Adeus à Inocência (Racing with the Moon. 1984).

adeus-a-inocencia-1984_02Por Francisco Bandeira.
adeus-a-inocencia-1984_sean-penn-e-nicolas-cageHenry ‘Hopper’ Nash (Sean Penn) e Nicky/Bud (Nicolas Cage) se tornariam uma das grandes duplas do cinemão adolescente dos anos 80. O filme passou um pouco despercebido em sua época de lançamento e, para mim, deveria ser mais lembrado hoje em dia. E sim, tinha a musa inspiradora neste filme: Caddie Winger (Elizabeth McGovern).

O longa tem muitos méritos, mas o principal deles é, sem dúvidas, ter resgatado aquele tom melancólico dos filmes com temática parecida dos anos 60 e 70, além de incluir um certo charme oitentista nele. A cena dos trilhos é uma das coisas mais belas e singelas de cinemão teen da década de 80, assim como Penn, Cage e McGovern formaram um dos trios mais apaixonantes do cinema adolescente.

adeus-a-inocencia-1984_01Como alguns dos principais críticos americanos declararam: É muito fácil terminar um filme com Eu Amo Você, o difícil é torna-lo real e honesto, fazendo com que as pessoas acreditem nisso. E ‘Adeus à Inocência‘, de Richard Benjamin, o faz como poucos.

Adeus à Inocência (Racing with the Moon. 1984). Detalhes Técnicos na página no IMDb.

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A Árvore da Vida (The Tree of Life. 2011)

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É sabido que Terrence Malick é um cineasta como nenhum outro. Para desfrutar dos seus filmes, você não pode seguir uma norma, mas se deixar transportar emocionalmente e visualmente. “A Árvore da Vida” é o filme mais ambicioso do cineasta, e também o mais dificil de se transportar.

Embora visualmente seja um filme de cair o queixo, Malick introduz vários conceitos que nunca realmente se unem. Talvez o Livro de Jó seja o fio contudor, especialmente os versos 38:4-7, no qual Deus está lembrando Jó de seu poder e sua criação os fundamentos da terra a partir do mar para as estrelas. “ A Árvore da Vida” dá testemunho dessa criação, em conjunto com outros elementos do Livro de Jó, em geral, incluindo o questionamento da justiça de Deus, a inocência contra a maldade e o sofrimento humano.

O filme começa com o Sr. e Sra. O’Brien (Brad Pitt e Jessica Chastain) sendo informados da morte de um dos seus três filhos. A natureza de sua morte não é totalmente clara, mas esta é a primeira instância em que a fragilidade da vida é mencionada será revisitada com freqüência. Movendo mais ou menos 40 anos no futuro, nós nos encontramos próximos entre torres de vidro gigantes e a selva de concreto onde se encontra o filho mais velho do casal,  Jack (Sean Penn), agora crescido. É o aniversário da morte de seu irmão e pegamos trechos breves de um telefonema que ele está tendo com seu pai, desculpando-se por coisas do passado e claramente perturbado.

Neste ponto, não temos exatamente um testemunho para a vida, pois, somos logo transportados para a criação do universo: a mudança dos cosmos; os vulcões entram em erupção; e os dinossauros caminham sobre a terra. Depois disso, o filme logo se estabelece, mais uma vez, na vida do casal, 20 anos antes de nossa primeira introdução à medida que entramos em algum momento de suas vidas, os anos 1950. Começamos com visões de sonho de Sr. e Sra. O’Brien, no amor, que então se move para o nascimento de Jack (Hunter McCracken), cuja vida é realmente o cerne de “A Árvore da Vida” mais do que qualquer outro. Jack é logo cercado por dois irmãos (Laramie Eppler e Tye Sheridan), e embora a relação entre esses irmãos desempenha um papel, é o efeito de seu pai tem sobre eles que realmente molda o filme.

Chastain desempenha um papel mais passivo e carinhoso como a senhora O’Brien, e Pitt, faz um pai opressivo, de uma forma perfeita!. Através deste estilo de parentalidade, Jack e seus dois irmãos ficam com medo de seu pai e procuram a mãe pelo amor que desejam, embora o amor de ambos os pais têm para seus filhos é evidente a partir de uma perspectiva parcial. Com isso, a idéia das conversas consistentes que os personagens têm com Deus, em busca de sentido e a razão porque certas coisas acontecem – um empate neste segmento das ações de Jó na cena de abertura como os O’Briens perguntando o porque Deus poderia tirar a vida de sua criança inocente.  É justo?

