Alice Através do Espelho (2016). O Tempo Salva a Continuação…

alice-atraves-do-espelho_2016_posterPor: Beathriz.
Alice Através do Espelho” é um filme fantasia inspirado na obra de Lewis Carroll, claro. Que não foi dirigido por Tim Burton, mas por James Bobin. Como sequencia do primeiro filme de Alice no Pais das Maravilhas.

alice-atraves-do-espelho_2016_04O filme se passa anos depois do desfecho do primeiro, com Alice (Mia Wasikowska) na carreira náutica. Sendo capitã do navio de seu pai. Ela é ótima no que faz, porém em meio a desavenças com sua mãe entre o que quer fazer e o que uma mulher tem de fazer. Ela está a beira de perder o Wonder, o navio. E é ai que ela vai para o Pais das Maravilhas, porque o Chapeleiro, interpretado por Johnny Depp, está com problemas.

Então é ai que está o problema. Eu sou uma fã de Alice, gostei do primeiro filme. Mas esse filme não consegui engolir. A historia é toda cheia de remendos, você não vê uma motivação real, algo realmente especial. São pequenas coisas que juntaram para tentar fazer um enredo de um filme grande. Não deu certo. Todos os pontos no enredo foram mal utilizadas, com exceção na volta ao tempo, que fez sentido e foi bem explicada. Colocaram um pouco de empoderamento feminino, relação de família, questões de manicômio, romance e independência na história fora dos pais das maravilhas. Mas tudo isso foi muito jogado, como forma de fazer uma média para o publico.

Ah, vocês gostam de Alice doidona? Toma uma cena dela no manicômio pra ficarem felizes!

alice-atraves-do-espelho_2016_02Faltou historia! As obras de Alice tem várias referencias, é tanta loucura e pequena referencia nos livros que você tem liberdade para seguir para qualquer lugar. Então eu não fico chateada quando não seguem a risca. Mas simplesmente eu vi uma tentativa de fazer dinheiro bem bonita, não vi um filme com história.

Existem algumas referencias aos livros: o espelho, o Humpy Dumpy, o tabuleiro de xadrez, o Tempo amalçoando a hora do chá. Mas poderiam ter colocado todos os personagens originais que ainda não ia conseguir salvar o enredo pobre que foi utilizado.

Alice cresceu, gostei mais da atuação de Mia nesse filme. No anterior ela parece bem perdida em como proceder. Aqui ela está mais familiarizada, porem continua sem muito tempero. A Rainha Vermelha, interpretada pela Helena Bonham Carter, está engraçada e eu gostei dela. Gostei da relação dela com a Mirana, Anne Hathaway, apesar de achar um pouco forçado demais. Mas enquanto Iracebeth está com média, Mirana está com notas vermelhas. Sua atuação assim como do Chapeleiro está extremamente forçada. Quase que caricata.

alice-atraves-do-espelho_2016_03Então temos o Chapeleiro e sua motivação mais sem pé nem cabeça. Ele está triste porque acha que sua família ta viva, e fica tão triste que quase morre. Sério mesmo? A atuação de Johnny Depp está muito robótica, chega a ser bem ridículo. A maquiagem que colocaram na cara dele foi tanta que você perde uns bons 5 segundo tentando encontrar uma pessoa por trás de tanta base. E quando vemos sua família, surpresa, parece que adotaram o pobre Tarrant (Que descobrimos ser o nome dele) de tão diferentes. São pessoas normais e comuns, o que foi muito decepcionante.

