O Maravilhoso Agora (The Spectacular Now. 2013).

the-spectacular-now_2013_filmePor Francisco Bandeira. (O texto contém spoiler.)
Um Estudo das Imprevisibilidades que Nos Cerca.

Já deixo avisado a todos que não se trata de um simples filmes sobre os adolescentes de hoje! Encare ‘The Spectacular Now‘ como um estudo de personagem cada dia mais presente em nossa sociedade: um jovem adolescente, com muitas perguntas jogadas ao vento, sem a mínima noção de como respondê-las, sofrendo pressão de amigos (as), namorada, da família, e na escola, com seus professores que, ao contrário do que a imaturidade nos faz pensar, querem realmente extrair o nosso melhor e nos preparar para as imprevisibilidades do inevitável futuro que nos cerca.

Dito isso, somos apresentados à Sutter Keely (Miles Teller), um jovem popular da escola que, após terminar o namoro com Cassidy (Brie Larson), sai para a noitada em busca de aventura, regada com muita bebida. Ao amanhecer, deitado no gramado, o jovem conhece a encantadora Aimee Finecky (Shailene Woodley), uma jovem estudiosa e apaixonada por ficção científica. A partir daí, os dois começam um inusitado relacionamento, passando a refletirem duramente sobre seus papéis na vida dos outros e na deles mesmos.

miles-teller_the-spectacular-now-2013Já no começo do longa-metragem, nos são jogadas uma enxurrada de questões sobre vida, amadurecimento e futuro. E o protagonista tenta de início, tenta responder tudo de uma só vez, nos mostrando sua vida até o momento. Numa sequência extremamente bem montada, somos jogados à rotina do adolescente, até o surgimento de forma fantástica do título: The Spectacular NOW. Apenas com isso, o diretor já nos mostra muito do personagem principal: um jovem que só pensa no agora, sem ligar para as consequências do amanhã, tratando o futuro como algo ameaçador à sua “plena felicidade”.

O grande mérito do filme é nunca subestimar nossa inteligência, revelando de maneira sutil alguns fatos sobre o personagem principal. Por exemplo, em determinada conversa com sua mãe, logo descobrimos que seus pais são separados e, ao ser comparado com o pai, Sutter tem uma reação negativa. Mas, logo à frente, descobriremos que o protagonista não ver seu pai a um longo tempo e não entende o motivo de sua mãe evitar esse encontro, sempre dando um tom de vilão ao homem no qual o jovem tem boas lembranças de sua infância. Ou seu alcoolismo, tratado de maneira irreverente por Ponsoldt (virando especialista no assunto) como uma brincadeira adolescente, sem sequer notarmos tal vício, passando quase despercebido, assim como seus problemas pessoais.

O elenco, extremamente promissor, conta com ótimas participações de Brie Larson (talvez uma das melhores atrizes dessa nova geração) como Cassidy, a ex-namorada confusa, em busca de garantir seu futuro e Mary Elizabeth Winstead, como a irmã bem resolvida do jovem, que mesmo com pouco tempo em cena, concebe um desempenho impressionante, digna de aplausos por seu alcance dramático. Já os veteranos Kyle Chandler e Jennifer Jason Leigh pontuam com correção seus trabalhos como os pais do protagonista. Mas é inegável que o longa-metragem encontra na dupla principal seu maior trunfo.

Milles Teller entrega uma das melhores atuações do ano, na pele de um jovem cheio de problemas, seja em casa (ausência do pai em sua formação), na escola (um aluno totalmente desinteressado em terminar os estudos) ou na vida amorosa (foi chutado por uma menina que ele gostou de verdade e ainda tenta manter laços com ela). O ator oferece um leque de nuances, que vai do garoto extrovertido ao debochado, passando pelo melancólico até o apaixonado, soando sempre convincente. Beneficiado por diálogos brilhantes, Sutter se transforma no perfeito representante de sua geração: egoísta, desinteressado, que procura ajudar os outros para preencher seu vazio existencial, sempre buscando, de forma inconsciente, uma retribuição involuntária, sendo o possível motivo para seguir em frente.

