor a nenhuma. E ainda culpar as circunstâncias, por não sair do lugar. Por não ter um norte.

Assim há de se pensar também que deveria haver algo mais em comum entre quem dá essa chance e quem a recebe quando ela consegue germinar. De cara vem que há um coração puro de ambos os lados. E é que parece que temos aqui, não apenas entre os dois – Leigh (Sandra Bullock) e Michael (Quinton Aaron) -, mas de todos na Família Tuchy: o marido, Sean (Tim McGraw); a filha mais velha, Collins (Lilly Collins); e o caçula, S.J. (Jae Head).

Michael pelo porte físico não seria alguém que passa despercebido. Levado por um dos namorados da mãe até um Colégio do lado rico da cidade para que façam dele um atleta. Pela força física o técnico (Ray McKinnon) resolve aceitar. Tendo que enfrentar o corpo docente de lá. Só uma Professora, Miss Boswell (Kim Dickens), que tal qual Leigh também acreditou que Michael poderia sair-se bem nos estudos. Leigh contrata uma explicadora, Sue (Kathy Bates). Que tenta repetidas vezes encontrar um meio dele assimilar os estudos. Já que dependia também de notas para se diplomar.

Algo que gostei de ver: se de um lado várias instituições educacionais estavam interessadas apenas no atleta, um Professor de Literatura (Tom Nowicki) ainda queria saber se ele aprendera bem sua matéria. E numa interpretação de um texto, ele mostrou que aprendera sim. Até em mostrar que tinha sentimentos nobres.

O título original – The Blind Side -, refere-se a um posicionamento dentro do futebol americano. Pela importância de um jogador que terá que defender um companheiro de time mesmo sem ver qual é ou em onde ele está. Terá que estar em sintonia com ele para que ele consiga avançar. Aquele que não vê, definirá partida. Não entendo nada desse jogo. Mas o que fica seria em acreditar em si próprio que será capaz de fazer algo, e grande, mesmo não tendo todo o conhecimento sobre tal ato. É cada um fazendo a sua parte, aquilo que sabe fazer e bem, para o engrandecimento da equipe. Quiçá do mundo. É essa superação de Michael que nos é mostrada. Leigh mostrou a ele que ele também fazia parte daquela engrenagem.

Por outro lado, ‘The Blind Side‘ também pode significar que ele veio do lado feio da cidade. Da periferia desassistida. Onde pobreza e miséria se fazem presente. Onde o crime alicia muitos jovens. Um lado que o outro lado rico nem quer ver. E que se faz necessário pessoas como a personagem da Sandra Bullock dar uma oportunidade para que cresçam com dignidade. Para que tenha a chance de ter uma profissão. E por que não: que eles se sintam amado. Que fazem parte de uma família estruturada. Que saibam também como impor o limite com respeito.

O filme emociona! Há momentos engraçados principalmente na maioria das cenas de Michael com S.J. Aprende-se um pouco do Futebol Americano. A Trilha Sonora está bem integrada ao contexto. É um bom filme. Mas com gosto de Sessão da Tarde.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Um Sonho Possível (The Blind Side). 2009. EUA. Direção e Roteiro: John Lee Hancock. +Cast. Gênero: Biografia, Comédia, Drama, Esporte. Duração: 129 minutos. Baseado no livro ‘The Blind Side: Evolution of a Game’, de Michael Lewis.

CURIOSIDADE:
– Sandra Bullock levou o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Atriz em 2010.