A BRUXA (2015). Obra Prima que Assombra no Sentido mais Profundo!

a-bruxa_2015_postera-bruxa_2015_01Por: Carlos Henry.
The Witch, O filme de Rober Eggers precisa ser rotulado, então ele acaba sendo vendido como uma fita de terror. No entanto, é muito mais do que isso. O roteiro elaboradíssimo, baseado em escritos antigos transporta a plateia mais atenta a uma profunda experiência psicológica que envolve fanatismo, religião e sexualidade apresentados num conjunto irretocável de preparação de elenco, trilha sonora e direção. Som e imagens, essências do cinema, estão magníficos. A fotografia monocromática que realça o vermelho em momentos chave e o coral de vozes lúgubres e sons assustadores (Incluindo a impressionante voz pregadora de Ralph Ineson) garantem o tom pretendido. O resultado não podia ser mais perturbador.

a-bruxa_2015A história se passa no século XVII, onde uma família comum composta de pai, mãe e os filhos (Uma adolescente, um casal de gêmeos ainda crianças e um bebê) estão tentando se reestruturar numa região isolada, após terem sido expulsos de uma comunidade por conta de divergências religiosas. Na nova casinha na floresta, o primeiro acontecimento estranho acontece. O bebê desaparece. Poderia ser um lobo, mas também poderia ser uma bruxa para usar a criança em conhecidos rituais satânicos de rejuvenescimento. A partir daí, uma sucessão de tragédias começa a desarmonizar a família. A menina não se dá conta do poder sexual que exerce. Esta confusão de sentimentos, absolutamente normal, mas difícil de ser entendida especialmente na época, inicia um confuso conflito entre todos a ponto de confundirem abalos da fé com pecados mortais e sentimentos da puberdade com sinais do mal. Nisso, o aparentemente inofensivo bode preto carinhosamente batizado de Black Philip pelas crianças gêmeas assume um ar maléfico, suscitando um perigoso jogo de culpa e punição.

A dubiedade delirante é o ponto alto da obra. Dependendo da interpretação, que é amplamente permitida, o filme pode ser visto como mais um mero exercício de terror. A visão mais larga, capaz de perceber o imenso leque de nuances no roteiro vai reconhecer em “A Bruxa” uma autêntica obra prima que assombra no sentido mais profundo.

A Bruxa (The Witch. 2015)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas (St. Elmo’s Fire. 1985)

o-primeiro-ano-do-resto-de-nossas-vidas_1985Por Francisco Bandeira.
Não há nada melhor que um filme sobre a adolescência, com personagens encantadores, uma boa premissa, com debates ainda presentes na juventude atual, com questionamentos sobre a vida adulta, o poder da amizade, quanto o amor platônico nos consome… E o pior (ou melhor): o quão difícil é assumir responsabilidades.

Esse é o tema abordado por Joel Schumacher neste filme pra lá de simpático, simples, com rostos marcantes no elenco, onde todos estão exalando carisma, esbanjando talento e, por mais que a mão pesada do diretor e o roteiro cheio de furos deixem o filme bem longe de aproveitar seu potencial máximo, não compromete o resultado final do longa que poderia ter alcançado o mesmo “status” de clássico adolescente como os dirigidos por John Hughes na mesma década.

A fita tem alguns momentos marcantes, como quando Billy explica a metáfora do Fogo de Santelmo que dá nome ao filme para consolar sua amiga, ou os personagens se questionando sobre as amizades durarem para sempre, romances impossíveis e o peso que os mesmos têm que carregar na vida adulta. ‘O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas‘ é sim um pequeno filme meio esquecido, mas isso não o torna menos profundo, tocante e divertido, como todo bom filme dessa safra cada vez mais extinta nos dias atuais.

O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas (St. Elmo’s Fire. 1985). Detalhes Técnicos: página no IMDb.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)

Hoje eu quero Voltar Sozinho_2014À primeira vista, o cartaz pode parecer um caça-níquel “teen” amparado no sucesso do excelente e premiado curta-metragem quase homônimo que foi tanto sucesso faz algum tempo com o mesmo diretor (Daniel Ribeiro) e trio de jovens atores (Tess Amorim, Guilherme lobo e Fabio Audi).