E é ai que poderiam ter buscado inspiração nas obras originais, nos livros, o chapeleiro só é louco em referencia aos chapeleiros da época de Lewis que usavam uma substancia que os deixavam doidos. Eu queria uma família toda de chapeleiros doidos.

alice-atraves-do-espelho_2016_05O destaque maior, foi o Tempo. Que sempre foi citado, porém nunca mostrado. Todos sabemos que Tempo sempre foi tratado quase que como uma pessoa nas obras. E aqui ele ganha forma e é interpretado por Sacha Baron Cohen. Ele tem personalidade, motivação e camadas de profundidade. Tem horas no filme que você gosta mais dele do que de Alice, que você torce para ele. Ele é misterioso, e você não sabe logo de cara se é do bem ou do mal. Mas sabe que ele é muito importante para o universo das maravilhas. Quase que um Deus.

alice-atraves-do-espelho_2016_01O filme esteticamente é lindo, você fica estasiado com cada cenário e animação. Com destaque para o castelo do Tempo, que é realmente deslumbrante e a casa da Rainha Vermelha. O 3D é realmente de fazer os olhos brilharem. Eu até vi referencia do jogo que tanto amo, Alice Madness Return.

Mas como forma de desfecho de tudo isso que poderia ser bom mas não foi, o final é tão clichê que você sabia. Se pausassem o filme no cinema e perguntassem, “Então Beatriz o que você acha que acontece?” Eu narraria o fim do filme sem saber.

Então entramos na questão, filmes infantis não precisam ser retardados para atraírem sue público! Eu pensei que nesse século a gente já tinha combinado que é muito ruim subestimar a capacidade de nossas crianças. E de nós mesmos, pois todo mundo sabe que não é só criança que assiste Alice. (Inclusive, não vi uma criança na sessão que eu fui.)

criancasVivemos num mundo de Divertida Mente, ToyStory e Shrek. Eu sinto ódio quando para explicar um filme fantasia rum dizem “é para crianças”. Gente, mas isso não pode, eu sou uma eterna criança e estou aqui pra dizer que isso não é desculpa. As crianças gostam de coisinhas meio bestas sim, mas isso não segura nenhum filme. A gente precisa de história, e existem sim ótimos roteiristas prontos para dar uma historia fantástica para adultos e crianças com leveza e carga critica.

No fim eu aconselho você a assistir depois, sem gastar muito. No final de tudo senti que aconteceu um amaldiçoamento dos roteiristas para o filme. O que é um pecado, poderiam ter feito isso com qualquer filme mais superficial, que não tem o que explorar. Mas não com Alice.

Alice Através do Espelho (Alice Through the Looking Glass. 2016)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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A Ilha dos Milharais (Simindis kundzuli. 2014)

A Ilha dos Milharais-2014_00Por: Eduardo Carvalho.
A cada primavera, em uma área da antiga União Soviética, fortes chuvas carregam terra fértil do Cáucaso aos rios da região entre a Geórgia e a separatista Abecásia. Formam-se ilhotas no rio Enguri, usadas pelos habitantes do local para o plantio, quando procuram se precaver da escassez provocada pelo próximo inverno.

Indicado pela Geórgia à pré-lista do Oscar de 2015, exibido durante a 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, “A Ilha dos Milharais” foi sendo descoberto pelos espectadores, ganhando menção honrosa ao final do evento. A estória do velho que cultiva milho com a ajuda da neta, nessa terra de parcos metros quadrados, é contada com poucas falas. Aqui, tem-se a impressão que o filme guarda semelhanças com o belo “As Quatro Voltas”, mas não. A proposta radical da narrativa do filme de Michelangelo Frammartino propõe uma reflexão sobre vida e morte; em “A Ilha dos Milharais”, não haverá apenas uma representação dos ciclos de criação e destruição. A quietude presta-se a outros propósitos.

A Ilha dos Milharais-2014_01Explorando basicamente o mesmo cenário o tempo todo, a fotografia é um elemento essencial, em conjunto com a narrativa lenta, para que o tempo de cultivo do milharal seja perceptível; mudam apenas luzes e cores, mas não o local da ação. A câmera aberta coloca o público em contato com os protagonistas inseridos na paisagem, e fechando o foco, exibe os sentimentos expressos em seus rostos, para que possamos ler ali as marcas do sofrimento. No entanto, ocorre ouro crescimento, tão rápido quanto o da plantação; de criança, a menina passa a mulher. Ao chamar a atenção de alguns homens às margens do rio, e na breve relação com um visitante inesperado, ela começa a perder a inocência infantil, descobrindo outras realidades.

