The Babadook (2014). Um Terror Rico em Símbolos (Psicologia)

the-babadook_2014_01Por: Charles Alberto Resende. (contém spoilers)

the-babadook_2014A Imposição do Luto

The Babadook” é um filme muito instrutivo psicologicamente e muito rico em símbolos. Se isso não bastasse, foi também considerado um ótimo filme de terror. Infelizmente, para quem não conhece um pouco de psicologia, seu sentido simbólico pode passar encoberto. Este texto busca cumprir esta finalidade.

Babadook encarna o inconsciente de Amelia (Essie Davis), que procura de todos os modos reprimir a lembrança do trágico acidente de carro em que o marido a levava para a maternidade para dar à luz a Samuel (Noah Wiseman). Qualquer possível menção à lembrança do marido é evitada e/ou negada por Amelia, até mesmo chamar Sam de “garoto”, o que o ex-marido fazia. Ela não supera os estágios iniciais do luto, a negação e a raiva. Sam, por sua vez, sofre com a inadmissão da mãe, e passa a ter pesadelos e medos inexplicáveis, além de amedrontar parentes e colegas. Isso se deve a que a psique da criança, antes da puberdade, é dotada de um Eu apenas embrionário, ainda incapaz de afirmar sua personalidade. Contudo, somos tentados e considerá-las, muitas vezes, esquisitas, cabeçudas e difíceis de educar, como se tivessem vontade própria. Puro engano. Nesses casos deve-se examinar o ambiente doméstico e o relacionamento dos pais, nos quais encontramos, geralmente, as verdadeiras razões das dificuldades dos filhos. O comportamento perturbador das crianças é muito mais reflexo das influências incômodas e embaraçosas dos pais.

the-babadook_2014_02O filho passa à mãe o livro de Babadook, que tem mensagens como: “uma vez que você ver o que está embaixo, vai desejar estar morto” e “deixe-me entrar“. Ora, o inconsciente normalmente é retratado como a parte da personalidade que vive “embaixo“, isto é, abaixo do nível da consciência, como se fosse uma espécie de porão. E ela guarda as posses do falecido justo em um porão, as quais não deixa Sam ter acesso. Nas palavras deste, a mãe não o deixa ter um pai, mesmo que morto. Além disso, Amelia parece evitar também qualquer referência a sexo e ao amor compartilhado. Também parece perceber os gestos carinhosos do filho como sexuais, mesmo quando este está dormindo e recosta em seu corpo. Então afasta-se prontamente. Amelia sofre de insônia, e não é por acaso, pois precisa estar acordada e vigilante o tempo inteiro para evitar qualquer menção ou lembrança interna aos problemas que nega veementemente. Mas, como é muito comum nesses casos, ela não tem consciência nem de que nega esses assuntos. Não mencionar ou falar sobre o falecido é, para Amelia, seguir em frente com a vida. De fato, esse seria um bom indício de que conseguiu superar a morte do ente querido, se a menção a ele não a irritasse tanto. Quem supera uma perda e não a expõe, provavelmente o faz porque o fato já não possui a intensidade afetiva quanto tinha à época dos acontecimentos. Porém, para que isso ocorra, é necessário conviver com eles.

Entretanto, assim que o filho começa a ser discriminado claramente na escola e pelos parentes, a situação se desestabiliza. Então Sam fica desobediente e agressivo. O livro de Babadook surge e fornece a ela um meio simbólico para expressar conteúdos do seu inconsciente, até então fortemente represados. O estado psíquico de Amelia, antes vigorosamente controlado, se desequilibra, em meio à instabilidade da iluminação e aos ruídos, ao que tudo indica autônomos, produzidos no ambiente. O episódio em que Sam empurra a prima da casa da árvore, quando esta expressava às claras o que sua mãe ocultava, denota seu tormento frente à situação psíquica insuportável. Ao tentar se justificar, e a mãe tentar controlá-lo, passa por uma convulsão. Samuel é medicado e, agora, só a mãe deverá lidar com sua repressão ao luto, às reais emoções que a perseguem, encarnados por Babadook.

