Uma Longa Viagem (2013). Para Encarar de Frente Seu Pior Pesadelo!

uma-longa-viagem_2013Por: Valéria Miguez (LELLA).
uma-longa-viagem_2013_02Em uma trama que retrata prisioneiros britânicos em plena Segunda Guerra Mundial, tendo entre eles engenheiros e ainda mais a construção de uma ferrovia… o que vem de imediato à lembrança é o “A Ponte do Rio Kwai” (1957), do Diretor David Lean e que eternizou o personagem de Alec Guinness até por odiá-lo em um certo momento. Longos anos se passaram e eis que um outro filme surge trazendo também esse pano de fundo, é o “Uma Longa Viagem“, do Diretor Jonathan Teplitzky. Se com o personagem do primeiro filme eu fiquei na torcida para que detonasse a tal ponte, com o desse a minha torcida foi para que não fizesse algo. É! Por vezes a vida nos leva a detonar pontes, mas o destino não diz qual, nem porque, nem muito menos aquela que ao atravessar levará ao encontro de algo que até pode vir a ser um outro divisor de água em nossas vidas…

uma-longa-viagem_2013_03Uma Longa Viagem” é um filme baseado numa história real: nas memórias de Eric Lomax de quando fora um dos prisioneiros dos japoneses em plena Segunda Grande Guerra. É por ele que o conhecemos partindo de um ponto presente – que no decorrer saberemos o porque -, até o seu passado mais tenebroso. Será um mergulho sem dó nem piedade. Nesse seu tempo presente é alguém que tem como um hobby trens: dos vagões às ferrovias, passando pelos horários… A bem da verdade é um entusiasta no assunto. Do passado, quando em campo de batalha em plena guerra ficara responsável pelo rádio: as escutas da época. Até que seu superior diz a todos que irão se render e ordenando que antes destruíssem tudo que pudesse comprometer a tropa. Lomax então resolve guardar uns componentes de um rádio. Um ato que sairá bem caro mais adiante.

uma-longa-viagem_2013_01Com a rendição parte de seu grupo por serem engenheiros são levados aos empecilhos da construção de uma ferrovia: a que ligaria a Tailândia à Birmânia. Quanto aos demais prisioneiros seguiram pela construção propriamente dita: desmatando, assoreando, fazendo barreiras de contenção, na colocação dos trilhos… O trabalho braçal, pesado, cheio de perigos até pela selva e abaixo de chicotes. Enquanto esse trabalho avançava – e com ele muitas baixas iam somando àquela que ficaria conhecida como a Ferrovia da Morte -, o pequeno grupo resolve fazer um rústico rádio de onde passaram a ouvir notícias de fora. Desejosos de com elas tentar levantar a moral dos demais prisioneiros, acabam sendo descobertos e…

uma-longa-viagem_2013_05Uma Longa Viagem” ora se encontra num tempo presente, 1980, no norte da Inglaterra, com Eric Lomax já um homem adulto. Ora nos leva a viajar juntos com ele ao passado dele então um jovem prisioneiro de guerra. Nesse seu presente encontra-se recém casado com Patti (Nicole Kidman). Apaixonados, mas… Ela passa então a ver que ele é um ser atormentado e tenta um jeito de ajudá-lo. A presença dela traz mudança em sua rotina até por ele ser um cara bem metódico. O que talvez possa ter contribuído para que seus traumas de guerra viessem à tona. Na tentativa de ajudá-lo, Patti vai em busca de um grupo que vivenciaram o mesmo pesadelo, e dai se reúnem justamente para tentarem superar. Por lá Patti encontra-se com Finlay (Stellan Skarsgård) pedindo que lhe conte o que houve. Ele então conta a parte que ele cabe, não sem antes tentar demovê-la, pelo conteúdo muito cruel como também que lhe é muito penoso relembrar desse período.

uma-longa-viagem_2013_04Traga de volta o passado somente se for construir algo a partir dele.”

Mas é por Eric Lomax que conheceremos uma parte dessa história que nem eles sabiam: as das torturas. Até que Finlay mostra algo a ele: fizeram um memorial numa das estações da tal ferrovia. Justamente onde foram torturados. Ele então resolve visitar literalmente seu passado viajando até lá. Onde então fica novamente frente a frente com o seu pior pesadelo: o carrasco mor, o oficial Takeshi Nagase (Hiroyuki Sanada). Não ficará pedra sobre pedra nesse reencontro.

uma-longa-viagem_2013_06E nesse passado temos o jovem Lomax interpretado por Jeremy Irvine (de “Cavalo de Guerra”). Numa excelente atuação. Mas sem sombra de dúvida a magistral performance é a de Colin Firth. Seu Lomax nos leva a voos de doer na alma até ao mostrar o que todas as guerras deixam como “saldos” em quem dela participa. Vilões para um lado, Heróis para o outro, mas nos campos de batalha são homens, jovens à mercê de uma guerra cujos “donos” nem dela participam… É nessa sua volta onde fora torturado que terá um novo dilema a ser superado… Onde a minha torcida fora para que não o fizesse… Bem, posso adiantar apenas que chorei junto com o Eric Lomax de Colin Firth.

