Sob o Mesmo Céu (2015). Um Romance dos Tempos Modernos

sob-o-mesmo-ceu-2015_cartazPor Valéria Miguez (LELLA).
mito-do-sagradoHá uma lenda que diz que quando os Homens das Ciências alcançarem o topo do mundo encontrarão lá esperando por eles os Grandes Mestres da Mãe Terra. Num tipo de távola redonda. Juntos, irmanados em ajudar ao Planeta a se recompor. Talvez até diriam aos que os procuraram pelo poder maior, que voltassem e eliminassem tudo do que fizeram e que deixara o mundo com mais desunião, com mais muros, com mais desigualdades, com mais riqueza para pouquíssimos habitantes. Enfim, tudo que o deixara mais destruído e destituído de humanidade. Mito ou não… Por certo que nosso Planeta tem contado também com aqueles que pelo menos tenta frear os que não se importam com ele. Com isso é preciso estar atendo aos sinais advindos dos céus em conjunção com o que está acontecendo ao redor para então agir.

Bem, esse é o pano de fundo em “Sob o Mesmo Céu” – de que certos avanços tecnológicos têm mesmo o intuito de aniquilar o mundo. Mesmo que só fiquem na ameaça para indicar quem é que dá as cartas. De qualquer forma é preciso pesar muito mais os contra antes de impor ao mundo mais tecnologia. Mais danos ao Planeta que leva tempo para se recompor. O que deu ares de modernidade onde heróis e heroínas de agora pilotam caças ou mesmo filmadoras, mas que respeitam as tradições antigas. Nesse contexto o Diretor Cameron Crowe conta duas histórias de amor, aliás três: porque dois deles irão passar a limpo uma história antiga. Crowe também assina o Roteiro o que o deixa mais livre para lidar com tudo e todos. Em destaque na trama: um discutir a relação. Será que as conjunções celestes também estariam favoráveis para essas questões?

aloha-2015_filme_havaiO local não poderia ser mais significativo para o desenrolar dessa história: Havaí. Tradições culturais e religiosas seculares. Como também o peso de se serem agora uma “colônia” e com a sensação de serem usados e logo descartados. No filme “Os Descendentes” se tem o lado da especulação imobiliária em terras havaianas como também do Turismo que “esconde” a pobreza do local. Já em “Sob o Mesmo Céu” temos as bases militares por lá. Onde em ambos os filmes um sentimento que ainda são levados a aceitarem “bugigangas” nos acordos com o Tio Sam. Como se ainda vivessem na era dos grandes descobrimentos. Além disso, Cameron Crowe também faz uma crítica a invasão do céu: num congestionamento de satélite. Para que tantos satélites?

E quem seriam os donos desses corações cujo destino levou uns num reencontro e outros a se conhecerem?

Começando pelo personagem de Bradley Cooper, o não menos encantador Brian Gilcrest. É que até achando que tem pela frente um grande e de curta duração evento – supervisionar o lançamento de um poderoso satélite -, tenta ser gentil, mas de modo a não dar impressão de estar aberto as novas amizades. No fundo, mesmo de uniforme militar, se sente um mercenário dos tempos modernos. Não importa para quais os fins, e sim cumprir as ordens.

sob-o-mesmo-ceu_2015_01Acontece que tão logo desembarca na ilha se depara com Tracy, personagem de Rachel McAdams. Era o passado de volta. Treze anos se passaram. E agora a encontra casada e mãe de dois filhos: o caçula Mitchell (Jaeden Lieberher, de “Um Santo Vizinho”) de câmera em punho filmando tudo e a adolescente Gracie (Danielle Rose Russell)
curtindo a dança havaiana. Tracy mais parece saída da escola de “O Sorriso de Mona Lisa”. Nada contra o querer ser dona de casa, mas focar a casa onde mora como desculpa por não querer o fim do casamento, denota superficialidade. Assim, a volta de Brian a levará a ir mais fundo em si mesma. O grande barato disso tudo fica por conta de seu marido Woody, personagem de John Krasinski, pois numa de quase entrar mudo e sair calado, ele rouba as cenas: está impagável! Woody não precisa de muitas palavras. É Tracy quem tem que parar de falar muito e com isso se dá um tempo para ouvir a si mesma.

