LOVE (2015). Pôr um Ponto Final na Relação Significa o Fim do AMOR?

love-3d_filmegaspar-noe_cineastaPor: Karenina Rostov.
[Contêm revelações sobre o enredo.] [E o filme contêm cenas de sexo explícito.]

Era uma vez um diretor de cinema argentino chamado Gaspar Noé que resolveu nascer novamente para contar a história de AMOR, segundo o seu entendimento, entre seu pai Murphy e a namorada dele Elektra. Uma história instigante e complexa.

Gaspar nasceu por obra do acaso. Seu pai Murphy e a namorada Elektra acabaram envolvendo uma terceira pessoa: a jovem Omi. E no encontro íntimo do trio acidentalmente a convidada acabou engravidando. Consequência essa que acabou dando novo rumo a vida de cada um deles. Mudando planos, projetos e provavelmente possíveis sonhos. Foi assim que se deu a reviravolta ‘no LOVE’ e a jovem convidada tornou-se mãe, aos dezessete, por acaso, de Gaspar.

love_2015_01Murphy, um jovem diretor de cinema. Elektra, uma artista plástica linda, atraente tal qual a Elektra da mitologia grega. Muitos autores falaram sobre ela… e Eurípides deu um tratamento especial transformando-a em divindade. Enxergando em Elektra uma mulher amargurada e impulsiva, levada mais pela fúria do que pela maldade… A impressão que dá é que Gaspar Noé parece sentir muita admiração pelo mito Elektra. A formosura, a força e por ela ser como pólos divergentes: boa e má; desajustada e correta; que ama compulsivamente e odeia ao extremo; sendo como o fim e o começo. Afinidade e identificação.

love_2015_02LOVE é praticamente contada através da linguagem corporal, um ensaio fotográfico, ou uma peça teatral, e no palco três personagens se digladiando entre o tato, olfato, felação e a suficiência da linguagem não-verbal, não dando lugar ao tabu, pré-conceitos, ou julgamento de valor e nem para as palavras propriamente ditas pois poderiam quebrar o feitiço que o casal buscava nas relações ardentes mais de volúpia do que de encanto.

Gaspar, agora com dois aninhos de idade é acordado pelo celular de seu pai, enquanto que no quarto ao lado Murphy e Omi estavam em seu momento íntimo de amor, embriagados de sexo muito antes do amanhecer. Insistentemente chama o pai. E só assim Murphy atende àquela ligação. A partir daí o pequeno Gaspar sai de cena e todo o desenrolar da história, então em flashback, é focada nos acontecimentos de dois anos atrás. Murphy se vê mergulhado nas lembranças com a amada Elektra.

love_2015_03A chamada era da mãe de sua ex-namorada Elektra. Entra em cena todo aquele seu passado ardente. Pouco mais de dois anos se passaram e Murphy, agora aparentemente sossegado, outra pessoa, outra vida, família formada, pai e marido, trabalho, contas a pagar, compras, lazer… rotina. E agora quem fazia parte do trio é ele, a sua atual companheira e o bendito fruto dessa relação, o Gasparzinho. Rs!

Na chamada recebida, a mãe de Elektra, disse-lhe que a filha sumiu do mapa já há algum tempo e que ela estava muito preocupada, porque Elektra passou a sofrer de depressão e a ter tendências suicidas.

love_2015_04Parece que Murphy arquivou aquela sua história de amor e tocou sua vida dando novo rumo a ela. E aquele LOVE que dizia sentir por Elektra, o que poderia ter acontecido? Simplesmente desapareceu? Acabou quando ela ficou sabendo que a jovem vizinha engravidou de seu amado? Murphy só voltou a pensar na sua ex-namorada depois da ligação da mãe dela. O amor entre o casal acabou? Ou como diria um poeta foi eterno enquanto durou? Ou só estava adormecido?

Reza a lenda que, o corpo é o santuário da alma. E o sexo é o complemento do amor. Estão interligados corpo-alma-sexo-amor. E quem ama deveria jamais se descuidar.

love_2015_05Amor é mesmo uma caixinha de surpresas?! A culpa de não ter sobrevivido? Se existe nessa história um culpado, parece recair sobre a Elektra. A teoria literária investiu nessa crença de que a culpa é geralmente da fêmea e o autor quase sempre trata de matar o AMOR pondo um ponto final na vida dela, principalmente quando se trata de ligações perigosas, envolvendo mais de duas pessoas.

Sabe-se que em um relacionamento a três, há perdas e danos e certamente alguém acabará sobrando ou sofrendo as consequências.