...fechada à realidade interior.

…fechada à realidade interior.

O livro, depois de destruído, reaparece com outra frase: “Vou fazer uma aposta com você. Quanto mais negar, mais forte eu fico“. Nesse ponto, o inconsciente de Amelia encontra-se muito carregado de energia psíquica. Manter os sentimentos e as emoções do luto separados do seu Eu serviu apenas para fornecer mais autonomia a eles, mais independência em relação às rédeas que quer firmar. “Você começa a mudar quando eu entro. O Babadook cresce sob a sua pele. Venha! Venha ver o que está embaixo!“. O símbolo do senhor negro, de cartola, mostra que ela primeiro matará o cachorro, depois sufocará o filho, e por último suicidará. Babadook, a figura do falecido que a abraça e os insetos que a perseguem, é como se fossem a morte em pessoa que vem buscá-la por não admitir sua existência. Influências regressivas que a atraem para o que ela rejeita, e que ficam mais fortes com a aproximação do aniversário do sétimo ano do filho. Ele mostra que ela nutre sentimentos hostis em relação ao cão que fareja o porão, ao filho que confronta sua cegueira interna e a si mesma. Ele é o inconsciente que finalmente se apossa de sua personalidade para cometer atos impensáveis. Ao negarmos o que se encontra em nosso interior, o separamos de nós, provendo-o de vida independente de nossa vontade. Nós nos tornamos como uma casa à disposição de forças que agora nos são desconhecidas, porque não admitidas. E ao não reconhecê-las, corremos o risco de não perceber que passamos a atuar como elas, que nos tornamos exatamente o que antes não tolerávamos.

Sam diz que não quer que a mãe vá embora porque, como as crianças estão em íntimo contato com o inconsciente, sabe que ela aos poucos está partindo para dar lugar à bruxa, à mãe má, que o colocará em perigo. Amelia só recobra a consciência para lutar contra a possessão sombria quando Samuel a acaricia enquanto tentava sufocá-lo. Ela vomita uma massa negra, cena muito semelhante à separação de Peter Park de Venon, em Homem Aranha 3, cuja analogia é muito pertinente. À negação segue a identificação (união), e, então, uma separação (análise) mais saudável. Ao alucinar a morte do marido torna-se possível vivenciar a angústia da perda. Por último, prevalece o instinto materno na batalha contra a força maligna, que agora aloja-se no porão. Curiosamente, quando a mãe surta, o filho volta ao comportamento natural.

the-babadook_2014_03Amelia não se cura como, normalmente, se idealiza uma cura. Pode-se dizer que sua saúde mental é restabelecida na medida em que ela reconhece a realidade do que se encontra em seu interior. Também teve que contar com outra força inconsciente igualmente poderosa: o instinto ou amor materno. O inconsciente teve que gritar, urrar e se impor para ser notado e respeitado. Por isso, e para manter uma boa relação com seu inconsciente, ela deve servi-lo diariamente com um símbolo que representa a morte e, de certa forma, a primeira (e parece que última) vitória desta: vermes extraídos do jardim onde o cão está enterrado. Mãe e filho compartilham da percepção da fera negra, como se esta fosse uma realidade comum a ambos, agora aceita inteiramente, como algo interno que, vivenciado externamente, exige atenção e respeito. Não é permitido a Sam visitar a fera, mas apenas quando for adulto. É a mãe que deve se relacionar com ela, pois é um problema dela. Foi preciso que alucinasse, que saísse de sua realidade, para que atentasse ao avesso do mundo exterior, que muitas pessoas desprezam: o espaço interno.