The-Railway-Man_posterO Diretor Jonathan Teplitzky ainda não está no mesmo patamar de David Lean, até pela pouquíssima bagagem, mas com certeza está no caminho certo! Pois temos em “Uma Longa Viagem” um novo ângulo da Segunda Guerra Mundial: contada por um que a vivenciou e que conseguiu sair vivo dela. De nos deixar em suspense até o final. Num timing perfeito entre passado e presente. Efeitos de cores em Fotografia. Trilha Sonora ótima! Atuações catárticas: um soco no emocional de quem assiste. Que embora a personagem de Nicole Kidman não tenha tido altos voos, todos sem exceção tiveram grandes performances no conjunto dessa obra que veio para ficar. Agora, é no reencontro entre Lomax e Nagase o ponto alto do filme. Até por conter nessas cenas o peso de anos do emocional até então guardados tanto de um como do outro. Aplausos entusiásticos para Colin Firth e Hiroyuki Sanada! Bravo! Num filme Nota 10!

Uma Longa Viagem (The Railway Man. 2013)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Série: Gotham (2014-). Uma Nova Ótica Lançada Sobre um Conteúdo Aparentemente Inesgotável

Gotham_seriePor: Cristian Oliveira Bruno.
Batman_KaneQuando adapta-se uma cosmologia tão rica e tão famosa quanto a do Batman, icônico personagem de Bob Kane, se faz necessário manter uma cautela toda especial no que diz respeito às alterações que serão feitas tanto na cronologia quanto na concepção dos personagens. No caso do super-herói em questão, tudo é mais complicado ainda, pois quase não há o que já não tenha sido feito. O tom mais cartunesco já fora ditado e orquestrado com maestria por Tim Burton em seus Batman (1989) e Batman – O Retorno (1992). A atmosfera mais sombria e pesada a qual parece ter sido a versão definitiva dada ao personagem nos anos 80, com O Cavaleiro das Trevas, do Deus dos quadrinhos Frank Miller – a melhor série já feita sobre o Homem-Morcego – foi recente elevada a um outro estágio com a consagrada trilogia de Christopher Nolan (Batman Begins [2005], The Dark Knight [2008] e The Dark Night Rises [2012]). Mesmo a inocência e a fantasia dos primeiros exemplares dos quadrinhos teve sua vez entre 1966 e 1968, com uma série de TV contendo 60 episódios da dupla dinâmica. Assim sendo, o que de novo e diferente o produtor Bruno Heller (The Mentalist [2008-2015]) e o diretor e produtor executivo Danny Cannon (O Juiz [1995]; Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado [1998]) poderiam apresentar em mais uma adaptação para a TV? A resposta veio com o título da série: Gotham.

Gotham_01Voltando pelo menos 15 anos no tempo, a proposta desta vez é apresentar uma nova ótica e lançar o olhar sobre a cidade, ao invés de seu mais ilustre residente, e mostrar como uma cidade tão corrupta e dominada pelo crime chegou ao ponto de precisar de um justiceiro mascarado para manter a ordem. E isso é o mais interessante em Gotham. Mais do que acompanhar os primeiros passos e a origem de vários personagens do universo dos quadrinhos (alguns famosos, outros nem tanto), a série se baseia no fato de que ainda não há um justiceiro mascarado para defender Gotham. E com a polícia, a justiça e o próprio prefeito Aubrey James (Richard Kind) e o comissário Loeb (Peter Scolari) nas mãos dos dois chefões das famílias mafiosas que controlam todo o crime da cidade, Carmine Falcone (John Doman) e Salvatore Maroni (David Zayas), cabe ao ainda jovem detetive James Gordon (Ben McKenzie) assumir o papel de paladino solitário da justiça. E quando eu digo solitário, não é força de expressão. Embora com o passar do tempo Gordon vá adquirindo aliados em sua inspiradora jornada de combate ao crime mais do que organizado, até um certo ponto dela ele se vê abandonado por seus companheiros, chefe e seu parceiro Harvey Bullock (Donal Logue).