“A Árvore da Vida” acrescenta muitas camadas, e muitas são fáceis de interpretar, outras você precisara explorar de forma bem profunda. Não é um filme preocupado com a história, e nem com valores, conceitos e idéias, mas mais preocupado com o ser humano de um forma clara que cada um de nós somos ainda como nossos pais.

Todos atores estão perfeitos, especialmente o Pitt. E, a fotografia de Emmanuel Lubezki é apenas a alma do filme!

 Nota 9

Na Natureza Selvagem. Em busca da liberdade!

Por Reinaldo Matheus Glioche
O livro reportagem sobre a vida do jovem Christopher McCandless sempre fascinou Sean Penn que, finalmente, transformou o livro em filme. Na natureza selvagem (Into the Wild, EUA 2007) é um filme apaixonado. Comprometido com a idéia de jogar luz sobre a história do jovem que após se formar em uma prestigiada universidade abandona a civilização para uma viagem sem volta rumo ao Alasca, Penn evita o paternalismo tão caro a produções que se esmeram em fatos reais e recentes.

O diretor oxigena a jornada de Chris(Emile Hirsh) que se rebatizou com o libertário nome de Alexander Supertramp, com a bela música de Eddie Vedder. A trilha sonora realizada pelo líder do Pearl Jam é de uma suavidade e sensibilidade ímpares. É ela que conecta o expectador ao estado de espírito do protagonista. É sem dúvida alguma, um valioso uso da trilha sonora como elemento narrativo.

Penn também mostrou discernimento na escolha do elenco. Emile Hirsch apresenta uma performance devotada como o jovem inconformado que parte para a grande aventura de sua vida. Penn escala grandes atores para cruzar o caminho de Chris, mas o grande destaque recaí sobre Hal Harbrook. O veterano ator é o último personagem a se cruzar com Chris e é também o mais poderoso de todos. Harbrook vive um homem soterrado em sua dor. Que vê em Chris, por mais de uma razão, a força redentora dessa dor.

Na natureza selvagem não é um filme memorável. Talvez seu aspecto lúdico, sua introspecção, sua moral evasiva desviem qualquer avaliação de seu foco. Mas é justamente esse o filme imaginado por Penn. Um filme que não só falasse da busca pela liberdade, mas que a emulasse em cada fotograma. Do ponto de vista da realização, Na natureza selvagem é um triunfo. Enquanto experiência visual é riquíssimo. Sonoramente é estimulante, no entanto, é como  se o todo não fizesse jus as partes. Como diria um personagem: “O importante não é o destino, é a jornada”.

A Árvore da Vida (The Tree of Life. 2011)

Por: Fátima Daia Bosh.

Eu fui ver esse filme aqui na França, na época do Festival de Cannes. Como dizem os franceses, o filme é “especial”.

Primeiramente pelo ritmo, que não tem nada a ver com os filmes americanos. O é beeem lento, quase iraniano. Tem idas e voltas no tempo (indo até a época dos dinossauros), tem toda uma parte sobre o significado da existência, tem idas e voltas no espaço e no microcosmo.

Fala sobre a ausência de um filho morto aos dezenove anos (não é dito de que ele morreu, apenas aparece um telegrama comunicando) através das lembranças de infância de outro filho, ja adulto, que é o Sean Penn, cuja mulher está grávida. Das relações dos três filhos com o pai bem autoritario, que é o Brad Pitt (ele está ótimo, rico em emoções e eu não consegui defini-lo como herói ou vilão, apenas um homem com suas imperfeições) e com a mãe, que era mais sonhadora. Essa relação é mostrada através de cenas do quotidiano, e tem toda uma reflexão sobre o sentido da vida, e sobre o fato que coisas ruins também acontecem a pessoas boas.

Achei um filme bem melancólico. Não posso dizer que não gostei, também não vou dizer que adorei, mas definitivamente não me deixou indiferente. Sai com uma sensação de estranheza.

Acho que no balanço, se tivesse que dizer “curti” ou “não curti” colocaria curti, por ele me ter feito pensar em assuntos sobre os quais em geral não penso. No inicio fiquei pensando em outro filme sobre ausência, “O Quarto do Filho” (que eu amei de paixão, quase chorei assistindo), mas à medida que o filme avançava eu me dei conta que “A Árvore da Vida” não era apenas um filme sobre esse acontecimento em particular (a morte do filho) e sim sobre a vida em geral, o papel que cada um tinha na familia, as coisas que são ditas e as que as pessoas não ousam dizer, sobre arrependimentos e frustrações e sobre a verdade de cada um.

Por: Fátima Daia Bosh.

Curiosidade: Vencedor da Palma de Ouro 2011, em Cannes.