E é em uma dessas realidades que entra o espectador brasileiro, sem conhecer a história dessa região. Aqui, o filme de George Ovashvili, também co-roteirista, ganha mais sentido, ao expandir seu contexto histórico. Velho e menina estão em uma terra de ninguém – terra de ninguém por duas vezes – conforme indica um dos poucos e certeiros diálogos entre ambos. Todo o silêncio e a comunicação através de gestos e olhares estão plenamente justificados, não só como opção de narrativa fílmica; dentro da perspectiva geopolítica daquele lugar, só quem detém o poder pode expressar-se com alguma liberdade. Mas isso ocorre somente ali?

O terceiro longa de Ovashvili une elementos tão díspares como beleza e política com precisão, conseguindo ainda extrair um par de grandes atuações dos protagonistas. O ator turco Ilyas Salman, com mais de 40 filmes no currículo, transmite toda uma esperança cansada nos gestos e expressões, sem necessitar de palavras. E a estreante Mariam Buturishvili mostra medo e vulnerabilidade na menina, diante das transformações hormonais que ocorrem dentro de si e ao seu redor.

Nessa sociedade contemporânea marcada por caos e excesso, descobrir “A Ilha dos Milharais” é mais do que um presente. É um convite para pensarmos sobre nossas reais necessidades de comunicação, sobre a inevitável passagem do tempo e seus ciclos. E, acima de tudo, nos mostra que nada é permanente na vida. Nem mesmo a terra sob nossos pés.

A Viagem (Cloud Atlas. 2012)

a-viagem_2012Por José Bautzer Fusca.

( Sinto que algo importante aconteceu comigo. Nossas vidas não nos pertencem, estamos conectados a outras vidas, no passado, no presente e no futuro. )

Um filme pode ser importante por seu lugar na história do cinema, por sua linguagem cinematográfica, pela boa condução do seu diretor, pela boa fotografia, por um bom roteiro, por ter origem em um bom texto literário, ou porque por razões subjetivas tocou nossa emoção e intelecto.

O filme que irei indicar é importante porque é fruto de um excelente texto literário, que deu origem a um ótimo roteiro, que por sua vez propiciou uma obra cinematográfica revolucionária ao usar diretores diferentes em trabalho independente para diferentes segmentos da obra final. Conseguindo ser a fina ourivesaria poética de uma preciosa equação: A vida diante da eternidade.

Cloud Atlas, cognominado A Viagem, no Brasil, é um filme rico em conteúdo e requer atenção aos detalhes para revelar-se ao intelecto como a obra prima que seu roteiro é. Em uma estória fragmentada e diluída ao longo de centenas de anos, no passado e no imaginário futuro, com o artifício literário de uma marca de nascença na pele dos personagens protagonistas de seis diferentes estórias, identifica-se um personagem inter-temporal que vivencia cada um destes personagens, unificando e dando sentido as diferentes estórias fragmentas e diluídas no tempo.

O autor da obra homônima – DAVID MITCHELL – que inspira o roteiro previne o expectador no monologo que abre o texto/filme: que na boca de diferentes personagens, diluídos no tempo, ha uma única voz que as une em uma só.

Autores como Carlos Castaneda são literalmente citados e implicitamente discutidos nesse rico roteiro, que expõe uma visão poética do eterno retorno, cujo conceito é explicitado em insights, premonições e dejavus dos personagens. Algo comum na experiência existencial de todos nós, ou de alguns de nós. Tocante, quando a personagem jornalista Luisa Rey reconhece a sinfonia Cloud Atlas, composta pelo desconhecido músico Robert Frobisher, sua persona, na vida imediatamente anterior.

Este mundo possui uma ordem natural, e aqueles que tentam subvertê-la não se dão bem.”

O que esta obra sugere é que nascemos para subverter esta ordem explicita da natureza – os fracos são a carne dos fortes – por uma outra, apenas implícita: O amor é a maior força na construção da vida, e não reconhece fracos ou fortes.

Se você quer um entretenimento que o emocione e excite seu intelecto, este é a obra de arte que fará isso.

