Vai, Eddy! (Allez, Eddy!. 2012)

allez-eddy_2012Por que essas crianças não gostam das que são diferentes?

Sim! O filme “Vai, Eddy!” é mais um a mostrar a dor de uma criança diante do bullying. Mesmo por aquela disfarçada vinda da própria família. Pois ele também mostra a exclusão de dentro do que deveria ser o lar: de um porto seguro para essa criança. Há pais que disfarçam ao manterem o filho confinado dizendo de que seria para lhes proteger, quando no fundo é por sentirem vergonha dele “diferente”. Como virar esse jogo? E é pelo olhar dessa criança que conhecemos a história do pequeno Eddy (Jelte Blommaert). Sua própria história num capítulo especial por ter sido um divisor de água.

allez-eddy_2012_02Com tanta pressão e contras ele precisaria de pelo menos um pequeno incentivo para conseguir superar a si mesmo e então realizar um sonho. Pequeno ainda, mas impossível diante do seu problema. Até pelo bullying que sofreria. Tal incentivo veio por uma mudança que chegou ao pequeno vilarejo onde morava. Algo que faria frente ao seu próprio pai, um açougueiro, que via na chegada de um supermercado um concorrente desigual. Mas essa mudança trouxera bons ventos para si: a jovem Marie (Coline Leempoel), filha do proprietário do tal supermercado.

Ah! Estamos falando da década de 70, onde esses tipos de mudanças foram bem marcantes para quem vivenciou essa época. Que como é dito no filme, o mundo estava mudando e as pessoas deveriam também mudar junto com ele. Mas não apenas no material. Esse é ponto alto do filme: mudar o modo de pensar. De ser mais livre de preconceitos. Em aceitar as “diferenças”. Como também em ser aquele que fará a diferença no coração desse ser “excluído”. Pois com bem diz a letra “É preciso ter garra, ter força, sempre…” até para se adaptar diariamente as contingências do destino. Com ajuda essa “concorrência” não fica tão desleal.

Eddie vinha de uma família de “mestres da carne”: passado de pai para filho. É que dizer apenas açougueiro não mostra de que há toda uma técnica por trás de um corte de carne. Quem viveu a era antes dos grandes mercados, sabia disso. Tinha respeito e confiança no açougueiro do bairro, e ele por sua clientela. Ele até dava dicas no preparo da carne comprada. Acontece que Eddie não herdou esse talento. Mesmo que as técnicas possam ser aprendidas, aperfeiçoadas, o dom pela profissão também conta muitos pontos. O talento de Eddie estava no Ciclismo. Que por viver confinado arrumou uma solução: prendeu a bicicleta alta do chão. Assim treinava diariamente em seu quarto, no sótão da casa. E “percorria” longos trechos lá do alto.

allez-eddy_2012_00Na inauguração do tal supermercado haveria uma corrida de bicicletas entre os jovens da localidade,, até como uma política de boa vizinhança. Mas alguns dos moradores locais relutaram em aceitar esse progresso que entre outras coisas trazia comidas embaladas, enlatadas… Agora, uma outra parte amou. Levando o pai já de cara perder uma grande parte da clientela. Dividido entre ajudar o pai no açougue e enfrentar seus próprios medos… Eddie também estava sozinho para ir disputar a tal prova. Ou quase. Porque como citei no início o destino lhe trouxera um “anjo da guarda”: Marie. Foi ela quem iniciou a preparação psicológica para o primeiro passo. Ou melhor, para as primeiras pedaladas fora de casa. Até o dia da corrida, teria que também guardar segredo: a família dera o contra.

Muita coisa acontecendo na vida do pequeno Eddie, que na verdade se chamava Freddie. A alcunha vinha de um ídolo: o grande ciclista Eddy Merckx. Aliás, o motivador mesmo de participar da tal corrida fora porque o primeiro prêmio seria em ir conhecer pessoalmente esse herói nacional. Mas é melhor não contar mais. Para deixar-lhes a surpresa em acompanhar sua história. Pois “Allez Eddy!” é um filme emocionante! É dolorido, mas também gratificante! Daqueles de lavar a alma! Até por desnudar certas fachadas familiares. Bom quando se consegue trazê-las para uma sociedade mais justa, mesmo sendo num núcleo familiar. Que todos vejam que cada um é um ser único e especial, mas que faz parte da engrenagem chamado vida. Filme para ver e rever! Ah! Eu vi pela televisão.
Nota 10!

