O Duplo (The Double. 2013)

o-duplo-2013_cartazPor Francisco Bandeira
(O texto contém spoiler..)
Richard Ayoade_CineastaQuem quer vivenciar um pesadelo surreal de outra pessoa? Ninguém, certo? Para Richard Ayoade não. O cineasta convida o espectador a presenciar o embate da identidade física x identidade mental, mostrando que as pessoas podem ser completamente diferentes, mesmo sendo tão semelhantes. Pegando emprestado a ideia do escritor Fyodor Dostoyevsky, na qual um funcionário fica cara a cara com ser um idiota, arrogante e manipulativo, mas que se parece bastante com ele, uma espécie de cópia, um duplo que está inserido no título da obra.

A trama gira em torno de Simon (Jesse Eisenberg), um homem bastante retraído que, quando chega em seu local de trabalho, descobre que um homem semelhante a ele, James (Eisenberg novamente), usurpou seu cargo pouco importante na empresa. Sempre humilhado pelas pessoas, o neurótico Simon agora precisa lidar com um sósia que é tudo que ele não é: confiante, charmoso, arrogante, divertido e bem sucedido. E quando James consegue tudo que ele almejou: Promoções, respeito e amor de Hannah (Mia Wasikowska), ele tem que tomar uma trágica decisão.

Logo de cara, percebemos que Ayoade e o roteirista Avi Korine trabalham seu filme em cima de um problema universal: a instabilidade de identidade pessoal. Tendo um estilo cômico bem semelhante ao do Monte Phyton, mostrando uma distopia ao melhor estilo de Brazil, do diretor Terry Gilliam e com um tom de filme noir visto em filmes de David Lynch, Ayoade ainda consegue usar de forma inteligente os travelings a lá Martin Scorsese (uma boa lição para O. Russell), o voyeurismo visto em filmes de Hitchcock (Janela Indiscreta) e Brian De Palma (Dublê de Corpo) e inserindo de forma bastante interessante (e econômica) o slow motion, tendo como grande mérito manter seu estilo próprio, apesar das inúmeras referências notadas em seu filme.

o-duplo-2013_01O grande problema do protagonista é realmente sua crise existencial. Simon é um cara que entra no trabalho como visitante, seu chefe, o Sr. Papadopoulos, o chama de novato (ele já trabalha lá a mais de 7 anos). O porteiro nunca é amigável com quem não conhece e nem mesmo o elevador parece reconhecê-lo. E quando seu contraponto surge, o filme ganha um ritmo impressionante, sendo inserido um humor pra lá de inteligente (ninguém nota a semelhança entre os dois) e um tom melancólico através da inocência do protagonista e em como seu sósia usa disso para manipulá-lo e, posteriormente, humilhá-lo de maneira impiedosa.

A diferença mais notória entre os dois é na percepção da igualdade entre eles. Reparem no desconforto e curiosidade de Simon ao ver seu sósia e em como James usa dessa semelhança e da bondade do outro para tirar proveito próprio (ele chega a achar engraçado usar disso para manipular Simon), tornando-se amigo daquela figura tímida e sem graça, oferecendo aconselhamento romântico e promoções no trabalho, até que o mesmo entrega de mão beijada tudo isso à James (ele faz um teste no trabalho para o sujeito, pede para o mesmo conquistar a sua garota pois não consegue fazer isso), vendo a chance de infiltrar-se em seu meio para se tornar bem sucedido cair em seu “colo”.

A parte técnica do longa também merece elogios. Da fotografia escura, relembrando o climão de filme noir empregado em ‘Veludo Azul’, ressaltando a sensação de desconforto do protagonista e na obscuridade da cidade (parecendo a Nova York de Scorsese em ‘Depois de Horas’, mas aqui, não existe dia), passando pelo fantástico designer de som, onde constantemente Simon escuta barulhos que sugerem sons de metrôs, sirenes e tremores de terra. E a trilha sonora, abastecida com um bom pop japonês dos anos 60 e um desempenho incrível de Danny e os Islanders, que dão um aspecto meio “extraterrestre”, servindo para reforçar o sentido de deslocamento do personagem central.

o-duplo-2013_02As atuações são formidáveis, desde a composição inteligente e cuidadosa de Wallace Shawn como o Sr. Papadopoulos, chefe de Simon até a ironia de Noah Taylor na pele do conformado Harris. Mas são Eisenberg e Wasikowska que impressionam. O primeiro entrega talvez sua melhor performance, na pele de Simon/James. Enquanto empresta um caráter introspectivo à Simon, desde seu modo de falar até trejeitos interessantes (reparem nas mãos do sujeito quando fica nervoso, seu modo de olhar para as pessoas) até a autoconfiança e sinismo de seu James, tornando-o um ser quase desprezível, se não fosse pelo ar de brincalhão do mesmo. Já a segunda, demonstra uma presença cênica inteligente, tornando-se magnética, usufruindo de sua personagem enigmática para trabalhar seu alcance dramático (e realmente surpreende nos momentos finais), ainda usando a seu favor sua tão criticada inexpressividade.