Designada para acompanhar Brian durante sua permanência na ilha temos a Capitã Ng, a Allison. Personagem de Emma Stone. De cara se sente atraída por ele. Força uma barra para que fiquem amigos e com isso ficar mais tempo perto dele. Por conta de uma ascendência havaiana ela quis conhecer mais as tradições da ilha. Mais até! Passando a aceitar e a respeitar. Até por conta disso não gosta de algo que vê num dos vídeos de Mitchell. Com isso seu amor por Brian fica balançado: de herói ele passava a ser um vilão. E pelo fato em si, mesmo já estando apaixonada ficava difícil de engolir. Mesmo assim, ela precisava agir.

Fora eles, o filme ainda conta com algumas participações. Como de Bill Murray como o empresário Carson Welch dono do tal satélite, como também com Alec Baldwin como o General Dixon que abre as portas do quartel para Carson. Além de outros envolvidos com o lançamento do mesmo na base militar americana no Havaí. E que de certa forma envolverão a todos: militares e civis.

sob-o-mesmo-ceu_2015_02Assim, décadas depois de “Digam o Que Quiserem”, de 1989, histórias com adolescentes, Cameron Crowe traz em “Sob o Mesmo Céu” personagens adultos em seus dramas frente também as paixões. Sem perder a emoção até de estarem vivendo um grande amor, mas com um olhar mais amadurecido. E como podem ver se trata de um Romance com todos os clichês que esse gênero traz e caso não goste dessa combinação melhor procurar por um outro filme a gosto.

A Trilha Sonora também é um coadjuvante de peso! Performances em uníssonos! Numa escolha acertada do elenco! Cameron Crowe talvez tenha pecado em explicar demais algumas sub tramas, nem deixando lugar para divagações, como também desejando um enxugamento nesses momentos. O bom que logo em seguida a atenção volta plena e deixando um brilho nos olhos. E que só por algo que acontece no final do filme faz dele merecedor de uma Nota 10! Aloha, Crowe! O mundo agradece!

Sob o Mesmo Céu (Aloha. 2015). EUA
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Thérèse D. (2012). Sem pesar os próprios atos.

therese-d_2012Por Marcos Vieira.

Thérèse se sente sufocada pelo casamento com um homem que ela não ama e resolve matá-lo. Fosse simples assim, esse filme não estaria nessa lista.

therese-d_01Thérèse Desqueyroux (Audrey Tautou) é inteligente e introspectiva. Ao contrário dos outros moradores de sua fazenda e das fazendas vizinhas, ela vive enfiada em livros e não tem medo de dizer o que pensa. Por isso, apesar de não concordarem com ela, todos a respeitam. Seus pensamentos a levam a lugares muito mais distantes do que a maioria ali jamais imaginou ir. Mas Thérèse não é uma questionadora. Ela vê as regras e tradições daquela França rural do início do século XX como parte da vida. Ninguém a força a se casar com o herdeiro da fazenda vizinha. Ela o faz basicamente por dois motivos: primeiro, porque, uma vez juntos, eles terão uma das maiores ou a maior propriedade da região, e Thérèse quer aumentar sua riqueza; o outro motivo é um tanto mais inusitado: ela espera que a vida matrimonial a “conserte”, que tire de sua cabeça todos aqueles pensamentos estranhos ao mundo ao qual ela pertence. Thérèse quer que o casamento mate (e não que satisfaça) a sua curiosidade do mundo exterior.

therese-d_02Esse casamento se torna sufocante não por causa da falta de um amor verdadeiro, ou mesmo por falta de afeto (já que seu esposo sempre demonstra um irritante amor paternal), ou mesmo por falta de satisfação sexual (satisfação essa que realmente não há). Misteriosamente, Thérèse não parece precisar de nenhuma dessas coisas. O que ela realmente precisa é de estimulo intelectual, alguém com quem ela possa conversar sobre coisas mais profundas do que pinheiros, terras e caças. Ela precisa de conversas e rotina mais interessantes, e de ideias que a desafiem. E é daí que surge a tentativa de assassinato. Veja bem, Thérèse não tem um plano para escapar dessa situação, e não é em busca de liberdade que ela tenta matar o marido. No fim das contas, parte dela nem quer ser tão livre assim e nem quer vê-lo morto. Ela o faz porque tem a oportunidade. Dessa forma, alguma coisa minimamente interessante passa a acontecer naquela casa. Basicamente, ela o faz para sair da rotina. Tudo bem, a vontade de se ver livre daquele homem e daquela vida chata está lá inconscientemente, mas em momento algum ela racionaliza em relação a isso. Em determinado momento, quando questionada sobre o motivo, ela responde com um comentário: “Você sempre sabe o motivo dos seus atos.” Ela não.