Vai, Eddy! (Allez Eddy!. 2012). Bélgica. Diretor: Gert Embrechts. Elenco: Barbara Saafian, Julian Borsani, Jelte Blommaert. Gênero: Aventura, Comédia, Drama. Duração: 100 minutos.

Anúncios

Quando Você Viu seu Pai pela Última Vez? (And When Did You Last See Your Father?. 2007)

quando-voce-viu-seu-pai-pela-ultima-vez_2007O filme é baseado numa história real. Como só isso não bastasse, é o personagem principal, o escritor Blake Morrison, quem nos conduz nessa viagem por algo que lhe era muito doloroso: o relacionamento com o pai. Mais do que um conflito familiar é um filho ainda sedento por amor e respeito pelo próprio pai. Quem assina o Roteiro é David Nicholls, autor do livro “Um Dia“. Ele conseguiu ser a ponte para que o Diretor Anand Tucker não ficasse apenas num drama pessoal, até porque deu ao asas ao ator Colin Firth para que não caísse na mesmice de um personagem já comum em sua carreira. Era o meu receio antes de ver o filme de o terem escolhido pelo estereótipo. Mas ele soube dar voos incríveis fazendo do seu Blake único. Comprovando que Colin Firth é um excelente ator!

when-did-you-last-see-your-father_cartazReviver antigos fantasmas foi o que o destino aprontou para Blake. Mas de um jeito que criou uma ponte para chegar ao coração do pai. Com isso, esses sentimentos puderam fluir sem mais barreiras. Mas ainda teria tempo de fazer as pazes com o pai, e até consigo próprio? Porque esse reencontro se deu por conta de um câncer devastador que estava levando Arthur Morrison. Vivido pelo ator Jim Broadbent, numa performance também excelente!

Pai e Filho de temperamentos tão opostos têm a chance de passarem esse relacionamento a limpo no leito de morte de um deles. Mas essa busca fica muito mais por Blake, até porque no passado fora Arthur quem tentou uma aproximação. Mesmo que tenha sido de um jeito tosco. Mas na cabeça do então jovem Blake já se acumulava tantos traumas que rejeitou, além de também criar muralhas nessa relação.

Quando se é muito jovem o que os olhos veem, o coração pressente. Só não se tem discernimento bastante para entender a real situação. Ou mesmo uma vivência que o faria perceber. Mas aí corre-se o risco de sofrer mais porque teria comparações. Muita das vezes uma terapia é que pode mostrar que nunca o teria como desejava. Como também que por mais que não aceitasse há uma herança genética ligando-os. Que dessa outra pessoa por mais que menosprezasse há algum traço em comum. Seria tão mais leve para muitos desses filhos que sofrem por essa rejeição, se desde cedo não se importasse muito com isso. Que pudessem crescer desencanados, ou que não pesassem tanto tal fato ao longo da sua jornada chamada vida.

Quando Você Viu seu Pai pela Última Vez?” veio como um exorcismo a uma tristeza de anos para então o já adulto Blake. No decorrer do filme o personagem também terá a fase em criança – vivida pelo ator Bradley Johnson -, quando sente que a mãe, Kim (Juliet Stevenson), também guarda um segredo do relacionamento dela com o marido. Na adolescência quem o interpreta é o ator Matthew Beard. Blake então cada vez mais tímido e intimidado pela personalidade do pai. De um caráter duvidoso que ia aumentando ainda mais os pesos para esse jim-broadbent_e_colin-firth_quando-voce-viu-seu-pai-pela-ultima-vezjovem.

Assim eram as coisas com meu pai. Trapaças insignificantes, pequenas fraudes. Minha infância foi uma teia de pequenas fraudes e triunfos. Estacionar onde não se devia. Beber depois do horário permitido. Os prazeres da ilegalidade. Ele ficava perdido se não conseguisse trapacear um pouco.”

