A Teoria de Tudo (The Theory of Everything. 2014)

a-teoria-de-tudo-2014Seguindo a máxima popular que diz que por trás de um grande homem há uma mulher excepcional… Mesmo sendo esse homem um gênio da Cosmologia e um consagrado cientista do nosso século… Mesmo assim eu ouso dizer que ele só chegou a mostrar ao mundo tudo que ele é, por conta de uma mulher: o seu primeiro e talvez único amor. Como estamos falando de um gênio no campo da lógica, mesmo não parecendo ser lógico em dizer que ela teria sido a sua musa inspiradora. Talvez pela religiosidade dela, ela era o contraponto que o levava a se desafiar sempre. Sendo assim, além do amor, da dedicação incansável, ela foi sim sua musa. E é pelos olhos dessa mulher que conhecemos de perto a trajetória de vida de Stephen Hawking em “A Teoria de Tudo“.

_ Você não falou por que não crê em Deus.
_ Um físico não pode deixar que a crença num criador sobrenatural atrapalhe seus cálculos.
_ É um argumento contra físicos, não contra Deus.

a-teoria-de-tudo-2014_02O filme começa um pouco antes da doença se manifestar por ser o período em que ela o conhecera. Ela é Jane, interpretada Felicity Jones. Digna de aplausos pela performance! Muito embora no futuro talvez essa atuação possa vir a se apagar da memória, mas por conta da figura de Hawking, pelo carisma que passou ao longo da história numa performance incrível de Eddie Redmayne. Se muitos já admiram o cientista até pela superação, conhecendo-o mais de perto por esse filme… A admiração chegará aos Cosmos! Assim pode-se dizer também que temos em “A Teoria de Tudo” o começo de sua limitação motora, em contrapartida juntamente com a ascensão de sua genialidade. Onde por mais que ele tenha sido um estudante medíocre anteriormente, quando ele então se desvencilhou de outras disciplinas, pode enfim focar naquelas que realmente lhe interessava. Onde também o talento que ainda despontava, caiu nas graças do Professor Sciama (David Thewlis), na Universidade de Cambridge. Sciama até poderia ser severo durante as aulas, mas foi um verdadeiro Mestre ao dar as chaves para as ferramentas necessárias para Hawking embarcar em suas teorias. E Sciama o acompanhou de perto por anos.

Eu vivi com uma perspectiva de uma morte próxima pelos últimos 49 anos. Em não tenho medo da morte, mas eu não tenho pressa em morrer. Eu tenho muita coisa para fazer antes.” (Stephen Hawking)

a-teoria-de-tudo-2014_01Claro que ao se receber um diagnóstico como o dele – ELA (esclerose lateral amiotrófica), uma doença degenerativa motora, baqueia qualquer um. Para ele com um futuro promissor e além de estar apaixonado, não foi diferente. Ainda mais quando o médico lhe dera como expectativa de vida de no máximo três anos. Vale lembrar também que isso se deu na década de 60… Com o diagnóstico Hawking se entrega de vez a doença… Fora Jane que o tirou da letargia… Levando-o a ver que ele não teria tempo para ficar sentindo pena de si próprio. Quanto mais a doença tomava conta do corpo dele, mais a incansável Jane dava a ele garra para mais do que superar – já que estamos falando de uma doença castradora -, de ir se adequando à ela. E numa tentativa dele aprender a se comunicar por ter perdido a fala… a cena em si com Jane… me fez lembrar de uma outra em “O Escafandro e a Borboleta“… e que mesmo retratando em ambos os filmes um drama real vivido… me fez sorrir porque se de um lado a própria doença diminui até uma qualidade de vida… é muito bom quando se encontra pessoas, ferramental… para se continuar vivo, e até produtivo!