gotham_02O plot da série é o assassinato de Thomas e Martha Wayne e a promessa feita por Gordon ao pequeno Bruce Wayne (David Mazouz) – retratado aqui aos 12 anos – de encontrar o responsável. A partir desse momento, Gordon adentra de vez no submundo e começa a entender como a cidade funciona. Não é que todos os seus habitantes sejam corruptos, mas todos têm família e jamais arriscariam oporem-se a Falcone ou Maroni. Essa faceta de uma Gotham dominada por figuras poderosas, mas sem super-poderes acaba por tornar-se, naturalmente, o segmento mais interessante da série. Não que a relação tutor/serviçal/pai entre Alfred Pennyworth (Sean Portwee) e seu determinado protegido não seja deveras comovente, ou que a luta da ambígua e maliciosa Selina Kyle (Carmen Bicondova) para sobreviver nas ruas não tenha seus momentos – embora seja a ramificação mais trôpega do programa -, mas é no núcleo criminoso que encontram-se os melhores personagens, situações e conflitos mais tensos e interessantes.

gotham_03Com um elenco bastante regular e em sua maioria experiente, os personagens acabam ganhando uma roupagem diferenciada e uma cara própria, embora não abandonem os aspectos e traços mais fortes pelos quais ficaram mundialmente conhecidos. Ben McKenzie (do seriado OC e de 88 Minutos) compõe um Jim Gordon intenso e forte, com uma segurança e uma presença em cena muito boas, mostrando o quanto evoluiu com o passar dos anos. Sua parceira inicial, Erin Richards – que interpreta Barbara Keen, primeiro par romântico de seu personagem na trama – não está tão mau, mas carece de uma química maior com o protagonista. Falha esta corrigida absurdamente com a inserção da personagem da Dra. Leslie “Lee” Thompson, interpretada pela brasileira Morena Baccarin (do seriado V – Invasores), cônjuge do ator, tornando a interação entre ambos algo natural, e isso reflete-se na tela. Também destaca-se neste quesito, sem a menor sombra de dúvidas, Oswald Cobblepot, o Pinguim, de Robin Taylor Lord, tão afetado e tresloucado quanto ameaçador e doentio. Taylor Lord vive a dolorosa saga de ascensão daquele que será o futuro Rei do crime da cidade. Donal Logue recebe uma tarefa ao mesmo tempo motivadora e arriscada ao viver o Det. Bullock como um dos protagonistas, já que o personagem não havia ganhado tanto destaque até aqui fora dos quadrinhos – olhe lá uma rápida aparição no primeiro filme de Tim Burton – e sempre fora retratado como policial corrupto e desonesto, com o perdão da redundância. Aqui, Bullock ganha um novo ponto de vista e é retratado não apenas como um mau policial, como alguém que viveu a vida inteira em Gotham e conhece aquela cidade e como ela funciona, sabendo jogar de acordo com suas regras. O choque de personalidades com Gordon faz com que Bullock passe de um obstáculo para ser o primeiro aliado de Gordon – e um importante aliado, pois Bullock conhece o crime da cidade.

gotham_os-viloesCriada especialmente para a série, Fish Mooney (interpretada com muita ferocidade e ímpeto por Jada Pinkett Smith) não só possui um papel importantíssimo na trama, tanto no andamento desta quanto na formação de background de demais personagens, e com certeza agradou (ou agradará) grande parte dos fãs – embora o desfecho dado a ela não seja dos mais agradáveis, ou mesmo bem pensados, provavelmente sua relação com seu fiel capanga Butch Gilzean (Drew Powell) promete arrebanhar muitos fãs para a dupla. Vários outros personagens tradicionais nas páginas das revistas da DC Comics dão as caras por aqui, sendo que alguns são bastante conhecidos do público, como Harvey Dent (Nicholas D’Agosto) – o Duas-Caras -, Edward Nygma (Cory Michael Smith) – O Charada -, Victor Szasz (ANthony Carrigan), Dr. Francis Dulmacher (Colm Feore) – o Mestre dos Bonecos -, Dr. Gerald Crane (Julian Sands) – criador do gás alucinógeno usado por seu filho Jonatan, o futuro Espantalho – e outros mais conhecidos apenas pelos mais familiarizados com o universo Batman, como Jack Buchinski (Christopher Heyendahl) – o Eletrocutador -, a policial Renee Montoya (Carmen Cartagena), Richard Sionis (Todd Stashwick) – o Máscara Negra -, Aaron Helzinger (Kevin McCormick) – o Amígdala, vilão muito semelhante e freqüentemente confundido com Bane – e Larissa Diaz (Lesley-Ann Brandt) – a Cobra venenosa.

