RoboCop (2014). Uma Análise Retrô

robocop-2014_cartazRobocopsPor Ivan Anderson.
Lançado em 2014 para se tornar um grande blockbuster do cinema, RoboCop 2014 se tornou um filme controverso e gerou grandes discussões a respeito das comparações com o filme cult de 1987. Com direção do brasileiro José Padilha, a releitura do policial do futuro, apesar de ser um bom filme, decepcionou os maiores fãs da série principalmente pela leveza com a qual o policial biônico Alex Murphy passou a encarar os criminosos no século 21.

RoboCop em sua versão original era uma verdadeira máquina de aniquilar vagabundos, segundo a linguagem oitentista: aquele tira que atira primeiro e faz as perguntas depois, o que tornava muito divertidas e únicas cada uma das suas empreitadas contra o crime. O bandido não pensava duas vezes em tentar ceifar a vida do policial, então o robô atuava conforme a demanda, se posso assim dizer.

robocop-2014_02Em sua versão moderna, além de ser mais polido e atender a atual visão global de que o bandido (mesmo com toda a crueldade) é ser humano também, o novo policial do futuro começou torcendo o nariz dos fãs quando sua principal arma, antes uma beretta modificada, tornou-se um teaser para eletrocutar os foras da lei. O que também assustou os fãs foi o novo design de seu corpo, agora negro, o que gerou muitas comparações com Batman e até com o vilão McGaren, do seriado japonês Jaspion. (A blindagem prata também utilizada no filme ficou fantástica.)

robocop-2014_03Mas o longa tem também seus pontos positivos: a inovação tecnológica pela qual o protagonista passa, e explanações sobre a forma como a parte humana é alimentada, e fundida à máquina deixam um ar de satisfação grande aos expectadores mais curiosos e também aos mais críticos. A forma como a armadura é trocada, fazendo de Murphy uma espécie refil, ficou muito interessante e obviamente atuações como as de Michael keaton, Abbie Cornish, Gary Oldman e Samuel L. Jackson sempre brilham muito. Não deixando de lado, é claro, Joel Kinnaman, que encarnou muito bem o papel do primeiro ciborgue do mundo.

No fim das contas e apesar dos percalços RoboCop 2014 ainda vale o ingresso, principalmente por abordar de forma mais intensa o drama de um homem preso dentro de uma máquina, e pelas já citadas impecáveis atuações do glorioso elenco.

RoboCop (2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Para Sempre Alice. (Still Alice. 2014)

para-sempre-alice_2014O grande diferencial do drama de Alice estaria em sua vida profissional: cátedra em Linguística. Pois para alguém com o domínio em comunicação ao se deparar com a doença de Alzheimer por certo sentirá bastante a perda da memória. Ou pelo menos deveria ter sido todo o desenrolar dessa história. É que em “Still Alice” faltou algo mais. Está tudo lá, mas…

para-sempre-alice_2014_julianne-mooreJulianne Moore parece levar o filme nas costas. Talvez por ser mais íntima dos dramas do que propriamente ter sido guiada por uma boa direção. O que me levou a saber um pouco dos que assinavam a direção, e que por sinal também assinaram o roteiro: Wash Westmoreland e Richard Glatzer. Wash tem um pouco mais de chão do que o outro, mas em comum têm o reality show “America’s Next Top Model“. Talvez daí veio os enquadramentos que levou o filme a quase parecer um comercial de margarina. Não que precisariam fazer um dramalhão, mas o problema em si ficou meio artificial no seio daquela família.

Como o filme veio de um livro, e que eu ainda não li, parece que pegaram de tudo um pouco, mas não deixando espaço para os sentimentos aflorarem. Parecendo ter havido um corte cirúrgico, preciso, como a querer mostrar tudo. O que tem o lado positivo em nos mostrar todo o drama de Alice. Mas peca em parecer mais um documental do que propriamente em nos contar a história de uma mulher que deixaria de ser a Alice que ela e todos conheciam, para ser uma Alice só um corpo vivente. Sei lá! Posso ter ido com expectativas demais. É um filme onde o impacto maior ficou na subida dos créditos finais. Esplêndido!