Milk – A Voz da Igualdade (2008)

milk_movieAinda não assisti o filme que levou o Brad Pitt a ser indicado ao Oscar, me falta tempo, mas Sean Penn com certeza era mesmo um páreo duro pra ele como Harvey Milk.

Harvey foi um ativista das causas Homossexuais na Política Americana da década de 70; tornou-se, portanto, o primeiro homossexual a ter um cargo importante nos EUA.

O filme retrata essa trajetória de um homossexual que consegue centralizar tanto o povo quanto a Política num único bem comum. À parte do ativismo, se é que há como separar essas instâncias, mostra a vida dele íntima com seu companheiro Scottie, a falência de uma relação pelos motivos de sempre: ausências, falta de atenção etc.

Eu entendo esse filme como “extremamente Shakespeariano”: a tragédia é um fato diante das obscuridades que movem o ser humano.

Nada mais humano do que a inveja e o ciúmes…

Por: Vampira Olímpia.

Milk – A Voz da Igualdade

Direção: Gus Van Sant

Gênero: Drama, Política

EUA – 2008

MILK – A Voz da Igualdade (2008)

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Existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”, felizmente existem mais coisas entre a resenha e a crítica especializada que nos faz ir ao cinema, sem nos importarmos com o que elas ditam! Não fosse o Oscar recebido por Sean Penn e talvez muitas centenas de brasileiro não tivessem ido assistir a este filme. Então parabéns a Academia! Não importam os motivos que a levaram a premiar o filme, se é que existe algum outro motivo além da atuação do seu ator principal e o mérito do roteiro. É fato que o filme é muito bom! As imagens de arquivos incluídas no filme lhe emprestam certa contundência, a princípio parecem longínquas, fragmentos arqueológicos de um passado com atitudes condenáveis do sentimento repulsivo que é a intolerância e a representação da falta de liberdade. No final, as fotos das personagens verídicas confrontadas com a dos atores, nos faz admirar as escolhas da produção.

Não dá pra sair da sessão sem refletir sobre o “miolo” do filme e nem é preciso ser gay para isso, se alguma sensibilidade existir no expectador, será um processo mais do que natural.Até ver o filme eu nem ‘sonhava’ com Harvey Milk, depois de ver, percebi que o conhecia nos amigos gays abafados em armários ou assumidos vida afora, com consciência que ser homossexual não é um diferencial.   

milk_james-franco-and-sean-pennMilk tentou eleição para o cargo de “supervisor” (equivalente a um vereador ou talvez um subprefeito) da região que vivia várias vezes, tentou sem obter, o endosso para essas eleições. A cada derrota, a margem de votos perdidos diminuía e a vitória só chegou quando uma nova assessora, buscou o apoio da mídia, não para um militante da causa gay, mas para um bom comerciante. É verdade que o filme mostra o preconceito dentro do gueto, as piadinhas dos cabos eleitorais para uma mulher, agora responsável pela imagem e campanha do eterno candidato. Minha primeira conclusão: O gay tem preconceito tanto ou mais que uma hétero…  Minha segunda conclusão: somente um segmento, não elege um candidato, as pessoas não votam em causas, podem até votar em causas próprias desde que não se exponham por isso.

Aqui no Rio de Janeiro, fala-se muito em amor de carnaval, como se boas pessoas, capazes de se apaixonarem e viverem uma relação duradoura fossem obrigadas a não  gostar de carnaval… Concluo que se é amor, ele acontecerá, não importando o local ou a data nem mesmo o sexo, nem mesmo nosso ideal de pessoa perfeita para relacionamento. Nessa altura da narrativa, Milk mora em Nova Yorque e busca relacionamentos discretos, escondidos para não sofrer represálias. Diz que tem 40 anos e nada fez de relevante em sua vida. Ele e Scott concluem então, que é preciso mudar de ares e lá se vão eles para São Francisco, Califórnia, Rua Castro. Podemos dizer que aí o filme começa.

milk_06Nos primeiros momentos do filme, no dia do seu aniversário, Harvey Milk, ainda no armário, paquera um rapaz, Scott Smitt  (James Franco) numa estação de metrô. Não é preciso ser garoto de programa, nem cliente para uma paquera tão ousada  num lugar tão mal afamado. O rapaz, então lhe diz que não sai com ninguém acima dos 40 anos e, a primeira mostra do bom humor da personagem é a sua resposta: “Hoje é seu dia de sorte, ainda estou com 39 anos”. Eles saem, ficam juntos e vivem um relacionamento tanto estável quanto inesquecível! 