Eu considero o cérebro como um computador que vai parar de trabalhar quando seus componentes falharem. Não há céu nem vida após a morte para computadores quebrados, isto é um conto de fadas para as pessoas com medo do escuro“. (Stephen Hawking)

a-teoria-de-tudo-2014_casal-do-filme_e_casal-realTalvez Hawking teria tido o mesmo sucesso na carreira estando sozinho. Mas nada se comparado ao empenho dessa jovem grande mulher ao seu lado. Até porque fora ela que o havia tirado de uma possível desistência pela vida que ainda teria pela frente. Lhe dando o amor que lhe era a injeção diária para que não perdesse a batalha contra a doença. Para que viesse a se tornar esse pequeno grande herói do nosso tempo: exemplo também de superação para todos nós. E ele rendeu a ela sua gratidão. Onde numa delas fora como uma bela homenagem ao levá-la a a certa visita, e mesmo já estando divorciados: o que então fora a segunda gratidão a sua inestimável Jane. Bravo Jane!

Bem, como contei no início o filme veio do olhar de Jane porque o roteiro foi inspirado num livro dela, o “Travelling to Infinity: My Life with Stephen“. Não o li ainda, dai não sei tudo o que ela conta por ele. Mas com certeza do Roteiro de Anthony McCarten, o Diretor James Marsh fez um ode ao homem aprisionado pelo próprio corpo. Até porque toda a carga da limitação motora ficou mesmo na cena da escada. Até porque a cena em pegar uma certa caneta, é um sentimento comum a muitos de nós limitados pelo próprio corpo. Até porque “A Teoria de Tudo” é um filme que em vez de fazer um drama mostrou que com ajuda certa, a pessoa poderá sentir com propriedade: “Yes! I can!”. Bravo! Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Teoria de Tudo (The Theory of Everything. 2014). Ficha Técnica: página no IMDb.

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Vai, Eddy! (Allez, Eddy!. 2012)

allez-eddy_2012Por que essas crianças não gostam das que são diferentes?

Sim! O filme “Vai, Eddy!” é mais um a mostrar a dor de uma criança diante do bullying. Mesmo por aquela disfarçada vinda da própria família. Pois ele também mostra a exclusão de dentro do que deveria ser o lar: de um porto seguro para essa criança. Há pais que disfarçam ao manterem o filho confinado dizendo de que seria para lhes proteger, quando no fundo é por sentirem vergonha dele “diferente”. Como virar esse jogo? E é pelo olhar dessa criança que conhecemos a história do pequeno Eddy (Jelte Blommaert). Sua própria história num capítulo especial por ter sido um divisor de água.

allez-eddy_2012_02Com tanta pressão e contras ele precisaria de pelo menos um pequeno incentivo para conseguir superar a si mesmo e então realizar um sonho. Pequeno ainda, mas impossível diante do seu problema. Até pelo bullying que sofreria. Tal incentivo veio por uma mudança que chegou ao pequeno vilarejo onde morava. Algo que faria frente ao seu próprio pai, um açougueiro, que via na chegada de um supermercado um concorrente desigual. Mas essa mudança trouxera bons ventos para si: a jovem Marie (Coline Leempoel), filha do proprietário do tal supermercado.

Ah! Estamos falando da década de 70, onde esses tipos de mudanças foram bem marcantes para quem vivenciou essa época. Que como é dito no filme, o mundo estava mudando e as pessoas deveriam também mudar junto com ele. Mas não apenas no material. Esse é ponto alto do filme: mudar o modo de pensar. De ser mais livre de preconceitos. Em aceitar as “diferenças”. Como também em ser aquele que fará a diferença no coração desse ser “excluído”. Pois com bem diz a letra “É preciso ter garra, ter força, sempre…” até para se adaptar diariamente as contingências do destino. Com ajuda essa “concorrência” não fica tão desleal.

Eddie vinha de uma família de “mestres da carne”: passado de pai para filho. É que dizer apenas açougueiro não mostra de que há toda uma técnica por trás de um corte de carne. Quem viveu a era antes dos grandes mercados, sabia disso. Tinha respeito e confiança no açougueiro do bairro, e ele por sua clientela. Ele até dava dicas no preparo da carne comprada. Acontece que Eddie não herdou esse talento. Mesmo que as técnicas possam ser aprendidas, aperfeiçoadas, o dom pela profissão também conta muitos pontos. O talento de Eddie estava no Ciclismo. Que por viver confinado arrumou uma solução: prendeu a bicicleta alta do chão. Assim treinava diariamente em seu quarto, no sótão da casa. E “percorria” longos trechos lá do alto.