para-sempre-alice_2014_elencoPara se ter uma ideia dessa maneira que os Diretores resolveram contar essa história cito os personagens ligados a Alice. O do Alec Baldwin que faz o marido de Alice parecia ter caído ali de para-quedas. Por mais frio que o marido tenha sido na trama do livro, nem isso ele passou. Primeiro que não houve química entre ele e Julianne Moore como ocorreu por exemplo com a Meryl Streep em “Simplesmente Complicado“. Depois que não houve emoção em duas cenas pelo menos. A que encontra Alice após ela não ter achado o banheiro. E a onde passa a “batata quente” para a filha Lydia, personagem de Kristen Stewart. O choro ficou forçado. Baldwin no todo mais parecia perguntar a câmera se ficara bom. A Stewart também parece ter sido podada as asas. Como se o voo maior só poderia ser pela Alice. Para quem a viu em “Corações Perdidos” sabe o quanto de voo ela pode alçar. Lydia o oposto da mãe até em ambições pessoais teria alçado altos voos. Não sei se por também não ter dado química com a Moore. Os demais filhos de Alice também ficaram à margem. O personagem do Hunter Parish, o Tom, até pode ser ter ficado alheio. Mas creio que com a filha Anna (Kate Bosworth, de “Quebrando a Banca“) cujo impacto da doença seria maior, não apenas por conta de um joguinho online entre ambas, mas principalmente porque Anna trazia um aditivo: o de ter pressa em viver intensamente. Nessa altura, destaque então para o neurologista de Alice: o Dr. Benjamin (Stephen Kunken). Que profissionalmente deu um lado humano a doença de Alzheimer.

Viva o momento!“.

para-sempre-alice_borboletaHá outros filmes que também abordam o drama pessoal de quem padece dessa doença. Onde cada um tenta ter o domínio de pelo menos uma parte de sua própria história antes que a doença os atinjam de todo. Em “Longe Dela” houve um procurar por onde passaria seus dias quando enfim a doença se instalasse. A Alice nesse aqui, até foi ver uma Clínica, mas pela a realidade da doença que viu nesse lugar, parece ter deixado isso para a família decidir. Um outro filme seria o “Poesia“, onde a protagonista tem quase uma última tomada de decisão… Cito esse porque a Alice nota de que não há muitos movimentos em favor da doença de Alzheimer, em favor de quem padece desse mal. Então ciente de que ainda tem um pouco do dom da eloquência, procura por atrair mais pessoas pela causa em si. Cena linda com a filha Lydia durante a preparação do discurso, e depois ao lê-lo numa palestra.

Em resumo a doença bate à porta de Alice às vésperas dela completar 50 anos de idade. Onde ainda teria uma longa vida produtiva. Para alguém que tinha como o ganha pão o domínio das palavras, a doença é um duro golpe do destino. O título original do filme “Still Alice” diz melhor sobre quem padece dessa doença: que de apesar de todos os pesares ainda é a Alice naquele corpo. Mas que ela já não saiba mais disso.

para-sempre-alice_2014_smartfone_aliado-da-memoriaAinda um detalhe que eu até já tinha visto num episódio da série “Os Millers“. Uma solução para a perda de memória do personagem de Beau Bridges. Claro que por ser uma comédia tiraram o peso do problema em si. Mas que não deixa de ser de uma grande ajuda para quando ainda se tem alguma memória. É que atualmente graças a tecnologia dos Smartfones essas pessoas ganharam um aliado portátil. E Alice o usa enquanto ainda tem o controle da mente. Porque depois não terá mais a tal serventia para eles. É! É uma doença por demais castradora!

O filme por certo é muito bom: dou nota 08! Merece ser visto. Até pelo lado elucidativo para esse mal ainda sem uma cura. O que valida o rever para clarear as ideias acerca dessa doença, até para reavaliar conceitos, preconceitos… Mas por conta do que falei, de ter ficado um tanto quanto plástico, para mim ele deixou de ser um excelente me levando mais a querer ler o livro homônimo de Lisa Genova o qual o filme foi baseado. O que ficou mesmo após o filme foi a “tradução literal” da doença de Alzheimer na subida dos créditos finais. De ter exclamado um sonoro: “Nossa!”. E para quem já viu o filme a “borboleta” deixa uma reflexão…

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Para Sempre Alice. (Still Alice. 2014). Ficha técnica: página do filme no IMBb.