spectacular-now_filmeA grata surpresa fica por conta de Shailene Woodley, que vive Aimee Finecky com imensa simpatia e ternura, encarando tudo com um honesto sorriso em seu lindo rosto, totalmente desprovido de vaidade, mostrando a jovem como figura devota a mãe (entrega jornal, faz as compras, cuida do irmão menor, estuda) e que pensa até em abdicar de seus sonhos (ir para uma boa faculdade, morar em uma grande cidade), pois não pode deixá-la sozinha! Aqui, a jovem simboliza a esperança nessa nova geração, onde acreditamos na pureza de seu amor por Sutter e em sua doce inocência, e quando nos damos conta, já estamos encantados com sua personagem, torcendo sempre pelo seu melhor.

No terceiro ato, o roteiro nos brinda com cenas memoráveis, destacando-se a conversas altamente reveladoras entre o jovem e seu professor e posteriormente com seu chefe, onde sem sutilezas, o adolescente se abre sem medo, rendendo momentos de verdadeiro impacto! A película ainda dá espaço para um belo simbolismo: quando tudo parece estar indo ladeira abaixo, onde Sutter se afunda de vez na bebida, o diretor foca no carro do protagonista, voltando para casa, mostrando o pneu caminhando sobre a linha, mostrando de forma absolutamente perfeita a situação que vive o rapaz. Um verdadeiro achado no cenário adolescente atual. Assim como seu desfecho, simplesmente corajoso, mostrando o total comprometimento de Ponsoldt em retratar de forma honesta esse período nada fácil, mas muito prazeroso em nossas vidas.

Melancólico, trágico e até poético, “The Spectacular Now” pode não ser um grande exercício cinematográfico, mas é, sem sombra de dúvidas, um filme essencial para sua geração, pois mostra algo que poucos jovens compreendem atualmente: o agora é realmente espetacular, mas nunca podemos descartar a hipótese de nos surpreendermos com as incertezas da vida, afinal, quem sabe o que pode acontecer? Final feliz ou não, nunca saberemos responder determinadas perguntas se deixarmos as oportunidades passarem diante de nossos olhos sem fazermos parte delas, pois VIVER O MOMENTO pode se transformar numa experiência interminável e devastadora, ao percebermos que já é tarde demais para se construir o futuro.

Avaliação: 8,5.

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Namorados Para Sempre (Blue Valentine. 2010)

Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?

Crises conjugais é algo bem recorrente também fora do mundo da ficção. Mas que cada caso é um caso mesmo nos filmes. O que até sem querer nos leva a pensar em outras estórias interligando-as enquanto se assiste um novo filme. E numa expectativa de que esse trará um diferencial. Nesse uma gravidez interrompe os sonhos de uma jovem por uma carreira. E algo não bem resolvido internamente, chega um dia que virá a tona.

Em “Namorados Para Sempre” a primeira observação recai nos títulos: o dado no Brasil e o original. O escolhido aqui – namorados para sempre -, traduz o desejo de grande parte dos casais: o de manter esse clima no dia-a-dia e por muito anos. Até porque a explosão da paixão tende a esfriar com o tempo. Ele também mostra que esse sentimento fica em alguns casais. Que só mesmo a morte física de um dos cônjuges é que põe fim a uma relação a dois construída com muito carinho ao longo do tempo.

No filme, o Dia dos Namorados, o “Valentine Day” para os norte-americanos pontua duas fases para o casal. Uma, onde ela o apresenta aos seus pais. Onde ele fica conhecendo o clima da casa onde ela vivia. O que vai pesar também como um: casar para sair logo dali. Essa fase ficamos conhecendo por flashbacks. Já que a estória começa às véspera dessa data, mas já com alguns anos de casados. O “Blue” do título original denota a noite. Período meio romântico para se namorar. Também por mostrar uma noite bem especial quando de fato se conheceram. Esse blue também significa a cor predominante do quarto do motel onde foram tentar resgatar o antigo clima do início de namoro. Pelo menos era a intenção de um deles.

