As Montanhas se Separam (2015). Numa Promessa de uma Vida Melhor

as-montanhas-se-separam_2015_cartazPor Christine Marote.
Assisti o filme “As Montanhas se Separam”, do diretor chinês Jia Zhang-ke, e resolvi dividir com vocês, por alguns motivos. O filme é em mandarim, legendado em português. E sempre se fala que uma boa maneira de se aprender uma outra língua é assistindo filmes… Isso é fato. Mas nunca me atrevi a assistir um filme em mandarim desde que comecei a aprender essa língua. Achava que nunca iria entender nada, que ficaria perdida. Ok, também morando na China nunca havia encontrado um filme com legenda em português. Mas o fato é que fiquei super empolgada em reconhecer as palavras e expressões da fala cotidiana. Como usam expressões que eu achava que só servia para uma situação, e percebi que não. E faz todo sentido. Muito legal.

as-montanhas-se-separam_2015_02“As Montanhas se Separam” retrata a China do começo do século 21. Ele começa na virada do século, e algumas cenas que vi, me lembrou muito algumas situações que presenciamos em Chang Chun, quando chegamos na China em 2004. Até porque ele é rodado no interior do país, o que mostra uma outra realidade, bem diferente de Shanghai, mesmo naquela época.

A abertura econômica e as possibilidades que se abriram para o enriquecimento da população, ou não. As consequências que esse dinheiro, que chegou muito rápido, trouxe para as pessoas e a sociedade chinesa. Bem interessante.

Ele está em todos os cinemas do Brasil! Essa é a melhor parte, né? Estou falando de um filme que todos terão acesso. Não esperem uma produção hollywoodiana, mas um filme cativante e bem interessante sobre uma sociedade, que apesar de estar na mídia mundial, poucos conhecem de perto.

as-montanhas-se-separam_2015_01Um resumo de “As Montanhas se Separam”: Uma história narrada em três períodos: 1999, 2014 e 2025. Começando pela China em 1999. A professora Tao (Zhao Tao) é cobiçada pelos seus dois amigos de infância, Zang (Zhang Yi) e Lianzi. Zang (Jing Dong Liang) é proprietário de um posto de gasolina e tem um futuro promissor, enquanto Liang trabalha em uma mina de carvão. No coração dos dois homens, Tao terá de fazer uma escolha que determinará o seu destino e o futuro de seu filho, Dollar. Zhang, com espírito empreendedor capitalista, vai se tornar dono da mina em que Liangzi trabalha e, assim, o confronto amoroso se espelha e se reflete no confronto da China moderna, entre trabalho e capital, que põe em xeque a própria identidade do país.

Tempo depois, entre uma China em profunda mutação e uma Austrália com a promessa de uma vida melhor, esperanças, amores e desilusões, esses personagens irão encontrar os seus caminhos.

As Montanhas se Separam (Shan he gu ren. 2015).
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Alice Através do Espelho (2016). O Tempo Salva a Continuação…

alice-atraves-do-espelho_2016_posterPor: Beathriz.
Alice Através do Espelho” é um filme fantasia inspirado na obra de Lewis Carroll, claro. Que não foi dirigido por Tim Burton, mas por James Bobin. Como sequencia do primeiro filme de Alice no Pais das Maravilhas.

alice-atraves-do-espelho_2016_04O filme se passa anos depois do desfecho do primeiro, com Alice (Mia Wasikowska) na carreira náutica. Sendo capitã do navio de seu pai. Ela é ótima no que faz, porém em meio a desavenças com sua mãe entre o que quer fazer e o que uma mulher tem de fazer. Ela está a beira de perder o Wonder, o navio. E é ai que ela vai para o Pais das Maravilhas, porque o Chapeleiro, interpretado por Johnny Depp, está com problemas.

Então é ai que está o problema. Eu sou uma fã de Alice, gostei do primeiro filme. Mas esse filme não consegui engolir. A historia é toda cheia de remendos, você não vê uma motivação real, algo realmente especial. São pequenas coisas que juntaram para tentar fazer um enredo de um filme grande. Não deu certo. Todos os pontos no enredo foram mal utilizadas, com exceção na volta ao tempo, que fez sentido e foi bem explicada. Colocaram um pouco de empoderamento feminino, relação de família, questões de manicômio, romance e independência na história fora dos pais das maravilhas. Mas tudo isso foi muito jogado, como forma de fazer uma média para o publico.