allez-eddy_2012_00Na inauguração do tal supermercado haveria uma corrida de bicicletas entre os jovens da localidade,, até como uma política de boa vizinhança. Mas alguns dos moradores locais relutaram em aceitar esse progresso que entre outras coisas trazia comidas embaladas, enlatadas… Agora, uma outra parte amou. Levando o pai já de cara perder uma grande parte da clientela. Dividido entre ajudar o pai no açougue e enfrentar seus próprios medos… Eddie também estava sozinho para ir disputar a tal prova. Ou quase. Porque como citei no início o destino lhe trouxera um “anjo da guarda”: Marie. Foi ela quem iniciou a preparação psicológica para o primeiro passo. Ou melhor, para as primeiras pedaladas fora de casa. Até o dia da corrida, teria que também guardar segredo: a família dera o contra.

Muita coisa acontecendo na vida do pequeno Eddie, que na verdade se chamava Freddie. A alcunha vinha de um ídolo: o grande ciclista Eddy Merckx. Aliás, o motivador mesmo de participar da tal corrida fora porque o primeiro prêmio seria em ir conhecer pessoalmente esse herói nacional. Mas é melhor não contar mais. Para deixar-lhes a surpresa em acompanhar sua história. Pois “Allez Eddy!” é um filme emocionante! É dolorido, mas também gratificante! Daqueles de lavar a alma! Até por desnudar certas fachadas familiares. Bom quando se consegue trazê-las para uma sociedade mais justa, mesmo sendo num núcleo familiar. Que todos vejam que cada um é um ser único e especial, mas que faz parte da engrenagem chamado vida. Filme para ver e rever! Ah! Eu vi pela televisão.
Nota 10!

Vai, Eddy! (Allez Eddy!. 2012). Bélgica. Diretor: Gert Embrechts. Elenco: Barbara Saafian, Julian Borsani, Jelte Blommaert. Gênero: Aventura, Comédia, Drama. Duração: 100 minutos.

O Divisor de Água de Cada um desses Personagens do Cinema!

ratatouilleAo longo da nossa trajetória nos deparamos com ocasiões que ficarão como um divisor de água. Pois de alguma forma trará uma mudança. Ele pode resultar de algo trágico ou não, de vacilos ou não. Como também pode vir de outra pessoa, quer ela saiba ou não. Às vezes um simples toque já é o bastante. É como um ‘Acorda!’ Ou como uma parada para uma revisão do carro para então seguir em frente. O bom é quando nos faz retirar algumas tralhas que só ocupavam lugar em nossas mentes, em nossas vidas. E é por ai nosso papo de hoje. Vem comigo!

Fiquei pensando em qual filme eu traria primeiro. Escolhi então ‘Ratatouille“. Para Remy mais que um ídolo aquele o Chef de Cozinha que assistia pela televisão era seu herói. Tinham algo em comum. Algo que lhes era nato. Dai um acidente de percurso o faz sair da mesmice. Dando-lhe coragem para fazer algo diferente. Muito melhor que ficar se lamentando.

Esses acidentes que o destino nos impõe por vezes é algo duro demais. No filme “O Escafandro e a Borboleta” o personagem ficou só podendo movimentar o olho esquerdo. O filme é um belíssimo exemplo de vida! De alguém que apesar dos pesares ainda pulsava em si a vontade de querer viver. Da tragédia ele fez um livro. Do livro nos presentearam com esse filme. Deixo uma dica: esse é um filme para assistir com tempo e calma.

_dumboSe esses acidentes do destino acontecem ainda na infância se não houver a sapiência de um adulto por perto o trauma será muito pior. Culpas poderão ficar retidas. Se foi por um descuido, por um erro, por algo interpretado errado, cabe a um adulto dar uma mão amiga e guiá-lo no caminho certo. Até para que consiga digerir bem pelo o que passou. Pois se nós adultos somos falíveis, o que dirá uma criança. Na falta de um adulto por perto feliz de quem encontra um amiguinho com mais discernimento. Alguém como o Grilo Falante, em “Pinóquio“. Ou como o ratinho Timóteo em “Dumbo” ajudando-o a superar a separação da mãe. Outros Clássicos da Disney que também trazem esse divisor de água podemos destacar ainda: “Bambi“, “Mogli“, “O Rei Leão“. Saindo do gênero Animação temos “Heidi” e “O Jardim Secreto“, onde ambas as menininhas mesmo se sentindo abandonadas fizeram a diferença na vida das pessoas a sua volta. Lembrando também da “Lassie“, um anjo da guarda canino.