therese-d_04.jpgO que se vê nesse filme é Thérèse falhando em ser a mulher que a sociedade e o matrimônio exigem que ela seja. Ela quer ser essa mulher, ela tenta, mas não consegue. Thérèse não é uma boa mentirosa, ela não consegue blefar. Ela pode até mentir para si mesma e para os outros, mas seus atos não mentem. Curiosamente, encontramos a antítese de Thérèse na divertida comédia Blue Jasmine, que também está entre os melhores que assisti em 2013. A Jasmine do título é puro blefe. Ela faz o máximo possível para não ter uma só gota de autenticidade. Ela precisa tornar real a narrativa de mulher casada, rica e sofisticada ao qual se propõe. Quando essa narrativa é ameaçada, ela perde o controle, pensa apenas em si e toma atitudes destrutivas para todos ao seu redor. Em sua histeria, Jasmine fica cega pela frustração e não mede as consequências de seus atos. Esse é um Woody Allen triste e obrigatório.

therese-d_03Mas voltando à Thérèse: essa é a segunda adaptação cinematográfica do livro de François Mauriac. A primeira é de 1962 e um tanto diferente dessa nova. Enquanto Audrey Tautou tenta expressar por meio de gestos e olhares as angustias de Thérèse, no primeiro a própria personagem narra em off o que ela está pensando e sentindo. Li uma crítica que considera o primeiro um tanto melhor justamente por essa explicação, não ficando satisfeita com a atuação de Tautou. Fui conferir. Nesse, o clima sombrio é um tanto mais pesado, mas a narração realmente deixa tudo muito bem explicado. E é justamente por isso que prefiro a nova adaptação: por Thérèse estar limitada a gestos e olhares, o telespectador pode ele mesmo tentar decifrá-la, ou até completá-la com partes dele próprio. No final, seu entendimento de Thérèse diz muito mais sobre você do que sobre a personagem que o filme tenta apresentar.

COMER REZAR AMAR (2010). Um Mergulho no Universo Feminino.

_Sabe quando reformou a cozinha, comprou um livro de receitas, e disse que iria aprender a cozinhar? Pois bem! Isso é o mesmo que ir meditar na Índia. Só que em cultura diferente.” (*)

Deixo um convite a Todos, não importando o sexo, e quase para todas as faixas etárias – para os adolescentes também. Que vão assistir esse filme – “Comer, Rezar, Amar“. Para que conheçam, entendam, sintam o que é ser mulher. Porque nele não é mostrado apenas a cabeça da personagem principal, mas de muitas. Desde a cabeça de uma menina aos quatro anos de idade, até de mais idosas. Aos homens, fica um convite especial. Verão qual é o limite que leva a uma mulher a dar um basta numa relação. Mesmo ainda sentindo amor por ele.

Assim, após assistirem, o convite é para uma troca de impressões. O porque disso? É que a partir daqui, o texto terá spoiler. Hesitei um pouco se traria ou não, mas senti uma vontade intensa em destacar vários trechos desse filme. O que ficaria complicado sem contar os detalhes.

Não li o livro, mas fiquei com vontade de ler. Como também, de ter o dvd. Até porque nele há várias falas que eu gostei. Clichês ou não, elas traduzem uma cabeça comum: livre de um certo pedantismo advindos de muitos estudos. Mas também sempre gostei de colecionar Citações, que para mim segue junto na composição de um texto. Gosto tanto, que até abri uma comunidade no Orkut de Frases de Filmes. Em “Comer, Rezar, Amar“, essas frases, a maioria delas, são como peças de um quebra-cabeça para se chegar a mente feminina. São várias reflexões que na montagem final temos o universo singular e particular de cada uma delas. E porque não, de cada uma de nós.

A fala com que iniciei o artigo, a escolhi, primeiro por mostrar um dos propósitos da protagonista, depois pela sapiência contida nela. Pela Liz (Julia Roberts), surgiu nela uma busca espiritual. Pela frase como um todo, em mostrar que essa busca não depende muito do lugar, mas sim da ferramenta usada. Mais até, em desligar a mente da questão maior fazendo outra coisa até fora da rotina diária. O que me lembrou de uma frase que ouvi num filme (Layer Cake): “Meditar é concentrar parte da mente numa tarefa mundana para que o restante encontre a paz.“ Também por mostrar que cada pessoa agirá de um jeito próprio, quando se dispõe a se conhecer por inteiro. Alguns levarão anos, outros, o farão num tempo menor. Outros nem terão esse desejo, e nem por isso serão infelizes. O que a estória mostrará, é um encontro com a religiosidade.