Ah, vocês gostam de Alice doidona? Toma uma cena dela no manicômio pra ficarem felizes!

alice-atraves-do-espelho_2016_02Faltou historia! As obras de Alice tem várias referencias, é tanta loucura e pequena referencia nos livros que você tem liberdade para seguir para qualquer lugar. Então eu não fico chateada quando não seguem a risca. Mas simplesmente eu vi uma tentativa de fazer dinheiro bem bonita, não vi um filme com história.

Existem algumas referencias aos livros: o espelho, o Humpy Dumpy, o tabuleiro de xadrez, o Tempo amalçoando a hora do chá. Mas poderiam ter colocado todos os personagens originais que ainda não ia conseguir salvar o enredo pobre que foi utilizado.

Alice cresceu, gostei mais da atuação de Mia nesse filme. No anterior ela parece bem perdida em como proceder. Aqui ela está mais familiarizada, porem continua sem muito tempero. A Rainha Vermelha, interpretada pela Helena Bonham Carter, está engraçada e eu gostei dela. Gostei da relação dela com a Mirana, Anne Hathaway, apesar de achar um pouco forçado demais. Mas enquanto Iracebeth está com média, Mirana está com notas vermelhas. Sua atuação assim como do Chapeleiro está extremamente forçada. Quase que caricata.

alice-atraves-do-espelho_2016_03Então temos o Chapeleiro e sua motivação mais sem pé nem cabeça. Ele está triste porque acha que sua família ta viva, e fica tão triste que quase morre. Sério mesmo? A atuação de Johnny Depp está muito robótica, chega a ser bem ridículo. A maquiagem que colocaram na cara dele foi tanta que você perde uns bons 5 segundo tentando encontrar uma pessoa por trás de tanta base. E quando vemos sua família, surpresa, parece que adotaram o pobre Tarrant (Que descobrimos ser o nome dele) de tão diferentes. São pessoas normais e comuns, o que foi muito decepcionante.

E é ai que poderiam ter buscado inspiração nas obras originais, nos livros, o chapeleiro só é louco em referencia aos chapeleiros da época de Lewis que usavam uma substancia que os deixavam doidos. Eu queria uma família toda de chapeleiros doidos.

alice-atraves-do-espelho_2016_05O destaque maior, foi o Tempo. Que sempre foi citado, porém nunca mostrado. Todos sabemos que Tempo sempre foi tratado quase que como uma pessoa nas obras. E aqui ele ganha forma e é interpretado por Sacha Baron Cohen. Ele tem personalidade, motivação e camadas de profundidade. Tem horas no filme que você gosta mais dele do que de Alice, que você torce para ele. Ele é misterioso, e você não sabe logo de cara se é do bem ou do mal. Mas sabe que ele é muito importante para o universo das maravilhas. Quase que um Deus.

alice-atraves-do-espelho_2016_01O filme esteticamente é lindo, você fica estasiado com cada cenário e animação. Com destaque para o castelo do Tempo, que é realmente deslumbrante e a casa da Rainha Vermelha. O 3D é realmente de fazer os olhos brilharem. Eu até vi referencia do jogo que tanto amo, Alice Madness Return.

Mas como forma de desfecho de tudo isso que poderia ser bom mas não foi, o final é tão clichê que você sabia. Se pausassem o filme no cinema e perguntassem, “Então Beatriz o que você acha que acontece?” Eu narraria o fim do filme sem saber.

Então entramos na questão, filmes infantis não precisam ser retardados para atraírem sue público! Eu pensei que nesse século a gente já tinha combinado que é muito ruim subestimar a capacidade de nossas crianças. E de nós mesmos, pois todo mundo sabe que não é só criança que assiste Alice. (Inclusive, não vi uma criança na sessão que eu fui.)

criancasVivemos num mundo de Divertida Mente, ToyStory e Shrek. Eu sinto ódio quando para explicar um filme fantasia rum dizem “é para crianças”. Gente, mas isso não pode, eu sou uma eterna criança e estou aqui pra dizer que isso não é desculpa. As crianças gostam de coisinhas meio bestas sim, mas isso não segura nenhum filme. A gente precisa de história, e existem sim ótimos roteiristas prontos para dar uma historia fantástica para adultos e crianças com leveza e carga critica.