Cinema em 3D. Estão esquecendo de um grande detalhe…

avanco-em-oculos-3DAqui o assunto será mesmo sobre o Cinema em 3D: Filmes e Salas. Em destaque as Salas onde não tem como passar esse tipo de filmes, mas assim mesmo exibem filmes com essa tecnologia. Em específico sobre as Salas IMAX, o Evandro escreveu um texto delicioso de ser lido, esse: IMAX Fundo do Mar 3D. Além de uma tecnologia diferente, as Salas IMAX ainda são em um número bem menor no Brasil. Agora, voltando aos 3D…

Mesmo tendo alguns filmes em 3D produzidos bem antes, o boom do Cinema em 3D foi na Década de 50. Uma projeção onde a visão reproduzida aparentava estar em formato de relevo. Mas esse jeito não persistiu por muito tempo. O porque ao certo, não sei. Há muito poucos dados sobre esse início. Numa pesquisa que fiz para colher dados para esse artigo o que achei foi numa página em inglês. E o mais curioso era a fonte: o Guinness Book. Ficando uma pergunta se deram pouca importância a essa tecnologia, ou até por não ter atraído muito o público depois disso. Quem sabe com o novo boom do momento apareçam mais estudos sobre o Cinema em 3D.

Cronologia da História do Cinema em 3DCom o avanço dessa tecnologia, inclusive nos óculos, os filmes em 3D voltaram à cena. Mas ainda faltava mais. James Cameron esperou por mais de uma década para só então filmar ‘Avatar‘. Por querer usufruir de todo avanço. E fez bem! Pois o filme Avatar fica como marca na História do Cinema em 3D. Mesmo os que não gostaram desse filme terão que concordar com esse fato. Com esse feito desse Diretor. Fiz um gráfico para ilustrar essa trajetória.

Eu fiquei encantada com o ‘Avatar’ em 3D! Por um tipo de campanha viral* na Blogosfera eu ganhei um Dvd desse filme. Chegando na minha casa fui correndo rever o filme. Parando nas cenas onde me lembrava do 3D. Uma em específica por ter sido a única que me “assustou”… E vi que nesse filme a Fotografia não perdeu em nada na nitidez e nem na minha televisão que nem HD é.

nitidezFiz isso até para tirar uma dúvida. Tudo por conta de outro filme. Talvez a Sala de Cinema onde vi o tal filme tenha sido a grande vilã dessa história. Fora algo que me irritou quase a ponto de sair do Cinema. O filme foi ‘Como treinar o seu dragão‘. Numa Sala comum exibiram uma versão em 3D. Ficando tudo esbranquiçado ao fundo, só destacando algo no meio… e em várias cenas. A colagem que fiz com o dragão ilustra um pouco o que estou contando. Na segunda foto mostra como fica a cena do 3D numa Sala comum: perde a nitidez. Acontece que até para ir num Cinema mais próximo onde de onde eu moro eu gasto também com o táxi, e não é por frescura, mas sim porque sou cadeirante. Sendo assim pelo menos quero ver num filme uma ótima Fotografia. Uma boa imagem eu até aceito. Mas uma péssima me leva a odiar essa “febre 3D”.

Pelo jeito os Produtores, ou mesmo os donos das Salas, não estão nem ai para esse detalhe importante.

Numa comparação seria assistir um show de um excelente cantor, num acústico – no gogó e acompanhado de um violão, por exemplo -, ou ouvi-lo num grande e potente show. A essência dele – voz, letra, melodia -, está nas duas apresentações. O que muda, é o espírito de quem vai assisti-lo em cada um dos shows: se quer algo mais intimista ou não. E que o mesmo não aconteceria num cantor de playback. Pois não saberia cantar, e encantar, num ao vivo. Ou até que poderia ser ouvido em casa mesmo.

É meio por ai para diferenciar os filmes em 3D. Não apenas os bons dos ruins. Dos que o 3D entrou de fato como um Coadjuvante, daqueles que estão mesmo aproveitando do 3D como caça-níqueis. Como disse antes até a ida ao Cinema tem um custo, como também o preço do ingresso. Se a Sala não tem a tecnologia para exibir um em 3D que projete um sem essa tecnologia. E quem não tem a competência para fazer um nos moldes do que Cameron fez com “Avatar”, deveria pelo menos fazer o filme em duas versões. O público merece esse respeito. Ou eu é que teria ficado mal acostumada com a qualidade do 3D no filme do James Cameron. Eu até tentarei ir com mais complacência nos próximos em 3D. Mas por favor! Respeitem também o meu bolso.

E vocês, o que teriam a dizer do Cinema em 3D?

p.s: (*) A tal Campanha partiu da iChimps. E me escolheram pela segunda vez. Grata! E fica aqui o registro de que são profissionais de markenting confiáveis. Espero continuar sendo escolhidas nas próximas Campanhas.

Por: Valéria Miguez (LELLA), em 13/10/2010.