The Babadook 2014.
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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O Homem Duplicado (Enemy. 2013)

o-homem-duplicado_posterPor Marcos Vieira.
O caos é ordem ainda indecifrada.” É com essa frase que tem início o quebra-cabeça narrativo de O Homem Duplicado. Nele, o professor de história Adam (Jake Gyllenhaal), que vive em um instável relacionamento com sua namorada Mary (Mélanie Laurent), descobre que existe um homem idêntico à ele. Esse duplo é o aspirante à ator Anthony (Jake Gyllenhaal, é claro), que tem seus próprios problemas com sua grávida e desconfiada esposa Helen (Sarah Gordon). O filme trata então dos conflitos que surgem quando Adam descobre a existência de Anthony e quando os dois homens se encontram. Enquanto Adam é tímido e retraído, Anthony é impulsivo e agressivo, e o filme se desenrola a partir do efeito que a revelação da existência do outro tem sobre cada um deles.

o-homem-duplicado_01Mais do que um simples suceder de acontecimentos, a narrativa é montada de forma a colocar o espectador dentro do pesadelo que essas personagens estão vivendo, incluindo aí a namorada e a esposa. Mesmo em cenas que poderiam ser simples, como quando Adam pesquisa sobre a vida de seu duplo na Internet, uma iluminação sombria e uma trilha sonora tensa e impactante constroem um clima de suspense psicológico angustiante. Cortes bruscos e intensos nos momentos de maior desespero das personagens contribuem para esse clima. Além disso, todo o filme é permeado de uma simbologia a priori indecifrável, sendo a principal delas a presença de uma enorme tarântula em alguns momentos. É a presença dessa aranha e de algumas cenas desconexas envolvendo ela e/ou algumas das personagens que dá o tom extremamente surreal da coisa toda. “O Homem Duplicado” é daqueles filmes que deixa o espectador em suspense em relação não apenas ao que vai acontecer, mas também ao que está acontecendo.

o-homem-duplicado_02E o que está acontecendo é o maior enigma desse filme. Você pode acompanhar perfeitamente a sequência de acontecimentos, mas o segredo está em saber o que eles significam. A situação dos dois homens é absurda e nenhuma explicação lógica é oferecida pela história. Em determinado momento, o filme simplesmente acaba, e fica para o espectador a tarefa de tentar prover uma explicação lógica para o que ele acabou de ver. Isso deixa espaço para as mais loucas teorias e infinitas discussões, a exemplo do cult Donnie Darko, também estrelado por Jake Gyllenhaal (coincidência?).

Esse é um filme que vai te deixar com vontade de discutir as possibilidades e ler várias teorias na Internet. Não é por acidente que só estou escrevendo sobre ele uma semana depois de assistí-lo. É isso o que acontece quando um roteiro livremente baseado em uma obra homônima de Jose Saramago. E O Homem Duplicado é dirigido pelo já genial Denis Villeneuve, de Incêndios.

Se não fiz uma análise mais profunda da história nos parágrafos anteriores, foi para evitar a revelação de detalhes que podem estragar um pouco a experiência de quem ainda não assistiu. Porém, não posso deixar de compartilhar com vocês algumas das explicações nas quais pensei. E é por isso que…

Os parágrafos a seguir contém SPOILERS:

É possível estabelecer com razoável certeza que os dois homens são…[Continua aqui.] Voltando

Essas são apenas algumas das explicações possíveis e não é possível afirmar que nenhuma delas é a correta sem sombra de dúvidas, e essa é a beleza da coisa. Antes de escrever esse texto, eu acreditava que essa última hipótese era a mais aceitável, mas durante a escrita da primeira hipótese que apresentei aqui, passei a crer que ela é a que deixa menos pontas soltas. Quantas vezes ainda iremos mudar de versão?

Panorama do Festival do Rio 2013 – Parte II

festival-do-rio-2013A GAROTA DAS NOVE PERUCAS (Heute Bin Ich Blond) de Marc Rothemund tem um tema forte. Uma menina cheia de vida que de repente enfrenta um câncer devastador. Quando começa a perder cabelos por conta do tratamento, decide comprar várias perucas e assumir diversas personalidades. O humor e a criatividade da jovem ajudam a combater a doença. Um tema comum numa ótica alemã bem diferente, cheia de talentos e sem os excessos de dramaticidade comuns a Hollywood.