Ter um filho é como fazer uma tatuagem na cara. Você precisa realmente ter certeza de que é isso que você quer antes de se comprometer.”

A Liz encontra-se às vésperas de completar trinta anos de idade. Que seria uma data marcada para uma mudança radical em sua vida. Algo decidido num passado recente, por ela e o então marido, Stephen (Billy Crudup). Talvez uma promessa feita no calor da paixão. Haviam decidido que ela sossegaria, teriam filhos, que se dedicaria mais ao lar. Tudo já planejado. Num processo depressivo, em vez de remédios, decide rezar. Pedir a Deus que lhe mostre um caminho. E é quando se houve: se sua mente estava conturbada, seu corpo, cansado fisicamente, clamava por uma boa noite de sono.

Acontece que Liz não se via como mãe. Não ainda. Diferente de sua grande amiga Delia (Viola Davis). É Delia quem tenta convencê-la a não partir, a não abandonar a casa que ela, Liz, participou ativamente da reforma à decoração, e principalmente a não se separar de Stephen. Delia sempre quis ser mãe, dai não entendia muito o fato da amiga não querer. O que me fez lembrar de um fórum recente. São escolhas que em nenhum momento denigre uma mulher. Aliás, um dos pontos positivos que esse filme trouxe, é o fato da mulher se libertar daquilo já imposto pela sociedade. Uma liberdade que ainda pesa quando parte da mulher. Um largar tudo e botar o pé na estrada ainda é um território masculino. Assim, quando uma jornada dessa é feito por uma mulher: recebe a minha benção.

As pessoas acham que a alma gêmea é o encaixe perfeito, e é isso que todo mundo quer. Mas a verdadeira alma gêmea é um espelho: a pessoa que mostra tudo que está prendendo você, a pessoa que chama a sua atenção para você mesmo, para que você possa mudar a sua vida. Uma verdadeira alma gêmea é provavelmente a pessoa mais importante que você vai conhecer, porque elas derrubam as suas paredes e te acordam com um tapa. Mas viver com uma alma gêmea para sempre? Não! Dói demais. As almas gêmeas só entram na sua vida para revelar a você uma outra camada de você mesma, e depois vão embora.

Liz não entendia ainda o porque do desconforto sentido em seu relacionamento com Stephen. O amava, mas seu interior estava sufocado. Ao se separar, apesar do litígio, se sentia culpada pelo rompimento. Só se libertaria desse peso, em sua passagem pela Índia. Uma cena emocionante, que me levou às lágrimas. É que meus olhos já estavam marejados pela anterior a essa. Quando a vida apresenta que não podemos nem esperar muito de alguém, nem que esse alguém, também espere muito de nós, vem como uma libertação. Para alguém com o pé no mundo, cada dia era de fato um novo dia.

Liz após esse rompimento, conhece David (James Franco). Um jovem ator. Com esse romance, era mais uma tentativa de se encaixar nas tradições. Mas por ser alguém muito Zen, David leva Liz a conhecer um lado religioso. Por ele, indiretamente, lhe vem a vontade de ir a Índia. Conhecer de perto o Templo, e a comunidade da Guru. Mas isso só se concretizou, quando viu que com David também levaria um casamento tradicional. O acorda veio com uma observação de um amigo. Com David, o rompimento em definitivo, vem num email.

Aprenda a lidar com a solidão. Aprenda a conhecer a solidão. Acostume-se a ela, pela primeira vez na sua vida. Bem-vinda à experiência humana. Mas nunca mais use o corpo ou as emoções de outra pessoa como um modo de satisfazer seus próprios anseios não realizados.

Liz se dá conta de que passou grande parte da vida sem um tempo só pra si. Tão logo saia de um relacionamento, entrava em outro. Então resolve fazer a sua jornada. Como era alguém que queria sempre ter controle da sua vida, mesmo querendo fugir de tudo planejado, traçou uma rota. Ficaria um ano longe de família, amigos, carreira, NY… Passaria quatro meses em cada um desses países: Itália, Índia, Indonésia. Ela vê uma curiosidade na escolha dos três: começam com “I”, que em sua língua, é “Eu”. Faria um encontro com ela mesma; com o seu self. Algo que eu adorei nessa sua peregrinação foi o fato de não fazer um caminho solitário. Mesmo indo sozinha, não se isolou do mundo, das pessoas.