A grande pergunta que fica é: O que leva essa sensação/sentimento apagar, e a ponto de se pensar numa separação? Quando há relacionamentos que duram anos, superam momentos de crises, e que só a morte de um deles é que põe fim na relação.

O casal do filme estão vivendo a primeira crise. Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams) caíram numa rotina que deixou um deles impaciente. Para Cindy era como perguntasse a si mesma como sair, e agora não mais da casa dos pais, mas sim da sua. Uma gravidez não planejada precipitara o casamento. Muito mais do que uma paixão por Dean. E ele era o oposto de seu pai. Gentil. Sem ambição. A amava e a respeitava. Nem quis saber de um teste de Dna: amou a ideia de ser pai; amava a filha. Vivia satisfeito com a vida.

Mas Dean percebeu a insatisfação da mulher. Que o levou a reservar um quarto num motel. Achando que longe da casa e das obrigações com a filha conseguiriam reacender a antiga chama. Acontece que no caminho, quando Cindy foi comprar bebidas e algo para comerem, ela encontra com um antigo namorado. Esse sim libera toda a sua libido. A ponto de Dean notar a diferença. E ai, o que antes seria uma noite de amor, termina por também lavarem a roupa suja noite a dentro.

E qual seria o amanhecer desse casal? Como fica uma relação onde para um está tudo bem, enquanto para o outro não? Se a gravidez os levaram a constituir uma família, que peso a filha teria agora? Embora cada caso é um caso, ver um discutir a relação na ficção pode levar a reflexões um casal em crise na vida real.

O filme é muito bom! Os atores estão em sintonia. A Trilha Sonora é ótima. Mas não me deixou vontade de rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Namorados Para Sempre (Blue Valentine. 2010). EUA. Direção: Derek Cianfrance. +Elenco. Gênero: Drama, Romance. Duração: 112 minutos.

A Mulher sem Piano (La Mujer sin Piano. 2009)

Assisti ao filme A Mulher sem Piano no Festival do Rio deste ano do diretor espanhol Javier Rebollo produzido em 2009 e achei algumas passagens bem interessantes e instigantes, recheado de citações e originalidade que, para não passar em branco ou cair no esquecimento, resolvi registrar aqui.

A estranheza começa pelo título A Mulher sem Piano (?), penso que há duas possibilidades de entendimento:  1º – Pode ser uma expressão idiomática, daí somente o nativo dessa nação para explicar o seu significado; 2º – A outra possibilidade  seria interpretando a história da própria  protagonista A MULHER do título e a razão dela não possuir um instrumento musical desse porte: imenso e pesado, sendo necessário mais de uma pessoa para transportá-lo. O que pode representar essa figura de linguagem? O árduo trabalho de se Carregar um piano nas costas ou a outra expressão Matar um leão por dia, seria a luta pela sobrevivência nessa selva, refere-se a todo e qualquer sacrifício diário de todo mortal, a luta constante para resolver os problemas, a cruz de cada um,  o fardo, incessante da labuta e dos afazeres por mais simples que seja.

Conta a história de Rosa (Carmen Machi), casada, independente, dona de seu próprio negócio, um filho casado de uns trinta anos. A vida de Rosa digamos, é um mar de rosas pelo fato de ser uma eterna rotina: vive para a casa, o trabalho e para o marido. Só que a sua vida tornou-se reprise do filme de sua própria história enfadonho, roteiro enjoado que perdura por trinta anos. Pela sinopse, não chamaria a atenção nem do cinéfilo eclético, pois a princípio parece idiota. A rotina de uma dona-de-casa, a quem interessaria? Só que a sinopse às vezes engana. Este filme, garanto, tem altas doses de originalidade.