TATUAGEM é uma pérola hedonista de Hilton Lacerda. Ambientado numa periferia nordestina no final da ditadura no Brasil (1978) traça um retrato pouco visto da época já exaustivamente focada no eixo Rio/São Paulo. Ao sair dessa zona urbana conhecida, o filme ganha um colorido único com números musicais poderosos e sequências geniais amparadas por um roteiro preciso e um elenco vigoroso onde todos se destacam. Clécio (O excelente Irandhir Santos) quer montar um show ousado num cabaré decadente com o nome de chão de estrelas e se apaixona por um menino soldado cujo apelido é Fininha (Jesuita Barbosa). A paixão resulta num aparente contraste entre a resistência burlesco-nordestina e a severidade militar. Não tarda para que a trupe comece a se rebelar contra a aparente ameaça. O extravagante Paulete (Rodrigo Garcia numa composição inspiradíssima) está à frente dessa pacífica oposição. O que mais funciona no filme é a ausência de falsos pudores nos diálogos e especialmente nas cenas de sexo. O primeiro encontro de Clécio e Fininha é um primor de erotismo precedido de uma arquitetura de sedução notável, bem como o assédio sexual no quartel militar. Destacam-se também os curiosos relatos populares ligados ao pecado como o bebê que nasce sem cabeça ou o burburinho causado pela liberação de obras proibidas como “A Laranja Mecânica” de Kubrick com as famosas bolinhas pretas censurando a nudez frontal dos atores. Tudo costurado com primor e talento formando um espetáculo único e inesquecível que volta a orgulhar o cinema nacional ultimamente estremecido com produções grosseiras de bilheteria fácil. Salve o nordeste!

BEHIND THE CANDELABRA foi concebido para ser exibido na tela grande, daí a qualidade em todos os quesitos da produção. No entanto, o diretor Steven Soderbergh teve de se contentar em vender os direitos para a televisão por conta da temática gay exagerada. Como conseguir conter um personagem como o músico Liberace que exalava excentricidade por todos os poros? Liberace já era famoso e tinha quase 60 anos quando conheceu o adolescente Scott Thorson que se tornou seu amante por muitos anos. Os dois são vividos magistralmente por Michael Douglas e Matt Damon que travam batalhas verbais elaboradas numa estória muito bem roteirizada. Mas o ponto alto é para a maquiagem que transforma Damon de menino a adulto, Michael num velho afetado que definha com uma doença mortal e Rob Lowe em um cirurgião plástico hilário e deformado que certamente é um dos pontos altos de sua carreira. Vai passar na HBO. Vale a pena ser visto.

SHAMPOO um filme de Hal Ashby datado de 1975 provou que perdeu força ao longo do tempo. Exibido em película riscada, com a cor adulterada e o som distorcido, mostra os então jovens Warrem Beaty e Goldie Hawn numa comédia de difícil digestão com drama demais inserida no roteiro para ser engraçado. Tudo gira em torno do cabeleireiro George, que aproveita da fama homossexual que a profissão lhe conferia na época para se envolver com todas as mulheres que se aproximavam. O atrativo maior da sessão seria a presença da estrela Goldie Hawn que simplesmente não apareceu.

GRAVIDADE (Gravity) de Affonso Cuarón apesar de incursões mais profundas inseridas nos (bons) diálogos deve ser encarada como puro entretenimento. Diversão do tipo montanha-russa mesmo com muita aflição. A sensação conferida com o 3D e o Imax  é de queda livre e afogamento. Tudo se passa no espaço dividido pela engenheira Ryan e pelo astronauta Matt numa missão delicada quando são atacados por uma chuva de meteoros que os deixam flutuando à deriva sem contato com a Terra. George Clooney está perfeito como sempre, mas o filme é de Sandra Bullock que imprime terror e coragem assombrosos em cada fotograma onde aparece lutando pela vida. Hollywood continua a fazer filmes extraordinários.