A direção de Ayoade se mostra bastante inventiva, se beneficiando da montagem brilhante do filme (e que merece realmente aplausos), reverenciando seus “mestres” sem soar um mero copiador, filmando algumas cenas de ângulos interessantes e colocando a câmera na mão nos momentos certos.

O resultado da ascensão de James e do declínio de Simon é assustador, causando uma enorme estranheza, que culmina em um clímax bastante impactante e reflexivo, que resulta em ótimos questionamentos e um crime bastante bizarro (se é que pode chamá-lo de crime). Simon era um homem que queria ser lembrado, não passar despercebido, como um fantasma, pois sem isso ele sequer poderia dizer que viveu um dia. Sua decisão inicial não o torna melhor ou pior do que ninguém, mas apenas decifra tudo o que ele queria ser: ÚNICO!

Avaliação: 08.

Anúncios

O Homem Duplicado (Enemy. 2013)

o-homem-duplicado_posterPor Marcos Vieira.
O caos é ordem ainda indecifrada.” É com essa frase que tem início o quebra-cabeça narrativo de O Homem Duplicado. Nele, o professor de história Adam (Jake Gyllenhaal), que vive em um instável relacionamento com sua namorada Mary (Mélanie Laurent), descobre que existe um homem idêntico à ele. Esse duplo é o aspirante à ator Anthony (Jake Gyllenhaal, é claro), que tem seus próprios problemas com sua grávida e desconfiada esposa Helen (Sarah Gordon). O filme trata então dos conflitos que surgem quando Adam descobre a existência de Anthony e quando os dois homens se encontram. Enquanto Adam é tímido e retraído, Anthony é impulsivo e agressivo, e o filme se desenrola a partir do efeito que a revelação da existência do outro tem sobre cada um deles.

o-homem-duplicado_01Mais do que um simples suceder de acontecimentos, a narrativa é montada de forma a colocar o espectador dentro do pesadelo que essas personagens estão vivendo, incluindo aí a namorada e a esposa. Mesmo em cenas que poderiam ser simples, como quando Adam pesquisa sobre a vida de seu duplo na Internet, uma iluminação sombria e uma trilha sonora tensa e impactante constroem um clima de suspense psicológico angustiante. Cortes bruscos e intensos nos momentos de maior desespero das personagens contribuem para esse clima. Além disso, todo o filme é permeado de uma simbologia a priori indecifrável, sendo a principal delas a presença de uma enorme tarântula em alguns momentos. É a presença dessa aranha e de algumas cenas desconexas envolvendo ela e/ou algumas das personagens que dá o tom extremamente surreal da coisa toda. “O Homem Duplicado” é daqueles filmes que deixa o espectador em suspense em relação não apenas ao que vai acontecer, mas também ao que está acontecendo.

o-homem-duplicado_02E o que está acontecendo é o maior enigma desse filme. Você pode acompanhar perfeitamente a sequência de acontecimentos, mas o segredo está em saber o que eles significam. A situação dos dois homens é absurda e nenhuma explicação lógica é oferecida pela história. Em determinado momento, o filme simplesmente acaba, e fica para o espectador a tarefa de tentar prover uma explicação lógica para o que ele acabou de ver. Isso deixa espaço para as mais loucas teorias e infinitas discussões, a exemplo do cult Donnie Darko, também estrelado por Jake Gyllenhaal (coincidência?).

Esse é um filme que vai te deixar com vontade de discutir as possibilidades e ler várias teorias na Internet. Não é por acidente que só estou escrevendo sobre ele uma semana depois de assistí-lo. É isso o que acontece quando um roteiro livremente baseado em uma obra homônima de Jose Saramago. E O Homem Duplicado é dirigido pelo já genial Denis Villeneuve, de Incêndios.

Se não fiz uma análise mais profunda da história nos parágrafos anteriores, foi para evitar a revelação de detalhes que podem estragar um pouco a experiência de quem ainda não assistiu. Porém, não posso deixar de compartilhar com vocês algumas das explicações nas quais pensei. E é por isso que…

Os parágrafos a seguir contém SPOILERS:

É possível estabelecer com razoável certeza que os dois homens são…[Continua aqui.] Voltando

Essas são apenas algumas das explicações possíveis e não é possível afirmar que nenhuma delas é a correta sem sombra de dúvidas, e essa é a beleza da coisa. Antes de escrever esse texto, eu acreditava que essa última hipótese era a mais aceitável, mas durante a escrita da primeira hipótese que apresentei aqui, passei a crer que ela é a que deixa menos pontas soltas. Quantas vezes ainda iremos mudar de versão?