No filme “O Caçador de Pipas” um pai muito exigente não consegue valorizar a veia romântica do próprio filho, por exigir uma postura forte. O menino por sua vez carrega o peso de uma culpa que não tinha, mas que o pai nada fazia para mudar. Sua mãe morrera no parto. Na vida do pai a perda da esposa fora um divisor de água. Mas ele não soube trabalhar o sentimento que ficou. Não tirou lições dai.

um-sonho-de-liberdadeA vida é uma escola! Com os erros precisamos extrair um aprendizado maior. Às vezes a pena a ser paga torna-se maior por conta de ter outras pessoas que continuam errando e levando outras pessoas nisso. Onde em muita das vezes a saída é fingir que aderiu ao sistema. Para então galgar enfim, por fim, a sua tão sonhada libertação. É! Me deu até vontade de rever “Um Sonho de Liberdade” por conta disso. Um outro que também fiquei com vontade de rever é “O Sol da Meia-noite“, onde uma mão amiga num ‘Vem comigo!‘ deixa a escolha de se quer sair dali ou não. Mas em ambos, saindo encontrará esse grande amigo.

A culpa guardada termina gerando um peso maior: o de se sentir tão responsável levando a fazer qualquer loucura. Tal qual como raiva esse sentimento também cega a pessoa. Foi por aí que a personagem de “Dançando no Escuro” seguiu. Ela sabia de que imporia a um filho o mesmo destino que o seu: a perda progressiva da visão. Mesmo assim ela o trouxe a vida. Por querer ser mãe. Mais tarde ao ficar sabendo que num outro país haveria uma chance de pelo menos parar a eminente cegueira do filho, mudou-se para lá. Trabalhando com afinco para conseguir o dinheiro da cirurgia. Mas encontrou pela frente o que já citei acima: uma pessoa que não aprendeu com os próprios erros, e o que é pior, carrega um inocente para o lodaçal em que vive. Assim para essa mãe o sistema fora cruel demais.

Se o inesperado nos leva a parar de repente, que seja pelo menos para uma mudança do carro. Ou quando já não terá mais como mudá-lo, que seja para uma reforma geral. Seguindo por essa analogia o carro seria o nosso próprio corpo; o motorista somos nós como todo; o ritmo ou a velocidade desse carro seria a nossa mente; e digamos que a bagagem, os acessórios que carregamos são as nossas emoções. Então tal e qual uma engrenagem tudo deveria estar em harmonia. Mesmo que alguns componentes fiquem na sombra (Jung…), além de tomarmos consciência que tudo é parte de nós, devemos canalizar aquilo que nos feriu tanto para uma outra finalidade. Pois nossos sentimentos não são de todos descartáveis. São eles que muita das vezes nos levam a ousar, a fazer algo que até então não acreditávamos que faríamos.

crashSe tais acontecimentos veem como um tapa na testa nos alertar de que havia peça podre, great! Um ótimo filme que mostra um alerta desse tipo, até em várias pessoas é o “Crash – Limite“. Eu confesso que chorei muito vendo esse filme. Principalmente na cena do carro incendiando com a jovem lá dentro. Por me fazer lembrar de algo parecido. Onde segundos depois de retirarem alguém que me é muito querido, o carro explodiu. É! Foi punk! A ficcão não é algo tão irreal assim. De repente uma vida pode se perder para sempre.