A primeira cena, apresentação das personagens, acontece dentro do carro de seu marido e quase não há diálogo, ou melhor, depois de trinta anos de casamento, já não existe comunicação verbal  muito menos contato físico. Eles despedem-se friamente e cada um segue o seu rumo.

A outra locação é a residência do casal, onde Rosa, mulher de meia idade, comum, realiza sua dupla jornada, seus afazeres domésticos, cuidar do marido, da casa, lavar, passar cozinhar, preparar o café, fazer faxina, atender às suas clientes que funciona em um recinto da sua própria residência, uma clínica de tratamento de beleza, jantar, assistir a um pouco de televisão e por fim dormir. A sua vida é uma eterna rotina. Com o marido não há mais diálogo. Às vezes, ela em sua intimidade pratica o tal ‘amor solitário’. Falam somente o básico. Agem como se fossem dois estranhos vivendo sob o mesmo teto.   A história tem duração não mais que um dia. Nada de novo acontece na vida dessa mulher sem piano que já não sorri para a vida, e nem se acha uma pessoa interessante. A mesmice é sua companheira inseparável.

Após se despedir do marido, Rosa vai aos correios para retirar uma encomenda. Entrega à funcionária o aviso de retirada juntamente com seu documento de identidade, e a funcionária dos correios a faz assinar o papel de recebimento da mesma, e volta com um pacote prontamente para lhe entregar. Confere a assinatura com a da identidade e, depois de examiná-lo cuidadosamente, diz que é impossível lhe entregar o pacote porque o seu RG está já há três anos vencido. Rosa fica incrédula pelo que acaba de ouvir e retruca dizendo tratar-se da própria, para que conferisse novamente a foto com ela e de que já havia assinado a guia de recebimento. A funcionária séria e secamente lhe responde que não poderá lhe entregar e pega o pacote e leva-o de volta para guardar. Rosa fica pensativa e sem entender. Nada mais a fazer volta para casa desanimada sem a sua encomenda.

E aí, querido expectador? Você não gostaria de saber o conteúdo desse pacote, assim como eu? Fiquei curiosa, já que o mesmo não nos foi revelado. O que será que Rosa queria a todo custo retirar nesse dia? O que ela comprou?  Chegou a perguntar até que horas era o atendimento nesse estabelecimento.  Mas quem tem a imaginação fértil… Rosa volta para casa arrasada… cuida do almoço da faxina, vai ao seu consultório anexo ao lar, o telefone toca, vai atender, o interlocutor é um velho conhecido nosso, o vendedor  telemarketing, a chatice rotineira descartável. Rosa, sem piano, sem pena, sem plano sem pestanejar, desligou.  A Rosa definhava, morria a cada dia, cansada, apática, da eterna repetição, da rotina, nem as ligações ao marido era novidade. Resolve ligar infinitamente nesse dia, também ao filho.

Outra coisa instigante que acontece na locação é um quadro na parede, uma pintura pendurada sobre a cabeceira de seu aposento, que chama muito a atenção e instiga nossa imaginação por ser uma pintura incomum, sombria, escura, e principalmente para um quarto do casal, representando um caçador a cavalo, um lobo morto por ele e ainda há  três vivos, os rodeando, mas tem apenas duas flechas e mais alguns cães. O marido ao se levantar sempre olhava o quadro; já Rosa, como parecia não gostar, resolveu retirá-lo de cena, e o guardou em algum canto da casa.