Hoje eu quero voltar sozinho- pré estreia 04abr14 Odeon - os atores Tess Amorim Guilherme lobo e Fabio Audi.

Hoje eu quero voltar sozinho – Pré estreia em 04 abr 14 no Odeon – os atores Tess Amorim Guilherme lobo e Fabio Audi.

Mas ao longo do filme, fica claro que o curta “Eu não quero voltar sozinho” merecia o desenvolvimento que sofreu para encorpar e transformar-se em um longa-metragem amadurecido e extremamente confiante em todos os aspectos, o que justifica o título resoluto.

Sem pieguice ou excessos, “Hoje eu quero voltar sozinho” se baseia na fórmula original de seu notável embrião, quando expõe os medos, decepções e incertezas de um adolescente cego diante dos sentimentos novos que a vida lhe apresenta de forma leve e natural, mas recheado de emoção, euforia  e reviravoltas próprias da juventude. O humor do filme é muito especial e preciso, pontuando e ajudando a digerir as angústias de uma deficiência física e de uma sexualidade complexa reunidas no personagem de Leonardo (Guilherme Lobo). Destaca-se também uma apurada trilha sonora que flerta com o melhor do popular e do clássico incluindo uma bela peça de Schubert que já foi sabiamente usada no Cult “Fome de Viver” de Tony Scott.

hoje-eu-quero-voltar-sozinhoPara preencher os quase 100 minutos, a figura protetora dos pais e da avó (A veterana Selma Egrei, estrela dos filmes de Walter Hugo Khouri) foi acrescentada ao jovem triângulo original (Leo, Giovana e Gabriel), bem como um curioso grupo de “bullying” na escola que acaba por contribuir para um desfecho positivo e espirituoso à trama engenhosamente roteirizada, dirigida e interpretada. Cabe lembrar que se trata de uma equipe relativamente novata, mas genuinamente talentosa.

Carlos Henry

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014). Brasil. Direção e Roteiro: Daniel Ribeiro. Elenco: Ghilherme Lobo (Leonardo), Fábio Audi (Gabriel), Tess Amorim (Giovana), Selma Egrei (Maria), Eucir de Souza (Carlos), Isabela Guasco (Karina), Júlio Machado (Professor), Victor Filgueiras (Guilherme), Naruna Costa (Professora), Lúcia Romano (Laura). Gênero: Drama, Romance. Duração: 95 minutos. Continuidade do curta-metragem ‘Eu Não Quero Voltar Sozinho’.

Curiosidade: O título original do filme seria ‘Todas as Coisas Mais Simples’, mas não daria a ligação necessária para o curta-metragem ‘Eu Não Quero Voltar Sozinho’ lançado em 2010 pelo o mesmo diretor. Então chegaram a um consenso levando em conta os conflitos do personagem Leonardo originando o atual nome do filme.

Azul é a Cor Mais Quente (2013). Exposição em Demasia de Nus Femininos.

Azul-e-a-Cor-Mais-Quente_2013Filme francês de 2013 dirigido por Abdellatif Kechiche (Vênus Negra), estrelado por Adèle Exachorpolous e Léa Seydux, a obra é uma adaptação dos quadrinhos escritos e desenhadas por Julie Maroh que tem o título original de “Le Blue este une Couleur Chade“. Bem, para quem não sabe, “Azul é a cor mais quente” foi um dos filmes mais aclamados de 2013. Entrou para a lista do ano como “um dos melhores”, ganhou vários prêmios e devo destacar aqui primeiramente a atuação brilhante de Adèle Exachorpolous, uma jovem atriz que desempenhou sua Adèle de forma madura, dedicada e muito competente. Não há dúvidas de que é uma atriz promissora.

A história é sobre Adèle (Adèle Exachorpolous) que se apaixona por Emma (Léa Seydux). Quando andando tranquilamente pelas ruas de Paris ela encontra uma garota com o cabelo azul e a partir desse momento Adèle fica fixada na misteriosa mulher com madeixas coloridas, até que finalmente o romance concreto acontece.