Mas há quem só a partir dai – de momentos trágicos -, perceba que em trechos de sua trajetória não deu a devida consideração, ou até carinho a quem dele sentiu falta. Então se somente a partir dai irá tentar recuperar esse tempo perdido, terá que aceitar que para o outro podde ainda não ser o divisor de águas dele. Mas como é bom quando combina de o ser para ambos, não é mesmo?! Pois como falei, será um peso a menos a se carregar pelo futuro. Nesse tocante deixo algumas sugestões desses outros filmes. Em “Invasões Bárbaras” e “As Leis de Família” há o reencontro de Pai e Filho, mesmo que para um deles já não há tanto tempo para aproveitar o voltar a ser uma família de fato e de direito. Já em “Magnólia” há muito mais que o pedir perdão. Em “Amores Brutos” e “21 Gramas” também há até o que a falta de diálogos pode acarretar uma sucessão de erros.

Um tema onde há muitos filmes a serem indicados. Quem sabe se voltarei a ele noutra ocasião. Por hora fico por aqui.
See you!

Por: Valéria Miguez (LELLA) (Em 25/07/08).

Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids. 2011)

Não indo muito na onda de que seria uma versão feminina de “Se Beber, Não Case“. Vencida a resistência de mostrarem que para as mulheres o que importa é estarem casadas, mesmo ficando infelizes. Como também em ver que o filme está mais para uma leve Comédia Dramática, do que uma Comédia rasgada. Tem muito o que curtir o filme até o final. E até me fez querer ver uma continuação. Como também em ver outros filmes, mas com o principal personagem masculino, e que por acaso não é o noivo, mas um policial.

Focando-se mais em “Damas de Honra” do que propriamente em “Madrinhas de Casamento“, o filme ganha uma outra dimensão. Porque mais do que serem escolhidas pela noiva para compartilhar esse momento ao lado dela, ele mostra o que representa um passo como esse, o de – “Até que a morte os separe!“, para cada uma delas. E é por ai, que o deixa como um ótimo filme. Até em mostrar que duas delas descobrirão algo em comum, mas que não terão coragem em divulgar pelo peso da sociedade num passo como esse. No fundo, todas irão pesar mais no que os outros irão pensar, do que em seguir pelos seus próprios pensamentos.

O foco maior recair numa delas, Annie (Kristen Wiig). Primeiro, porque é uma grande amiga sua, desde a infância, que irá se casar: Lillian (Maya Rudolph). Uma sensação de perda que veio se somar a outras mais. Tentando sufocar tudo, Annie acaba metendo os pés pelas mãos porque era a hora que mais a amiga precisava. Acontece que Lillian se encontra deslumbrada com todo o luxo que vem junto com esse seu casamento – um conto de fadas se realizando -, complicando ainda mais a já bem complicada cabeça dessa sua amiga. Annie e Lillian se vêem separadas pela primeira vez, mas por diferenças sociais. E nesse mundo, Annie não se vê pronta para ele.

Depois, porque Annie é alguém orgulhosa, mas com critérios duvidosos. Um deles estaria no fato de que para se mostrar independente, em vez de morar com a própria mãe (Personagem de Jill Clayburgh), prefere alugar um quarto em casa de estranhos. Se não queria intromissões em sua vida, termina tendo com os moradores da tal casa. Com a mãe, ela tem algo em comum: o de se doar demais. Se para a mãe, é mais como ocupar o tempo, para Annie acaba sendo dívida de honra, e sem medir as consequências. Pausa para os Aplausos finais para Jill Clayburgh, nesse que pode ter sido o seu último trabalho!

Annie também sufoca, ou melhor, vem sufocando o fato de querer um relacionamento duradouro. Dai, o se posicionar como alguém totalmente livre, acaba fazendo dela alguém fechada para um olhar de quem não a vê apenas como alguém para transar. Uma fera ferida ferindo também alguém que seria um presente do céu: o policial Rhodes (Chris O’Dowd). E no campo das amizades, essa fera vai querer duelar com aquela que está levando Lillian para os deslumbres do que o dinheiro pode comprar: Helen (Rose Byrne). Com essa, Annie não tem chances nenhuma de competir no quesito organização de festa, até por ser muito rica. Por focar nisso, Annie não enxerga que em um seria a Helen que não teria a menor chance. Já que essa está mais voltada ao espetáculo como o todo, e com a sua assinatura.