A noite cai. O marido não janta. A mulher olha a comida que preparou com carinho e ninguém a tocou, indo tudo para o lixo.  Antes de irem dormir assistem juntos a um pouco de televisão que nada tem de interessante; ela faz um passeio pelos canais procurando algo, eles agem como dois estranhos, um mantendo a distância física e emocional do outro, o único som que se ouve é o que vem do aparelho. Até que ele resolve ir para a cama e ela fica um pouco mais. Rosa desliga  a tevê, vai ao banheiro, se arruma coloca uma peruca talvez na tentativa de se tornar naquele momento uma outra pessoa, pega uma mala e sem avisar o companheiro, parte. Qual seria o objetivo? Fugir daquela situação? Começar de novo? Durante bastante tempo ela vaga pelas ruas de Madrid. Vai para a rodoviária, dirige-se a um guichê a fim de comprar uma passagem, sem destino. Em vão. É informada pelo funcionário que acabou de fechar e que só reabrirá no dia seguinte às sete da matina. Desanimada, ela vai procurar um canto para descansar. Observa as pessoas ao redor. Faz algumas ligações, mas do outro lado da linha ninguém atende. Observa atentamente um rapaz que está sentado a sua frente e é também observada por ele. Um celular toca. É do rapaz, mas ela pensa que é seu porque tem o mesmo toque. Eles começam a conversar a partir daí, falando da mesma música dos seus respectivos aparelhos. Surge um affair ali. O rapaz, Rdek conta que é polonês fugitivo e que deseja retornar para a sua terra natal para pagar uma dívida e que está na Espanha a trabalho, e que já juntou dinheiro suficiente para isso; somente depois ela descobre que ele é procurado pela polícia polonesa, enfim, uma situação insólita vivida por ela e pelo da poltrona testemunhando essa condição inesperada vivida por ela. Ela mesma não sabia direito o que estava acontecendo. Sabia que deveria sair dali, tentar fazer alguma coisa, ir em busca de felicidade.

Ela dá uma saída para fumar porque dentro do saguão é proibido. Lá fora é confundida com prostituta, acaba fazendo amizade com uma e com outras pessoas. Volta ao saguão o ambiente bem movimentado, gente dormindo pelos cantos, e o guarda local despejando-os de lá.   A mulher sem piano percorre por diversos cantos de Madrid pela madrugada afora, vive diversas situações insólitas. Até que encontra o seu conhecido polonês Rdek, caído no meio da rua, ela o acode, e ambos saem para um restaurante e entram para comer. O novo casal vive um dia incrível de descobertas devido a momentos difíceis que ambos atravessam. Eles seguem a madrugada toda em fuga.  Até que resolvem pernoitar num hotel.

No salão do hotel tem um piano e Rosa ao passar por ele, dedilha alguma coisa. Aleluia! Por um instante daquele dia peculiar Rosa é A MULHER COM PIANO!

Lá na intimidade desse quarto de hotel, Rosa deita-se no divã e conta toda a sua vida para seu novo amigo polonês que ouve atentamente. Nesse instante ele ouve com dupla atenção a história do quadro que ela lhe conta, que o retirou de seu quarto e encostou no porão por não entender e não gostar dele.

Rdek fica alguns minutos pensativo, e depois dá maravilhosamente a sua interpretação sobra a obra de arte, qual a sua mensagem e o que essa pintura representa. Para mim foi o ponto culminante do filme.  A explicação fantástica!  A mulher sem piano e o forasteiro retornam à rodoviária com a intenção de partirem para à Polônia. Ela se dirige a um guichê e compra duas passagens. Ao retornar ao encontro de Rdek, Rosa nota que dois policiais o abordam e o levam dali.

Desanimada, a mulher, não tem outra opção, senão voltar para o seu lar.

Ao chegar a casa já pela manhã, chega a ser cômico, o marido se levantando e ela indo para a cama.  A rotina novamente impera: mesa posta, marido saindo para trabalhar, casal sem diálogo, ela a volta com seus afazeres domésticos, até que olha para a parede vazia, sem o quadro, sai e volta com ele e o repõe no seu devido lugar de origem de onde nunca deveria ter saído.

Agora, com ou sem piano, Rosa sabe que pode dar um novo rumo à sua vida. O telefone toca, é o seu filho no outro lado da linha. E a vida segue… todos os dias como uma folha em branco que deve ser preenchida. Cada um é ator ou protagonista de sua própria história… com ou sem piano.

Parabéns aos roteiristas!