O tão terrível pai de Blake – grande interpretação de Jim Broadbent que ganha maquiagem para o envelhecimento – é tão carismático que faz com que os fantasmas de Blake foram carregados na tinta e por ele próprio. Claro que ele teve motivos até para o distanciamento tido até então do pai. Mesmo extrovertido, no fundo Arthur também se ressentia do seu próprio passado. Só que sabia mascarar seus segredos, diferente de Blake.

O título do filme “And When Did You Last See Your Father?” veio para mostrar que conflitos como esse podem ir passando de uma geração para a outra até que alguém se toque e rompa esse ciclo. Mesmo que um pouco tarde demais para a então relação, mas a tempo de seguir livre desse passado e sem cometer os mesmos erros com as próximas gerações.

Bem, cada um sabe da dor que carrega, e se quer exteriorizá-la ou não. Blake um escritor de talento, e que só não tinha o reconhecimento pelo próprio pai, resolve colocar tudo isso em palavras escritas. Contar todo o drama vivido lhe fora salutar. Até em descobrir que recebera de herança paterna o de ser original. Ser o que é!

Além das performances, da Direção num timing perfeito com o Roteiro, a Trilha Sonora vem como coadjuvante de peso. É um filme que emociona até a cena final. Mais do que doer na alma, lava a alma. Simplesmente perfeito! Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Quando Você Viu seu Pai pela Última Vez? (And When Did You Last See Your Father?. 2008). Reino Unido. Direção: Anand Tucker. Roteiro: David Nicholls. +Elenco. Gênero: Biografia, Drama. Duração: 92 minutos. Baseado em livro homônimo de Blake Morrison.

Álbum de Família (August: Osage County. 2013)

album-de-familia_2013Por: Eduardo Carvalho.
album-de-familia_sam-shepard-e-meryl-streepViolet Weston, viciada em pílulas. Beverly Weston, viciado em álcool. Em seus primeiros diálogos na tela, sobram alfinetadas e amarguras. No dia seguinte, Beverly some. Encontrado morto dias depois, torna-se motivo para a reunião da família.

Álbum de Família mostra uma família disfuncional, no calorento meio-oeste americano, em que cada membro mostra suas garras, quando se reencontram por conta do desaparecimento do pai. Em permanente estado de pé de guerra, as três filhas do casal se ressentem da dureza da mãe; uma das filhas encontra-se em conflito com o marido, enquanto a filha deles tenta lidar – à sua maneira – com o casamento fracassado de ambos; personagens em crise constante, tentando estabelecer-se como indivíduos, enquanto mal cumprem seus papéis sócio-familiares.

O público vê tais situações todos os dias na tela da TV. Não por acaso, o diretor John Wells vem de seriados como ER e West Wing. No entanto, os diálogos ácidos e certeiros, cheios de rancor e demais afetos, mal caberiam na tela da televisão. O filme é uma adaptação da peça de Tracy Letts, August: Osage County, sucesso da Broadway e vencedora do Pulitzer, feita pelo próprio autor em colaboração com John Wells. Ambos trabalharam por meses na transposição do texto, e parece que Letts não fez questão de esconder seu tom autobiográfico. Seu avô realmente teria se afogado, e sua avó viciou-se em pílulas.

album-de-familia_2013_personagensMas não bastariam a força dos diálogos e da estória para que o filme funcionasse. É certo que a obra fisga o público pela identificação deste com seus próprios históricos familiares – a competição dos filhos pelo amor dos pais, traições, mentiras e segredos, são elementos comuns em famílias numerosas. Álbum de Família atinge ainda mais pelo trabalho de todo o elenco, que dá vida e a intensidade necessárias ao texto de Letts. Chris Cooper, sempre um coadjuvante de luxo, protagoniza a hilária cena da oração à mesa de jantar, de onde resultam risos mal contidos da plateia. Juliette Lewis faz com rara felicidade a mulher sonhadora, fácil de ser iludida pelo “namorado da ocasião”, nas palavras de uma das irmãs. Julianne Nicholson, a filha que “escolheu” ficar próxima aos pais, tem nos conflitos íntimos da personagem a maior força do papel. Sam Shepard, no pequeno e marcante papel que lhe coube, dá mostras de seu grande talento.