Curta: O Tempo Não Parou (Time Doesn’t Stand Still. 2011)

Por Luz de Luma.

O Tempo (Não) Parou… Um relógio de variações espaciais contribui para o erro. Imperfeições causadas ainda que minúsculas nas incertezas da freqüência. A física explica…

As imagens são capturas da tela do vídeo abaixo e manipuladas por mim.
Assista: Time Doesn’t Stand Still

Léa Seydoux e Benjamin Millepied, estrela e coreógrafo do New York City Ballet em curta-metragem dirigido por Asa Mader, que nos faz descobrir uma história única da dança e da música. David Lynch e Angelo Badalamenti são responsáveis pela partitura original.

Ele, dançarino, coreógrafo do Cisne negro no filme de Darren Aronofsky, ao lado de Natalie Portman, agora sua esposa (casados em segredo – Um segredo que todo mundo sabe, não deixa de ser curioso). Um curto extrato totalmente vestido pela estilista Aleksandra Woroniecka da casa Ralph Lauren, peças e desenhos de roupas vintage, para emitir uma sensação clássica para essa história que questiona: O que acontece com o amor?

Haverá quem não verá o amor e olhará o local, o apartamento, a decoração, as roupas e a Linda Léa Seydoux e seus sapatos. Não sinta inveja do amor… Vá atrás do seu (rs*)

Feche a porta do seu quarto
Porque se toca o telefone
Pode ser alguém
Com quem você quer falar
Por horas e horas e horas…
(Trecho da música “Eu Sei” – Legião Urbana)

Influenciamos nossos pensamentos e inspirados na evolução do tempo, não resistimos ao feitiço do amor!

O Preço do Amanhã (In Time, 2011)

Por Eduardo Maurício.

Esse definitivamente não foi o ano da ficção, apesar de algumas ressalvas como o ótimo “Sem Limites” e o bonzinho “Contra o Tempo”, o gênero passou batido em 2011, e “O Preço do Amanhã” não é aquele que vai mudar esse fato.

Apesar de incoerente, a história é interessante de fato, o erro está na execução, realizada de forma decadente, clichê e cheia de furos.

Em um futuro distante, as pessoas não envelhecem a partir dos 25 anos. O que determina sua mortalidade é um relógio biológico refletido no pulso. O dinheiro não existe mais, com isso, as pessoas são pagas com tempo. O lado ruim disso é que os pobres estão com a corda no pescoço, cada vez mais presos ao trabalho e sem tempo a perder, enquanto os ricos gozam da imortalidade em uma região nobre separada da classe baixa.

Will (Timberlake) é um jovem de 28 anos que mora no gueto, trabalhador de classe baixa, segue sua corrida e sofrida vida naturalmente, até que no mesmo dia em que sua mãe morre, recebe de um homem mais de 100 anos de vida com a condição de não desperdiçar este tempo. Will então resolve iniciar um plano de infiltração que consiste em derrubar o sistema que favorece os ricos e que pouco se importa com os muitos pobres que morrem todo o dia.

PONTOS NEGATIVOS

O filme (que à princípio me lembrou o ótimo “Gattaca”, de 1997) começou bem, embora já ignorando uma explicação valiosa: “Como diabos uma criança nasce com uma contagem regressiva no pulso?”…

No desenrolar da trama, outras dúvidas começam a pipocar:

Como os vivos conseguem viver eternamente contando unicamente com um relógio biológico? Até onde sabemos, não é mencionado nenhuma substituição de órgãos internos que impedissem o desgaste dos naturais”… Tudo bem, seguimos em frente…

Surgem então os ladrões, obviamente os caras que vagariam pelas ruas roubando tempo de vida dos cidadãos mais indefesos. Dado o caótico ambiente em que vivem, nada mais natural, se não fosse por um pequeno detalhe: para se roubar ou transferir um tempo de vida basta um aperto braçal.

Aí eu me pergunto… Não deveria existir algum tipo de senha que impedisse a transferência indevida de uma pessoa para a outra? Afinal não estamos falando só de dinheiro, mas de uma vida humana! Como algo tão tecnológico consegue ser tão desprotegido?…

Tudo bem, mais uma vez seguimos em frente.