Além de Rhodes, um outro “Acorda!”, e mais peso-pesado, vem de uma outra das Damas. Da irmã do noivo: Megan (Melissa McCarthy, da Série de Tv Mike & Molly). Annie tão focada na perda da amiga Lillian, não viu que em todo esse preparativo estaria ganhando uma outra amiga: Megan.

Missão Madrinha de Casamento” tem uma cena sem graça nenhuma, com sabor é de despeito, por mostrar uma Churrascaria brasileira como um local de comida suja e barata, e ainda colocando o dono falando espanhol. Fora isso, tem cenas divertidas; outras hilárias. E como o filme rendeu uma boa bilheteria nos Estados Unidos, isso pode gerar uma continuação. Se isso vier a acontecer, que façam a Megan vir a ser sócia da Annie em sua falida lojinha de doces. Gostei! Nota 8.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids. 2011). EUA. Direção: Paul Feig. +Elenco. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 125 minutos.

Como Esquecer (2010)

Um filme bem feito, muito delicado, bela fotografia  com ponto forte na atuação do elenco.  Num ambiente onde 3 amigos precisam cada um a seu modo sobreviver às suas perdas.  A partir da idéia de Hugo (Murilo Rosa) de dividirem uma casa num bairro distante,  próxima do mar, eles viverão  a aventura da superação juntos: Lisa (Natália Lage) abandonada grávida pelo namorado; Hugo há um ano tentando retomar sua vida após a morte do namorado e Júlia (Ana Paula Arósio) onde a dor da perda terá seu mostruário mais complexo.  Professora deLiteratura Inglesa, ela é refratária a qualquer tentativa de aproximação, sua grande questão é:  qual é o contrário do amor?  De temperamento forte ela sorve seu cálice de dor e espanto e assim planeja seguir, até que não haja mais nenhuma gota, passando por fases sombrias de autoflagelação e pensamentos suicidas. Personagem encucada,  que nos coloca questões sutis  de abordagens raras.  Recheado de citações de Virgínia Woolf, o filme ainda traz uma pitada da discussão sobre os autores terem a liberdade literária de escrever  sem se pautarem em suas vivências pessoais.  Júlia nunca planejou ter uma casa ou sonhou com uma. Casa, para ela, é apenas o cenário onde sua vida conjugal se desenvolve, por isso não lhe era fácil dividir espaço, partilhar intimidades com pessoas não de todo íntimas. Júlia  a princípio é azeda, ranzinza mas nas seduções que vão se desenhando ao longo da história, não é que ela  se torna extremamente interessante?! Tive a impressão de ser Júlia aquela pessoa que só permite intimidade ao ser amado com o qual se divide a vida, o tempo, a pele…  Há uma menção rápida de que ela seria daquelas que se fecham num relacionamento, no estilo “mais de 2 é reunião” e como sabemos, reunião precisa de agendamento…

Se Liza diz que Júlia é egoísta e só pensa em si, antes Hugo deixa claro para nós espectadores que ela havia “abandonado” sua vida para cuidar dele quando ele  precisou, motivo pelo qual, no início do filme ele decide tornar-se o home care da moça. Uma personagem tão densa quanto tensa, com valores próprios levados às últimas conseqüências. Não, o egoísmo não é o pecado de Júlia, como todos nós ela é egoísta em maior ou menor  intensidade, por por um tempo maior ou menor, seu sentimento de superioridade e orgulho são muito maiores que o egoísmo propriamente dito. Fechada em sua dor, ela olha com a superioridade dos intelectuais para a humanidade implicando, sem contudo,  desprezar, como um grande escritor olharia para as garatujas da criança que sonhasse ser romancista.

Tanto amor elevado à potência do abandono não descarta seus desejos físicos. Ela é  consciente do seu  corpo, parece entender que o esquecimento tem um ciclo que passa por toda teia de nervos, sangue,  pensamentos e sentimentos. A  dor antes de ser diluída, consumida esquecida,  terá de passar por todos os estágios da mente e do coração e da carne também.