No fim eu aconselho você a assistir depois, sem gastar muito. No final de tudo senti que aconteceu um amaldiçoamento dos roteiristas para o filme. O que é um pecado, poderiam ter feito isso com qualquer filme mais superficial, que não tem o que explorar. Mas não com Alice.

Alice Através do Espelho (Alice Through the Looking Glass. 2016)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

45 Anos (2015). Às Vésperas das Bodas, Velhos e Novos Fantasmas…

45-anos_2015_poster45-Anos_2015_01Por: Valéria Miguez (LELLA).
Na semana que antecede a grande festa para comemorar os 45 anos de casados uma carta traz um antigo fantasma de volta para o marido, mas que vem com uma cara nova para a esposa. É que o teor da carta o deixa abalado e o que por sua vez coloca dúvidas na cabeça dela. Onde uma delas seria: se ela foi, é e ainda será importante para ele… Assim, acompanhamos nós o passar a limpo os 45 anos de vida conjugal de Kate (Charlotte Rampling) e Geoff Mercer (Tom Courtenay).

Até então o casal passavam os dias numa rotina um tanto quanto sem grandes emoções principalmente para Geoff que talvez já entregue à doença… Ou a uma rabugice que o afastava das pessoas… De qualquer forma a saúde de Geoff fez Kate a não comemorar as bodas de quarenta anos, como por sua vez a levou a não esperar a de cinquenta receosa de que ele não chegaria até lá. Morando numa vila rural Kate pelo contrário esbanjava saúde física. Saia todas as manhãs para caminhar acompanhada pelo cachorro Max. Depois entrava na rotina de dona de casa. Geoff por sua vez era quase um dormir e ler. Até que ele quebra sua rotina com a tentativa de consertar a válvula da descarga e se fere… Seria um sinal que se não tomasse cuidado uma ferida muito maior marcaria esses 45 anos da vida do casal?

Tem dias que a gente se sente / Como quem partiu ou morreu / A gente estancou de repente / Ou foi o mundo então que cresceu / A gente quer ter voz ativa / No nosso destino mandar / Mas eis que chega a roda-viva / E carrega o destino pra lá.”

Pois é, como bem disse essa música… Eis que chega uma carta colocando também em xeque os sentimentos mútuos do casal… Para Geoff, ao longo dessa semana, tudo vem à tona: inclusive um sentimento de culpa por uma raiva sentida momentos antes da tragédia… De um período o qual Kate nem fazia parte de sua vida… De um período onde a juventude o levava a não criar raízes… Ou pelo menos era o que ele pensava… Por tudo o que ele guardara no sótão da casa – fotografias, slides, diário de bordo… – mostravam que ele quis sim criar raízes naquela fase “andarilha”… Registros esses até então desconhecidos para Kate…

45-Anos_2015_02Entre perplexidade e até uma dose de ciúmes… Kate lhe pede que ele pelo menos lhe dê as Bodas de 45 Anos! Que pelo menos compareça e não deixe que ninguém perceba o drama que estão vivenciando. Assim, ela segue com os preparativos da festa… Afinal, até então viveram juntos por décadas… Encerrariam ali essa história ou mais um capítulo dela?

O Diretor Andrew Haigh, que também assina o Roteiro, contou e bem essa história! (Baseada no conto “In Another Country” de David Constantine.) Sem pressa vamos acompanhando as angústias do casal até o final já na tal festa de 45 Anos. Algumas vezes com brilhos nos olhos, noutras com sorriso face a face, mas mais em escutar, ver, tentar perceber o que se passa no interior de Kate e Geoff, sem pressa, sem julgamento… E até numa torcida por eles personagens defendidos tão bem por Charlotte Rampling e Tom Courtenay! Eles estão de fato ótimos! Num filme Nota 10! Até por trazer uma história de pessoas com mais idade! Assistam e confiram!