Ai surge a personagem de Amanda Seyfriend, Sylvia, uma garota rica que acaba se envolvendo com Will. Pronto, é a gata d’água. Dois jovens bonitos, solteiros, sendo obrigados a andar juntos 24 horas por dia. Independente do que estiver acontecendo, independente do mundo estiver acabando, sempre vai haver sexo, beijos e amaços entre eles, e nos momentos mais inconvenientes possíveis – como na lamentável cena em que Will, mesmo cercado por seguranças durante uma festa de gente poderosa, bota seu “importantíssimo plano” à perder convidando Sylvia, a filha do grande chefão para tomar um banho de praia… O rapaz é muito, mas muito ousado sem noção.

Ignora-se totalmente o bom senso de tornar o roteiro crível para se aprofundar numa trama cheia de clichês, incoerência e imaturidade.

“O Preço do Amanhã” é o tipo de filme que começa ganhando sua atenção, só para depois te obrigar observar sua decadência ao longo dos minutos. São poucos os momentos inspirados e o final então nem se fala, mais fraco impossível.

O triste é imaginar que em boas mãos, com uma base dessas, o resultado poderia ter sido épico! Em fim…

Alice # Lewis Carroll + Tim Burton + 3D

A única forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível.

Eu fiz questão de ver a ‘Alice no País das Maravilhas‘, de Tim Burton, em 3D. Para mim, que amo a estória de Lewis Carroll, batia uma curiosidade de ver quais seriam os efeitos com essa tecnologia. Comigo, já ia em como seria a queda na toca do coelho. E Tim não me decepcionou. Fez mais! Além da que me fez mexer da cadeira, a do final é um presente a nossa sensibilidade. Diria até, ao nosso lado romântico. Volto a essas cenas mais adiante.

Lewis Carroll era um contador de estória da sua época. Mas com as que ele mesmo inventava na hora. Foi assim que nasceu ‘Alice no País das Maravilhas‘. Ele a criou para entreter a pequena Alice e suas irmãs durante uma viagem. Depois, incentivado por amigos, imortalizou a estória colocando-a em livro. Sendo adulto, aproveitou a estória para criticar as convenções sociais. Também para homenagear amigos, e ironizar os inimigos com alguns personagens. O que leva a estória ter pelo menos dois tipos de leitura: uma, pelo olhar infantil, e a outra, por um olhar adulto.

Puxa! Como tudo está tão estranho hoje! E ontem as coisas estavam tão normais! O que será que mudou à noite? Deixe-me ver: eu era a mesma quando acordei de manhã? Tenho a impressão de ter me sentido um pouco diferente. Mas se eu não sou a mesma, a próxima questão é “Quem sou eu?” Ah! esta é a grande confusão!

Contando o porque de amar essa estória. Ela leva a criança a não perder a sua essência, a sua individualidade num mundo tão cheio de convenções. Por conta disso, aproveito sempre para incentivar os Profissionais com mais acesso as crianças, que levem-nas a conhecerem ‘Alice no País das Maravilhas‘. Ela também mostra de maneira ímpar o ser verdadeira, mas compreendendo que terá que controlar essa qualidade. Escolhendo bem as palavras antes de proferi-las. Porque as diferentes ocasiões, até mesmo as situações diárias, exigirá uma postura para cada uma delas. E é ai que terá que ter discernimento até para não perder a sua autenticidade. Mesmo que o momento leve a aceitar algo contrário a sua própria natureza, tendo ciência do que está se passando ali, não a torna cúmplice. Mais! A faz compreender que se há falha de caráter, é da outra pessoa, não dela.