Originalmente o nome do filme é “La vie d’Adèle“, o que em tradução livre significaria “A vida de Adèle”, é um forte paralelo com o livro que a adolescente esta lendo no início: “A vida de Marianne”, e que segundo ela mesma estaria adorando o livro e não sabe exatamente explicar a razão, mas percebe-se uma certa identificação entre Adèle e Marianne. Um outro paralelo interessante entre a literatura e o cinema, Adèle aprofundada nos estudos enquanto o professor discorria sobre um livro que aparentemente falava do primeiro amor, e em seguida vemos a jovem completamente fascinada por Emma. A troca de olhares foi recíproca.

Azul-e-a-Cor-Mais-Quente_HQQuero deixar claro que não conheço a HQ e nem a filmografia de Kechiche. Por isso não posso dizer o quanto o filme foi fiel aos quadrinhos. Não se trata de um filme pelos direitos dos casais homoafetivos, ele não tem esta linha política, a história nada mais é que a relação entre duas meninas que se apaixonam e o declínio desta paixão. Nada de novo. O que foi retratado para as telas do cinema foi o trivial, e devo ser honesta: existem vários filmes que discutem as relações sejam elas heterossexuais ou homoafetivas de uma forma bem mais interessante. Obra longa demais para retratar o óbvio.

Adèle é uma menina que torna-se mulher do dia para a noite, mas particularmente não consegui enxergar esse amadurecimento na personagem. Sempre com o mesmo cabelo desalinhado, parece deslocada de todos os lugares que frequenta, é uma personagem que parece estar buscando algo. Diferentemente, Emma já é uma mulher mais velha, faz faculdade de belas artes, é intelectualizada, resolvida sexualmente e sabe onde quer chegar profissionalmente. E era isso que ela queria de Adèle: que ela buscasse, ousasse. Mas as duas já morando juntas, Adèle se contentava em cozinhar para sua amada e trabalhar como professora. Nada contra os professores, até porque sou uma! Mas logo no início do filme o que vi foi uma garota com opinião, que escrevia, gostava de ler, e isso parece ter sido deixado de lado quando se envolveu com Emma. A jovem perdida vinha de uma família tradicional. E eu gostaria de ter visto como foi o rompimento com esse tradicionalismo. E aí fica à cargo de quem assiste interpretar: será que ela enfrentou a família ou mentiu para morar com Emma?

Um ponto delicado que pretendo discutir agora (e para quem viu o filme deve estar louco para ler), é sobre as polêmicas cenas de sexo entre duas garotas. Quem acompanha meu trabalho, sabe que já assisti vários filmes com temática LGBT (alguns excelentes por sinal), por isso, nada contra as cenas de sexo. Eram necessárias para o enredo, para o contexto. O que questiono foi a exposição dos corpos das atrizes, e cenas que são dignas de filme pornô. Cenas mal dirigidas, que causam sim um certo desconforto porque você vai assistir um drama e de repente se depara com sexo puramente explícito! Desnecessário? Sim. No caso de “Azul é a cor mais quente“, a insinuação ao sexo cairia melhor, e devo destacar aqui que a própria autora dos quadrinhos não aprovou as tais cenas, mas elas foram ao ar assim mesmo porque segundo consta Julie Maroh não foi consultada em nenhum momento durante as gravações do filme.

Alguns podem achar que estou sendo hipócrita, mas não estou. Não tenho problemas com sexo, tenho problemas com excesso, e o que aconteceu com “Azul é a cor mais quente“, é que duas mulheres fazendo amor ganhou muito mais destaque que outros assuntos que o filme aborda. Como por exemplo a discriminação que Adèle sofre no colégio simplesmente por conversar com Emma. Não vi nenhum comentário que abordasse tal cena. Os comentários tanto de mulheres quanto de homens é sobre a excitação em ver as duas. As atrizes até fizeram um ensaio “lesbian chic“. Cristo! Não sei qual é a orientação sexual das meninas e nem me importa, mas honestamente? Discutir um único ponto sobre um filme que tem quase três horas de duração, isso me faz perguntar se é apenas fantasia ou se o lesbianismo virou “modinha”. Seja qual for a resposta, é deprimente.

