Sob o Mesmo Céu (2015). Um Romance dos Tempos Modernos

sob-o-mesmo-ceu-2015_cartazPor Valéria Miguez (LELLA).
mito-do-sagradoHá uma lenda que diz que quando os Homens das Ciências alcançarem o topo do mundo encontrarão lá esperando por eles os Grandes Mestres da Mãe Terra. Num tipo de távola redonda. Juntos, irmanados em ajudar ao Planeta a se recompor. Talvez até diriam aos que os procuraram pelo poder maior, que voltassem e eliminassem tudo do que fizeram e que deixara o mundo com mais desunião, com mais muros, com mais desigualdades, com mais riqueza para pouquíssimos habitantes. Enfim, tudo que o deixara mais destruído e destituído de humanidade. Mito ou não… Por certo que nosso Planeta tem contado também com aqueles que pelo menos tenta frear os que não se importam com ele. Com isso é preciso estar atendo aos sinais advindos dos céus em conjunção com o que está acontecendo ao redor para então agir.

Bem, esse é o pano de fundo em “Sob o Mesmo Céu” – de que certos avanços tecnológicos têm mesmo o intuito de aniquilar o mundo. Mesmo que só fiquem na ameaça para indicar quem é que dá as cartas. De qualquer forma é preciso pesar muito mais os contra antes de impor ao mundo mais tecnologia. Mais danos ao Planeta que leva tempo para se recompor. O que deu ares de modernidade onde heróis e heroínas de agora pilotam caças ou mesmo filmadoras, mas que respeitam as tradições antigas. Nesse contexto o Diretor Cameron Crowe conta duas histórias de amor, aliás três: porque dois deles irão passar a limpo uma história antiga. Crowe também assina o Roteiro o que o deixa mais livre para lidar com tudo e todos. Em destaque na trama: um discutir a relação. Será que as conjunções celestes também estariam favoráveis para essas questões?

aloha-2015_filme_havaiO local não poderia ser mais significativo para o desenrolar dessa história: Havaí. Tradições culturais e religiosas seculares. Como também o peso de se serem agora uma “colônia” e com a sensação de serem usados e logo descartados. No filme “Os Descendentes” se tem o lado da especulação imobiliária em terras havaianas como também do Turismo que “esconde” a pobreza do local. Já em “Sob o Mesmo Céu” temos as bases militares por lá. Onde em ambos os filmes um sentimento que ainda são levados a aceitarem “bugigangas” nos acordos com o Tio Sam. Como se ainda vivessem na era dos grandes descobrimentos. Além disso, Cameron Crowe também faz uma crítica a invasão do céu: num congestionamento de satélite. Para que tantos satélites?

E quem seriam os donos desses corações cujo destino levou uns num reencontro e outros a se conhecerem?

Começando pelo personagem de Bradley Cooper, o não menos encantador Brian Gilcrest. É que até achando que tem pela frente um grande e de curta duração evento – supervisionar o lançamento de um poderoso satélite -, tenta ser gentil, mas de modo a não dar impressão de estar aberto as novas amizades. No fundo, mesmo de uniforme militar, se sente um mercenário dos tempos modernos. Não importa para quais os fins, e sim cumprir as ordens.

sob-o-mesmo-ceu_2015_01Acontece que tão logo desembarca na ilha se depara com Tracy, personagem de Rachel McAdams. Era o passado de volta. Treze anos se passaram. E agora a encontra casada e mãe de dois filhos: o caçula Mitchell (Jaeden Lieberher, de “Um Santo Vizinho”) de câmera em punho filmando tudo e a adolescente Gracie (Danielle Rose Russell)
curtindo a dança havaiana. Tracy mais parece saída da escola de “O Sorriso de Mona Lisa”. Nada contra o querer ser dona de casa, mas focar a casa onde mora como desculpa por não querer o fim do casamento, denota superficialidade. Assim, a volta de Brian a levará a ir mais fundo em si mesma. O grande barato disso tudo fica por conta de seu marido Woody, personagem de John Krasinski, pois numa de quase entrar mudo e sair calado, ele rouba as cenas: está impagável! Woody não precisa de muitas palavras. É Tracy quem tem que parar de falar muito e com isso se dá um tempo para ouvir a si mesma.