Gaspar Noé usou e abusou de alguns clichês físicos para literalmente gozar na cara do espectador. O relacionamento emocional entre Elektra e Murphy, fora superficial? Tiveram bons momentos, se divertiram, eternizaram suas lembranças através de fotos, vídeos, pinturas, compartilharam anseios… até o momento em que um novo ser resolve nascer. Então se deu o corte do cordão umbilical de uma história que foi linda para começar do zero uma outra.

love_2015_06Afinal, quanto tempo mesmo dura uma paixão? Dizem que há um prazo de validade.

Gaspar Noé resolveu dar uma deixa ao estampar na parede de LOVE o cartaz do filme “Saló ou Os 120 dias de Sodoma”, de Pasolini, dando uma pista aos que testemunhariam o conto de fadas entre Murphy e Elektra, ou seria só um pré-texto?

Era de fato LOVE? Era AMOR? Ele só passou a pensar em Elektra dois anos depois.

Noé precisou nascer para trazer à tona uma história de amor dos tempos modernos. Onde tudo pode ser possível num relacionamento quando as pessoas envolvidas consentem. Elektra e Murphy tinham afinidades de sobra no quesito relacionamento sexual. Só que ele próprio confessou-se um conservador.

love_2015_07Talvez o filme seja condenado por pecar pelo excesso de tórridas cenas de sexo por mais de 90 minutos. Sexo, muitos gostam, mas ficam incomodados em testemunhar terceiros mostrando suas performances além de quatro paredes. Não seria hipocrisia? Afinal todo ser é resultado de sexo entre duas pessoas, e como diz um filósofo de botequim, “somos resultado de um orgasmo… ou uma gozada?

Bem, pôr um ponto final no relacionamento nem sempre significa por um ponto final no sentimento de AMOR. E Elektra em algum momento de LOVE pergunta a Murphy: “- O que significa AMOR? Você saberia responder?

LOVE (2015).
Ficha Técnica: na página no IMDb.

P.s: Essa é uma compilação de um texto bem mais longo. Para o ler na íntegra, clique aqui.

Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Confused. 1993)

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Milla Jovovich

Milla Jovovich

Por Francisco Bandeira.
Apesar de ser um filme da década de 90, Richard Linklater mostra com perfeição o universo adolescente da década de 70, servindo como uma bela homenagem ao clássico de George Lucas, American Graffiti.

Linklater mostra os jovens colegiais em aventuras, sejam elas na sala de aula, em casa, ou no mundo com os amigos. Lá estão eles rindo, bebendo, paquerando, se divertindo como se não houvesse amanhã. Os jovens retratados pelo diretor são bastante intensos, mas nunca vazios ou estereotipados e acerta em cheio na atmosfera da geração retratada em sua obra.

Rory Cochrane e Matthew McConaughey

Rory Cochrane e Matthew McConaughey

Se fosse resumir o filme, eu diria que Dazed and Confused é puro Sexo, Droga e Rock’n Roll, mas com verdade e uma ternura que deixaria Hughes orgulhoso. Contando ainda com uma bela trilha sonora e um jovem Matthew McConaughey impagável, o filme merece o status de clássico que possui.

Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Confused. 1993). Ficha Técnica: página no IMDb.

O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas (St. Elmo’s Fire. 1985)

o-primeiro-ano-do-resto-de-nossas-vidas_1985Por Francisco Bandeira.
Não há nada melhor que um filme sobre a adolescência, com personagens encantadores, uma boa premissa, com debates ainda presentes na juventude atual, com questionamentos sobre a vida adulta, o poder da amizade, quanto o amor platônico nos consome… E o pior (ou melhor): o quão difícil é assumir responsabilidades.

Esse é o tema abordado por Joel Schumacher neste filme pra lá de simpático, simples, com rostos marcantes no elenco, onde todos estão exalando carisma, esbanjando talento e, por mais que a mão pesada do diretor e o roteiro cheio de furos deixem o filme bem longe de aproveitar seu potencial máximo, não compromete o resultado final do longa que poderia ter alcançado o mesmo “status” de clássico adolescente como os dirigidos por John Hughes na mesma década.

A fita tem alguns momentos marcantes, como quando Billy explica a metáfora do Fogo de Santelmo que dá nome ao filme para consolar sua amiga, ou os personagens se questionando sobre as amizades durarem para sempre, romances impossíveis e o peso que os mesmos têm que carregar na vida adulta. ‘O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas‘ é sim um pequeno filme meio esquecido, mas isso não o torna menos profundo, tocante e divertido, como todo bom filme dessa safra cada vez mais extinta nos dias atuais.

O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas (St. Elmo’s Fire. 1985). Detalhes Técnicos: página no IMDb.