gotham_04Mas dois vilões destacam-se neste paraíso dos “Batmanáticos“, cada um a sua maneira. O primeiro deles é Jerome Valeska (Cammeron Monaghan) que, mesmo sem ser oficialmente apresentado como tal, trata-se da versão do seriado para o maior inimigo do Homem-Morcego: o Coringa. O episódio onde o vilão aparece não é um dos melhores da temporada, mas Monaghan destaca-se no diálogo final quando a referência ao coringa é feita, em uma atuação muito boa. O outro é apresentado apenas no episódio 19 (e mantém-se ate o episódio 21, penúltimo da temporada – tendo sido especulado também na segunda temporada, embora fique claro e óbvio que isso não ocorrerá). Jason Solinski, o “Ogro” (Milo Ventimiglia), surge como o principal vilão da série até então, oferecendo sensação de risco real para os mocinhos. O Ogro é aquele com quem todo policial da cidade tem medo de mexer. Gordon também, mas isso não o faz recuar. Esse ponto da trama é um dos pontos altos da série e poderia ser, inclusive, o desfecho (não que o episódio 22 não seja satisfatório, mas o 21 é ainda melhor.

gotham_06Mas a própria Gotham City é a principal personagem da série. Todo personagem da cosmologia criada por Bob Kane, de Bruce Wayne à Mr. Freeze, é composto com base em traumas, seja a perda de um ente querido ou a sensação de impotência perante as situações enfrentadas diariamente. E Gotham está repleta de traumas os todos os cantos. Traumas e mitos. Em Gotham qualquer um pode ser o que quiser. Heróis e vilões usam máscaras visíveis, enquanto a alta sociedade usa máscaras políticas e diplomáticas. Por isso o Bandido do Capuz Vermelho representa mais do que um simples elemento daquela sociedade, mas também um sentimento. Gotham resume o sonho americano de ser a terra das oportunidades. Qualquer um pode ser rei em Gotham, basta tomar o que é seu por direito. Mesmo que não seja seu de direito. E a maneira como Heller e Cannon retratam esteticamente a atemporalidade da mística cidade é curioso. Há celulares e computadores, o que nos põe imediatamente nos dias de hoje. Os carros são das décadas de 60, 70 e 80 e os prédios e as ruas remetem aos anos 30 e 40. Sabemos que Gordon lutou recentemente em uma guerra, mas não sabemos qual foi. Nada é dito sobre o que ocorre além das fronteiras da cidade. Quem é o presidente, de onde vêm as pessoas de fora e tudo mais que não envolva Gotham permanece um mistério. Gotham é uma cidade que existe apenas no imaginário e está sempre em constante formação e Cannon e Heller nos permitem preencher estas lacunas, cada um a nosso modo.

gotham_05A primeira temporada, apesar do caráter experimental, foi melhor do que o esperado. Sofre alguma irregularidade com relação ao ritmo e a consistência – coisa mais do que comum em séries sem um diretor fixo -, mas no fim das contas Heller e Cannon seguram bem as pontas e trilharam um belíssimo caminho para ser expandido nas próximas temporadas já anunciadas. Foi muito bom ver que ainda há o que explorar – com dignidade – de um universo já tão esmiuçado no decorrer dos anos. Este que vos escreve é fã do herói em questão e confessa sem vergonha que estava desesperançoso com esta série, mas fiquei bastante satisfeito com o resultado final desta primeira temporada e a recomendo sem medo para os fãs de Batman e até mesmo para os não fãs, dada a boa distribuição dos núcleos.

Avaliação Geral da Primeira Temporada: 7,5.

Série: Gotham (2014 – )
Ficha Técnica: na página no IMDb.

As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower. 2012).

as-vantagens-de-ser-invisivel_2012_personagensPor Francisco Bandeira.
Em um mundo cheio de pessoas chatas e enfadonhas, ou simplesmente “normais” como manda a sociedade, as pessoas diferentes, malucas ou revolucionárias sempre se destacam, sejam de forma boa ou ruim. Mas há também aquelas pessoas que acham uma vantagem serem invisíveis.

O filme mostra as afetações que um jovem pode ter se não possuir uma boa base familiar. Charlie (Logan Lerman) parece pertencer a outro mundo, até conhecer Sam (Emma Watson) e Patrick (Ezra Miller), dois jovens que parecem livres, que não ligam para a opinião dos outros e vivem a vida da forma que acham melhor para eles. Logo eles adotam o protagonista, mostrando pra ele a vida que o mesmo está desperdiçando se fechando em seu mundo.

A obra realmente é repleta de ternura e melancolia, tendo um final sem muito impacto (sim, não achei foda), porém profundo e tocante. A mistura entre melancolia e inocência casa perfeitamente com a proposta do livro, além de ter uma visão bem interessante sobre essa geração.

Ainda que você não goste da fita, vale pelo questionamento sobre relacionamentos x amor verdadeiro e a cena que Charlie se sente infinito. Todos nós devíamos sentir essa sensação, talvez seja essa a real vantagem de ser invisível.