Designada para acompanhar Brian durante sua permanência na ilha temos a Capitã Ng, a Allison. Personagem de Emma Stone. De cara se sente atraída por ele. Força uma barra para que fiquem amigos e com isso ficar mais tempo perto dele. Por conta de uma ascendência havaiana ela quis conhecer mais as tradições da ilha. Mais até! Passando a aceitar e a respeitar. Até por conta disso não gosta de algo que vê num dos vídeos de Mitchell. Com isso seu amor por Brian fica balançado: de herói ele passava a ser um vilão. E pelo fato em si, mesmo já estando apaixonada ficava difícil de engolir. Mesmo assim, ela precisava agir.

Fora eles, o filme ainda conta com algumas participações. Como de Bill Murray como o empresário Carson Welch dono do tal satélite, como também com Alec Baldwin como o General Dixon que abre as portas do quartel para Carson. Além de outros envolvidos com o lançamento do mesmo na base militar americana no Havaí. E que de certa forma envolverão a todos: militares e civis.

sob-o-mesmo-ceu_2015_02Assim, décadas depois de “Digam o Que Quiserem”, de 1989, histórias com adolescentes, Cameron Crowe traz em “Sob o Mesmo Céu” personagens adultos em seus dramas frente também as paixões. Sem perder a emoção até de estarem vivendo um grande amor, mas com um olhar mais amadurecido. E como podem ver se trata de um Romance com todos os clichês que esse gênero traz e caso não goste dessa combinação melhor procurar por um outro filme a gosto.

A Trilha Sonora também é um coadjuvante de peso! Performances em uníssonos! Numa escolha acertada do elenco! Cameron Crowe talvez tenha pecado em explicar demais algumas sub tramas, nem deixando lugar para divagações, como também desejando um enxugamento nesses momentos. O bom que logo em seguida a atenção volta plena e deixando um brilho nos olhos. E que só por algo que acontece no final do filme faz dele merecedor de uma Nota 10! Aloha, Crowe! O mundo agradece!

Sob o Mesmo Céu (Aloha. 2015). EUA
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Anúncios

O Cinema Colocando em Xeque Religiões e Seguidores – parte I

o-cinema_religioes-e-seguidores_por-tiago-silvaNuma época onde um Papa renuncia e sucessor parece estar até mais mais aberto às mudanças trazidas pelo presente… Onde cada vez mais líderes religiosos adentram na Política com a finalidade retroceder com a sociedade… Onde radicais religiosos sequestram jovens e até fazendo delas escravas sexuais… Várias reflexões deveriam ser feitas por todos nós até para ver o que há de real por trás de episódios como esses. Em que estão mais de olho nos próprios interesses e com um rebanho obediente a lhes servir… Enfim, se o tema já intriga no mundo real, se torna ainda mais fascinante pelo mundo do Cinema. Vem comigo!

guerra-de-canudos_1997_filmeIgnorância e superstição configuram a base de domínio das consciências humanas.

A venda das indulgências não segue o maior preceito de Cristo que é o perdão. As religiões se prevalecem até do sentimento de culpa para um domínio sobre seguidores. Até porque mantidos na ignorância os fiéis não terão como visualizar uma forma simples de aproximarem de Deus: num encontro com seu “eu” pelos caminhos da vida e sem a necessidade de estarem em um templo. Mas isso não levaria ninguém à engordar os cofres das igrejas… Em “Lutero“, de Eric Till, temos como pano de fundo uma luta de consciência por conta do sentimento de culpa. Mesmo assim, enfrentou com coragem as pressões políticas e da Igreja principalmente contra a salvação mediante a venda de indulgências. Em “Guerra de Canudos“, do Diretor Sérgio Rezende, se tem em plano geral Antônio Conselheiro. Alguém que contrariou muito mais a Igreja do que o Estado e por ter pisado nos calos dessa ao afastar os fiéis e seus dízimos. Com isso ela pressionou o Estado para acabar de vez com a insurreição desse líder.