Uma Família em Apuros (Parental Guidance. 2012)

uma-familia-em-apuros_2012Como bem diz a máxima: “O que uma geração faz, a seguinte desfaz!“. Filhos criados com total liberdade tendem a criar os próprios com uma rigorosa disciplina. Em “Uma Família em Apuros” temos essa inversão no modo de educar os filhos como pano de fundo. Mas na essência o que o filme aborda é o conflito que ficou com a única filha de um casal liberal. Sentiu a liberdade como ausência de amor. Assim, quando pode voou para bem longe desse ninho. E sem intenção de voltar. Mas eis que o destino resolve juntar todos. E agora tendo também a família dessa filha com genro e netos. Além de uma invisível presença dos outros avós.

Não importando o tempo o conceito a se seguir estaria em equilibrar o meio termo com o desejo de quebrar um ciclo. Pois em qualquer relacionamento saudável não se compra um pacote fechado. Ele é construído no dia a dia. E mais! Ciente de que há individualidades ali. Que em vez de anular cada uma delas é tentar encontrar pontes para harmonizar todo o grupo.

uma-familia-em-apuros_01Assim, de um lado temos a personagem de Marisa Tomei: Alice Simmons. Ela é a tal filha única que entendeu a liberdade com o não estar ligada aos pais. Como também pelo modo de ser deles, sentia vergonha deles. É mais uma inversão de valores: pais modernos x filha careta. Com isso mantém sua nova família afastada do que para ela seria uma má influência. Mais a roda da vida gira e um dia a leva a precisar da presença deles. Ter seus pais tomando conta de seus próprios filhos era viver seu pior pesadelo. De dar urticária. Para ela seria uma volta a um passado sem regras.

uma-familia-em-apuros_02Do outro lado temos os pais de Alice. Personagens de Billy Crystal (Artie Decker) e Bette Midler (Diane Decker). Creiam esse casal deu química! Era algo que me perguntei antes. Embora o peso maior seria a também química entre Billy Cristal e Marisa Tomei por estarem em primeiro plano. Enfim, todos em uníssono! Logo na chegada Diane sente e se ressente que os pais de seu genro Phill (Tom Everett Scott) é que são os avós queridos e sempre presente. Que ela e Artie só foram chamados porque os outros avós também tinham uma viagem. Mas Diane despista e decide aproveitar a chance para então conquistar o amor de seus netos. Só que Artie estava mais era preocupado em conseguir um novo emprego. Fora demitido justamente por imprimir um jeito familiar ao narrar os jogos no estádio local. Os patricinadores queriam alguém mais impessoal, que focasse nos resultados dos produtos anunciados e não dando um ambiente leve para os torcedores. Artie tinha o dom da oratória, mas de uma narração romântica demais para os tempos atuais.

uma-familia-em-apuros_03Por conta de uma promoção Phill teria que viajar e viu nisso uma saída para ele e a esposa terem uma segunda lua de mel. Com isso esses dias longes dos filhos – a adolescente Harper (Bailee Madison), o do meio Turner (Joshua Rush) e o pequeno Barker (Kyle Harrison Breitkopf) -, precisavam de alguém da família mais para supervisionar a casa – automatizada -, e os filhos que já seguiam quase um regime militar. Com também severas restrições alimentares. Principalmente em relação a doces: totalmente proibidos. Já dá para imaginar as cenas! Ótimas, por sinal!

O que coloca mais pimenta nessa reaproximação principalmente entre pai e filha era que Alice adotara uma vida mais racional. Com tudo programado. Sem querer imprevistos batendo à sua porta. Mas eles não apenas acontecem, como costumam vir em séries. Assim, além de pai e filha passarem a vida à limpo, além dos netos se assustarem a princípio com uma vida caótica, além de Diane pela primeira vez fazer certas cobranças a Artie, Alice terá que reavaliar o seu papel de filha/mãe/esposa. Eram amarras demais soltas de repente.

uma-familia-em-apuros_04Uma Família em Apuros” não traz uma história tão incomum, nem no mundo do cinema, nem no real. Há muitos jovens de mentes retrógadas. Há muitos que perdem o sentimento família por focar nas conquistas materiais. O que o filme mostra está em se chegar ao equilíbrio entre esses valores: razão e sentimento, e não versus. Onde terá hora que a balança penderá mais para um, mas sem anular completamente o outro lado. Quais as regras deverão ser quebradas? Quais as que deverão se adequar de tempo em tempo? E o filme conduz toda a trama muito bem. Com o timming certo para cada problema e solução. Prendendo a atenção no desenrolar da história, sem a preocupação de se visualizar o final.