GATA VELHA AINDA MIA de Rafael Primot teve sessão de gala no Odeon com a presença das estrelas Regina Duarte e Barbara Paz. Regina é Gloria Polk, uma escritora solitária que já teve seus dias de Glória e é entrevistada por uma jovem jornalista (Paz) num embate furioso regado à inveja e amargura. Ainda que com deslizes no roteiro, o filme mantém interesse por conta dos diálogos cáusticos e da força das atrizes, ganhando um diferencial no epílogo surpreendente, quase noir com toques de terror para acabar derrapando um pouco no desfecho um tanto mal solucionado. De qualquer modo, vale conferir nem que seja para observar a estranha composição de Gilda Nomacce no papel da intrometida vizinha Dida. Gilda já havia feito outro filme exótico e excelente, o cultuado “Trabalhar Cansa”.

GIGOLÔ AMERICANO (American Gigolo) teve apresentação em película no CCBB o que é sempre uma boa experiência apesar do desgaste do tempo. O próprio diretor Paul Schrader estava presente na projeção desbotada e riscada de sua obra de 1980. Richard Gere brilha no auge de sua beleza, numa trama quase ingênua para os dias de hoje, vivendo um prostituto de luxo envolvido num crime. O talentoso Giorgio Moroder faz a música no mais fraco dos seus trabalhos para o cinema e Armani assina os figurinos que marcam época. Schrader afirmou na conversa após a sessão que não faria o filme hoje com o conteúdo homofóbico daquela versão que coloca gays como vilões inescrupulosos e o personagem de Gere imitando gratuitamente um homossexual. Cita a boate The Probe mostrada no filme como um cenário estereotipado e underground. No entanto era um lugar freqüentado por todos, inclusive por ele na época. Revela, afirmando não ter preconceitos.

festival-do-rio-2013_03O LOBO ATRÁS DA PORTA pode ser considerado um thriller. Baseia-se no caso conhecido como “A Fera da Penha” que chocou o Rio na década de 60. Extremamente bem conduzido por Fernando Coimbra, o longa conta com um elenco de grandes nomes como Milhem Cortaz, Leandra Leal e Fabíula Nascimento nos papéis principais, bem como participações muito especiais de Juliano Cazarré e Thalita Carauta (A Janete de Zorra Total num papel parecido com o trabalho que vem fazendo, mas com o sabor de cinema). Tudo começa com o desaparecimento de uma criança. Os pais da menina são chamados à delegacia e Rosa, a amante do pai, é a principal suspeita do sequestro. Nesta versão, o macabro acontecimento continua a acontecer no subúrbio do Rio, embora se desloque um pouco da Penha para Oswaldo Cruz e tem a época atualizada para o tempo corrente, o que lhe confere um distanciamento perfeito para manipular com a suposta obscuridade psicológica de cada personagem sem a preocupação da exatidão e fidelidade dos fatos. O resultado é um grande filme.

O ABC DA MORTE (The Abcs of Death) como quase todo filme com muitos diretores não é um filme regular. No caso, a situação se agrava por conta de reunir diretores de diversas partes do mundo para contar o tema macabro através do alfabeto. No entanto, há momentos muito originais e até geniais no meio de uma sucessão de escatologia e terror gore. Digamos que muitas letras se salvam.

Tese Sobre um Homicídio (Tesis Sobre un Homicidio, 2013)

tese-sobre-um-homicidio_2013tese-sobre-um-homicidio_01Por: Eduardo Carvalho.

Roberto Bermudez (Ricardo Darín), ex-advogado, agora professor de direito penal, leva uma bem sucedida carreira como autor de livros de Direito e seus cursos de pós-graduação. Gonzalo (Alberto Ammann), um de seus novos alunos, é filho de um antigo amigo e trata-o como verdadeiro ídolo, e surge com uma inusitada tese sobre criminalidade: a Justiça preocupasse apenas em investigar casos que ameacem os detentores do poder. A insistência do rapaz em tal ideia passaria desapercebida, até que uma mulher aparece morta no estacionamento da faculdade de direito. Um detalhe faz com que Bermudez ligue Gonzalo ao assassinato, e ele se vê desafiado a solucionar o crime, provando a culpa de seu aluno.