Quase Famosos (Almost Famous, 2000).

quase-famosos_2000Por Francisco Bandeira.
Cameron Crowe entregou em “Quase Famosos” um dos retratos mais honestos e cativantes sobre as descobertas dos adolescentes sobre drogas, sexo e rock’n roll. Todo aquele deslumbramento acerca de seus ídolos, uma atmosfera de curtição quase inquebrável – mesmo com tantos conflitos – e, especialmente, a liberdade de um jovem, transformando aquela aventura juvenil em um belo road movie.

O primeiro contato com a música, fama, famosos, artistas, empresários, mulheres e o amor. O que torna tudo tão perfeito? As músicas que pontuam cada passagem especial do filme (a cena do ônibus ao som de Tiny Dancer, do Elton John, é espetacular). Penny Lane (Kate Hudson, perfeita) é aquele tipo de mulheres que procuramos a vida inteira, que não saem das cabeças, que ecoam em nossos pensamentos e sonhos, porém tão frágil e desolada, que a torna alcançável ou ainda mais apaixonante.

quase-famosos_2000_01Crowe inseriu suas experiências pessoais no filme, mostrando que nos deparamos com diversos tipos pela vida: a mãe protetora (Frances McDormand, divina), a irmã libertadora (Zooey Deschanel, ótima), a jovem e bela inocente que quer ser descolada (Anna Paquin, encantadora), ou o jovem preocupado que descobre que a vida pode ir de sonho a pesadelo em questão de segundos (Patrick Fugit, espetacular) ou aquele típico sacana que nos proporciona as melhores experiências de nossas vidas e, por mais imbecil que seja não conseguimos odiá-lo… Nem sequer por um minuto (Billy Crudup, impecável). São tantos sentimentos em cena, que fica difícil não se sentir atraído por personagens tão mágicos, em um universo de sonhos que é a vida, e desejamos vive-la cada vez mais.

Ser famoso é ótimo, ser anônimo tem suas vantagens, porém fazer parte do grupo dos QUASE FAMOSOS não é nada menos que perfeito.

Quase Famosos (Almost Famous. 2000). Ficha Técnica: página no IMDb.

Ninfomaníaca Volume 1 e 2. Um Estudo Sobre a Compulsão Humana

ninfomaniaca-2013_01Se você está indo ver Ninfomaníaca por causa das cenas de sexo, meu amigo, você está sendo lesado. Embora tenha um conteúdo pornográfico (fácil entre os mais explícitos já lançados num cinema comercial), Ninfomaníaca é um drama que tem uma história para contar. Se ela é relevante ou não, aí a coisa é bem relativa.

O diretor/roteirista você já deve ter ouvido falar – o tal do Lars Von Trier, o mesmo carrasco que dirigiu o polêmico Anticristo (2009) e o mais recente Melancolia (2011). Tendo isso em mente, da para entender tamanha ousadia.

Quem já assistiu alguma obra do diretor sabe que o cara gosta de começar seus filmes com estilo, fugindo das formuladas aberturas convencionais. Logo na primeira cena suas excentricidades ficam evidentes; uma demorada tela preta nos faz questionar se há algum problema na projeção; ela permanece por intermináveis 80 segundos – até tomarmos um susto com a pesadíssima trilha “Führe Mich” da banda alemã Rammstein enquanto vemos a distância, uma mulher jogada as traças no chão de um beco escuro.

ninfomaniaca-2013_02Assim somos introduzidos a protagonista Joe (Charlotte Gainsbourg), que após ser acolhida pelo culto Seligman (Stellan Skarsgård), começa a contar sobre sua vida, da sua infância até o momento presente. E nos mínimos detalhes, sem o menor pudor, mergulhamos em sua jornada de confissões; desde sua descoberta sexual aos 9 anos à sua ruína, aos trinta e poucos. Relatos de uma busca desenfreada por sexo que começa como uma curiosidade, passa a ser uma diversão e mais tarde, a razão de todos os seus problemas.

ninfomaniaca-201_03Joe conta sua história como se culpasse a ela mesma por todas as desgraças que aconteceram, enquanto Seligman a escuta e tenta, de forma a amenizar a situação, justificar suas atitudes relacionando com uma série de curiosidades históricas e naturais. Comparações curiosas, mas que beiram ao ridículo as vezes – o que me levou a questionar se neste segmento do filme, o esquisitão do Von Trier não estaria apenas tirando sarro da nossa cara através das palavras de Seligman; atribuíndo justificativas tão complicadas e filosóficas em atos tão simples de se compreender. O cara tira muita onda – em dado momento, ele mesmo se “auto-referencia” com uma cena envolvendo um bebê na janela; igualzinha aquela vista na abertura do filme Anticristo. Ou do momento em que, passado três anos, a gatíssima Stacy Martin de vinte e poucos é bruscamente substituída por Charlotte Gainsbourg de quarenta e poucos, enquanto Shia LaBeouf continua o mesmo, só substituído momentos depois… vai entender.