As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower. 2012). Ficha Técnica: página no IMDb.

Uma Família no Limite (La Bellezza del Somaro. 2010)

uma-familia-no-limite_2010O Cinema Italiano continua dando as cartas em mostrar os dramas familiares, e num jeito que muito me agrada com muito humor. E que pelo raio-X que traz de cada personagem por vezes alguns acham um tanto amargo na dose.

Em “Uma Família no Limite” temos como pano de fundo conflitos de gerações, mas mais em cima do que de fato se pode retirar da convivência em família. O homem como ser social que é tirando o essencial das regras estabelecidas. O filme até passa por conflitos entre classes sociais, com o foco em indivíduos tentando reintegrar-se com todos na pirâmide social. E por conta disso até onde o belo só é o que se vê pelo próprio espelho? Pelo próprio parâmetro que se dá para as diferenças individuais. A aceitação natural da beleza que há em cada ser do jeito que ele é. Uma beleza que há muito mais quando se é jovem, por ainda não ter ou receber os pesos e medidas que chegam com a fase adulta. E aí é que também entra aos que adentram na velhice de fato, por essa se despir com mais naturalidade das armaduras impostas ao longo da vida. Mas a maturidade mete medo em todas as idades por achar que não terá a formosura de antes. Talvez por usar a medida usada no julgamento do seu semelhante. São os pesos e medidas que mudam ao passar dos anos, mesmo que para alguns fica difícil aceitar essas mudanças. Então se apega a juventude externa. Quando poderia ter, manter um espírito livre que o faria sentir-se jovem. É meio por por aí significado do título original: La Bellezza del Somaro (A Beleza do Asno).

No fundo, o homem se espelha nas coisas, considera belo tudo o que lhe devolve a sua imagem. O Feio é entendido como sinal e sintoma da degenerência. Cada indício de esgotamento, de senilidade, de cansaço… tudo provoca a mesma reação: o juízo de valor ‘feio’. O que odeia aí o ser humano? O próprio declínio?” (Nietzche)

Em “Uma Família no Limite” temos em destaque um casal de classe média alta. O marido, Marcello, é um arquiteto bem conceituado até pelos políticos e clérigos que mesmo não gostando muito do seu trabalho o contratam. Suas linhas tenta o equilíbrio do clássico com o moderno retirando o ideal claustrofóbico do passado. Esse pensamento arrojado com mais liberdade também o leva para a vida pessoal. Uma liberdade bem machista. Quem o interpreta é quem assina a Direção e parte do Roteiro: Sergio Castellitto. Marcello é casado com Marina (Laura Morante), uma psicanalista em crise até por tentar seguir a regra de que é proibido proibir, além também de não conseguir superar um trauma do passado. Aliás, Marcello também traz um trauma mal resolvido. Ambos tentam compensar seus problemas pessoais educando a filha, Rosa, numa de liberdade vigiada. Rosa recebe a alcunha de a ‘Rosa de Luxemburgo‘, mas mais pela rebeldia aos pais, já que não corta o cordão umbilical das mordomias que tem em casa.

O feio é também um fenômeno cultural. Os membros das classes altas sempre consideraram desagradáveis ou ridículos os gostos das classes baixas.” Umberto Eco)

Às vésperas de completar 50 anos de idade, Marcello e família seguem para um feriado na belíssima residência de campo na também bela região da Toscana. Além de outros familiares, irão também amigos de infância dos três, dois dos pacientes de Marina (Os loucos são os seres humanos mais livres que existem?) que mantém quase uma relação familiar com eles, além de uma empregada de origem alemã meio mal humorada (A classe trabalhadora terá seu dia de glória.). Completando o belo quadro serão apresentados ao novo namorado de Rosa. Que para Marcello e Marina é um jovem negro. Aliás, a alusão que fazem por aceitar o tal jovem na família é ótima. Acontece que na verdade o novo namorado será como um tapa na cara do Marcello no durante, e até no final. Mostrando quem de fato sai imune a cobras e lagartos que terão que digerir após uma grande lavagem de roupa suja que acabou se transformando essa reunião.

Por fim, o filme também põe em xeque os valores de uma elite atual que não necessariamente a italiana. Pode ser vista em outras culturas que estejam mais globalizadas. Em até onde a grama do vizinho incomoda. Em até onde vai a superficialidade quando se desnuda ante a realidade da vida que se leva. Será um divisor de água para alguns. Agora, se terão ou não consciência disso já é outra história!

Eu assisti “Uma Família no Limite” no Cine Conhecimento do canal Futura. Vi e amei! Eu ri muito! Os diálogos são de perder o fôlego tamanha é a velocidade em que são apresentados. Atuações brilhantes! Uma Trilha Musical como coadjuvante. Enfim, tudo em uníssono num filme Nota 10! E que me deixou uma vontade de revê-lo.