Sensível! Com boa dose de humor! Com ótimas atuações do elenco! Bom demais ver Billy Crystal e Bette Midler atuando porque ambos fazem parte da minha memória cinéfila! Assim como também em darem chance a Marisa Tomei mostrar que ela é mais que um rosto bonito em cena! Great!

Gostei! E de querer rever!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Uma Família em Apuros (Parental Guidance. 2012). EUA. Direção: Andy Fickman. Elenco: Billy Crystal, Bette Midler, Marisa Tomei, Tom Everett Scott, Rhoda Griffis, Dwayne Boyd, Madison Lintz, Gedde Watanabe, Karan Kendrick. Gênero: Comédia. Duração: 104 minutos.

Desmontando a Trilogia MATRIX

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Por: Guilherme Cunha.

matrix_movieO livro Neuromancer. A HQ Os Invisíveis. Os filmes Tron, Equilibrium, Cidade das Sombras, Johnny Mnemonic – O Cyborg do Futuro e O Show de Truman. As animações Ninja Scroll e Ghost in the Shell. Todos eles podem ser considerados fortes influências para os irmãos Andy e Larry Wachowski criarem o fenômeno Matrix. Devido a isso choveram acusações de plágio que perderam força com o tempo. Afinal, por que nunca acusaram estas obras de se plagiarem entre si?

O filme original Matrix estreou em 1999 contando a história do hackear Neo (Keanu Reeves), que começa a receber recados no seu computador de um grupo de pessoas misteriosas que vestem couro preto e usam óculos escuros, encabeçadas por Trinity (Carrie Ann-Moss) e Morpheus (Lawrence Fishburne). Seu contato com elas é monitorado por autoridades igualmente misteriosas que vestem terno e gravata e também usam óculos escuros, lideradas pelo Agente Smith (Hugo Weaving), que aconselha Neo a se manter afastado do outro grupo, criando um dilema bem kafkiano para o personagem.

Matrix_Morpheus-red-or-blue-pillMas o protagonista segue sua natureza curiosa e vai encontrar Morpheus numa noite chuvosa. Dentro do quarto deste, Morpheus lhe fala sobre a Matrix. O problema é, como próprio diz, “Não se pode explicar o que é Matrix. Você tem que ver para crer.” Ele oferece a Neo a ingestão de duas pílulas, vermelha ou azul, que decidirão seu destino. Uma o fará esquecer do encontro pra sempre e a outra terá o mesmo efeito de Alice quando entrou no País das Maravilhas. Nem preciso dizer que ele seguiu o coelho branco.

Numa das reviravoltas mais chocantes do cinema o quarto ao redor de Neo se desfaz e ele acorda nu e sem cabelo num casulo gosmento, semelhante à nave alienígena do filme Fogo No Céu, e com um plug na cabeça. Resgatado pela nave Nabucodonosor, onde estão Morpheus, Trinity e os demais, e Neo surta ao se dar conta que passou toda sua vida num mundo de realidade virtual que mimetiza a Terra da nossa época criado pela Matrix, uma gigantesca inteligência artificial que dominou o mundo num futuro pós-apocalíptico escravizando os humanos e usando-os literalmente como pilhas, conforme Morpheus revela numa das cenas mais emblemáticas do longa. Os poucos humanos livres vivem numa cidade debaixo da terra se escondendo de máquinas gigantes que vêm caçá-los para alimentar a Matrix.

Matrix_NeoUsando um sistema especial algumas dessas pessoas conseguem entrar e sair da simulação de realidade, mas são sempre caçados por agentes como Smith que agem tais como anti-corpos ao perceberem uma ameaça ao “organismo”. A razão para Neo ter sido libertado é porque, segundo uma profecia, ele seria o escolhido para livrar o povo e vencer a Matrix. A partir daí começa a verdadeira história e esse é um dos pontos fracos da obra dos Irmãos Wachowski. A concepção que eles imaginaram é mais interessante que o seu desenrolar.

O filme original segue com o treinamento que Morpheus dá a Neo, o que pelo menos pra mim já desemboca no primeiro absurdo conceitual da franquia.

Por que diabos alguém teria que aprender artes marciais pra enfrentar inimigos dentro de uma simulação da realidade? Por que, em vez de uma luta “corpo-a-corpo” eles não criam armas virtuais maiores do que as que estavam usando? Se se pode simular uma metralhadora porque não simular uma bomba atômica ou uma carta de antrax?