Se a personagem Alice já possui uma grande importância no universo infantil, eu não vejo nada contra dela adentrar no universo mais adulto, deixando de ser uma menininha, tendo mais idade. E foi o que Tim Burton fez. Ele literalmente cresceu a Alice. Ele faz uma pequena ponte, logo no início, com a pequena Alice. Com ela e seu pai sendo confrontados a cerca da imaginação de ambos. Alice, pelos sonhos constantes. Seu pai, por possíveis sócios em seus negócios. Ela, criança, com receio de estar perdendo a razão. Enquanto o pai dela, quem o vê como lunático, são aqueles que tentavam desmotivá-lo a abrir seus horizontes. Enfim, pai e filha, são podados pela sociedade. O ‘Siga as regras, e seja feliz!‘, é algo cruelmente castrador.

Tim Burton depois dá um salto de 13 anos nessa sua versão. Alice, junto com a mãe estão a caminho de uma festa num palácio de um nobre da corte. Não sabendo do real motivo, intui que está entrando num túnel escuro. O que a faz ficar arisca. Ficando mais suscetível a captar os sinais que a vida nos dá, mas por conta de seguir tão cegamente as convenções, eles nos escapam. Mesmo que coincidentemente era procurada pelo Coelho Branco, só após pedir um tempo, é que Alice vai atrás dele.

Sem poder contar com os conselhos do pai, já falecido, Alice pede um tempo para pensar. Ela se vê brutalmente em confronto com o destino que escolheram para ela. Era castrador demais. Fútil! Falso… É quando mergulha fundo na sua inconsciência. Como um balanço da vida. Como um processo de Individuação, numa linguagem junguiana. Alice se deixa levar, indo atrás do Coelho Branco. Que lhe mostra as horas. Como a dizer que o tempo está passando. O tempo é outro fator salutar nessa obra de Lewis Carroll. Por mostrar como ocupar o tempo de vida. Fazendo o que gosta. Sendo você mesmo. Não mudando até sua aparência física, só para agradar alguém. A sociedade, ou quem se vê num tipo de trono, praticamente exige que todos percam a sua individualidade.

No filme, por conta da Rainha de Copas ter uma cabeça grande, seu séquito incorporam em suas próprias aparências, um aumento de uma parte física. Só para cair nas graças desse que se julga superior. Por outro lado, que prazer é esse em ter sempre em torno de si, um bando de bajuladores? De quase uma cópia de si mesmo. Quase, porque a eles nem é dado o direito de contestar, de terem opinião própria. Uma coisa é o respeito a uma hierarquia. Outra, é negar-lhes o direito de subir por seus próprios méritos. Se está capacitado, deve ter chance de mostrar o seu valor. É assim, em Família, numa Empresa, num Grupo, na vida como o todo.

A Rainha de Copas não admitia ser contestada. Sua arrogância, prepotência, a afastara até da sua irmã. Fez mais, roubou-lhe a Coroa Imperial. As duas irmãs, podem simbolizar algo inerente em nós. Mesmo exacerbando, mostram o lado bom e o mal. Como lidar com isso em si mesmo? Canalizando o poder destrutivo em ponderando mais, por exemplo. Pesando os prós e os contras. Fazendo um planejamento. Ter uma base forte, mesmo que seja por um caminho novo. Assim, a probabilidade de dar errado, diminui. E mais, ela pode ser atribuição do outro lado, o mais emocional. Mais romântico. É! Razão e Emoção lado a lado, e não em pé de guerra. Estão vendo como podemos colocar até os nossos “defeitos” contribuindo para o nosso engrandecimento? E sem perda de tempo.

Seria o Chapeleiro Maluco a nossa criança interior?

Fiquei pensando no porque desse personagem: um chapeleiro. Claro que na época de Lewis Carroll, o uso de chapéus era até exigido socialmente. Mas viajando um pouco… O chapéu possui várias referências simbólicas e reais. Uma delas, seria a do Mágico, que sempre tem uma surpresa vinda de dentro dela. Bem, surpresa para os outros. Porque se tirarmos algo de nosso cérebro, a surpresa estaria em, mais do que fazer, estaria em como fazer, como agir. O que vai depender do momento, do que exige a situação. Acontece que uma criança não vai muito pela razão, mas mais pela emoção.