stoning-soraya-1A Cultura Machista sob a Égide das Religiões

Em pleno século XV temos a história de uma personagem feminina que sofreu pela fúria dos homens. Embora não tivesse sido por apetites vorazes, eles sentiram a própria virilidade ameaçada por uma única mulher. As vitórias dela num território de machos fizeram despertar a inveja deles, e por conseguinte ter ido parar na fogueira da Inquisição. Ela é “Joana D’Arc“, em um filme do Diretor Luc Besson. Mas histórias como essa atravessa o tempo e no mundo real… Em um episódio muito mais recente temos também a cultura machista em terras islâmicas… Mostrando uma cruel realidade para as mulheres e sob a égide de uma lei estúpida que atravessa fronteiras e engloba até outras religiões: o adultério a mascarar a cultura machista… Temos em o “O Apedrejamento de Soraya M.”, do Diretor Cyrus Nowrasteh. Nele, um homem querendo casar com outra mulher muito mais jovem, arma com o conluio de um líder religioso um adultério para então esposa. O faz até para esconder que regulamente a espancava e a estuprava. Com isso ela seria condenada à morte pelo revoltante “crime de honra” e ele estaria livre até para cometer mais barbaridades com outras mulheres. Igreja e Estado abonando o machismo.

Ciência e Religião não poderiam caminharem juntas sem radicalismo?

Um filme que fica em cima desse binômio – ciência e religião -, é o filme “Contato“, do Diretor Robert Zemeckis, cujo roteiro é do astrônomo Carl Sagan. A trama do filme põe em xeque os valores éticos e morais da ciência e da religião, mas numa tentativa de encontrar um equilíbrio entre elas.

rezando-por-bobby_01O Absurdo de ainda condenarem alguém pela sexualidade

Em “Rezando por Bobby”, do Diretor Russell Mulcahy, temos uma mãe que ao seguir à risca as doutrinas da Igreja nem aceitou a homossexualidade do filho como impingiu a ele terapias e ritos religiosos com o intuito de “curá-lo”. Não suportando a pressão ele se atira de uma ponte… Depois, ela ler o diário desse seu filho passa a entender de fato todo o drama em que vivia e até por não querer ferir ninguém, querendo mesmo ser feliz. Ela ainda buscando por respostas na religião que o condenou, passa a interpretar de outra forma os textos bíblicos… E torna-se uma ativista dos direitos dos homossexuais. Já no belíssimo filme do Diretor Abbas Kiarostami, “Gosto de Cereja“, temos um homem que com o passar dos anos sente o peso da solidão por essa condenação até culturalmente, daí escondendo sua homossexualidade. Por conta disso decide se suicidar e sai à procura de quem o enterre, já que esse ato também é condenado pelas Religiões.

vida_de_brian_04O Fanatismo Atemporal dos Seguidores

Onde em vez de se aterem as suas próprias convicções… Até partem para agressões físicas numa de catequizar, exorcizar… Em “Alexandria“, de Alejandro Amenábar, a vida de uma filosofa Hipátia que foi morta por não se converter ao cristianismo. Que disse para essa catequese imposta que: “Quem acredita sem questionar, não acredita. Eu preciso questionar.“. Como pano de fundo fanatismo religioso: a busca ou pelo o conhecimento ou pela a estupidez. Já com com o clássico “A Vida de Brian“, do Diretor Terry Jones e ou mesmo com “O Primeiro Mentiroso”, dos Diretores Ricky Gervais e Matthew Robinson, temos e com humor o quanto se deveria questionar os dogmas religiosos. É! É velha retórica em apregoar a fé para não apenas manter o rebanho mansinho como também para atrair mais. Onde até se valem de falsos profetas para mantê-los sob rédeas curtas. E o pior que o ciclo se mantém pelos próprios seguidores em querer um santo, um líder religioso para idolatrar e ou expiarem as próprias culpas.

saving-godUm poder a serviço de quem ou do que?

Dentro da Igreja Católica para “para um rei morto, um rei posto“… Dois filmes que mostram os bastidores desse Conclave, como as responsabilidades, os dogmas a serem seguidos… O “As Sandálias do Pescador“, de Michael Anderson, baseado no livro de Morris West. Um Papa vindo de um país comunista… Abordando também temas pertinentes a geopolítica da época – guerra fria, bomba atômica… Um Drama com pitada de Thriller. Já o outro é o “Habemus Papam“, do diretor Nanni Moretti, uma Comédia Dramática trazendo o Papa eleito com uma dúvida crucial: “Ser ou não ser Papa?“. Agora, onde o Estado, a Família e a Sociedade ficam impotentes, é onde a Religião pode e deve atuar: numa “salvação” dos jovens aliciados pelo tráfico. Ou mesmo por estarem drogados demais para mudarem de vida. Em “Salvando Deus”, do Diretor Duane Crichton, temos essa remissão por um recém saído da prisão, pegando para si o papel de Reverendo daquele local até então desassistido…