Um filme  sensível que aborda o sentimento das pessoas mediante perdas, alegrias, esperanças a despeito da orientação sexual.  Neste aspecto o filme me lembrou muito a visão de Eytan Fox em seus filmes onde o gay é apenas uma pessoa com problemas  e soluções tal e qual qualquer heterossexual.  Um filme numa ambientação onde o gay  não causa estranhamento,  nem está angustiado  ou culpado nem orgulhoso  ou arrogante-desafiador-vitorioso. Está simplesmente  inserido vivendo uma realidade onde é aceito,  se preocupa com contas a pagar e realização profissional. Ainda assim o roteiro,  não deixa de pontuar a falta de segurança  financeira ou civil das relações homossexuais estáveis, duráveis, longas:  Julia e Antonia viveram juntas por 10 anos e Antonia se vai, deixando atrás de si um rastro de pendências práticas e também uma senhoria na porta  cobrando de Julia  o aluguel não pago e desejando regularizar o contrato ainda em nome da outra. Hugo teve mais sorte, pois seu par antes de falecer havia deixado um testamento.

Para esquecer, é preciso primeiro sobreviver  e para sobreviver Julia pensou até em morrer, o que se coaduna com  menções de Cassandra Rios e Virginia Woolf . Para a ranzinza Julia, esquecer  não significa aproveitar-se das oportunidades de romance e sexo que surgem, ela é quase indiferente às facilidades da vida  que em seus movimentos põe ao  nosso alcance novas pessoas e novidades.  Numa determinada cena  ela não se vê capaz de reconhecer na rua entre passantes a sua ex, o que para ela não significa esquecimento. Ela segue  o  caminho de um esquecimento  mais profundo,  talvez, esquecer para Júlia, seja  estar capaz de se deixar preencher inteira por outra pessoa, estar disponível   e não  apenas mais uma vez  morar num novo cenário. Talvez esquecer seja estar pronto para com propriedade amar de novo…

Como Esquecer; Brasil; Drama; 98 minutos; 2010; Europa Filmes Direção:Malu de Martino, Elenco: Ana Paula Arósio, Murilo Rosa, Natália Lage, Arieta Corrêa, Bianca Comparato, Pierre Baitelli

Um Sonho Possível (The Blind Side). 2009

Sendo baseado num caso real, já seria uma grande motivação para ver ‘Um Sonho Possível‘. Mas nesse em especial, houve um aditivo a mais: o fato da Sandra Bullock ter ganho o Oscar de Melhor Atriz. Dos filmes listados para essa final de 2010, só tinha visto até então, ‘Julie & Julia‘. E… Um Oscar por esse personagem? Bem, tentando entender o porque do prêmio… Ela conseguiu não ser a Sandra Bullock. Não mostrou as caretas tão delas. Em ‘Crash – No Limite‘ ela já havia mostrado que sabe fazer um Drama, não apenas Comédias Românticas. Mas nesse ficou um pouco travada. Como a seguir à risca um manual. Muito embora não tenha me levado a pensar durante o filme se outra atriz teria feito desse personagem memorável. O que eu já defino como uma boa atuação.

Mas seria porque a personagem ou mesma a estória do filme soasse como americana demais? Isso ficou ainda mais nos meus pensamentos quando no final do filme apareciam fotos dos reais personagens dessa estória enquanto subia os créditos. As deles num show de tv com platéia me fez pensar no personagem da Ellen Burstyn em ‘Réquiem para um Sonho‘. Há por lá essa cultura de mostrar na tv a Família… Bem, pelo menos a desse filme aqui tinha de fato algo a ser mostrado.

Aprendemos em criança que uma boa ação não deve ser propagandeada. Mas a desse filme não teria como passar despercebida. Uma família lourinha resolve adotar um jovem negro. Em plena Mississipi. Palco de grandes tragédias por conta do racismo. Sendo uma Família da Classe Alta da cidade o fato em si não passaria despercebido. Não naquele local. E indo além um pouco: o mundo carece de mais oportunidades aos menos favorecidos. Dai um feito desse deve sim ser mostrado para que motive outros mais a fazerem coisas assim. Até porque também lembrei dessa frase do filme ‘O Declínio do Império Americano‘ (Filme esse que quero rever, sendo que dessa vez junto com ‘As Invasões Bárbaras‘.):

A História não é uma ciência moral. A legalidade, a compaixão, a justiça são estranhas à História. Isso significa, por exemplo, que os negros da África do Sul estão destinados a vencer um dia, enquanto os negros americanos, provavelmente, não conseguirão.