Trabalha duro durante as campanhas, volta a usar o visual comportadinho – e não é que me lembrei do nosso presidente Lula e seu banho de loja travestindo-se com seus Armanis!  

No último cheque desemprego de Scott Smith, Milk decide abrir uma lojinha de fotografia. A recepção no bairro não é amigável, sofrem ameaça do presidente da associação de lojistas ou algo que o valha. De visual hippie, não se intimidam, a loja vira referência, o bairro transforma-se em point gay (o que continua sendo até hoje) e Milk começa suas tentativas de se eleger.

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 Quando Harvey Milk, finalmente consegue eleger-se, a cena é de uma festa como só os gays sabem fazer. Antes dessa vitória Scott já tinha se mandado, parece que ele não agüentou tanta invasão, tanta gente, a casa eternamente lotada. Tantas tentativas de eleição foi demais para ele. É quando surge Jack Lira (Diego Luna), um desajustado, desequilibrado a quem Milk acolhe e ama. É, o gay não é realmente o estereótipo que pensamos, pelo menos Harvey Milk neste filme não é!Coisa rara e jamais comentada, o amor masculino é capaz de doação e Milk ressente-se de talvez não ter feito tudo o que podia ou deveria tentar ter feito pelos seus relacionamentos.

 Não sei o quanto este filme é fiel a vida real de Harvey Milk, sei que Sean Penn interpreta magistralmente um homossexual, que mesmo assumido não sucumbiu ao prazer de divertir a sociedade com uma caricatura. Que fazia piadas com a sua condição sem perder o respeito. Que um gay não depende de chiliques para demonstrar suas emoções, antes, se emociona e muito. Que uma liderança pode mostrar a um jovem paralítico e execrado pela família que ele pode sim, mover-se em busca daquilo que ele é realmente e que ser homossexual e paralítico não é uma linha entre duas desgraças sem fim.

 Quando surge em cena a Sra. Anita Bryant, cuja aparição é mostrada apenas em imagens da época, utilizando a religião como ferramenta legal na defesa de um Deus preconceituoso e perseguidor de outros seres humanos, com a Proposta 6, que sob o pretexto de salvar as crianças americanas das aberrações que são os homossexuais, como um início de caça às bruxas, apartando os gays de seus empregos, proibindo professores gays de exercerem sua profissão, Milk se lança numa cruzada em defesa do “seu público”. Nesse momento vemos que aquelas imagens de arquivos incluídas no filme não são peças de arqueologia nem as Cruzadas se extinguiram com a Idade Média…Vale mencionar o desempenho de Josh Brolin como Dan White, um sujeito tão bitolado que não percebe necessidades do seu distrito dignas de elevá-lo a categoria de líder. Dan White numa determinada cena desabafa que Milk tem uma causa, como se a causa fizesse dele tudo o que ele era em vez do contrário. A vida é assim: os medíocres acreditam verdadeiramente nos seus conceitos e conseguem lançar mão da arbitrariedade,  utilizam-se da violência que transforma leis, religiões e pensamentos em armas! Eu não quero concluir que as mentes medíocres crêem com muito mais força e veemência nas suas verdades do que as mentes singulares acreditam nos direitos e liberdade!

05_13_nicoletta1Por fim, minha última conclusão: Quando a arbitrariedade é absurda demais, os oprimidos se unem de tal forma, que naquela época as “gays parades” tiveram sentido e objetivo inteligível para todo o restante da sociedade. O preconceito velado é muito mais perigoso que o a voz dos políticos em megafones conclamando toda uma população a fazer valer os diretos de Deus, como se eles tivessem uma procuração do Altíssimo. Num momento onde as perseguições (se é que existem) são discretas, a Proposta 8, que impede o registro da união  entre pessoas do mesmo sexo, foi aprovada em 2008,  nos Estados , o que originou o comentário de Sean Penn durante o recebimento da sua merecida estatueta: “Aos que votaram contra o casamento gay, envergonhem-se.” A montagem deste filme é primorosa, seu ritmo embaladíssimo para uma cinebiografia, o elenco é sensacional, o filme merece ser visto e merecia ter sido mais apreciado pelos especialistas em resenhas e pelos críticos que pararam na sua superfície ou talvez no beijo de Sean e James…

 Por: Rozzi Brasil.  Blog: Crônicas Urbanas.

MILK – A Voz da Igualdade (MILK). 2008. EUA. Direção: Gus Van Sant. Elenco: Sean Penn (Harvey Milk), Josh Brolin (Dan White), Emile Hirsch (Cleve Jones), James Franco (Scott Smith). Gênero: Biografia, Drama, Romance. Duração: 128 minutos.