Alagados, Trenchtown, Favela da Maré / A esperança não vem do mar / Nem das antenas de TV / A arte de viver da fé / Só não se sabe fé em quê

Assim, aos que adotaram uma Religião que sigam com ela, mas sem condenar os que preferem continuar lidando com seus próprios espinhos fora das religiões. Até porque transferir os próprios problemas para as “mãos do impossível” é uma das maneiras de não encará-los de frente. Com certeza voltarei a esse tema. É por demais interessante!
See You!

Sinais (Signs. 2002). Fé de Mais! Mas no Establishment Americano…

sinais-2002_filmePara mim faltou em “Sinais” que M. Night Shyamalan, que além da Direção também assina o Roteiro, uma co-parceria com um cético, ou mesmo com um agnóstico para um distanciamento maior da religiosidade. E mais ainda das religiões de cada povo inserido na trama. Diferente do que fez em “O Sexto Sentido”, Shyamalan nesse aqui não se distanciou da Religião como Instituição, que o faria focar de fato na . “Na que move montanhas“… E apenas para constar: não tenho religião.

M-Night-Shyamalan_e_Mel-Gibson_Sinais-2002Que leu alguma sinopse antes de ver o filme ficou ciente de que “Sinais” abordaria a “Fé” e não propriamente em “ETs” como os invasores aterrorizantes. Seria o questionamento da fé vinda de alguém cuja missão maior seria de propagá-la: o ex-Pastor Graham Hess, personagem de Mel Gibson. Então foi com esse intuito que eu assisti ao filme. Mas tão logo começou o que me vinha à mente era uma sensação de que o que transparecia ali era de um “trauma pós-11 de Setembro“, e no tocante ao pensar dos norte-americanos. Com isso mudei o viés com que eu assisti todo o filme, fui por um teor político. Ficava aquele ar de superioridade, de salvado da pátria… bem típico em filmes made in usa. Os sinais disso estavam por ali. Como no bio-físico de quem dirigia o carro o qual vitimou a mulher do pastor. No caso foi o próprio Shyamalan, que nasceu na Índia quem o interpretou. Também no lance da água; ou da escassez dela em terras do invasor… Que nos remete ao Oriente Médio… Por aí. Pelo o que dizem, Shyamalan é um crítico ao pensamento republicano que vigora por lá. Talvez por aí não soube pesar bem esse tema no filme. Até por isso mais alguém no Roteiro teria encontrado o tom certo. Assim, por essas e outras, o filme perdeu o foco num tema interessante: a perda e/ou a recuperação da fé.

sinais-2002_01Todos têm o direito de acreditar no que quiser. De ficarem recitando: “Deus quis assim“; “Deus fez isso…“; “Deus fez aquilo…“. Por outro lado também têm direito os que não creditam um valor as crenças religiosas. Mais! Em seguirem em frente mesmo diante dos percalços da vida e sem tentar “responsabilizar” alguém. Nem quando o que se propôs a fazer não saiu como o esperado. Ou até quando conseguiu o tento, o fez pelo esforço próprio e não por uma graça divina. Pois do contrário todos que orassem deveriam ser atendidos em suas preces. E a Fé pode até vir como um amigo invisível, como um afago. Não por algum ritual de histeria entre os fiéis.

Num detalhe a meu, a cena no Brasil passou uma inverdade, pois deveriam é terem mostrado que somos um país ecumênico. Além do que, creio que a maioria dos brasileiros não teriam fugido, mas sim convidado o tal “ET” para a festinha no quintal. Churrasquinho, cerva geladinha e logo todos estariam em altos papos filosóficos. E sem uma catequese.

Mesmo tendo mostrado a religiosidade em várias nações e a grosso modo de como veriam os sinais advindos de outros mundo, a tal “síndrome americana” passou mesmo uma ideia de: “nós somos superiores” (USA). Gostaria mesmo era de ter absorvido algo como: “somos todos irmãos“.