Parece cruel, mas de fato para muitos faltam uma oportunidade. Por menor que seja. Por vezes a própria mãe precisa tomar uma decisão: em salvar a vida de um filho. Em dar a ele uma chance de crescer com dignidade. Há um filme comovente nesse tocante: ‘Um Herói do Nosso Tempo‘. Há também quem receba tantas oportunidades que termina por não dar valor a nenhuma. E ainda culpar as circunstâncias, por não sair do lugar. Por não ter um norte.

Assim há de se pensar também que deveria haver algo mais em comum entre quem dá essa chance e quem a recebe quando ela consegue germinar. De cara vem que há um coração puro de ambos os lados. E é que parece que temos aqui, não apenas entre os dois – Leigh (Sandra Bullock) e Michael (Quinton Aaron) -, mas de todos na Família Tuchy: o marido, Sean (Tim McGraw); a filha mais velha, Collins (Lilly Collins); e o caçula, S.J. (Jae Head).

Michael pelo porte físico não seria alguém que passa despercebido. Levado por um dos namorados da mãe até um Colégio do lado rico da cidade para que façam dele um atleta. Pela força física o técnico (Ray McKinnon) resolve aceitar. Tendo que enfrentar o corpo docente de lá. Só uma Professora, Miss Boswell (Kim Dickens), que tal qual Leigh também acreditou que Michael poderia sair-se bem nos estudos. Leigh contrata uma explicadora, Sue (Kathy Bates). Que tenta repetidas vezes encontrar um meio dele assimilar os estudos. Já que dependia também de notas para se diplomar.

Algo que gostei de ver: se de um lado várias instituições educacionais estavam interessadas apenas no atleta, um Professor de Literatura (Tom Nowicki) ainda queria saber se ele aprendera bem sua matéria. E numa interpretação de um texto, ele mostrou que aprendera sim. Até em mostrar que tinha sentimentos nobres.

O título original – The Blind Side -, refere-se a um posicionamento dentro do futebol americano. Pela importância de um jogador que terá que defender um companheiro de time mesmo sem ver qual é ou em onde ele está. Terá que estar em sintonia com ele para que ele consiga avançar. Aquele que não vê, definirá partida. Não entendo nada desse jogo. Mas o que fica seria em acreditar em si próprio que será capaz de fazer algo, e grande, mesmo não tendo todo o conhecimento sobre tal ato. É cada um fazendo a sua parte, aquilo que sabe fazer e bem, para o engrandecimento da equipe. Quiçá do mundo. É essa superação de Michael que nos é mostrada. Leigh mostrou a ele que ele também fazia parte daquela engrenagem.

Por outro lado, ‘The Blind Side‘ também pode significar que ele veio do lado feio da cidade. Da periferia desassistida. Onde pobreza e miséria se fazem presente. Onde o crime alicia muitos jovens. Um lado que o outro lado rico nem quer ver. E que se faz necessário pessoas como a personagem da Sandra Bullock dar uma oportunidade para que cresçam com dignidade. Para que tenha a chance de ter uma profissão. E por que não: que eles se sintam amado. Que fazem parte de uma família estruturada. Que saibam também como impor o limite com respeito.

O filme emociona! Há momentos engraçados principalmente na maioria das cenas de Michael com S.J. Aprende-se um pouco do Futebol Americano. A Trilha Sonora está bem integrada ao contexto. É um bom filme. Mas com gosto de Sessão da Tarde.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Um Sonho Possível (The Blind Side). 2009. EUA. Direção e Roteiro: John Lee Hancock. +Cast. Gênero: Biografia, Comédia, Drama, Esporte. Duração: 129 minutos. Baseado no livro ‘The Blind Side: Evolution of a Game’, de Michael Lewis.

CURIOSIDADE:
– Sandra Bullock levou o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Atriz em 2010.