As lutas e mesmo os tiroteios são puro fetiche relacionado a videogames e soam muito estranhos.

Matrix_OracleTambém é apresentada uma personagem que vive dentro Matrix, a Oráculo, que aparenta ser uma doce velhinha que assa biscoitos, mas é uma espécie de sábia que dá as dicas paras os rebeldes enfrentarem a Matrix. É ela quem indica a Neo seu difícil destino, que é ligado ao de Trinity.

Matrix_CypherEnquanto isso, Cypher, um dos homens do grupo de Morpheus, faz um acordo com o Agente Smith e decide trair seus companheiros em troca de poder voltar para a Matrix. Esse é um dos pontos intrigantes da trama, pois questiona o fato de que a vida dentro da realidade virtual é melhor que a da realidade crua… afinal é uma vida de sonho. Porém, isso nos leva ao segundo grande absurdo do filme: por que, em vez do Cypher, esse questionamento não é do Neo? Porque simplesmente Neo não teve que sacrificar NADA ao deixar a Matrix! Ele era um homem solitário, não tinha amigos, família, nem mesmo grandes sonhos. Já do outro lado sua vida passou a fazer sentido, com um propósito, um mestre e até um grande amor. Tudo se encaixou bem até demais tornando o protagonista um personagem raso, que serve apenas ao ideal messiânico do contexto. Como Keanu Reeves é um ator carismático, ainda que limitado, acaba funcionando bem na proposta em tanto maniqueísta do longa, mas essa falta de humanidade inevitavelmente empobrece o filme.

Matrix_Agent SmithApós a traição de Cypher, que acaba morrendo por isso, Morpheus acaba capturado e Neo e Trinity vão resgatá-lo. A “vontade” de Smith em capturar Neo é tamanha que ele incorpora outros agentes, se tornando assim quase invencível, mas, durante o combate, Neo incorpora (ou mentaliza) uma natureza que lhe dá super poderes, com uma ajuda da Trinity que dá o beijo da bela adormecida no Neo na Nabucodonosor, enquanto sua versão virtual acaba derrotando Smith ao incorporá-lo e destrui-lo de dentro pra fora, para em seguida escapar da Matrix, a qual ele agora acredita poder derrubar num futuro não tão distante.

O filme fez sucesso especialmente com uma parcela em especial do público, hoje conhecida como geeks. Foram eles quem melhor sacaram os simbolismos e metáforas de um filme feito num tempo em que a internet ainda engatinhava e o computador doméstico ainda era um luxo, pelo menos no Brasil. Elementos como os personagens falando ao telefone discando um código pra sair da Matrix, o deja-vu de Neo com o gato que seria uma falha no sistema, Smith incorporando os agentes e Neo incorporando Smith, que nada mais seriam que ações de download, entre várias outras coisas, são na verdade símbolos de situações de rotina no mundo da informática. Agregado a isso a várias noções filosóficas, especificamente o Mito da Caverna de Platão, e religiosas, especialmente ligadas ao gnosticismo, incorporadas à trama.

Matrix_Bullet TimeInfelizmente para o público não-geek, no qual me incluo, já é dificílimo captar as nuances mais superficiais desse universo. Imagine então as mais complexas. Claro que o grande público terminou fisgado pelos espetaculares efeitos especiais, principalmente o imitadíssimo bullet- time (que durante um tempo era sinônimo de Matrix), que roubavam a cena da trama. O que nos leva ao terceiro grande absurdo sobre Matrix: Como é que uma obra cuja proposta é criticar a escravização do homem pela tecnologia moderna pode ser tão dependente do que há de mais moderno em tecnologia? Sim, pois sem os efeitos especiais, será que o roteiro se sustentaria da forma como é apresentado?

O sucesso da ficção científica motivou os Irmãos Wachowski a dirigirem mais dois filmes de uma vez, especialmente depois que O Senhor dos Anéis fez trilogias virarem moda em Hollywood. Muitos apontam as continuações como o grande mau que afligiu a franquia.

Matrix Reloaded Em Matrix Reloaded, de 2003, é mostrada Zion, a última cidade humana. Lá as pessoas se dividem entre os que acreditam que Neo será o seu salvador e os céticos. Infelizmente no começo do segundo filme, Neo já conheceu bem o lugar e não há como pôr o público no lugar dele e introduzir esse elemento de forma mais palatável. Com a entrada de outros personagens da resistência, Morpheus e Trinity vão se tornando cada vez menos relevantes, ainda que os Wachowski tenham buscado meios de desenvolvê-los mais.