45 Anos (45 Years. 2015)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

LOVE (2015). Pôr um Ponto Final na Relação Significa o Fim do AMOR?

love-3d_filmegaspar-noe_cineastaPor: Karenina Rostov.
[Contêm revelações sobre o enredo.] [E o filme contêm cenas de sexo explícito.]

Era uma vez um diretor de cinema argentino chamado Gaspar Noé que resolveu nascer novamente para contar a história de AMOR, segundo o seu entendimento, entre seu pai Murphy e a namorada dele Elektra. Uma história instigante e complexa.

Gaspar nasceu por obra do acaso. Seu pai Murphy e a namorada Elektra acabaram envolvendo uma terceira pessoa: a jovem Omi. E no encontro íntimo do trio acidentalmente a convidada acabou engravidando. Consequência essa que acabou dando novo rumo a vida de cada um deles. Mudando planos, projetos e provavelmente possíveis sonhos. Foi assim que se deu a reviravolta ‘no LOVE’ e a jovem convidada tornou-se mãe, aos dezessete, por acaso, de Gaspar.

love_2015_01Murphy, um jovem diretor de cinema. Elektra, uma artista plástica linda, atraente tal qual a Elektra da mitologia grega. Muitos autores falaram sobre ela… e Eurípides deu um tratamento especial transformando-a em divindade. Enxergando em Elektra uma mulher amargurada e impulsiva, levada mais pela fúria do que pela maldade… A impressão que dá é que Gaspar Noé parece sentir muita admiração pelo mito Elektra. A formosura, a força e por ela ser como pólos divergentes: boa e má; desajustada e correta; que ama compulsivamente e odeia ao extremo; sendo como o fim e o começo. Afinidade e identificação.

love_2015_02LOVE é praticamente contada através da linguagem corporal, um ensaio fotográfico, ou uma peça teatral, e no palco três personagens se digladiando entre o tato, olfato, felação e a suficiência da linguagem não-verbal, não dando lugar ao tabu, pré-conceitos, ou julgamento de valor e nem para as palavras propriamente ditas pois poderiam quebrar o feitiço que o casal buscava nas relações ardentes mais de volúpia do que de encanto.

Gaspar, agora com dois aninhos de idade é acordado pelo celular de seu pai, enquanto que no quarto ao lado Murphy e Omi estavam em seu momento íntimo de amor, embriagados de sexo muito antes do amanhecer. Insistentemente chama o pai. E só assim Murphy atende àquela ligação. A partir daí o pequeno Gaspar sai de cena e todo o desenrolar da história, então em flashback, é focada nos acontecimentos de dois anos atrás. Murphy se vê mergulhado nas lembranças com a amada Elektra.

love_2015_03A chamada era da mãe de sua ex-namorada Elektra. Entra em cena todo aquele seu passado ardente. Pouco mais de dois anos se passaram e Murphy, agora aparentemente sossegado, outra pessoa, outra vida, família formada, pai e marido, trabalho, contas a pagar, compras, lazer… rotina. E agora quem fazia parte do trio é ele, a sua atual companheira e o bendito fruto dessa relação, o Gasparzinho. Rs!

Na chamada recebida, a mãe de Elektra, disse-lhe que a filha sumiu do mapa já há algum tempo e que ela estava muito preocupada, porque Elektra passou a sofrer de depressão e a ter tendências suicidas.

love_2015_04Parece que Murphy arquivou aquela sua história de amor e tocou sua vida dando novo rumo a ela. E aquele LOVE que dizia sentir por Elektra, o que poderia ter acontecido? Simplesmente desapareceu? Acabou quando ela ficou sabendo que a jovem vizinha engravidou de seu amado? Murphy só voltou a pensar na sua ex-namorada depois da ligação da mãe dela. O amor entre o casal acabou? Ou como diria um poeta foi eterno enquanto durou? Ou só estava adormecido?

Reza a lenda que, o corpo é o santuário da alma. E o sexo é o complemento do amor. Estão interligados corpo-alma-sexo-amor. E quem ama deveria jamais se descuidar.

love_2015_05Amor é mesmo uma caixinha de surpresas?! A culpa de não ter sobrevivido? Se existe nessa história um culpado, parece recair sobre a Elektra. A teoria literária investiu nessa crença de que a culpa é geralmente da fêmea e o autor quase sempre trata de matar o AMOR pondo um ponto final na vida dela, principalmente quando se trata de ligações perigosas, envolvendo mais de duas pessoas.