Seu período na Itália veio como puro prazer. Quase como o alimentar o corpo. Transgredindo o pecado da gula. Primeiro, ou melhor, a escolha por esse país partiu porque sempre quis aprender a língua italiana. Mas chegando lá, descobriu também o prazer em comer. Ela tinha fome! De comer sem culpa. Comer sem se preocupar em engordar. De comer até se fartar. Afina o seu paladar entre sabores, aromas e saberes.

A cena da Julia Roberts saboreando um espaguete – e do jeito que eu amo: com muito molho de tomates -, ficará na memória. Sabe aquele prato que te leva a esquecer do mundo? Que lhe vem à mente – Não quero que nem Deus me ajude!? A cena em si, nos leva a pensar nisso. E regada ao som de: Der Hölle Rache Kocht In Meinem Herzen.

Mas esse período não ficou só em comilanças, e conhecendo a cultura e o jeito de levar a vida dos italianos. Liz faz uma descoberta de si mesma. A de que há partes da sua personalidade que ficarão para sempre. Que se adaptarão a cada nova realidade que a vida lhe trouxer. O que me levou a pensar nessa frase da Clarice Lispector: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” Liz aprenderá a canalizar essas forças dentro de si, nos períodos passados nos outros dois países.

Ainda na Itália, lhe vem o desejo de encontrar a sua palavra: aquela que a definirá. Que será o seu norte. E a palavra vem na Itália, mas só terá consciência dela em Bali. Voltarei a ela mais para o final.

Galopamos pela vida como artistas de circo, equilibrados em dois cavalos que correm lado a lado a toda velocidade – com um pé sobre o cavalo chamado ‘destino’, e o outro sobre o cavalo chamado ‘livre arbítrio’. E a pergunta que você precisa fazer todos os dias é: qual dos cavalos é qual? Com qual cavalo devo parar de me preocupar, porque ele não esta sob meu controle, e qual deles preciso guiar com esforço concentrado.”

Na Índia, antes de chegar ao Templo da Guru, fica assustada com o trânsito local. Numa de se perguntar em como do caos chegam ao equilíbrio zen. Já no Templo, constata que tal como o de NY, não há a presença física da Guru, mas sim um retrato. Depois entenderá que a busca é para dentro de si.

Essa sua passagem pela Índia, nos leva do riso às lágrimas. A diferença cultural, mais que deixá-la em choque, a levará a se por em xeque. Ela quis aprender a se devotar a algo maior. A encontrar a espiritualidade em si.

Duas forças amigas serão o peso em sua balança. De um lado, uma jovem indiana, Tulsi (Rushita Singh) que sonha seguir carreira como Psicóloga. Que gostaria de se rebelar com o seu destino: um casamento arranjado. Tradição familiar e cultural. Liz vai a cerimônia de casamento, e dá um belo presente a jovem. Algo não material. E que também fez com que Liz descobrisse mais de si. Que fazemos parte de uma engrenagem, não somos, não devemos nos ver como peça isolada o tempo todo. Há vários momentos que estaremos em contato com alguém. Então, é saber a arte de uma boa convivência. Mais! Que há vivências que não teremos como escapar. Assim, o melhor a se feito é tirar um proveito da situação.

Do outro lado, estava Richard (Richard Jenkins), o seu James Taylor. Richard ficava levando-a a conhecer seus limites, para então ultrapassá-los. Além do ex-marido, do jovem ator, ele foi mais um personagem masculino a mostrar que não basta só um querer manter a relação a dois. No caso dele, o desrespeito chegou aos extremos: bebidas, drogas, relações extra-conjugais… Ao contar a sua estória, dá um aperto no coração. Principalmente quando pessoas como ele, fazem parte do nosso ciclo, ou familiar, ou de amizade. Certa vez, eu perguntei a uma pessoa se fora preciso mesmo abraçar uma religião, para então dá valor a linda família que possuía, e ele disse que sim.

Liz, Richard e Tulsi foram parar ali por motivos diferentes, mas igual no que buscavam: depurar o passado, se adequarem ao presente, para então seguirem mais confiantes para o futuro. Inconscientemente, um ajudou o outro nessa busca. Dos três, o fardo maior trazido do passado, era o de Richard. Perdera um tempo enorme de não ver o filho crescer, por não o ter colocado antes em sua vida. Voltando ao tema do início. De que maternidade e paternidade tem que querer de fato. Até pela responsabilidade que terá com a criança. E quando Liz consegue perdoar a si própria… minhas lágrimas desceram. Leve. Por me levarem a pensar num momento meu.
Eu quero vê-la dançar novamente“… Livre, era chegada a hora de seguir em frente. Próxima parada: Bali.