Descuidaram-se, no entanto, ao cometerem um dos piores erros de edição da história do Cinema, NÃO mostrando um plug na nuca do Neo quando este chega em Zion, sendo que o plug não havia sido retirado quando ele foi libertado da Matrix no primeiro filme, nem de ninguém que era libertado. Aliás, logo depois o plug volta à aparecer na cabeça dele misteriosamente. Essa cena levantou um sem-fim de teorias sobre ele nunca ter deixado a Matrix ou o suposto mundo real dos filmes também ser a Matrix, mas aparentemente foi só um erro grosseiro dos realizadores mesmo.

Matrix Reloaded_RaveSeguido por outro grande erro, que foi a festa rave. Não tenho nada contra festas raves, mas é patético que o último resquício da civilização humana seja uma rave. Você não vê sequer uma feira-livre que seja em Zion, mas as raves resistiram. Pior que isso. É inconcebível que a festa seja realizada num futuro distante pós-apocalíptico exatamente como é nos dias de hoje, com o mesmo tipo de dança, as mesmas luzinhas… a cultura e a sociedade ao redor são brutalmente diferentes, mas o estilo das raves se mantiveram intactos. Impressionante.

Matrix Reloaded_PersephoneDentro da Matrix, os rebeldes seguem as instruções da Oráculo e vão atrás do Chaveiro, que como o nome indica tem a chave para os segredos da inteligência artificial, enfrentando pelo caminho diversos personagens que são versões de programas de computador com aparência humana, tais como o Chaveiro e a própria Oráculo. Pra alívio do público um deles, Perséfone, tem a cara e o corpo da Mônica Belucci, um bálsamo que descansa a nossa vista no meio de tanta poluição visual, pois o problema mais uma vez é que pra um público não-geek o máximo que se vê é ação com estética de videogame, e esses personagens nada mais seriam que os vilões da fase intermediária.

O rolo aumenta quando o Agente Smith volta, cada vez mais independente, para se vingar de Neo. Agora ele pode incorporar qualquer pessoa na Matrix, criando um exército de clones para enfrentar Neo, numa cena estupidamente exagerada nos efeitos especiais aonde podemos ver claramente quando Keanu Reeves e Hugo Weaving são substituídos por polígonos que parecem ter saído da lixeira de projetos descartados da Pixar. A verdade é que essa cena só existe porque Neo e Smith precisam lutar em todos os filmes.

Matrix Reloaded_TrinityNo correr das batalhas Trinity morre e é ressuscitada por Neo com seus poderes, numa sequência ainda mais clichê que o beijo que ela dá nele no primeiro filme. É quando Neo fica cara a cara com o Arquiteto, o mais importante programa-que-parece-humano-mas-não-é da Matrix, pois seria uma espécie de porta-voz da mesma. Numa cena em que os Wachowski claramente buscam o mesmo efeito da revelação de Morpheus no filme anterior (com duas portas no lugar das duas pílulas), o Arquiteto conta a Neo que ele não passa de uma anomalia do sistema, que aparece de tempos em tempos sempre com a cara do Keanu Reeves pra ajudar os humanos a se rebelarem contra a Matrix e sempre é derrotado por escolher salvar Trinity, a quem amava. Ou seja, no meu entender, mesmo tendo um corpo físico, Neo era da mesma natureza do Arquiteto, o Chaveiro e a Oráculo e daí vem seus poderes. Só uma programação diferenciada da média, mas que, ainda que não possa ser detida, é sempre controlada.

Matrix Reloaded_The Architect Mesmo sabendo de seus fracassos passados e seu provável fracasso futuro, ele insiste em tentar salvar os humanos de Zion, cada vez mais próxima de um ataque das máquinas. Se a cena da conversa com o Arquiteto já pode ser considerada a mais complicada da trilogia, imagine quando o filme termina com um gancho que mostra o Agente Smith SAINDO da Matrix pro mundo real usando o corpo de um humano da resistência? Então veio Matrix Revolutions, lançado também em 2003, meses depois do segundo filme.