Por: Valéria Miguez (LELLA)

Uma Família no Limite (La Bellezza del Somaro. 2010). Itália. Direção e Roteiro: Sergio Castellitto. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 107 minutos. Também assina o Roteiro: Margaret Mazzantini.

Uma Radiografia do Bullying pelo Cinema!

bullyingSerá que um dia o Bullying terá um fim?

Onde tudo isso começa? Se já vem de berço e com o tempo ganha forma? Se é por não saber como lidar com suas próprias emoções? Nesse tocante ela pode ser por revolta, frustração, medo, raiva… ou um mix de tudo isso. Se é por não saber canalizar toda a força que traz dentro de si, e com isso sai cometendo barbaridades? Se o meio influi? Por conta disso, e muito mais, eis o tema da conversa de agora. E que mais que do descobrir o que se passa dentro dos que praticam o bullying, também em ver se há um fim para isso. Vem comigo!

ben-xO tema reacendeu em mim após assistir “Ben X – A Fase Final“. Nele, o personagem Ben padece desde os primeiros anos escolares nas mãos dos colegas de classe. Por não o aceitarem no grupo, por ele ser ‘diferente’. O rapaz sofre da Síndrome de Asperger, um tipo leve de autismo. Frequenta o mesmo colégio dos tidos como normais porque a doença não lhe tirou o entendimento das coisas. É até muito inteligente, com notas altas. Mas em vez de ter solidariedade, recebe é hostilidade. O de ficarem atirando bolinhas de papel o tempo todo é até algo menor diante das outras agressões. A ponto dele querer dar um fim a tanto sofrimento. Pois seu limite chegara ao fim. Tal qual o jogo de RPG que usava como uma válvula de escape. É revoltante o que fazem. Não deixem de ver esse filme.

O filme também deveria ser visto por educadores, que o levassem para sala de aula. Que colocassem em discussão esse fenômeno bullying. Se já recebeu até um nome próprio, também poderia vir a ser um fato passado. Nossa! Seria bom demais se isso viesse a acontecer. As conseqüências dos que padecem nas mãos desses sociopatas, creio que muitos de nós é sabedor. Ou por experiência própria, ou por ter presenciado. Quando não, por o ter praticado.

BULLYING_na-escolaAgora, como cortar esse mal pela raiz? Lembrei da minha avó, em algo que dizia ao ver uma criança fazendo alguma malcriação, pirraça, malfeito… Ela olhava para o responsável pela criança e apenas dizia: ‘É de pequenino que se endireita o pepino!‘.

Eu já citei em um outro texto que filme é antes de tudo um entretenimento. Mas se por ele também se pode suscitar uma busca por uma causa maior. Por que não usá-lo? A partir dele, levar o tema à mesa de debates. Eu meio que entrei numa cruzada após ver esse filme. Levei o tema em algumas comunidades no Orkut. Teve depoimentos emocionantes de pessoas que sofreram nas mãos desses valentões.

rebel-without-a-causeComo também estou numa de ver e rever filmes onde há esse tipo de agressão entre pessoas de uma mesma geração. Dai, fui buscar primeiro em rever um Clássico. O filme “Juventude Transviada” (Rebel without a cause). Nele, o curto diálogo abaixo traz um indício, ou não. Eis:

_Por que temos que fazer isso?
_Porque temos que fazer alguma coisa.

Pois é, antes de iniciarem a tal prova estúpida para provar que não era covarde, o personagem do James Dean pergunta isso. Com a resposta do outro… Não seria apenas por falta do que fazer. Fica mais parecendo que não param nem para questionarem a si próprio. Fazer por fazer é atributo de uma máquina, não de um ser humano. E uma fala da personagem da Natalie Wood, meio que se constata isso. Que se tornam robozinhos. Ela diz mais ou menos assim:

_Não dê créditos ao que eu falo quando estou com o grupo. Ali ninguém está falando a verdade. Somos fachada.

greaseEsse lance de ser apenas uma aparência, que é regra geral nesses grupos, tem como um exemplo o filme “Grease – Nos Tempos da Brilhantina“. Onde não mostram, alguns deles, o seu verdadeiro ‘eu’. Onde têm sempre que não apenas bancar o durão, como também mostrar que o é de fato. E nesse também há os que são discriminados. Esses, por assumirem o que são de fato. Parece até que só é aceito no grupo se vier com o carimbo de fábrica. De que saíram da mesma linha de montagem. Por que não aceitar a diversidade da vida?