Enfim eu colocaria “Sinais” como um mediano-sessão-da-tarde.

Ah sim! Para quem ainda não viu, uma sinopse do filme: “Num condado da Pensilvânia vive Graham Hess (Mel Gibson), um viúvo com seus dois filhos, Morgan (Rory Culkin) e Bo (Abigail Breslin). Também mora com eles Merrill (Joaquin Phoenix), o irmão de Graham. Ele reside em uma fazenda e era o pastor da região. Abdicou da Igreja ao questionar sua fé por conta da morte da esposa, Colleen (Patricia Kalember); atropelada por Ray Reddy (M. Night Shyamalan), morador da região. Repentinamente surgem misteriosos e gigantescos círculos em sua plantação sem que haja o menor vestígio de quem os fez ou por qual motivo teriam sido feitos.”

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Sinais (Signs. 2002). EUA. Direção e Roteiro: M. Night Shyamalan. Elenco: Mel Gibson (Graham Hess), Joaquin Phoenix (Merrill Hess), Rory Culkin (Morgan Hess), Abigail Breslin (Bo Hess), Cherry Jones (Oficial Paski), M. Night Shyamalan (Ray Reddy), Patricia Kalember (Collen Hess), Ted Sutton (SFC Cunningham), Merritt Wever (Tracey Abernathy), Lanny Flaherty (Sr. Nathan), Marion McCorry (Sra. Nathan), Michael Showalter (Lionel Prichard). Gênero: Drama, Sci-Fi, Thriller. Duração: 106 minutos.

E Agora, Aonde Vamos? (Et Maintenant on Va Où?. 2011)

e-agora-aonde-vamos_2011Qual seria o caminho para a paz entre os homens? Já que para o da guerra já se está enraizado culturalmente neles.

e-agora-aonde-vamos_03E é por tentar encontrar um jeito de deixar os homens em harmonia entre si, que um grupo de mulheres farão das tripas coração para esse feito num pequeno povoado perdido num deserto libanês. Ligado até então ao resto do mundo pelo o que restou de uma ponte. Ponte essa que mais parece uma miniatura da Faixa de Gaza. Meio auto-suficientes, os habitantes só querem desse “outro lado” alguns produtos industrializados. Assim mesmo não por uma necessidade de consumismo, mas para um pouco de prazer pessoal. Como a lata de tinta para clarear a cantina local. Um perfume… Uma meia de seda… Acontece que ao chegar o primeiro aparelho de televisão, vem junto como um aviso: “Cristãos e Muçulmanos continuam em pé de guerra. Não tendo uma saída para que possam viver em paz.”

A Diretora Nadine Labaki mais uma vez brinda não apenas a nós mulheres, mas também a todos nós que gostamos de ver e ouvir histórias de pessoas simples. Para quem também amou “Caramelo” com certeza irá também se encantar com esse. Já que “E Agora, Aonde Vamos?” nos leva às lágrimas de se divertir com todos os personagens, mas também porque há cenas que machucam. Além do peso do nome da Diretora eu não me privaria de ver esse filme porque numa lida a uma sinopse – tentar evitar um conflito entre cristãos e muçulmanos -, seria em tom de comédia. Um gênero que eu amo! Além claro da curiosidade de em que contexto o título se encaixaria. E fechou com chave de ouro a tal cena. Na qual eu exclamei um “Putz!”, mas com sorrisão no rosto. Pois assim é a vida. Ela não tem um happy end, muito menos numa região de conflitos como o Oriente Médio.

e-agora-aonde-vamos_01O filme tem um começo almodoviano. Um grupo de mulheres num cortejo fúnebre. A cena em si é quase o final do filme. Pois se volta no tempo para então conhecermos todo o drama que todos vivenciaram até então. Elas são mulheres que apesar das diferenças religiosas se unem para tentar evitar que a paz dali fosse quebrada. Viviam numa paz bem melindrosa, já que culturalmente deveriam viver em pé de guerra, e logo por pressão religiosa. E mesmo que além dos limites daquela localidade elas nada poderiam fazer, pelo menos ali elas fariam o impossível, ou melhor dizendo fariam o impensável para continuarem a viver em paz. Mas no frigir dos ovos era uma guerra insana, e não uma guerra santa entre cristãos e muçulmanos. Algo latente, como pisar em campo minado. Daí cada tentativa delas era como abrir uma ferida antiga. Que para contornar mais confusões elas se metiam.