Com a razão comprometida pela obsessão – no passado, Bermúdez havia acusado outra pessoa injustamente em um crime –, o professor vai se aprofundando na investigação, a ponto de envolver Laura (Calu Rivero), irmã da vítima, no caso, e colocá-la em provável perigo junto a Gonzalo. O diretor Hernán Goldfried vai habilmente conduzindo o espectador pela trama de “Tese sobre um Homicídio”, enquanto questiona a própria convicção de Bermúdez quanto ao suposto autor do crime, cada vez mais imerso em suas (in) certezas. Pois mesmo o provável assassino envereda por um caminho ambíguo, revelando pequenos elementos de suas ideias ao seu mestre, e que poderiam apontar ao crime cometido por Gonzalo. Mas tudo parece ocorrer na visão incerta do protagonista.

tese-sobre-um-homicidio_02O carisma de Ricardo Darín é certo. O ritmo do filme se mantém ao longo da projeção. A tensão intelectual entre professor e discípulo é complementada pelo elemento sexual, tendo uma frágil e sensual Laura como terceiro vértice do triângulo. A câmera é responsável por ótimas cenas – a sequência no museu por entre a instalação de vidros coloridos é uma delas –, e ótimos diálogos surgem aqui e ali, como o primeiro encontro entre Roberto e Laura na delegacia: ao dizer que fora advogado, logo emenda, com o devido cinismo, um “Mas não se preocupe, não exerço mais”. Apesar de tantos elementos favoráveis à película, estamos diante de uma estória com um ponto de partida, no mínimo, questionável. O que leva um professor, ainda que ex-causídico, a empreender um trabalho de detetive? Uma vez que a atuação do advogado normalmente se dá dentro de um escritório, na maior parte por meio do trabalho escrito – petições, teses de defesa, habeas corpus -, é por seus motivos pessoais que Roberto age, e são estes que estão no centro da discussão. Tais motivos lançam Bermúdez neste desafio – nunca proposto claramente por Gonzalo, diga-se de passagem –, e, em última instância, são eles que tornam o filme possível de ser levado adiante.

tese-sobre-um-homicidio_03Ao adaptar o livro homônimo de Diego Paszkowski, o diretor poderia ter optado por atualizar o embate intelectual de “Festim Diabólico” (1948), clássico de Hitchcock, onde o jogo de gato e rato ocorre num único ambiente. Ou, ainda, ter levado adiante a tese central de Gonzalo acerca da relação entre crime e poder, tema explorado com maestria por Elio Petri em “Investigação sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita” (1970).  Ao invés disso, Goldfried escolhe um caminho mais palatável, misturando um certo tempero noir a um modelo retirado dos seriados americanos de investigação criminal. Embora possa não ser claramente notado durante a exibição do filme – e que, ainda assim, não compromete as qualidades da obra –, seu tom quase didático mostra que “Tese Sobre um Homicídio” tem um inequívoco apelo comercial, feito para entreter, bem próximo dos moldes do cinema de massa. Apenas assim pode-se crer em um professor que sai da sala de aula – tal qual um certo professor de arqueologia, munido de chapéu e chicote – para realizar, em campo, um trabalho que ensina na teoria.

Tese sobre um Homicídio (Tesis Sobre Un Homicidio. 2013). Argentina. Direção: Hernán Goldfrid. Roteiro: Patricio Vega. Elenco: Ricardo Darín, Alberto Ammann, Antonio Ugo, Arturo Puig, Calu Rivero. Gênero: Suspense, Thriller. Duração: 106 minutos.

Terapia de Risco (Side Effects. 2013)

Terapia De Risco-2013A evolução da geração prozac para a felicidade da indústria farmacêutica.

A dupla Steven Soderbergh e Scott Z. Burns, Diretor e Roteirista, conseguiram uma oitava maior em “Terapia de Risco“. Apararam as arestas após e com “Contágio“. Dando a esse outro um grau de excelência. É um Thriller Psicológico de querer rever tão logo o filme termina. O porém ficou com essa análise: se teria ou não spoiler. Optei por não trazer.

