Selvagens (Savages. 2012)

Tempos atrás, uma famosa crítica americana declarou estar aliviada no momento de sua aposentadoria por nunca mais ser obrigada a ver um filme de Oliver Stone. Ela tinha razão, pois embora o diretor tenha inegável talento, seus filmes costumam ser longos e chatos. Até mesmo seus melhores trabalhos como “Assassinos por natureza” são difíceis de ser suportados por mais de uma vez de exibição.

O filme se passa na ensolarada Califórnia, onde Ophelia (Blake Lively) divide a cama e os frutos de uma rentável plantação de maconha “da boa” com uma dupla de rapazes musculosos: Ben (Aaron Johnson) e seu melhor amigo Chon (Taylor Kitsch). O lucro fabuloso dos jovens traficantes chama a atenção de uma milícia criminosa comandada por uma mexicana durona.

Conforme esperado, no caso de “Savages” as imagens são bem enquadradas, a fotografia primorosa, o som espetacular, tudo certinho como manda o figurino. Até o trio de atores amantes ligados ao comércio de entorpecentes ilegais é tão perfeito e belo que chega a enjoar.

Como o filme não tem muito foco e vários núcleos, a dispersão é natural. Na segunda metade, a coisa toda se agrava irreversivelmente. Numa sarabanda pasteurizada de acontecimentos atropelados, o que não falta são cenas patéticas como a do jantar de Ophelia com seu algoz, a malvada rainha do pó ou a sequência final quando a maior parte do elenco se reúne no deserto para um confronto inexato com direito a duas versões do desfecho sangrento. Não consegue excitar nas mornas cenas de sexo onde a mulher aparece sempre com muita roupa, nem chocar apesar de pretender ser ultraviolento, ou seja, fica difícil acompanhar a trama sem dar uma olhadinha no relógio mesmo quando a pintura de Sir John Everett Millais (Já melhor utilizada como referência em outros filmes) surge na toca do bando de traficantes. Seria uma homenagem inacreditável do grupo de criminosos para receber a bela refém Ophelia?

A alardeada e pequena participação do ótimo John Travolta como um agente federal corrupto também não merece grande destaque. A boa interpretação do astro não consegue salvar este desastre que no fundo é mera apologia às drogas feita por alguém notoriamente adepto a elas, em todos os sentidos.

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O Guarda (The Guard. 2011)

Além de gostar muito de Comédias, o título desse me fez ficar com saudades de uma série de filmes onde o ator Louis de Funès interpretava um gendarme. É no mínimo curioso em ver os holofotes focando um cara da lei. Mas também tem Don Cheadle no elenco. Um ator que arrasa em Drama. Dai, quis vê-lo num papel cômico. E por último, o país de origem desse filme: Irlanda.

Começo então pelo Cinema desse povo insular europeu, que possuem um tipo de humor admirável. Se o tema é contravenção acobertada até pela sociedade local, eu lembro de “O Barato de Grace“. Eu não sei se o Diretor, que também assina o Roteiro, John Michael McDonagh, foi, ou é um também fã dos Monty Python. É que há um quê deles aqui. Até em mostrar personagens cultos, mesmo escrachando o modus operandi deles próprios. “O Guarda” transita entre a paródia e uma homenagem a filmes de mocinho versus bandido. Se posicionando contra o FBI, para logo em seguida mostrarem-se fãs da série CSI. Hilário essas cenas.

Embora os caras-da-lei também ajam como foras-da-lei, há um trio de bandidos bem inusitados. Na realidade eram quatro, um deles aparece morto logo no início do filme. Quanto ao trio, temos: o que se acha o poderoso chefão, o Francis (Liam Cunningham); o insatisfeito com a passividade da polícia local dando a eles plena liberdade de agirem, o Clive (Mark Strong); e o que faz questão de dizer que não é um psicopata, mas sim um sociopata, o Liam (David Wilmot). Esses trio, enquanto aguardam um grande carregamento de drogas, que chegará pelo mar, entre matar e corromper tiras, discutem Filosofia e Literatura. Ou melhor, que filólogo ou escritor cada um prefere. Se Schopenhauer, Nietzsche, Bertrand Russell… Ah! O Liam também é fã trompetista Chet Baker.

O personagem principal é o policial nada ortodoxo Sargento Gerry Boyle (Brendan Gleeson). Com ele também teremos o aprofundamento em como chegaram a essa cumplicidade quase explícita com um sistema já tão corrompido. Pode não ser a causa, mas pelo menos explica o fato. Gerry tenta lidar bem com o fato da mãe estar com pouco tempo de vida. Pois não entende como, se ela ainda se mostra cheia de vida. A atriz Fionnula Flanagan é quem faz a mãe de Gerry. Ao visitá-la, entre outros assuntos, gostam de conversar sobre escritores russos.

Em se tratando da Irlanda, não haveria de faltar o IRA. Ou, de quem facilita a chegada de armas até eles. Mas esse não é o motivo que levará um agente do FBI até lá, mas sim o tal carregamento de drogas. Wendell Everett (Don Cheadle) ficará que nem cego em tiroteio para conseguir o seu intento. Além de não perceber o quanto de liberdade tem os bandidos por ali, se sentirá perdido porque os habitantes não falam inglês. Numa de: ‘Se você quer ouvir alguém falar inglês, vá para Londres‘. É um escracho total com o FBI.