album-de-familia_julia-roberts-e-meryl-streepPorém, os grandes destaques não poderiam ser outros. Uma desglamurizada Julia Roberts faz Barbara Weston, a filha que, em face do esfacelamento da família – e como a favorita do pai morto – tenta ficar à frente da situação. É tão dura quanto a mãe, com quem trava grandes embates verbais – e não verbais. E Meryl Streep, especializando-se em mulheres detestáveis, mantem-se no topo do panteão das grandes atrizes. Dificilmente uma atriz emenda duas grandes atuações em sequência – como esquecer sua Dama de Ferro? –, mas Streep é a exceção que confirma a regra. A complexidade de sua Violet, amargurada e ressentida pelo desdém das filhas, pela morte do marido e pelo tratamento de um câncer, torna a matriarca digna de raiva e compaixão por parte do público. E consta que ela não queria o papel…

Tantos talentos reunidos resulta em um dos grandes filmes americanos de 2013.

Álbum de Família (August: Osage County. 2013). EUA. Diretor: John Wells. Elenco: Meryl Streep (Violet Weston), Sam Shepard (Beverly Weston), Julia Roberts (Barbara Weston), Julianne Nicholson (Ivy Weston), Juliette Lewis (Karen Weston), Abigail Breslin (Jean Fordham), Chris Cooper (Charlie Aiken), Ewan McGregor (Bill Fordham), Margo Martindale (Mattie Fae Aiken), Dermot Mulroney (Steve Huberbrecht), Benedict Cumberbatch (Little Charles Aiken), Misty Upham (ohnna Monevata). Gênero: Drama. Duração: minutos. Baseado em Peça Teatral de Tracy Letts, que também assina o Roteiro do Filme.

Uma Família no Limite (La Bellezza del Somaro. 2010)

uma-familia-no-limite_2010O Cinema Italiano continua dando as cartas em mostrar os dramas familiares, e num jeito que muito me agrada com muito humor. E que pelo raio-X que traz de cada personagem por vezes alguns acham um tanto amargo na dose.

Em “Uma Família no Limite” temos como pano de fundo conflitos de gerações, mas mais em cima do que de fato se pode retirar da convivência em família. O homem como ser social que é tirando o essencial das regras estabelecidas. O filme até passa por conflitos entre classes sociais, com o foco em indivíduos tentando reintegrar-se com todos na pirâmide social. E por conta disso até onde o belo só é o que se vê pelo próprio espelho? Pelo próprio parâmetro que se dá para as diferenças individuais. A aceitação natural da beleza que há em cada ser do jeito que ele é. Uma beleza que há muito mais quando se é jovem, por ainda não ter ou receber os pesos e medidas que chegam com a fase adulta. E aí é que também entra aos que adentram na velhice de fato, por essa se despir com mais naturalidade das armaduras impostas ao longo da vida. Mas a maturidade mete medo em todas as idades por achar que não terá a formosura de antes. Talvez por usar a medida usada no julgamento do seu semelhante. São os pesos e medidas que mudam ao passar dos anos, mesmo que para alguns fica difícil aceitar essas mudanças. Então se apega a juventude externa. Quando poderia ter, manter um espírito livre que o faria sentir-se jovem. É meio por por aí significado do título original: La Bellezza del Somaro (A Beleza do Asno).

No fundo, o homem se espelha nas coisas, considera belo tudo o que lhe devolve a sua imagem. O Feio é entendido como sinal e sintoma da degenerência. Cada indício de esgotamento, de senilidade, de cansaço… tudo provoca a mesma reação: o juízo de valor ‘feio’. O que odeia aí o ser humano? O próprio declínio?” (Nietzche)

Em “Uma Família no Limite” temos em destaque um casal de classe média alta. O marido, Marcello, é um arquiteto bem conceituado até pelos políticos e clérigos que mesmo não gostando muito do seu trabalho o contratam. Suas linhas tenta o equilíbrio do clássico com o moderno retirando o ideal claustrofóbico do passado. Esse pensamento arrojado com mais liberdade também o leva para a vida pessoal. Uma liberdade bem machista. Quem o interpreta é quem assina a Direção e parte do Roteiro: Sergio Castellitto. Marcello é casado com Marina (Laura Morante), uma psicanalista em crise até por tentar seguir a regra de que é proibido proibir, além também de não conseguir superar um trauma do passado. Aliás, Marcello também traz um trauma mal resolvido. Ambos tentam compensar seus problemas pessoais educando a filha, Rosa, numa de liberdade vigiada. Rosa recebe a alcunha de a ‘Rosa de Luxemburgo‘, mas mais pela rebeldia aos pais, já que não corta o cordão umbilical das mordomias que tem em casa.