Imagine que o universo é uma imensa máquina giratória. Você quer ficar perto do centro da máquina – bem no eixo da roda -, e não nas extremidades, onde os giros são mais violentos, onde você pode se assustar e enlouquecer. O eixo da calma fica no seu coração. É aí que Deus reside dentro de você. Então, pare de procurar respostas no mundo. Simplesmente retorne sempre ao centro, e sempre vai encontrar a paz.”

Da vez anterior, que estivera a trabalho em Bali, Liz conhecera um Xamã: Ketut. Uma figuraça! Então, o procura. Gostei muito mais de Ketut – até pelo seu jeito irreverente de ser -, do que da Guru da Índia. Ketut, mesmo com todo o peso de ser um Xamã, é alguém mais objetivo. Ligado com o que há por vir. Por conta disso, propõe uma troca a Liz: ela transcreveria seus manuscritos – que com a ação do tempo estavam se esfarelando – e ele a ajudaria nesse seu vôo em sua alma. Ah! A companheira de Ketut mostra-se uma mulher de grande sapiência.

Se na Índia, Liz se livrou de bagagens inúteis para seguir em frente, em sua passagem por Bali iria aprender de fato a adequar sua personalidade com tudo mais a sua volta. A ter um equilíbrio, até quando a vida lhe tirasse dele.

Em Bali, Liz conhece uma Doutora da Floresta: alguém que cura pelas plantas. Ela é Wayan (Christine Hakim). Tem uma filha, Tutti (Anakia Lapae). Uma menina que aos 4 anos de idade, dá um sábio conselho à mãe. Que mesmo sendo penoso, até por conta da cultura local, Wayan aceita. As três ficam amigas. E por elas, Liz entende que há mais religiosidade num ato, do que passar horas num templo. Seu ato, faz um resgate a uma vida condigna a essas duas amigas. Mãe e filha não precisariam mais ficarem peregrinando. Ganham de Liz, e de seus amigos, um porto seguro. O mundo carece de atitudes como essa.

Ao longo dessa sua peregrinação, Liz convive com várias mulheres. De culturas diferentes. Algumas, como ela, nadando contra a correnteza, ou pelo menos, tentando. Mas mesmo as que seguem como reza a tradição, não estão infelizes. Esse é um dos pontos altos desse filme. É um verdadeiro ode a alma feminina.

Quando tudo parecia seguir por um caminho certo, Liz se vê literalmente jogada para fora da estrada. Bagunçando o seu equilíbrio novamente. Seria o destino testando-a? O autor dessa proeza seria o homem que Ketut viu nas linhas de sua mão? Aquele com quem teria um longo relacionamento? O que sustentaria essa ligação por anos? É quando entra em cena o personagem de Javier Bardem: Felipe. Alguém que trazia também um peso do passado.

Pausa para falar do ator, ou melhor, do homem: Javier Bardem. Ele está um tesão nesse filme. A maturidade o deixou mais sedutor. Lindo demais! Mesmo eclipsado pela performance da Julia Roberts, eu gostei dos dois juntos. Deu química.

Seu personagem é um brasileiro que adotou Bali como Lar. Tal como Liz, é alguém que ama viajar. O prazer nisso, até por força da profissão. No momento da estória, ele é um Guia Turístico em Bali. Leva Liz a conhecer aromas e sabores da cultura local.

Fazendo ele um brasileiro, fica difícil não comentar duas coisas:
– o filme passa a ideia de que pais brasileiros beijam seus próprios filhos na boca. De que isso é algo cultural. Como eu não li o livro, não sei de onde tiraram isso. Não há esse costume aqui.
– o lance dele dizer muito “Darling!”. Se é como “Querido(a)!”, também o costumeiro por aqui, ganha a conotação de algo superficial. Mas o seu personagem passa a ideia de um tratamento afetuoso, de intimidade com a pessoa.
É o único ponto negativo em todo o filme. Nem a longa duração do filme, me fez perder o brilho nos olhos. Até porque, sendo bem contada, eu gosto de uma longa estória.