Agora, onde tudo começou? Não dá para aceitar apenas de que todos eles vieram de uma família (lar) desestruturada. Embora seja um fator preponderante. Numa de manterem o ciclo de violência. Mas tem que ter algo mais que aflore neles esse lado violento. Bem, as sociopatias não são a minha praia. Não tenho o conhecimento que me embase. Dai fico nas conjecturas.

a-curaSe querem no grupo ‘iguais’, isso viria de copiar os pais, ou alguém que foram eles que elegeram como a figura paterna/materna? E até nisso há exceções. Pois há os que não seguem a mesma carga de preconceitos que veem em seus pais. Ou mesmo num deles. No filme “A Cura” (The Cure) há uma cena onde a mãe de um menino aidético é que mostra a mãe de um outro o quanto o filho dela é humano. Usando uma gíria antiga… O quanto ele é gente paca! Pois ele, por amizade, por carinho ao filho dela, enfrentou o mundo… Gente! A primeira vez que eu vi esse filme, eu chorei muito. Esse é outro filme que deveria ser exibido nos colégios. É lindo demais!

tepegolaforaAs afinidades entre uns, por ser discriminados por outros. Ou os que discriminam… Me fazem lembrar de alguns filmes que eu vi nas sessões da tarde… Que eu até gostaria de rever. Citando alguns: “Te pego lá fora” (Three O’Clock High); “Manobra Super Radical” (Airbone)… Um outro que eu não consegui lembrar o título, mas se a memória não falhou de todo, nele há a união de dois ‘diferentes’: um é deficiente físico, e o outro só é bom de briga, mas como o valentão precisa de notas há uma troca de favores entre eles. Um acordo de cavalheiros: o valentão o protege da turma dos bullying.

Um outro que faz os ‘diferentes’ se unirem para mostrarem os seus reais valores é o “Dias Incríveis” (Old School). Esse me pegou de surpresa por fazer a diferença entre outros tão iguais. No caso, refiro-me a trama. Por levar uma história nada rara – em mostrar rixas entre as fraternidades estudantis. Ele é um ótimo sessão pipoca.

freedom-writersUm que mesmo eu já o tendo sugerido em outro texto não tem nem como deixar de trazê-lo para esse. Refiro-me ao “Escritores da Liberdade” (Freedom Writers). Onde uma Professora mostra a eles, seus alunos, o peso em discriminar um ‘diferente’. E o bom é que entenderam a lição! Pondo um fim nas discriminação.

E para finalizar, um que se não é a solução definitiva para por um fim nesse ‘fenômeno bullying’, pelo menos é um caminho. Por ser um mostrando um Diretor de Escola que traz uma punição adequada a um desses valentões. É o “Um Amor para Recordar” (A Walk to Remember).

Talvez esse assunto também toquem em velhas feridas… Sorry! Mas não dá para evitar se o que queremos de fato é não mais ver isso acontecendo. Principalmente com as crianças. Nem para as que poderão vir a sofrerem tal perseguição. Como também as que poderiam continuar perpetuando o bullying. Ficando um desejo de tirá-las disso. See You!

Por: Valéria Miguez (LELLA) (Em 29/08/08).

P.s. (Em 02/08/10): Serginho Groisman – Campanha contra o Bullying. Para quem conhece meus textos sobre filmes sabe que também estou nessa cruzada, e já há algum tempo. Agora, é muito bom quando uma Campanha contra o Bullying, tem uma mídia como a Globo. Até pelo alcance dela. Valeu Serginho!

P.s 2 (Em 07/10/2013): Em 2011 eu postei esse texto numa das páginas desse blog, mas resolvi trazer para cá, em post, por ter um alcance maior. Também vou repostar os comentários.

As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower. 2012)

as-vantagens-de-ser-invisivel_01O filme “As Vantagens de Ser Invisível” é um jeito sensível de mostrar o lado dos que se veem deslocados dentro das cercanias da escola. E se tratando dos Estados Unidos o binômio ‘loser x winner‘ agrava muito mais pelo bullying que sofrem. Algo que pode gerar traumas que duram a vida toda. Mas o filme não fica apenas dentro das escolas. A trama adentra na intimidade dos lares desses jovens. Foco onde muita das reações diante às adversidades da vida começa. Já que cada um irá reagir de um jeito próprio. Ou até se achando original mesmo imitando o comportamento de um grupo específico: as “tribos”. Muita das vezes pais ou responsáveis não percebem certos sinais anterior a um fato, acabando por responsabilizar ao incidente o comportamento do jovem. Quando muito foi um jeito torto de trazer à tona um antigo trauma. Se faz necessário estar atento.

logan-lerman_the-perks-of-being-a-wallflowerCriado num lar feliz, o jovem Charlie (Logan Lerman) está para enfrentar um novo desafio: seu primeiro ano numa escola de ensino médio. Extremamente tímido. Ainda saindo da perda de seu grande e único amigo até então. Então até para se proteger ele estabelece como meta contar os dias que faltam para terminar aquele primeiro ano letivo. Como também tentar ficar invisível aos olhos dos demais. Principalmente dos valentões. Mas que não deixa de doer o fato de se ver sozinho na mesa do refeitório. Fato esse que o colocaria numa exposição maior e então chamando a atenção de todos para si se não fosse por outros continuarem a bola da vez. O que acaba por dar a Charlie uma sensação de alívio. São as incongruências da vida!