O feio é também um fenômeno cultural. Os membros das classes altas sempre consideraram desagradáveis ou ridículos os gostos das classes baixas.” Umberto Eco)

Às vésperas de completar 50 anos de idade, Marcello e família seguem para um feriado na belíssima residência de campo na também bela região da Toscana. Além de outros familiares, irão também amigos de infância dos três, dois dos pacientes de Marina (Os loucos são os seres humanos mais livres que existem?) que mantém quase uma relação familiar com eles, além de uma empregada de origem alemã meio mal humorada (A classe trabalhadora terá seu dia de glória.). Completando o belo quadro serão apresentados ao novo namorado de Rosa. Que para Marcello e Marina é um jovem negro. Aliás, a alusão que fazem por aceitar o tal jovem na família é ótima. Acontece que na verdade o novo namorado será como um tapa na cara do Marcello no durante, e até no final. Mostrando quem de fato sai imune a cobras e lagartos que terão que digerir após uma grande lavagem de roupa suja que acabou se transformando essa reunião.

Por fim, o filme também põe em xeque os valores de uma elite atual que não necessariamente a italiana. Pode ser vista em outras culturas que estejam mais globalizadas. Em até onde a grama do vizinho incomoda. Em até onde vai a superficialidade quando se desnuda ante a realidade da vida que se leva. Será um divisor de água para alguns. Agora, se terão ou não consciência disso já é outra história!

Eu assisti “Uma Família no Limite” no Cine Conhecimento do canal Futura. Vi e amei! Eu ri muito! Os diálogos são de perder o fôlego tamanha é a velocidade em que são apresentados. Atuações brilhantes! Uma Trilha Musical como coadjuvante. Enfim, tudo em uníssono num filme Nota 10! E que me deixou uma vontade de revê-lo.

Por: Valéria Miguez (LELLA)

Uma Família no Limite (La Bellezza del Somaro. 2010). Itália. Direção e Roteiro: Sergio Castellitto. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 107 minutos. Também assina o Roteiro: Margaret Mazzantini.

Sudoeste. (2011)

Cuidado! Definitivamente, “Sudoeste” de Eduardo Nunes não é para qualquer plateia acostumada aos produtos de fácil digestão ou sequências vertiginosas e barulhentas que infestam as telas. No entanto, está longe de ser pretensioso ou chato se houver disposição para encarar uma experiência nova, intimista e silenciosa. Portanto é necessário esquecer COMPLETAMENTE os celulares (Por que parece tão difícil e doloroso nos dias de hoje?), os cochichos e pensamentos evasivos. Relaxe, respire fundo e tente imergir no estranho e fascinante clima ambientado numa vila pacata, carente e supersticiosa perto do mar.

Magnificamente fotografado em preto e branco num ousado e raro formato panorâmico muito mais estreito do que o usual 2:35.1, valorizando os horizontes das paisagens à larga, as imagens deslumbrantes começam a surgir para contar sem nenhuma pressa a saga de Clarice, uma menina cuja mãe faleceu no parto e foi resgatada em segredo por Dona Iraci (Léa Garcia). A velha é conhecida como bruxa pelo povo da região e atiça a curiosidade das crianças que se aproximam de sua palafita no meio da água para descobrir seus segredos e supostas forças ocultas. Logo, Clarice decide explorar a vila à procura dos meninos e encontra personagens e situações que parece ter vivenciado em algum outro momento.  A partir deste momento, é exigida do espectador uma boa dose de sensibilidade para perceber que não se trata de uma estória ordinária e linear. Clarice, já crescida (A ótima Simone Spoladore) oscila intemporalmente seus momentos de criança e adulta onde encontra personagens que se confundem e convergem com habilidade para um momento chave: Uma situação de violência sexual que irá marcar a vida de Clarice em toda a sua existência. João que é seu novo amigo poderá ter sido seu irmão e algoz num outro momento, bem como seu próprio pai pode ser um estranho ou inimigo disfarçado por uma máscara bizarra de folia folclórica. Os papéis secundários como o da amante vivida por Dira Paes são perturbados pelos acontecimentos aparentemente sobrenaturais, tanto quanto a audiência menos experiente que corre o risco de estranhar este intrincado jogo de cena.