Karenina Rostov

*

Sinopse: Rosa é dona de casa e vive com o marido em Madrid. Prestes a entrar na menopausa, ela não tem amigos nem vida social, e seu maior prazer é ver um prato fumegante de comida ser servido com admirável pontualidade na hora das refeições. Tendo vivido toda sua vida em função da família, não está nada satisfeita consigo: não se acha bonita nem gosta de seu cabelo. Mas, num dia desses, decide escapar de sue mundo e viver apenas uma noite diferente. Concha de Prata de Melhor Diretor no Festival de San Sebastián 2009.

Ficha Técnica

Título: La Mujer sin Piano

Diretor: Javier Rebollo

Roteiristas: Lola Mayo, Javier Rebollo

Elenco: Carmen Machi, Jan Budar, Pep Ricart, Nadia Santiago

Ano de Produção: 2009

País: Espanha / França

Duração: 95

Beleza Americana (American Beauty. 1999)

american beauty 2American beauty é um tipo de rosa muito cultivada nos Estados Unidos, com uma peculiaridade: ela não possui espinhos nem cheiro, uma metáfora sobre o vazio do americano comum.

O vazio tratado com humor negro e maturidade.

Acordar todos os dias cedo, tomar café com a família, dar um beijo de despedida na esposa, fingir ser pai com a filha na adolescência, ir pro emprego enfadonho que você odeia, voltar pra casa, encarar um jantar cheio de papos falsos e dormir.

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A rotina acaba com as pessoas.

A corrosão começa quando menos se espera, e é por meio de detalhes minúsculos que ela aparece. Tudo conduz a alma ao desespero, você não se sente realizado e se arrepende de tudo o que podia ter feito e não fez. E ali está você, perdido no meio da sua rotina, prestes a explodir.

Lester Burham (Kevin Spacey perfeito) sente o peso disso. Em casa vive trocando farpas com a esposa Carolyn (Annette Bening perfeita), que vive mau por não ter o sucesso que planejava, a filha adolescente e com crise existencial Jane (Thora Birch perfeita) que não aguenta mais a infelicidade que se tornou viver ali.

É uma família tradicional americana. Só que se deixaram cair na mais completa monotonia por conta de tudo o que fazem. Com Jane tentando alguma coisa, os pais se sentem obrigados a ver o progresso da filha na escola, se apresentando com aquelas dançarinas gostosinhas do time da escola, e é lá que as coisas passam a tomar outro rumo. Lá Lester conhece a “fogosa” Angela (Mena Suvari muito diferente do que mostrou em American Pie), que logo desperta algum desejo nele. Enquanto o navio que é aquela casa afunda, Lester decide voltar a viver.

Assim que é demitido, Lester encontra o momento perfeito e deixa de ser o típico homem que vive pra família e começa a viver pra ele mesmo.

american beauty 7Sentindo o peso de ser a única com “responsabilidades” em casa, Carolyn se entrega ao trabalho, com direito a pulada de cerca com seu maior inimigo no ramo imobiliário, e Jane se encanta com o misterioso Ricky Fitts (Wes Bentley), um jovem traficante que vive filmando tudo o que vê por hobby. Recém chegado no bairro, mudou-se com sua aparentemente “comum” família: uma mãe sem sal nem sazon e um pai linha dura, ex militar interpretado por um Chris Cooper perfeito. No meio disso tudo, desenrola-se uma trama que envolve segredos, mentiras, preconceito e dismistifica o tal “american way of life”, mostrando que o sonho americano não passa de ilusão.

É com maestria que o diretor Sam Mendes mostra em seu primeiro trabalho todo o cuidado necessário pra encher uma trama densa de sentimento e tensão. Os diálogos são afinadíssimos, as cenas de troca de farpas são deliciosas e ajudados pelo roteiro incrível o elenco arrebenta em cada cena.