Não sei se foi algo proposital pela Nadine Labaki, como uma homenagem. Nem sei se o termo certo seria esse. É que uma importante parte desse filme, pelo menos a mim me levou a pensar no “Tartarugas Podem Voar“, com o jovem Satélite procurando um local com melhor recepção para a antena parabólica. Ambos os filmes denunciam a estupidez humana espalhando, e largando, minas terrestres.

e-agora-aonde-vamos_02Em “E Agora, Aonde Vamos?” ao sintonizarem o primeiro aparelho de televisão acabou trazendo a guerra para dentro daquela localidade. E justamente um dos muitos conflitos que os colocavam como grandes inimigos. Por sorte pela má recepção da tv a notícia fora breve, como também as mulheres estavam antenadas iniciando ali uma de fato guerra santa para manter a paz entre os homens da região. Elas foram para a frente de batalha, unidas, rompendo até os conflitos interiores na tentativa de também dar um basta em tantas mortes de uma guerra que nem a eles pertencia. A bem da verdade as guerras interessam mesmo as indústrias bélicas.

e-agora-aonde-vamos_04Há momentos ternos que dói na alma. Em ser desumano não poder chorar a perda de um ente querido. Alguém que ousava sair daquelas cercanias para trazer um pouco de modernidade para os moradores locais. Mas no geral acompanhamos com sorriso no rosto e numa torcida por todas elas. Pois sem tempo hábil para pesar os prós e os contras, a cada virada do destino elas seguiam em frente. Nada as detinha. Será mesmo? Já que o título do filme meio que entrega. Voltando então a reflexão inicial pela busca do caminho para que todos os povos vivam em paz. Esse pequeno microcosmo perdido numa região do Líbano nos traz um.

Performances excelente. Fotografia ímpar. Trilha Sonora como um grande coadjuvante. Mais um filme que coloca Nadine Labaki entre os grandes Diretores. Um filme para ver e rever. Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

E Agora, Aonde Vamos? (Et Maintenant on Va Où?. 2011). Líbano. Diretora: Nadine Labaki. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 110 minutos. Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos.

As Aventuras de Pi ( Life of Pi. 2012)

93853_gal“As Aventuras de Pi” começa de uma forma bastaste interessante ao explorar a infância da personagem principal, em torno da fé, de uma filosofia de vida focada em elementos do hinduísmo, cristianismo e islamismo. Essencialmente, Pi quer “conhecer” Deus, em diferentes religiões para criar sua própria iteração.

Quando o filme explora as dificuldades de Pi atravessando o Pacífico em um barco salva-vidas, lidando com uma zebra, uma hiena, um orangotango e o devorador tigre, Richard Park, eu fiquei me perguntando para onde essa história iria me levar, simplesmente depois do inicio bastante cativante.

Não li o livro de Yann Martel, mas creio que as aventuras de Pi no Pacífico, são apenas dramatizadas no livro-, e Ang Lee tinha que mostrar em vez de apenas dizer. Então, temos as cenas modernas no Canada, as quais não prejudicam o fluxo da narrativa, mas também não ajudam em nada! Ao me deparar com o Pi de meia idade ( um Irrfan Khan com cara de carneiro morto a paulada), narrando a sua história para um escritor canadense (Rafe Spall), tive a certeza que ele sobreviveu ao seu calvário – e, se matou ou não o tigre, não me bateu nenhuma curiosidade!

Sobre a relação de Pi com Richard Parker,  o que gostei mesmo foi o fato que o tigre não se humanizar: Ele continua a ser um predador, e só se torna “amigo” na mente do jovem Pi (linda interpretação do desconhecido, Suraj Sharma). Os efeitos especiais são nada menos que incríveis– em nenhum momento, pensei que o tigre era apenas um animal feito pelo CGI. A beleza plastica desse filme vai além de palavras – lindo trabalho de fotografia de Claudio Miranda e, Mychael Danna escreveu uma trilha sonora sublime!!93852_gal

“As Aventuras de Pi” é um filme difícil, porque mesmo ilustrando uma aventura incomum, a mesma não é emocionante, e também quase nada acontece em termos de ação. O final é fraco (não desastroso, mas decepcionante ), principalmente porque o conteúdo é pouco para tanta beleza.