Sabe-se que em um relacionamento a três, há perdas e danos e certamente alguém acabará sobrando ou sofrendo as consequências.

Gaspar Noé usou e abusou de alguns clichês físicos para literalmente gozar na cara do espectador. O relacionamento emocional entre Elektra e Murphy, fora superficial? Tiveram bons momentos, se divertiram, eternizaram suas lembranças através de fotos, vídeos, pinturas, compartilharam anseios… até o momento em que um novo ser resolve nascer. Então se deu o corte do cordão umbilical de uma história que foi linda para começar do zero uma outra.

love_2015_06Afinal, quanto tempo mesmo dura uma paixão? Dizem que há um prazo de validade.

Gaspar Noé resolveu dar uma deixa ao estampar na parede de LOVE o cartaz do filme “Saló ou Os 120 dias de Sodoma”, de Pasolini, dando uma pista aos que testemunhariam o conto de fadas entre Murphy e Elektra, ou seria só um pré-texto?

Era de fato LOVE? Era AMOR? Ele só passou a pensar em Elektra dois anos depois.

Noé precisou nascer para trazer à tona uma história de amor dos tempos modernos. Onde tudo pode ser possível num relacionamento quando as pessoas envolvidas consentem. Elektra e Murphy tinham afinidades de sobra no quesito relacionamento sexual. Só que ele próprio confessou-se um conservador.

love_2015_07Talvez o filme seja condenado por pecar pelo excesso de tórridas cenas de sexo por mais de 90 minutos. Sexo, muitos gostam, mas ficam incomodados em testemunhar terceiros mostrando suas performances além de quatro paredes. Não seria hipocrisia? Afinal todo ser é resultado de sexo entre duas pessoas, e como diz um filósofo de botequim, “somos resultado de um orgasmo… ou uma gozada?

Bem, pôr um ponto final no relacionamento nem sempre significa por um ponto final no sentimento de AMOR. E Elektra em algum momento de LOVE pergunta a Murphy: “- O que significa AMOR? Você saberia responder?

LOVE (2015).
Ficha Técnica: na página no IMDb.

P.s: Essa é uma compilação de um texto bem mais longo. Para o ler na íntegra, clique aqui.

Anomalisa (2015). A Globalização Padronizando Comportamentos

Anomalisa_2015_cartazPor: Carlos Henry.
Charlie Kaufman é um roteirista de temas soturnos recheados de personagens de almas atormentadas e mentes confusas como em “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” e “Quero ser John Malkovich”. Em parceria com Duke Johnson criou mais um provável cult: A animação em stop motion com bonequinhos “Anomalisa”.

anomalisa_2015_cenaO personagem principal é o triste e quase frio Michael Stone que voa para Cincinnati para uma palestra como autor de livro de autoajuda. Curiosamente, todas as vozes e expressões das pessoas ao seu redor são as mesmas. Síndrome de Fregoli ou padronização de comportamento ditado pelo mundo? O filme não entrega, mas desfila situações típicas de uma globalização desenfreada embaladas num humor negro e sutil. A única que foge à regra de uniformidade é a simplória Lisa que a princípio arrebata o coração de Stone, tornando-se imediatamente diferenciada inclusive na voz para nortear o marasmo da monótona vida do autor.

As músicas Lakmé de Delibes e “Girls just wanna have fun” da Cindy Lauper pintam em cores pouco vibrantes a trama sombria e desconfortável que não é própria para menores. O enigmático título é uma aglutinação do nome da personagem de Lisa com a palavra brasileira anomalia, citada no livro de Stone como referência à suposta aberração de um país da América Latina que fala português. Ou seja, é um filme difícil, de reflexões incomuns no gênero, que poderia até ser considerado uma animação noir de indiscutível qualidade.

Casa Grande (2014). Até que Ponto Somos uma Democracia Racial?

casa-grande_2014_01Por: Eunice Bernal.