AmericanBeauty 6 Kevin Spacey que saiu vencedor do OSCAR por esse filme, demonstra uma capacidade de criar rostos para todos os sentimentos possíveis de seu personagem, tristeza, angústia, medo, solidão, pena, juventude, tudo num mesmo homem, uma das interpretações mais perfeitas do cinema. Cada ângulo, cada quadro, cada momento que ele aparece o filme se torna mais interessante e divertido. Spacey em cena, atuação beirando a perfeição.

Annette Bening também arrasa, sua personagem é forte e fraca ao mesmo tempo, coisa que fica mais evidente ao final do filme (me emociono na ultima vez que ela aparece em cena, abraçando as roupas do marido que acaba de morrer.). Ela odeia e ama o marido, ela odeia e ama trabalhar, ela faz tudo errado sabendo que podia fazer o certo, ela é ser humano e comete erros.

Thora Birch não podia ser melhor escolha para o papel de Jane, ela entrega uma veracidade perfeita ao personagem. Vinda de um histórico de filmes mais comerciais (Abracadabra, Perigo Real e Imediato) ela mostra muita tranqüilidade e segurança em seu personagem. Sem apelar para aqueles “caras e bocas” comum entre atores jovens, ela consegue convencer até quando não quer.

AmericanBeauty 5A loirinha Mena Suvari prova ser boa atriz, contrariando a sua personagem sem sal de American Pie, a bonitinha arrebenta. É mentirosa, sexy, e leva tudo com a barriga, típica adolescente americana popular. Mas o melhor fica pro final, quando ela tira a máscara de sedutora e veste a de uma inocente.

A mudança de humor e a capacidade incrível de nos enganar por duas horas comprova o grande talento da loirinha.

Quanto a Wes Bentley, um dos personagens mais incríveis do filme, fica sua melhor atuação da carreira. Ele é ácido, envolvente, misterioso e com aquela cara de babaca consegue enganar muito bem todos a sua volta. Seu personagem é complexo, mas ele passa uma segurança que é sentido pelo espectador.

E Chris Cooper, outra performance memorável, arrebenta na pele de um militar casca grossa que comanda todos os passos do filho e reprime todos em casa com seus preconceitos e mandamentos. A surpresa maior do filme sem dúvida é a dele no final.

american beauty 4 Sam Mendes aparece no seu melhor filme. O cara tira leite de pedra aqui.
Mostrando preparo e cuidado em cada quadro do filme, nota-se a influencia teatral em muitas cenas. As cenas no jantar, feitas da maneira mais tensa possível é uma das coisas que se pode destacar aqui.

O jantar falso funciona como termômetro da situação incomoda que a família vem passando.

Vindo do teatro, o jovem diretor inglês, inspirado em Kubrick e cheio de idéias criativas, capta as sutilezas do ótimo roteiro de Alan Ball (mente por trás de séries fantásticas como Six Feet Under) e consegue colocar na tela de uma forma acessível e sem precisar abusar de artimanhas desnecessárias para emocionar (erro cometido por diretores como Gabriele Muccino, de Sete Vidas, onde usa de emoção forçada para criar o clima de seus filmes.). Mendes consegue bolar situações que mesmo parecendo absurdas, são de uma interpretação singular. A cena do saco por exemplo, as “gags” involuntárias responsáveis pelo desfecho do filme ou até as cenas em que a família está jantando, querendo ou não fazem o espectador se sentir passando por tudo aquilo.

É complicado assistir esse filme sem sentir um incomodo consigo mesmo, e esse incomodo, atingido com perfeição pela forma como Mendes conduz seu filme, lhe valeu o merecido OSCAR.

Com uma trilha instigante e até certo ponto cômica de Thomas Newman, músicas que desenham as fases de humor de todos os personagens, sendo All right now do Free a mais “irônica” delas, o filme vai aos poucos afunilando as conseqüências dos atos de todos. A pulada de cerca da esposa, o vício em maconha do marido, a cachorra virando um anjo, o machão mostrando ser uma boneca e um casal estranho se formando, desenrola um final surpreendente e até inesperado para todos os personagens.

AmericanBeauty 3Bom humor apenas aparente: o casamento dela está a um fio.