Nota 5/ 10

Tiranossauro (Tyrannosaur. 2011)

Por: Celo Silva.

Certos filmes mexem tanto com o íntimo do espectador que fica difícil traçar um panorama sobre ele, talvez por temer não conseguir ter propriedade para expressar os reais sentimentos que sente pela obra. “Tiranossauro” flerta com elementos de dramas tradicionais, mas assim não deve ser considerado. Transcende um alinhamento clássico, apostando em certa ousadia na hora de tratar de assuntos difíceis e delicados de maneira pouco usual. Aqui, os personagens não são rasos como na maioria dos dramas atuais. Por isso, talvez, cada vez mais esses tipos de obras vem sendo apontadas como independentes. Entende-se por “filme independente” aquele que foge de propostas comerciais da indústria cinematográfica, valendo-se da expressão artística de seu realizador. Bem, se a última sentença é fato, é inevitável não dizer que o excelente Tiranossauro seja um filme que se enquadre nessa alcunha.

Até pelo caráter de estréia na direção de longas do ator inglês Paddy Considine, fica difícil não afirmar o seu trabalho como indie, mas mesmo para um tipo de realização da onde tem surgido com freqüência bons exemplares de cinema, Considine consegue fazer um filme muito acima da média. Daqueles que crescem na memória afetiva de quem tem o prazer de apreciá-lo. Como é o seu primeiro filme, o qual também roteiriza, não dá para afirmar assim um estilo totalmente autoral para o cinema de Considine, mas empolga perceber que um bom diretor está se formando.

A trama de Tiranossauro gira em torno de Joseph (Peter Mulan), um agressivo homem que vive de apostas em jogos, de bebedeira e confusões na vizinhança. Um dia desses, ele conhece Hannah (Olívia Colman), uma mulher dona de um brechó que o ajuda após uma incursão em sua rotina auto-destrutiva. Apesar de aparentemente diferentes, um disfuncional vinculo entre eles se forma. Os dois parecem ser bem opostos, mas tem algo em comum. Talvez seja a amargura, a decepção, a ausência de perspectivas ou mesmo a falta de amparo e amor.

Porém, mesmo com suas possivelmente nuances que poderiam conduzir para cenas climáticas que enobreceriam de forma edificante os personagens, não esperem de Tiranossauro algo altamente nobre. Sim, existe nobreza nos personagens, mas ela surge de uma maneira transviada, baseada em alguma esperança de que tudo pode ser diferente; até ingênua, como em certo momento Joseph cita na explanação do porque do titulo atípico do filme.

Tiranossauro é daquelas obras que fazem o sangue fervilhar de tantas situações limites, até porque a maioria delas pode surgir na vida de qualquer um. A raiva e tristeza estão presentes em quase todos os momentos, mas Considine não preza por elucidar beleza desses fatos. A intenção é ser o mais cru e cruel possível, fazendo o espectador sentir na pele o que Joseph e Hannah estão passando. Joseph não lida bem com a doença terminal de seu melhor amigo, Hannah sofre com a perversidade do marido. Joseph tem que lidar com as injustiças cometidas contra um garoto que é seu vizinho, Hannah tem medo até de voltar para a casa. Eles amarguram e padecem, e muito, é verdade, mas são daqueles que não se refutam a tomar atitudes, mesmo que extremistas, mas nesses atos, acabam cada vez mais por se aproximarem um do outro.

O trabalho de direção de Considine deve ser mesmo louvado, Tiranossauro também tem seus bonitos travellings, além de editar com naturalidade seqüências tensas e violentas com outras puramente sentimentais, cheias de angustias e aflições. Exemplo claro disso é na explosiva cena que culmina com Hannah implorando para que Joseph a abrace. Verdade seja dita, as atuações de Peter Mulan e Olívia Colman são algo fora do comum. Os dois atores estão soberbos defendendo seus personagens e são a força motriz para que essa maravilhosa obra engrene e ganhe força, fazendo o espectador terminar a sessão com a boca seca e a pulsação acelerada.

Tiranossauro é o tipo de filme que precisa ser visto, porque cinema também serve para representar e discutir a alma do ser humano, mesmo sendo em suas falhas e temores, e como sempre procuramos por um recomeço.