Matrix RevolutionsEsse terceiro longa basicamente mostra Neo (que conseguiu fugir da Matrix no início desse terceiro filme) e cia. tentando desesperadamente deter a Matrix, enquanto as máquinas chegam cada vez mais perto de Zion. Ele conta a Morpheus que toda a profecia que ele acreditava não passava de mais um programa da Matrix numa cena que pra mim deixou muito a desejar, pois acho que o Morpheus desistiu cedo demais das suas convicções, principalmente depois de ter que ouvir muitos o tomando por louco em Zion por causa do Neo. De repente o próprio Neo de certa forma fala isso e ele acaba aceitando rápido demais. Na verdade eu acho que nem se o próprio Arquiteto mostrasse-lhe as imagens dos vários Neos que o visitaram no passado ele acreditaria tão fácil. Mas a essa altura os Wachowski já jogaram pro alto a preocupação com a subtrama de outros personagens e se concentram em carregar à trama pra um final.

Matrix Revolutions_machine-O Agente Smith, infiltrado no corpo de um dos rebeldes, ataca Neo e Trinity, deixando o herói cego. Aliás, as cenas em que se consegue “enxergar” Smith dentro de alguém lembram o clássico do terror Eles Vivem. Enquanto isso, Zion é atacado por robôs que parecem os braços do Dr. Octopus do Homem-Aranha e resiste com os humanos controlando uma espécie de transformers, mas que lembram até demais a armadura que Ripley usa pra vencer o alien no fim de Aliens 2 – O Resgate. Usando seus poderes no mundo real (Sim! Acertou quem achou que não há explicação decente pra isso!) Neo consegue afastar os “Octopus” e chegar até o que seria o coração, ou cérebro (ou umbigo já que tudo soa extremamente pretensioso mesmo), da Matrix, mas Trinity morre (de novo!) para que ele alcance seu objetivo. Neo então conversa com um monte de ferro-velho (o tal umbigo da Matrix que mais parece um ácaro gigante) e faz um trato: Zion seria poupada se ele detivesse o outro programa que saiu completamente ao controle e, de certa forma, se tornou tudo aquilo que se esperava de Neo, ou seja, a grande ameaça ao sistema: Smith. Muita gente detesta a idéia de parecer que o escolhido era Smith, mas essa foi uma das poucas saídas coerentes pro caminho que foi tomado.

Matrix Revolutions_Neo and SmithA anomalia Neo estava sob controle, mas ele teve um efeito colateral, que Jung classificaria como o arquétipo da Sombra e a Matrix se sentiu ameaçada por algo novo então. O que é sacanagem é você chamar de Revolutions (Revoluções) um filme em que no fim o protagonista faz um acordo diretamente com o sistema para deter alguém que seria uma real ameaça à ele, principalmente quando esse alguém era apresentado a princípio como maior representante desse sistema. Enfim… Neo e Smith, ambos super poderosos agora, tem uma batalha final em meio à uma grande tempestade!?… Vai ver a Matrix achou que seria mais emocionante uma luta na chuva, ainda que isso também não faça o menor sentido!

Neo termina subjugado por Smith que o incorpora, desejo que ele devia nutrir desde que o inverso aconteceu no primeiro filme. Porém, se Smith é a sombra e Neo é o seu oposto, este último é a luz e as trevas são sempre dissipadas pela presença da luz. Isto causa uma espécie de auto-destruição, ou melhor explosão, já que um arrebenta o outro de dentro pra fora, ou melhor ainda, implosão, já que os dois passam novamente a serem parte integrante da Matrix, pois o Neo havia entrado lá para lutar através da conexão direta com o tal umbigo. Uma leitura complementar seria de que Neo era um vírus e Smith estava tão poderoso que já não era um vírus, mas um sistema autônomo. Então a Matrix usa o vírus Neo para infectar o sistema Smith. Ou ainda a velha história do veneno de cobra, cuja vacina é feita a partir do próprio veneno.

Matrix Revolutions_NeoAssim, a vida em Zion e a vida na Matrix são salvas graças ao sacrifício de Neo, os octopus vão embora e o Arquiteto vai bater um papo com a Oráculo, que pra quem ainda não entendeu só que ajudar os humanos por também ser uma anomalia do sistema.

Realmente, pra quem curte informática Matrix pode ser um programão. Por outro lado, o resto do público talvez crie uma identificação maior com outros filmes que falam de simulação de realidade como O Show de Truman ou Cidade das Sombras, que simbolizam respectivamente a Televisão e o Cinema da mesma forma que Matrix simboliza os computadores.

Uma última curiosidade pra ficar pra registro: há quem jure que o Google do nosso presente é a Skynet (da franquia Exterminador do Futuro) num futuro próximo… e que a Skynet é a Matrix num futuro remoto.

Por: Guilherme Cunha.  Blog: Panorama Imaginado.