Todo brasileiro traz na alma e no corpo a sombra do indígena ou do negro.” (Gilberto Freyre)

O Cinema Brasileiro quando quer também sabe fazer bonito não deixando nada a desejar ao de outras nacionalidades, e de vez em quando nos brinda com um de tema excepcional e atual condizente aos anseios e desejos de nossa gente. O nacional do momento que destaco é CASA GRANDE, um drama, às avessas, com argumento e direção do jovem carioca Fellipe Barbosa que conta com Karen Sztajnbeg na elaboração do roteiro. Estiloso! Usou e abusou do formato simples de narrar, porém, com capricho, contando de uma forma inusitada um drama familiar real mesclando situações cotidianas desta sociedade.

O filme me chamou a atenção mais por um dos assuntos abordados na história, e que na época de sua implantação no país, gerou polêmica e a sociedade viu-se num impasse, dividida entre ser favorável ou não; seria benéfico ou daria dor de cabeça à população, e parece que até agora ninguém chegou a conclusão alguma, mesmo sabendo que se tornou lei e já vigorando tanto que muitos vieram a usufruir, porém, a questão ainda impera.

casa-grande_2014_02Casa Grande é baseado em fatos reais, na vida do próprio diretor do longa. Conta história de Jean, narrado em primeira pessoa, um adolescente de 17 anos, sua irmã Nathalie e seus pais Sonia e Hugo; família rica e feliz que, de repente, se encontra em séria dificuldade financeira decretando falência justamente no momento em que o filho mais precisa de atenção e apoio porque vai prestar concurso para ingressar na faculdade; fase de escolhas de carreira na vida do jovem brasileiro, momento único, curso preparatório, pré-vestibular, estresse, noites insones debruçados em livros pensando em rumos a seguir na vida que muitas vezes deixa essa fase da vida e a juventude insegura e por isso vale contar com apoio e compreensão dos entes queridos. O filme já nasceu grande de ideias, apesar de o diretor ser bem jovem, já traz na bagagem este seu primeiro ‘filho’ de dar inveja santa a colegas de profissão e aos mais experientes, pois o filme imediatamente conquistou alguns prêmios quando foi lançado em 2014. Sei lá, uma ideia que já passeava pelo país, e ele sortudo, se apropriou.

A família de Jean vive em uma mansão na Barra da Tijuca, um dos bairros considerados nobres da elite carioca; com piscina, carros na garagem, três empregados, enfim, uma vida, antes, financeiramente, digamos, confortável. O filho estuda no tradicional Colégio São Bento, uma das melhores escolas particulares do Rio de Janeiro referência em Educação e Conceito A no país. De repente, a história dessa família, muda radicalmente para o lado B da vida quando o patriarca começa a perder seus investimentos e bens, e por vergonha não revela isso aos filhos, amigos e vizinhos passando a viver de aparências. O filme é bem um reflexo da crise atual que o Brasil atravessa. A história é espelho da sociedade brasileira; talvez sirva apenas para esta nacionalidade por ser assunto mal resolvido deste país.

casa-grande_2014_03O motorista da família, um senhor de meia idade vindo da região nordeste do país era quem levava o rapaz todos os dias à escola e ia buscá-lo; davam-se bem, consideravam-se amigos, e no caminho, altos papos entre ambos; por causa da crise financeira que a sua família estava passando e por contenção de despesas, o motorista foi despedido e felizmente conseguiu outro emprego em seguida na Comunidade da Rocinha, próximo de onde ele vivia com a família. Rocinha está localizada na zona Sul no Rio, espremida entre o Leblon e São Conrado – caminho que divide a Zona Sul do RIO da Zona Oeste e Norte, e no enredo isso está explícito para mostrar como é composta a sociedade brasileira, (pobres e ricos) e como e onde se vive = casa grande X senzala = as raízes do Brasil Sudeste X Nordeste; os bairros são chamados em outras sociedades de distritos, e como distrito o país está dividido em abastados e miseráveis. Mas todos podem viver pacificamente na CASA GRANDE, o direito de ir e vir é igual para todo cidadão brasileiro, amparado perante lei, com os mesmos direitos (Bem, isso está claro na Constituição Federal). A Comunidade Rocinha (lembra um muro isolando tribos porque para ir de um lado a outro o caminho é esse, ou atravessando um túnel ou indo pelo elevado do Joá) ou os ricos dos pobres grifando as desigualdades sociais.