Gerry e Everett serão uma dupla para lá de dinâmica. E nesse ponto, é melhor deixar o modo politicamente correto desligado para se divertir com com o que Gerry diz, e a cara de Everett ao ouvir. Gerry não tem papas na língua. A grande questão é que certas falas podem sim magoar as pessoas, por conta do racismo. Mas o exagero aqui fica por conta dos esteriótipos até enfatizados pelo Cinema. Como também pelo filme debochar de muito mais coisas.

Assim, com um Roteiro enxuto e afiado, uma Direção que mostrou que veio pegar o seu lugar ao sol, com ótimas atuações, uma Trilha Sonora também perfeita, temos em “O Guarda” um ótimo filme. De querer rever. Nota 9,0.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Guarda (The Guard. 2011). Irlanda. Direção e Roteiro: John Michael McDonagh. Gênero: Comédia, Crime, Policial, Thriller. Duração: 96 minutos.

FLORDELIS – Basta uma palavra para mudar

Creio que quase sempre é necessário um momento de loucura para se construir um destino“. (Marguerite Yourcenar)

Ao término do filme, uma das perguntas que me fiz, foi se teria feito parecido. Atualmente, não, com certeza. Mas lembrando de quando adolescente… ai um talvez. Pois quando se é bem jovem, além do maior atrevimento, perde-se o discernimento de uma autoproteção. Algo como: não se tem noção do perigo.

Baseado, e até interpretado pela Flordelis. Moradora da Favela do Jacarezinho. Ela empunhou a bandeira de salvar a vida de jovens à mercê do tráfico, das milícias, das ruas… Começou jovem nessa missão. Pela sua trajetória de vida, pelos perigos passados, esse seu lado altruísta só poderia ter sido nato. Nossa! Tem lances de tirar o fôlego. O que a despertou de vez para essa vida, onde mergulhou de corpo e alma, fora que de repente, um grupo de sobreviventes de uma certa Chacina, pediu-lhe abrigo. Mais! Que os protegessem.

Até então, Flordelis ia salvando, ou tentando fazê-lo, um por um. Um voluntariado solitário que ia aos poucos ganhando o reconhecimento das mães que se sentiam incapazes dessa luta. Mas ainda ficava restrito às comunidades. Sua ‘fama’ era entre eles. A partir de dar guarida a um grupo maior, ela ganhou também as manchetes. Mas nesse início, pelo lado negativo. Sendo mostrada de louca a raptora de menores. Chegando a ser perseguida por policiais. O sociólogo Betinho, foi uma voz em sua defesa. Outro lado positivo por conta dessa mídia, fora dois irmãos que fizeram uma Ong para ajudá-la.

Confesso que não lembrava da estória dela, nem vendo o Documentário. Pois ao longo dele, também nos é mostrado como figurava nas reportagens. Chega a dar revolta. Até porque com isso dificultavam o trabalho/missão dela. De alguém que realmente estava fazendo algo para aquelas pessoas.

O subtítulo – Basta uma palavra para mudar -, de imediato, vem a ideia de conversão religiosa. Mas diferente da maioria dos religiosos, o que ela queria ouvir da própria pessoa, era que tivesse mesmo com vontade de sair daquele submundo. Não forçava ninguém. Agora, do momento que quisessem mudar, ela faria de tudo para ajudá-lo.

Vários atores – Reynaldo Gianecchini, Letícia Sabatella, Deborah Secco, Marcelo Antony, Letícia Spiller, Cauã Reymond, Alinne Moraes, Fernanda Lima, Rodrigo Hilbert, Ana Furtado, Giselle Itiê, Isabel Fillardis, Fernanda Machado… -, deram vida as estórias. Suas performances foram ótimas. Há cenas tocantes. Há cenas chocantes.

Numa análise mais técnica, eu ressaltaria:
1- Faltou ao Diretor um timming para os cortes. Poderia ter enxugado um pouco mais as cenas onde os atores vivenciaram as estórias de alguns de quem Flordelis ajudou.
2- Em relação a Trilha Sonora. Poderia ter mesclado outros ritmos com as músicas Gospel. Primeiro, que na realidade das Favelas/Comunidades se ouve de quase um tudo. Depois, tiraria a carga de uma Evangelhização. Só a ‘Eu só quero é ser feliz’ que entrou na trilha musical. Talvez, foi aceita pela letra: “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci…”
3- Por último, que uma outra atriz poderia ter interpretado a Flordelis. Cabendo a ela, narrar a sua própria estória. Enfim, para dar um caráter documental mesmo a sua estória de vida.

Mas nada tira os méritos dessa mulher! Um homem não teria feito o que ela fez. Porque iria querer primeiro ter um local onde abrigar as crianças, e jovens. Não estou nem entrando no que toca, os que querem ser um Pastor. Refiro-me aos que buscam ajudar o próximo como Profissão de Fé. E aqui fica com um lado genuinamente feminino: o de ser mãe. Na plenitude que representa esse ato. Flordelis foi uma Mãe para eles, a Mãe Flor. Como a maioria das mães em defesa dos seus: age primeiro, pensa depois.

Recomendadíssimo!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Flordelis – Basta uma palavra para mudar. 2009. Brasil. Diretor: Marco Antônio Ferraz e Anderson Correa. Gênero: Documentário, Drama. Duração: 90 minutos.