Como citei anteriormente, “Comer, Rezar, Amar” traz várias falas reflexivas, e uma delas vem com a palavra que Liz então escolhe para si. Que para mim, é a que melhor traduziria como deveria ser uma relação a dois: attraversiarmo. É, ela a escolheu na língua italiana. Ela faz a ponte para a união de dois seres distintos. Donos de suas particularidades, um não anulará isso no outro. Saberão encontrar o ponto em comum, e respeitando as diferenças. Mas principalmente, respeitando o parceiro, a união, o porto seguro que farão com essa relação.

E é Ketut que leva-a a descobrir que estava pondo tudo a perder, ao voltar aos velhos hábitos. Deveria se entregar de corpo e alma a esse universo que chegara à sua porta. Isso, se colocava fé nessa relação. Até porque, os relacionamentos certinhos demais, de outrora, nunca a deixara satisfeita. Também, algo como o jovem Ian (David Lyons) propunha não era o que queria. Então, por que não vivenciar o que Felipe lhe propôs? Uma ponte entre NY e Bali… Em sua despedida ao Ketut, minhas lágrimas desceram…

A estória, ou as estórias, a Fotografia, a Trilha Sonora, as atuações… tudo em harmonia para um filme nota 10. E que entrou para a minha lista de que vale a pena rever. Não deixem de ver.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Comer, Rezar, Amar (Eat, Pray, Love). 2010. EUA. Direção: Ryan Murphy. +Elenco. Gênero: Drama, Romance. Duração: 133 minutos. Baseado no livro homônimo e autobiográfico de Elizabeth Gilbert.

(*) Foram tantas as Citações, que essa logo no início, me fugiu um pouco a lembrança palavra por palavra. Quando eu encontrar a transcrição literal, eu trarei para cá. Por hora, fica o sentido da fala.

Pecado da Carne (Einayim Petukhoth. 2009)

pecado-da-carne-2009_cartazAtravés de uma comunidade muitíssimo ortodoxa ficamos de frente para a realidade de muitos aspectos que a nossa sociedade moderninha mantem...

Esse é o filme perigoso para se demonstrar opinião, pois que o mínimo que se revele poderá ser um inconveniente spoiler. O andamento é lento e torna-se tenso por nos deixar nas cenas iniciais em expectativas. Algumas vezes pensei: “não isso não vai acontecer, não com ele, não com este… Não será agora… Ai, meu deus vai chegar alguém…”. Então vou contar para vocês, assistindo a este filme de Haim Tabakman eu assisti 3 filmes: O filme propriamente dito mais o filme que a minha expectativa criou; o inevitável filme que surge do insistente link filme x realidade: Vida numa locação distante x vida nossa de cada dia. Na minha ignorância quanto aos hábitos dos judeus ortodoxos, houve ainda o filme que não percebi. Confesso que permaneci estática diante da constatação que criticamos todo um modo de viver e seus valores retrógrados e estamos convivendo com eles e muitas vezes alimentando-os.

Como é viver, uma vida que não se escolhe, abraçando realizações que se tivéssemos conhecimento de outras opções não abraçaríamos? Como é descobrir de uma hora para outra que não somos o que pensamos que somos? Como é descobrir que se viveu por algo que no fundo não era o que queríamos? Como é depois de um fato que mostra uma vida nova, descobrir que se estava morto? E perceber que a nova vida é impraticável dentro de todos os valores que com sinceridade creditávamos? Como será saber-se infeliz e incompetente para seguir o que nos faz feliz?

pecado-da-carne-2009_01Pecado da Carne” mostra que o pecado da carne está na alma, no sangue, no desejo. Podemos viver toda uma vida mergulhados em preconceitos sem que sejamos preconceituosos. A falta de horizonte nos levará a sobrevivermos mortos, com atitudes que não perceberemos jamais…

Aaron é um judeu que vive sossegadamente num bairro kosher de Jerusalém. Vive sua vidinha, tem uma esposa e 4 filhos. Herda o açougue do seu pai e quando tudo estaria na mais santa paz, surge Ezri. Um jovem bonito, também judeu cujo lado ortodoxo é apenas o lado de fora. Ezri, estudou e sabe desenhar. Aaron daria a vida para ter estudado. Se estamos num dia de sensibilidade aguçada, aí já perceberemos que Aaron sente coisas que não entende por falta de oportunidade, pelo estreitamento de horizontes que as tradições fabricam. Exatamente como qualquer um de nós.