Um desses grupos fazem questão de chamar para si todos os holofotes. Não são dos nerds, nem tampouco dos atletas, ficando “no meio”. Sendo que o que os deixam um pouco “protegidos” de não se tornarem saco de pancadas dos valentões da escola é o fato dos pais serem ricos. Alguns deles até já sabem o que querem ser no futuro, com isso também se sentem nessa contagem regressiva. Claro que por serem mais “safos” não dão o mesmo peso que Charlie. Esse pequeno grupo se auto intitulam de: os deslocados. São eles:
– Sam (Emma Watson) que é tida como vagaba pelos valentões. Mas assim como Charlie, Sam também traz um segredo do passado. Algo que deflagrou para o comportamento atual.
– Patrick (Ezra Miller), meio irmão de Sam. Alguém que mesmo assumindo muito bem sua sexualidade, tenta ocultar com quem mantém um relacionamento amoroso. Como também não se importa de o chamarem de bicha, mas não tolera que o chamem de “ninguém” e por algo que aconteceu no passado. O que o leva a se fazer notado por todos. Usando até do personagem que encena numa versão da peça teatral “The Rocky Horror Picture Show“.
– Mary Elizabeth (Mae Whitman) tenta um meio termo entre a doutrina budista com um estilo punk com um jeito patricinha de ser. Ela vai dar um nó na cabeça de Charlie.

Para ser aceito no “Os Deslocados” não há os testes de força/burrice tão comuns nos demais grupos. Sam viu nele algo especial, muito mais que a inteligência. Ainda sem mesmo ter a certeza de estar se apaixonando, por sua má fama Sam não se sente à altura do amor de Charlie, se contentando em ser apenas amiga. Para Patrick, o carimbo no passaporte de Charlie veio com um ato tão igual aos brigões, mas por uma rebeldia com causa. O que de um jeito meio torto sela a amizade do trio: Sam, Charlie e Patrick.

as-vantagens-de-ser-invisivel_02Charlie sabe que serão novas pressões nessa nova fase. Com isso sabe que não pode perde o foco, nem o controle sobre si próprio. Usando para esse tento mais a razão do que a emoção. Mas é por justamente não saber como lidar que termina não ficando tão invisível como gostaria. Mesmo assim, com todos os prós e os contras, com todas as vantagens e desvantagens, com certeza esses “1385 dias” ficará como um divisor de água na vida dele e de mais alguns. Sem esquecer de que em se tratando do universo escolar, também há aquele professor que fará a diferença na vida do protagonista. Personagem de Paul Rudd, Mr. Anderson, o professor que lhe dará o foco para se tornar um escritor.

Com uma Direção brilhante de Stephen Chbosky que também assina um Roteiro impecável – adaptado de um livro de sua própria autoria -, com um Elenco afinadíssimo, com uma Trilha Sonora soberba, o filme “As Vantagens de Ser Invisível” consegue fazer a diferença entre muitos outros que abordam o universo dos não tão mais adolescentes. Com temas que mesmo doloridos ainda fazem parte do mundo fora da telona o que lhe confere ponto positivo. Abordando com muita sensibilidade o bullying, a pedofilia, os traumas, a violência entre os jovens, a timidez, a carência afetiva, a inveja, o se sentir um loser, a homossexualidade, pais relapsos, suicídio, professores como verdadeiro mestres, ser calouro… e claro, o primeiro amor. Enfim a guerrilha urbana e emocional que muitos jovens se veem obrigados a vivenciar, e tentar sobreviver incólume. Não deixa de ser um rito de passagem!

Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower. 2012). EUA. Direção e Roteiro: Stephen Chbosky. Elenco: Joan Cusack, Paul Rudd, Emma Watson (Sam), Logan Lerman (Charlie), Nina Dobrev (Candace), Mae Whitman (Mary Elizabeth), Melanie Lynskey (Tia Helen), Ezra Miller (Patrick), Kate Walsh, Dylan McDermott, Johnny Simmons, Nicholas Braun, Erin Wilhelmi (Alice). Gênero: Drama, Romance. Duração: 102 minutos. Baseado em livro homônimo de Stephen Chbosky.