Por um bom tempo ao longo do filme eu fiquei na dúvida. Joe da relatos atrás de relatos sobre sua incansável busca atrás do prazer e de novas experiências, somando isso às cenas explícitas de sexo e principalmente aos closes nas genitais (pensa num cara que gosta de filmar genitais), fiquei me questionando o sentido de tudo aquilo que estava vendo. Imaginando no pior dos cenários uma explicação tão esfarrapada quanto aquela dada pelo diretor para o filme Anticristo.

Até que o personagem Seligman, lá pro finalzinho da segunda metade, surge com uma justificativa simples porém muito eficiente: a velha questão do machismo. Oras, de fato… se Joe fosse um homem, não seria tão condenada por conta de sua perversão tanto pelos personagens, quanto pela plateia que assiste do outro lado da tela. Embora isso levante várias questões sobre a posição do homem e da mulher na sociedade, foi uma justificativa plausível e um jeito de se interpretar o filme. As cenas de sexo explícito… bom, isso é só estética mesmo. Dependerá de você julgá-las necessárias ou não.

ninfomaniaca-2013_04Aí estava tudo OK. Apesar de ser um material um tanto quanto forçado, o filme tocava num ponto que, de alguma forma, ofuscava o peso de suas imagens. Estava pronto pra sair do cinema com uma visão melhorada desse diretor; até que sua necessidade de chocar acaba falando mais alto do que a de encerrar de forma digna uma história. E então vem aquele final, onde o dito cujo não perde a chance de esfregar mais uma vez na nossa cara sua visão pessimista sobre o ser humano. Eu até entendo, somos as piores pragas que já pisaram nessa terra! Mas faltou a Von Trier, o bom senso de terminar um filme que já não é lá tão decente, de forma digna.

Não poderia encerrar esse texto sem falar das atuações. Embora este não seja um ponto notável no filme – é válido reconhecer a performance e, principalmente, a coragem dos atores sobretudo de Gainsbourg, por se permitir sacrificar sua imagem deixando os mais leigos acreditando que ela estava realmente fazendo sexo oral nos caras. E de sua “versão mais jovem” Stacy Martin, que em seu primeiro longa, fez mais cenas de sexo e nudez do que qualquer veterana no cinema. E claro, por transmitir de maneira natural toda a melancolia, compulsão e solidão da personagem. Um belo trabalho da dupla.

Nymphomaniac Volume 1 e 2. 2013.
Drama/Erótico – EUA – 241 min. Censura: 18 Anos
Direção e Roteiro: Lars von Trier
Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Uma Thurman, Jamie Bell, Mia Goth

Um Estranho no Lago (L’Inconnu du Lac. 2013)

Um Estranho no lago Alan Guiraudie 1Alan Guiraudie realizou um filme realmente incomum, digno de muita discussão e difícil de rotular por mesclar vários gêneros (drama, terror, arte, erotismo, suspense, etc.) sem que nenhum se sobressaia em Um Estranho no Lago. Toda a ação se concentra num belo lago afastado e naturalmente convertido num idílico campo de naturismo e pegação entre homossexuais. À primeira vista, pode ser confundido com um filme pornográfico gay, mas à medida que os personagens vão sendo apresentados de forma precisa e engenhosa, o olhar mais amplo perceberá que se trata de um filme de qualidade, cheio de nuances e profundidade nos diálogos e imagens que por vezes beiram o surrealismo.

Um Estranho no lago Alan Guiraudie 2Franck é um belo jovem que procura sexo e companhia nos bosques e conhece Henri que frequenta o lago somente para não ficar sozinho nas férias. Franck se apaixona por um tipo sedutor e misterioso chamado Michel enquanto Henri simplesmente confessa uma casta, sincera e comovente afeição por Franck. A solidão dos novos amigos impulsionada por sentimentos perigosos como o desencanto e o desejo irrefreável irá levá-los a um caminho difícil de retornar.

A ameaça mortal vai além dos bagres gigantes que supostamente infestam o lago paradisíaco ou do sexo inseguro estimulado pela depressão e carência numa assombrosa alegoria sobre paixões que ferem. Quem não se impressionar com as (necessárias) cenas de sexo explícito num cenário hedonista, apreciará uma obra singular, que apesar de delicada, é repleta de verdade e horror.

Por Carlos Henry.

Um Estranho no Lago (L’Inconnu du Lac. 2013). França. Direção e Roteiro: Alain Guiraudie. Elenco: Pierre Deladonchamps (Franck), Christophe Paou (Michel), Patrick d’Assumçao (Henri), +Cast. Gênero: Drama. Duração: 100 minutos.