Nesse bairro, existe uma “patrulha da decência”, um grupo de jovens, que observam e vigiam a vida alheia e uma vez que esta não esteja de acordo com os valores do seu admirável mundo antigo, eles invadem casas, espancam pessoas com a finalidade de fazer valer sua moral e bons costumes. Assim, interferem no relacionamento de um casal com a mesma propriedade que interferem em qualquer outra coisa que não esteja em sintonia com as tradições. Ezri é um proscrito, um sem lar, sem família, sem teto, sem nada, mal falado e ainda abandonado pela pessoa que fora encontrar. Essa pessoa, um rapaz, a mim pareceu ser simplesmente a personificação do que pode se transformar alguém numa sociedade atrasada, sem respeito individual, onde um ser humano deveria se comportar assim como os bichinhos da “Marcha dos Pingüins”…

Quando encontramos algo que nos atrai e fascina é certo que iremos colorir com qualquer tinta a fim de se evitar a perda. O desejo tem o fascínio dos grandes abismos!

Foi assim com Aaron. O rabino na sinagoga diz que deus não quer que o homem sofra, por isso nada deve ser proibido. Aaron entende que o sacrifício é agradável aos olhos de Deus e quando ele se vê frente à uma nova realidade está certo de que tem os recursos necessários para vencer a tentação e transformá-la numa aquisição lícita – provavelmente uma forma que ele inconscientemente encontrou de não cumprir a norma ditada por sua “casta”. Mas repito e acredito: o pecado da carne está na alma e no coração também… Isso me lembra os jesuítas com a missão de levar as almas indígenas para Deus através da imposição religiosa o que muitas vezes resultou em abusos e índias grávidas; me faz recordar os cruzados defendendo o pensamento divino na ponta da espada … Até que ponto defendiam seus ideais? Até que ponto uniam o útil do cumprimento dos seus deveres vigentes, as regras de um pensamento num determinado contexto social com a oportunidade de alimentar seus latentes desejos?

pecado-da-carne-2009_02Pecado da Carne” é um filme que mostra o lado frágil de quem encontra a sua verdade e não acha um meio termo conciliatório.

Desaconselhável para homofóbicos de qualquer idade. Os judeus já tem o seu “Broback Montain”, embora o diretor Eytan Fox (Bubble, Delicada Relação, Walk on Water) use sempre a homossexualidade como plano de fundo em seus filmes. O Pecado da Carne é contundente por ir diretamente ao ponto: religião x homossexualidade.

Não assista se as situações de injustiças lhe causam náuseas, pois entristece ver o que o pensamento externo pode fazer com o que se tem por dentro, mas certamente é um filme para ser assistidos por todos, embora muitos se reconhecendo não aceitarão acostumados que estão a não aceitar o que por motivos diversos não vivem, certamente dirão que não é um bom filme, o que não é verdade.

Pecado da Carne . Einaym Petukhot (título original) Eye wides Open (título internacional). Israel. 2009. Drama. Direção: Haim Tabackman. Roteiro: Merav Doster. Elenco:Zohar Shtrauss, Ran Danker, Tinkerbell, Tzahi Grad, Isaac Sharry, Avi Grainik.
Trilha Sonora: Nathaniel Mechaly

Alguém Que Me Ame de Verdade (Arranged. 2007)

arrangedO filme de Stefan C.Schaefer e Diane Crespo desvia do óbvio clichê “conflitos do Oriente Médio” para enfocar simplesmente a opção de duas amigas de tentarem manter suas culturas e tradições apesar da pressão do ocidente em impor suas regras.

A judia ortodoxa Rochel (Zoe Lister-Jones) e a muçulmana Nassira (Francis Benhaimou) trabalham na mesma escola em Nova Iorque e iniciam uma amizade que não é bem aceita por conta das divergências culturais. A visão maternal e distorcida da diretora do colégio, que tenta mudar o estilo das belas mas antiquadas professoras, cria cenas muito interessantes.  Mas o enfoque da estória é o problema que as duas têm em comum que são os seus respectivos casamentos impostos por suas religiões seculares justificando o título original: “Arranged“.

Na contramão do roteiro fácil, os conflitos se resolvem de forma surpreendentemente simples criando um filme leve, digerível e bem-humorado calcado numa convicção enraizada em valores familiares e religiosos cada vez mais raros no mundo inteiro.

Por: Carlos Henry.

Alguém Que Me Ame de Verdade (Arranged). 2007. EUA. Direção: Diane Crespo e Stefan C. Schaefer. Elenco: Zoe Lister Jones, Francis Benhamou, John Rothman, Mimi Lieber, Laith Nakli, Doris Belack, Marcia Jean Kurtz, Trevor Braun.. Gênero: Comédia, Drama, Romance. Duração: 90 minutos.