A obra deve ser encarada como um experimento belo, original, onírico, singular e poético sobre um ciclo de pessoas que chegam e partem como o vento do título (Que permeia todo o filme como outros sons da natureza). Definitivamente ou não.

Por: Carlos Henry.

Sudoeste. 2011. Brasil. Diretor: Eduardo Nunes. Roteiro: Guilherme Sarmiento, Eduardo Nunes. Elenco: Simone Spoladore, Raquel Bonfante, Julio Adrião, Dira Paes, Mariana Lima, Everaldo Pontes, Victor Navega Motta, Regina Bastos, Léa Garcia. Gênero: Drama. Duração: 129 minutos. Classificação: 12 anos.

Inverno da Alma (Winter’s Bone. 2010)

Inverno da alma” (Winter’s Bone. 2010) é o filme independente do ano. E, é também um gênero novo de cinema:  vai do noir- caipira; do realismo-naturalista apresentado pela produções independentes, ao gênero gangster.

A ação ocorre em Missouri, onde a adolescente Ree (Jennifer Lawrence) vive com sua mãe catatônica. O pai está ausente, então Ree precisa cuidar dos irmãos mais novos. A jovem pensa em entrar para o exército dos EUA, por conta do bônus em dinheiro de 40.000 dólares prometido pelos cartazes de recrutamento. Mas o destino literalmente bate à sua porta, e tudo muda: o xerife local informa a garota que o seu pai foi libertado da prisão sob fiança e está foragido. E, se ele não se apresentar ao tribunal em uma semana, a familia de Ree vai perder  a propriedade, e a casa (quase em ruínas!).

Ree assegura aos policiais que ela vai encontrar o seu pai – não importa como. Ao assumir o fardo, a jovem de 17 anos começa a desenterrar alguns segredos muito perigosos. Todo mundo que  “aparece” no seu caminho tem algum segredo sobre o pai de Ree, e  o mais interessante, e que essas pessoas parecem ser “parente” da menina, pelo menos de um modo distante, e quando Ree pede ajuda, o segredo fica mais escuro.

O ponto alto do filme:

A personagem Ree – Jennifer Lawrence que tinha chamado a atenção no filme “Vidas que se Cruzam” (The Burning Plain, 2009) -, tem  em Winter’s Bones, um desempenho fascinante. A sua determinação feroz e a naturalidade da atriz chega ao ponto onde se pode  perguntar se Ree é realmente  real e não um ator atrás do personagem.

Do mesmo modo, posso mencionar a belissima atuação de John Hawkes, que vive o tio de Ree, Teardrop. O personagem luta contra a honra e as filiações com sua turma de bandidos e a lealdade à sua família. Um papel rico em detalhes.

O  ponto fraco:

A história se sustenta no uso da imaginação, isto é, as associações não são solidificadas, o que torna o enredo um tanto quanto conturbado e impenetrável como a paisagem de tanta miséria. Me pareceu que os personagens acham que eles entendem e acreditam que sabem o que realmente aconteceu, mas não há nada sólido.

O filme “Inverno da Alma”  pode ver visto como primo- irmão do filme de Courtney Hunt, ‘Frozen River’ (2009), mas a diretora Debra Granik cria uma tensão incrível, e apresenta um extraordinário final de horror: me pareceu como um pesadelo. A visita horrível a um lago iluminado pela lua, o uso de uma moto-serra, e… não, vou contar o resto.

Embora seja um pouco cansativo, de certa forma, o filme se concentra no medo e na ansiedade. E faz o máximo proveito de tão pouco. A direção firme, a fotografia muito bela, o roteiro inteligente, e o elenco espetacular.  Vale a pena ser visto!