Lembro-me quando foi lançado “O Segredo de Brokeback Montain” do diretor Ang Lee. Gerou muita polêmica e piadinhas sobre o amor entre os dois cowboys, e o filme nada mais é que uma história de amor. PONTO. Mas aí tiveram os desocupados de plantão que fizeram uma montagem com o cartaz do filme colocando duas atrizes, aí não haveria piada. E isto sim é hipocrisia. Mulheres lésbicas viraram fantasia de 90% dos homens, e é lamentável que filmes com temáticas LGBT sejam vistos para satisfazer onanistas de plantão. (REDTUBE esta aí para isso).

Não sou de ler críticas de filmes porque gosto de formar minha própria opinião. Mas uma em especial que foi publicada no site Pragmatismo Político me chamou atenção até a metade. Tudo estava indo bem, quando me deparo com a seguinte frase: “não há nada mais bonito que duas mulheres fazendo algo bonito“. Natalie Portman disse certa vez: “A indústria do cinema é predominantemente masculina, e nós atrizes temos que nos submeter“. Esta frase cabe perfeitamente em “Azul é a cor mais quente”. Exposição em demasia de corpos femininos nus. Nada contra a nudez e o sexo, mas o excesso fica cansativo, tira o foco da obra e acaba sendo enfadonho. No filme brasileiro “Como Esquecer“, Ana Paula Arósio faz o papel de uma professora lésbica que foi abandonada pela companheira. Há um beijo lésbico e uma cena muito sutil entre ela e uma pintora. Não precisou de mais nada para que o espectador compreendesse a mensagem sem que isso desfocasse o contexto do filme. Palmas!

Azul é a cor mais quente” não merecia estar na lista dos melhores de 2013. Filme longo para contar uma história trivial, mas que poderia ter um roteiro mais interessante e que pudesse proporcionar discussões acerca da homossexualidade e das relações amorosas sejam héteros ou homos.

Cotação: 2 estrelas

Por Lidiana Batista

Azul é a Cor Mais Quente (La vie d’Adèle. 2013). França. Direção e Roteiro: Abdellatif Kechiche. Elenco: Léa Seydoux, Adèle Exarchopoulos, +Cast. Gênero: Drama, Romance. Duração: 179 minutos. Faixa Etária: 18 anos. Baseado na HQ homônima de Julie Maroh.

Pariah (2011) – Lutando pela própria identidade!

pariah-2011_posterPor Lidiana Batista Corrêa.
Trama dirigida e escrita por Dee Rees e que conta a história da adolescente Alike (Adepero Oduye), moradora do Brooklin e que tenta de todas as maneiras esconder sua homossexualidade dos pais (Kim Wayanes e Charles Parnel). A única pessoa que sabe seu segredo é sua melhor amiga Laura (Pernell Walker) que também é lésbica e por essa razão, a mãe desaprova esta amizade. Juntas, as duas frequentam boates GLS na esperança de que Alike encontre uma namorada. Filme vencedor do festival de Sundance 2011. [Pariah = uma pessoa sem status, um membro rejeitado pela sociedade.]

“Para onde voava o pássaro sem patas, encontrava árvores sem galhos.” (Andre Lorde)

Pariah-2011_00É com esta citação que começa o filme Pariah. E em seguida vemos Alike e Laura em uma boate GlS, Alike vestida de menino, feliz, sentindo-se livre, mas ao mesmo tempo apreensiva, pois queria conhecer alguém. O tempo passa, Laura e Alike precisam ir embora, Alike se veste de menina dentro do ônibus, nesta cena já podemos concluir que os pais não aceitam a homossexualidade da filha.

Li muitos comentários à respeito desse filme e um deles é que as lésbicas ficaram estereotipadas. Discordo completamente dessa afirmação, pois o que vemos é uma adolescente de 17 anos lutando para viver sua sexualidade, a não aceitação da família, o preconceito que ela e outras garotas sofrem no bairro, isso não é estereotipo, é a realidade de muitos jovens retratada na tela dos cinemas.