casa-grande_2014_04Sem motorista, Jean passou a ir à escola de ônibus e, graças a essa mudança radical em sua vida, conheceu na viagem uma garota – Luisa (Bruna Amaya) que estudava no Colégio Pedro II – também Educação de excelência e qualidade em Ensino, só que esta difere da outra por ser da rede pública Federal (Pedro II, apesar de ser Escola Pública, é considerado uma das melhores do Estado, comparado ao Colégio Militar e a algumas Escolas Particulares), e o casal passou a ter um relacionamento mais que amizade. A jovem embarcava no meio do caminho e descia no ponto da Rocinha. Começa aí para Jean descoberta de um sentimento novo e de amor, além da atração física e desejo que nutria por Rita, a empregada mais jovem de sua casa, e por isso suas as investidas constantes nas madrugadas para encontrá-la em seu quarto para ganhar sua confiança e carinho, e ela sempre arrumava jeito de lhe dar atenção, de ouvi-lo e conversas triviais e não passava disso e o desejo dele pela moça não passava do platônico até então.

A trama aborda assuntos relevantes e continuamente atuais; entre eles destaco dois:

livro_casa-grande-e-senzala_gilberto-freyrePrimeiro que me reportou imediatamente à obra Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre trazendo à tona algumas lembranças de QUEM SOMOS, e a formação sócio-econômico-político-cultural do povo brasileiro no contexto da miscigenação entre brancos, índios e negros; ricos e pobres, de oportunidades (des)iguais para todos; de escolhas entre estudar em escola particular ou pública; patrão e empregado; casarão x casebre ou melhor, Casa Grande e Senzala, além dos muros regionais, que, sutilmente, discrimina e divide o país. Não sei se Fellipe Barbosa fez de propósito apostando nesse título ou seria mera coincidência. Independentemente de qualquer motivo, ele fez a coisa certa e foi feliz na escolha tornando a obra aberta a tantas reflexões, principalmente no que tange a atual situação do país – e crise econômica não escolhe classe social. E Gilberto Freyre diz que “Casa Grande” é moradia de todos: do proprietário, escravos, parentes, filhos, esposa, amantes, padres, políticos cachorro e papagaio. O sociólogo diz que este domínio se estabeleceu incorporando tais elementos e não os excluindo. Ele também desmistifica a ideia de que no Brasil teria uma raça inferior devido à miscigenação. Antes, aponta para os elementos positivos da formação cultural brasileira, oriundos desta miscigenação entre culturas tão distintas, ou seja, o Brasil do ‘todos juntos e misturados’!

Quando fala em democracia racial, você tem que considerar que o problema de classe se mistura tanto ao problema de raça, ao problema de cultura, ao problema de educação. (…) Isolar os exemplos de democracia racial das suas circunstâncias políticas, educacionais, culturais e sociais, é quase impossível. (…). É muito difícil você encontrar no Brasil [negros] que tenham atingido [uma situação igual à dos brancos em certos aspectos…]. Por quê? Porque o erro é de base. Porque depois que o Brasil fez seu festivo e retórico 13 de maio, quem cuidou da educação do negro? Quem cuidou de integrar esse negro liberto à sociedade brasileira? A Igreja? Era inteiramente ausente. A República? Nada. A nova expressão de poder econômico do Brasil, que sucedia ao poder patriarcal agrário, e que era a urbana industrial? De modo algum. De forma que nós estamos hoje, com descendentes de negros marginalizados, por nós próprios. Marginalizados na sua condição social. […]. Não há pura democracia no Brasil, nem racial, nem social, nem política, mas, repito, aqui existe muito mais aproximação a uma democracia racial do que em qualquer outra parte do mundo. Gilberto Freire. Casa Grande & Senzala” foi publicado em 1933 e parece que foi hoje, não acha?