A premiada fotografia é curiosa. Vermelha na hora de ser vermelha, lembrando as rosas “beleza americana”, e representando o vazio dos personagens. Elas estão presentes em grande parte do filme, e sempre com essa dualidade de significados. A beleza e o vazio. O filme é sobre isso.

Eu deveria ter ficado muito puto com o que me aconteceu, mas é dificil ficar nervoso quando se tem tanta beleza no mundo .” Lester Burhan.

Para mim, uma obra prima indiscutível. Nota: 10.

Olhem bem de perto.

Por: Rafael Lopes.

American Beauty. Direção: Sam Mendes.

Feitiço do Tempo (Groundhog Day)

groundhog-dayUm repórter de televisão (Bill Murray) que faz previsões de metereologia vai à uma pequena cidade para fazer uma matéria especial sobre o inverno. Querendo ir embora o mais rapidamente possível, ele inexplicavelmente fica preso no tempo, sendo condenado a repetir sempre os eventos daquele dia.”

Nesse filme o Tempo, primeiro é mostrado como algo rotineiro. Temos sim nossos compromissos diários. E que pode nos incomodar, mesmo que não conscientemente.

Mas quando nos confrontamos de fato, o incômodo acentua-se. As frustrações impedem até de ver que há um jeito de sair dali. Assim, cai-se numa repetição infinda. É querer resultados diferentes fazendo sempre tudo igual.

E o que nos leva a quebrar esse ciclo? A viver o nosso tempo na terra de modo prazeiroso? Para o personagem, houve uma saída. Percebeu a tempo!

Eu gosto desse filme.

Por: Ammy Mattos.

Feitiço do Tempo (Groundhog Day). 1993. EUA. Direção e Roteiro: Harold Ramis. Elenco: Bill Murray (Phil Connors), Andie MacDowell (Rita), Chris Elliott (Larry), Stephen Tobolowsky (Ned Ryerson). Gênero: Comédia, Fantasia, Romance. Duração: 97 minutos. Baseado em estória de Danny Rubin.

Mais Estranho que a Ficção (Stranger Than Fiction)

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Não deixe a sua vida passar em branco, atue nela de fato e de direito!

Um filme que fala da morte. Mas de um jeito diferente. Até nos leva a pensar nela. Por mais estranho que isso possa parecer. Uma morte física ou de ciclos. Real ou não. Seja do jeito, ou da forma que for, a morte um dia nos desperta. Como um: “Acorda!”

Entrando no filme… De um lado, temos uma escritora, Key Eiffel (Emma Thompson), tentando achar uma morte perfeita para o seu próximo personagem. Mas não está conseguindo. Logo ela que sempre mata seus protagonistas. Como está atrasada, recebe da Editora uma assistente (Queen Latifah) para ajudá-la no término desse livro.

No outro lado, temos um auditor (Will Ferrell) que de repente tem sua vida mudada. Sua rotina passa a ser… detalhada. Ou, ele toma conhecimento do quanto era metódico. De que fazia tudo sempre igual. Mesmo não querendo quebrar essa rotina, ele tenta descobrir o porque desse detalhamento. Algo até então inusitado. E nessa de continuar com a sua vidinha, conhece o amor. Essa sim, é uma mudança bem-vinda. Que lhe daria vida nova. Agora, já seria tarde demais?

Assim, o filme também mostra um passar a vida a limpo antes da morte. Ou seria da passagem? Onde as histórias, reais ou fictícias, não seriam apenas coincidências. A cada dia nós escrevemos as páginas da nossa vida. Não sejamos meras cópias, mas personagem principal, e único.

Gostei! Nota: 09.

Por: Valéria Miguez.

Mais Estranho que a Ficção (Stranger Than Fiction). EUA. 2006. Direção: Marc Forster. Com: Will Ferrell, Emma Thompson, Queen Latifah, Maggie Gyllenhaal, Dustin Hoffman. Gênero: Comédia. Duração: 113 minutos.