Um outro fator que merece destaque, é a aproximação de Lee (Alike) e uma amiga do colégio. É claro que a garota sabia que Alike era lésbica, e se aproveitou disso para brincar, ou para matar sua curiosidade (isso é só uma hipótese minha), já que a garota foi totalmente indiferente no dia seguinte, sem se importar com os sentimentos de Alike, apenas diz: “Não conte para ninguém.”

E podemos dizer que isso acontece? Sim podemos. Com tantas declarações de famosos que se dizem bissexuais, parece que que virou modinha entre os jovens experimentar de tudo, ser de todo mundo e dane-se o resto! Nada contra os bissexuais! Pelo contrário! Sei perfeitamente que é possível sim um homem ou uma mulher sentir atração pelos dois sexos, mas o que questiono aqui é a banalização. A garota dormiu com Alike em uma noite e no outro dia estava com um menino! E disse ainda: “Eu não sou gay!” É claro que isso provocou um caos em Alike, afinal era sua primeira experiência, para ela foi verdadeiro, foi entrega total, e não só um passatempo.

Pariah-2011_01Não há nada de errado comigo.”

A mãe esta sempre preocupada em vestir sua garotinha como menina e garantir que ela ande com companhias femininas. O pai é relapso, sabe da homossexualidade da filha, mas não quer aceitar. Afinal, ele é um policial, e isso seria vergonhoso, não? Ele não suporta a esposa com seus fundamentalismos, ele a trai, até sentimos raiva dele, mas é este homem quem estenderá a mão para Alike no momento em que ela mais precisará.

Lee além de corajosa é uma grande escritora, e fez sua escolha. Isso exigiu que ela atravessasse um caminho árduo, mas escolhas exigem sacrifícios, exigem renúncias, exige coragem.

Diga a mamãe que Deus faz as coisas certas.”

Detalhes Técnicos: http://www.imdb.com/title/tt1233334/

Sagração à Primavera: Stravinsky e Béjart.

sagracao-da-primavera_stravinsky_bejartPor José Bautzer Fusca.

O lugar comum vê a primavera – a primeira verdade, o primeiro ver – como o momento da natureza idílica, florida e perfumada, quando o amor ronda o ar e os corações pulsam poéticos. Mas a coreografia de Maurice Béjart para a Sagração à Primavera de Igor Stravinsky nos devolve para a realidade áspera da música e olhar criterioso de um músico e de um coreógrafo geniais.

A primavera é rude, impiedosa e amoral, a ela basta exaltar os hormônios das marionetes vivas em disputa febril e não raro mortal pela reprodução. Não há ingenuidade nem visão idílica de pastos floridos e alegres. A vida, na música eloquente de Stravinsky pulsa o ardor da luta dos machos na disputa das fêmeas, e bandos de animais cavalgam, revoam e nadam em frenesi pela reprodução do melhor da espécie. É uma visão cruel. Bela, mas cruel, de uma natureza aparte de qualquer moral humana e apolínea. A ode é por um Dionísio febril.

Em comovente bailado o fraco se esvai, rasteja e morre atrás do bando em célere disparada. A fálica masculinidade, em eloquente representação plástica, corteja o útero receptivo das dançantes em coreografia circular, compondo uma flor ou um útero. A coreografia e a música são fortes e rudes, como a primavera em pulsante desejo selvagem pela vida e a amoral seleção dos mais aptos. Este balé, esta música são fortes e, repito, rudes. Não permitem a visão idealizada e romântica do lugar comum. É possível identificar com clareza a vida animal e seu drama primaveril de migração, vida e morte, na busca da reprodução.

Tive o imenso prazer de assistir este mesmo balé postado em vídeo, não apenas em sua apresentação no Teatro Municipal De São Paulo, décadas atrás, como também nos bastidores do ensaio, em um momento mágico e inesquecível, por um gesto de extrema simpatia para com este ardoroso fã que sou. Foi com emoção forte que encontrei o registro em filme dessa vigorosa coreografia que tenho o prazer de dividir com vocês, meus amigos.

Curiosidade: Poderão conhecer um pouco de Igor Stravinsky no filme “Coco Chanel & Igor Stravinsky“.