casa-grande-2014_02Em segundo lugar, destaco na obra do roteirista a abordagem da Lei de Cotas Raciais. O jovem leva Luisa à sua casa onde está acontecendo um churrasco, e lá estão alguns parentes e amigos da família. No meio da festa surge o assunto ENEM, Vestibular, Carreira e também a Lei de Cotas Raciais. A namorada de Jean muito eloquentemente começa a explanar sobre suas raízes, dizendo o porquê de suas características físicas. Diz que a mãe é mulata e o pai japonês. E daí começa a ‘discussão’ sobre Cotas Raciais para ingresso ao nível superior, perguntam se ela escolheria ou não se inscrever por meio de Cotas. Falar sobre Cotas Raciais é um assunto delicado e o brasileiro ainda não chegou a um denominador comum; difícil se situar e não alterar o tom de voz; uns sendo a favor e outros contra. E ninguém se entende. Um diz que Cotas é uma forma de preconceito que isso não é fator para medir intelecto de ninguém. Como em qualquer roda de conversa que o assunto surge sempre acontece de ter defensores e atacantes para as duas correntes – dos favoráveis à lei de Cotas e dos contrários. É claro que esse almoço na casa de Jean também não acabou bem.

A Lei de Cotas foi regulamentada em 2012, e promove diversas políticas públicas para os afrodescendentes visando criação de oportunidades e a igualdade racial. É atribuída 50% das vagas em instituições e Universidades Federais destinadas a estudantes egressos de escolas públicas e com renda familiar igual ou inferior a um salário mínimo e meio per capita, e a outra porcentagem de cota a critérios raciais (negros, pardos e indígenas). Ninguém também se entende quando a cota é para estudante de Escola Pública, pois Colégio de Aplicação, Pedro II, Fundação Osório e Colégio Militar são alguns dos Públicos de Educação de qualidade, e usar a lei de cotas para concorrer a uma vaga é tirar a chance de outros candidatos sem cotas conseguirem pontuação para ingressassem. Concorrência desleal? E voltando a citar Casa Grande & Senzala de Gilberto Freire, ele diz também o seguinte: Não é que inexista preconceito de raça ou de cor conjugado com o preconceito de classes sociais no Brasil. Existe. É verdade que a igualdade racial não se tornou absoluta com a abolição da escravidão. (…). Houve preconceito racial entre os brasileiros dos engenhos, houve uma distância social entre o senhor e o escravo, entre os brancos e os negros (…).

Se o brasileiro é um povo miscigenado, resultado de negro, branco, índio, vermelho, japonês, verde e amarelo, por que deveria existir uma política de cotas raciais? Os investimentos em educação no país estão cada vez mais precários que a condição de todo cidadão independentemente de raça se igualou. As pessoas que discordam das cotas raciais afirmam que ela é discriminatória e causa conflito racial. Em um país com grande diversidade racial, as dificuldades são encontradas no momento de decidir se uma pessoa é branca ou parda. Parece que a nação brasileira redescobriu o Brasil, deu volta ao mundo e parou no mesmo lugar.

casa-grande-2014_cartazO filme pretende ainda ser uma crítica à alta sociedade, como explica o próprio diretor: “Busco trazer perguntas nesse filme. Por que a gente deseja tanto? Qual a vantagem disso? Por que viver assim?Fellipe Barbosa. O direito de ir e de vir é lei. Um ponto alto do filme todos iguais, oportunidades iguais, direitos iguais. Casa Grande ou Senzala não faz diferença… Conclui-se que todos carregam no dna certo parentesco, a condição financeira pode ser o muro, abismo social, mas nada impede que se pule passando para o outro lado. É o que Jean fez indo à Senzala; é o que Severino fez indo à Casa Grande. E despido a diferença entre pobre e rico desaparece. O Poster do filme conclui essa ideia.

Como dizia um pensador “Entrar na Faculdade é muito fácil; difícil é sair” (com o canudo ele quis dizer). E acrescentava que infelizmente sempre haverá ricos e pobres. A riqueza pode ser do eu interior em potencial e se pode escolher ser rico assim ou pobre de espírito. No final das contas, conseguindo passar pela peneira, pelo funil ou pulando o muro, a luta será constante e indispensável para a vida que não costuma distribuir cotas para se chegar aos finalmentes, ou àquilo que se almeja conseguir para se chegar a algum lugar. “Até que ponto nós somos uma democracia racial?” Foi o que perguntou Lêda Rivas para Gilberto Freyre. Cabe a cada um tentar encontrar a resposta.

de Eunice Bernal.