O Chapeleiro gosta de criar chapéus, mais que um simples adorno, ele mostraria um pouco do que vai na mente de cada um. Independente se chocará ou não. Uma maneira de simplificar a vida. Como é feito pela criança. Ela só ficará preocupada com a opinião do outro, por gostar desse outro. Receber dele um bem querer. É quando exigirá de si mesmo seguir certas regrinhas. O Chapeleiro meio que cumpre o ritual do chá, mas subvertendo tudo. Ele até, passa por cima da mesa, para ir ao encontro da Alice. Feliz. Querendo-a ao seu lado.

Claro que o Chapeleiro exacerba um ‘Não siga as regras, e seja feliz sendo você mesmo!’ Essa quebra da rotina, nos leva de volta a infância. Num jeito meio desnudo do que a vida adulta nos impõe. É o prazer de viver em plenitude. Alice junto a ele, vai aos poucos trazendo à tona a sua verdadeira essência. Mas ambos passarão por duras provas. Que em vez de afastá-los, reafirma o bem querer que sentem um pelo o outro. É o verdadeiro valor da amizade. E que é bem mais incondicional, quando se é criança. Onde, quando se tem uma essência pura, aceita-se as diferenças sem questionamentos. Sem exigência.

Vejam só, tantas coisas estranhas tinham acontecido ultimamente que Alice começara a pensar que muito poucas coisas eram na verdade realmente impossíveis.

Exigências! Desde que os homens se organizaram em uma sociedade, se fez necessário criar certas regras. Para coibir certos abusos. Não deixando de assim terem um certo controle do povão. Alguns, cumprem cegamente essas regras. Até por um certo egoísmo. Outros, por comodismo, por pensar que é o melhor a fazer. Há também quem siga as convenções sociais, mas sem querer envolvimento afetivos. Mas claro que, no geral, as regras tem como base o poder de punir quem cometa um crime. Nessa estória, a Rainha de Copas vem para mostrar os que, estando no poder, só pensam no seu próprio bel-prazer. Onde governam com dois pesos, duas medidas.

Bem, se Tim Burton resolveu contar essa estória em 3D… Na cena onde Alice toma chá com o Chapeleiro Maluco, e outros convidados, há um efeito que me fez mexer na cadeira. Foi um susto gostoso. De querer rever.

Quando eu assisti ‘Avatar’, vi, acredito eu, um dos primeiros trailers deste filme. Talvez por estar ainda em produção. É que deixou uma impressão de muita escuridão, de algo mais tenebroso. Confesso que ao vê o Gato de Cheshire, ele me assustou. Cheguei a pensar que o filme cairia um pouco para o Gênero Terror. Essa impressão só se desfez assistindo enfim ‘Alice no País das Maravilhas‘, de Tim Burton. Filme esse que eu amei! Mas ainda em relação aos Trailers, embora goste de chegar nas Sessões a tempo de vê-los, alguns nos leva a ter outras impressões. O que leva a não dar muito créditos a eles. E, assistindo “Alice’, além de ter gostado muito, eu gostei do Gato Risonho do Tim Burton, muito embora o que continuará eternizado em minha memória cinéfila, será o da Animação da Disney. E o filme nem é tão escuro como no primeiro Trailer.

Agora com esse outro importante personagem: o Gato de Cheshire, ou, o Gato Risonho. Ao estampar o sorriso dele, Carroll nos mostra que a sociedade exige muito essa postura. Dificilmente alguém está afim de ouvir o drama de outra pessoa. Dai, mesmo passando por um período triste, em frente a alguém, estampamos um largo sorriso. Há também quem use o sorriso por subserviência. Como também para agradar alguém, mesmo a contragosto. Com o poder de sumir desse Gato, ele mostra que em algumas ocasiões, é a sensação mais desejada. Pois há horas que queremos sumir. De sair sem ser notada. E fiquei pensando no porque Tim Burton colocou os dentes do Gato, metálico. Talvez para ressaltar a falsidade que tantos adoram a sua volta. Como também por ter um comportamento falso.