Num resumo, o filme conta a história de uma jovem, a Emily (Rooney Mara), que mesmo tendo o marido, o Martin (Channing Tatum), novamente ao seu lado vive numa fase depressiva e que após uma tentativa de suicídio se vê tendo que fazer terapia com o psiquiatra Jonathan Banks (Jude Law). Esse por sua vez receita um novo antidepressivo sem antes verificar os efeitos colaterais.

Terapia de Risco” traz como pano de fundo a indústria farmacêutica no mercado dos Estados Unidos, e pelo título original “Side Effects” num detalhamento maior sobre o efeito colateral danoso de um medicamento em especial.

Quem como eu gostou, gosta da Série ‘House’ viu em alguns episódios ele confrontando com os fabricantes dessas drogas lícitas. Por ser ele um médico voltado ao diagnóstico – e numa fase bem crítica do paciente -, com isso para não deixá-lo morrer, Dr. House e sua equipe precisam entender e bem dos medicamentos que irão ministrar nesse paciente. Como também o conhecimento se faz necessário para que os efeitos secundários não prejudiquem o tratamento. Tal qual a vida real, uma grande parte dos médicos pensam no tratamento e cura do paciente.

Acontece que a indústria farmacêutica é poderosa por demais, e que por conta disso ganha por todos os lados. Mais ainda dentro dos Estados Unidos. Até com a disseminação do medo. Como também com o mercado de ações. Sem esquecer que culturalmente extrapolam no quesito competitividade com o binômio ‘looser x winner’. Por conta disso se apoderam também de um grande filão que é a automedicação. Proliferando os calmantes e os estimulantes.

Um outro fator que a farmaco também conta é com a cobiça. Vence o mais ladino. Aqui entra em campo a Dra. Vitoria. Personagem da Catherine Zeta-Jones. Banks que além de um cargo público, possui uma pequena sala onde atende os pacientes particulares, se encanta com o consultório dela numa bela mansão.

Nessa guerra nem precisa estar realmente doente para virar joguetes para esses fabricantes. Mas focando na temática do filme que mostra depressão como primeiro plano, claro que a descoberta de novas drogas se faz necessário. O que leva pensar se fabricam sempre um novo, em como chegam com essa nova droga no mercado e nos médicos, em particular na psiquiatria. Quanto maior pesarão o lucro, mas dinheiro lançarão em campo. Luxuosas “cortesias”. Já que não jogam para perder, se cercam de grandes escritórios de advocacia aptos a pular na jugular de quem sai do esquema. Pois é! O sistema que corrompe não se restringe apenas ao mundo da política.

Agora, alguém sairá perdendo. Nem causa estranheza que seria o lado mais fraco, ou menos esperto. Mas mais do que se descobrir quem seria, o impacto mesmo fica em torno de como banalizam toda essa teia. Essa sim assusta! De ao final do filme me deixar por alguns longos segundos sem fala, para logo em seguida sonorizar um “Uau!”. Mas também me deixou na dúvida se seria politicamente correto aplaudir com entusiasmo pelo teor da trama. Porque o filme como um todo merece sim muitos aplausos. Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Terapia de Risco (Side Effects. 2013). EUA. Direção: Steven Soderbergh. Gênero: Crime, Drama, Thriller. Duração: 106 minutos. Classificação etária: 12 anos.

Ilha do Medo (Shutter Island. 2009)

por Mario Braga

Ambientado em 1954 e sendo uma adaptação do romance de Dennis Lehane. O filme conta à história de um detetive que faz uma investigação sobre o sumiço de uma assassina em Shutter Island, local da trama.

Mais uma vez o diretor Martin Scorsese é capaz de nos surpreender nesta narrativa, a princípio complexa, porém recheada de trauma, neuroses e paranoia. Como um perfeito condutor, Scorsese mostra ainda que tem bastante fôlego de um veterano e que pelo jeito não pensa em se aposentar (ainda bem). Outro detalhe primoroso do filme é à sua fotografia.

Martin Scorsese é capaz de pescar a essência dos filmes de Alfred Hitchchock quando fez o remake como “Cabo do Medo”, e de fazer um excelente drama como “Táxi Driver” (quando começou a se destacar como diretor na época).