Como eu comentei, a Alice se deu um tempo para pensar no futuro que queriam para ela. Por vezes, se faz necessário parar para um balanço na nossa vida. Eu, gosto de pensar que a nossa jornada, é como uma espiral. Assim, em vez de fechar um ciclo, que deixa a impressão de fazer tudo de novo, se nessa parada, tiramos lições, se retiramos cargas inúteis, estaremos alcançando sim, uma oitava maior. Nesse filme, temos para exemplificar, que mesmo percorrendo o mesmo caminho, será com um outro olhar. Pensem numa espiral. Ela vai passando perto, o que deixa até a impressão de dejà-vú. Mas tendo consciência do que fez, ou até do que deixou de fazer, colaborará para como agir dessa vez. Para então seguir em frente.

O que não enfrentamos em nós mesmos, encontramos como destino.” (Carl G. Jung)

Também nessa parada, se faz necessário enfrentar aquilo que nos assombra. Se for o caso, matar, nos livrar de vez, de algo que não faz parte da nossa essência. De algo que nos foi imposto. Por outro lado, se é algo que está inerente a nós, essa morte vem para canalizar essa força destruidora numa benéfica ao nosso engrandecimento. São os defeitos e qualidades trabalhando juntos. Numa Individuação (Psicologia Analítica), se aprende a lidar com a própria Sombra.

Para Alice, matar o Jaguardart, era ir contra os seus próprios princípios. Para os seus amigos do País das Maravilhas, seria a libertação. Como o destino a elegeu para essa missão, para salvaguardar a vida deles, ela viu que não poderia abdicar. ‘Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.’ Ela não perpetuaria aquele círculo nefasto. Na quebra de um ciclo, renasceu.

Quem a incentivou mais, foi a Lagarta Azul. Sempre levando-a a pensar quem de fato era ela. Mostrando também a ela que não era fruto da imaginação essa morte. Essa passagem para uma nova fase de vida. Ela mesmo era um exemplo disso, ao encerrar um ciclo, renascia como borboleta. Se desde o início, questionou a verdadeira identidade da Alice, a Lagarta também cumpriu uma missão. Fazendo Alice crescer. Ver a vida com um novo olhar. Deixar de ser coadjuvante, passando a ser protagonista da sua própria vida.

_Poderia me dizer, por favor, qual caminho eu devo seguir?
_Isso depende muito de onde você deseja chegar.

Então, Alice volta a festa. Lá, todos a aguardavam. Segura do que queria fazer, ela se faz ouvir. E dessa vez, o seu recado – a sua verdade -, é dita mais nas entrelinhas. Mostrando maturidade. Pois seria perda de tempo tentar modificá-los. Alice, já sem medo da vida, vai para uma nova fase em sua vida. Levando como herança paterna, o idealismo, o lado aventureiro, o tino comercial. E uma fértil, e porque não, útil imaginação. Eram as bagagens mais preciosas que Alice levaria rumo ao futuro. Ou, até uma próxima parada…

E no final, Tim Burton nos presenteia com uma cena que entra para a História do Cinema em 3D, como o mais cativante Final. É emocionante! Um brinde a nossa sensibilidade. A nossa Alice interior. Grata, Tim Burton! Parabéns, por sua versão de ‘Alice no País das Maravilhas’. Eu amei.

As atuações estão ótimas. A Trilha Sonora é Perfeita. Não deixem de ver esse ótimo filme em 3D. Se dêem esse presente.

Por: Valéria Miguez (LELA).

Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland). 2010. EUA. Direção: Tim Burton. Elenco: Mia Wasikowska – Alice; Johnny Depp – Chapeleiro Maluco; Helena Bonham Carter – Rainha Vermelha; Anne Hathaway – Rainha Branca; Matt Lucas – Tweedle-Dee e Tweedle-Dum; Alan Rickman – Absolem, a Lagarta Azul; Michael Sheen – Coelho Branco; Christopher Lee – The Jabberwock; Stephen Fry – Gato Risonho (The Cheshire Cat); Imelda Staunton – Flores com Rosto (voz); +Cast. Gênero: Aventura, Animação. Duração: 109 minutos.