Série: Caras e Caretas (1982-1989). O que transmitir ou não as novas gerações?

caras-e-caretas_serie_1982-1989Por: Morvan Bliasby.
Nestes tempos aziagos de “Escola Sem Partido“¹, golpes institucionais e outras ideias ‘jeniais‘, além de uma mesmice estarrecedora das SitComs, das Soap Operas, etc., numa revisita quase mandatória à década de 80 do Século XX, a sua explosão de comédias de situação e o começo da distensão “lenta e gradual”, como preconizavam os donos do mundo, entre as potências que alimentavam a fogueira da Guerra Fria. Deste caldeirão ultra efervescente se sobressai a SitFamily Ties“², nominada, no Brasil e em Portugal, respectivamente “Caras & Caretas” e “Quem Vem Aos Seus“, neste segundo estranho título temos, claramente, uma ironia, pois parece degenerar, e muito.

O Enredo

Steven (Michael Gross) e Elyse Keaton (Meredith Baxter) são dois hippies classe média típicos, economicamente falando, ultra liberais nos costumes e que se casaram havia duas décadas.

Um tanto quanto nonsense, no tocante à educação dos filhos, eles creem piamente que os filhos os seguiriam em seus valores, teriam uma vida “zen” e seriam filosoficamente parecidos com estes.

O tempo lhes mostrou o quão errados estavam, mormente no tocante ao filho mais velho, Alex (Michael J. Fox). Este, um executivo, na cabeça e nos valores (um admirador incorrigível de Ronald Reagan!). Isso mesmo. Reagan. Importante para nos ambientarmos. Reagan, Tatcher e a ideia do Estado mínimo, do tamanho de uma bacia, nas palavras dos próprios. Este é o ambiente da série. Alex utilizava chavões dos republicanos e portava até mesmo um cartão de sócio do clube dos conservadores. Inteligente, ganancioso, reacionário. uma cópia (carbono) exata de seus pais. Alex se encaixa perfeitamente no estereótipo do “self-made man”, tão usual, à época e hoje.

Já a moça, Mallory (Justine Bateman), ao contrário, relaxada, preguiçosa, fútil e cujo círculo de interesse consistia em compras, rapazes e… compras e rapazes.

Vem, a seguir, Jennifer (Tina Yothers), a caçula. Todo o seu sonho era ser uma pessoa normal. Dependendo da situação, razoável, não?

Family_Ties_castA série, malgrado de forma às vezes sutil, até demais, teve a virtude de discutir preconceitos, censura, gravidez adolescente, vício (drogas), relacionamento familiar e círculos criados em torno de interesses similares. Todos os personagens da série, inclusive os papeis satélite, contribuem para uma discussão sutil e ao mesmo tempo rica sobre os valores de então.

O sucesso estrondoso da Sit tem a ver com isso. quem sabe, além do fato de ter sido a propulsora e impulsionadora de celebridades precoces, como o Micheal J. Fox.

Mas a discussão subjacente da comédia de sucesso parece ser a questão educacional (não somente educativa, educacional, de finalidade da formação). Até que ponto a formação dos nossos filhos, de uma geração, por exemplo, pode ser vilipendiada, a ponto de achar que as coisas se repetirão por osmose. Que não precisaremos assumir uma posição mais protagonista, com relação ao tipo de pessoa humana que queremos formar, subvertendo, se necessário, os valores vigentes e até a educação formal, via escola. A ‘Escola Sem Partido‘, esta aberração imposta pelos nossos nefandos “amigos” ideólogos, daqui e d´alhures, por exemplo, é uma mostra de protagonismo às avessas, ou seja, não seja inocente de pensar que existe neutralidade em qualquer aspecto da vida. Tal movimento aposta na interdição do debate natural na escola, na vida, para a nova geração de zangões…

Séries como Family Ties e “Todo Mundo Odeia o Chris” são muito eficazes em, sob o pretexto de discutir amenidades, ir bem fundo nos costumes e preconceitos e acabam, neste roldão, se tornando fotografia de uma época. Family Ties parece bem atual, traçando um paralelo com o momento em que assistimos ao desmonte de vários Estados nacionais. Esta já é uma boa razão para assisti-la, como análise comparativa. Além dos canais da tevê paga, que vez por outra a reprisa, geralmente com o título original, além de poder vê-la nos sítios dos Estúdios originais ou nos canais de “stream“.

Série: Caras e Caretas (1982-1989)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

¹ Uma ideia tão imbecil para se acreditar ter saído da cabeça de educadores. Felizmente, não!.
² No Brasil, curiosamente, uma novela, tempos após, recebeu o nome literal da comédia de situação: Laços de Família.

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Thérèse D. (2012). Sem pesar os próprios atos.

therese-d_2012Por Marcos Vieira.

Thérèse se sente sufocada pelo casamento com um homem que ela não ama e resolve matá-lo. Fosse simples assim, esse filme não estaria nessa lista.

therese-d_01Thérèse Desqueyroux (Audrey Tautou) é inteligente e introspectiva. Ao contrário dos outros moradores de sua fazenda e das fazendas vizinhas, ela vive enfiada em livros e não tem medo de dizer o que pensa. Por isso, apesar de não concordarem com ela, todos a respeitam. Seus pensamentos a levam a lugares muito mais distantes do que a maioria ali jamais imaginou ir. Mas Thérèse não é uma questionadora. Ela vê as regras e tradições daquela França rural do início do século XX como parte da vida. Ninguém a força a se casar com o herdeiro da fazenda vizinha. Ela o faz basicamente por dois motivos: primeiro, porque, uma vez juntos, eles terão uma das maiores ou a maior propriedade da região, e Thérèse quer aumentar sua riqueza; o outro motivo é um tanto mais inusitado: ela espera que a vida matrimonial a “conserte”, que tire de sua cabeça todos aqueles pensamentos estranhos ao mundo ao qual ela pertence. Thérèse quer que o casamento mate (e não que satisfaça) a sua curiosidade do mundo exterior.

therese-d_02Esse casamento se torna sufocante não por causa da falta de um amor verdadeiro, ou mesmo por falta de afeto (já que seu esposo sempre demonstra um irritante amor paternal), ou mesmo por falta de satisfação sexual (satisfação essa que realmente não há). Misteriosamente, Thérèse não parece precisar de nenhuma dessas coisas. O que ela realmente precisa é de estimulo intelectual, alguém com quem ela possa conversar sobre coisas mais profundas do que pinheiros, terras e caças. Ela precisa de conversas e rotina mais interessantes, e de ideias que a desafiem. E é daí que surge a tentativa de assassinato. Veja bem, Thérèse não tem um plano para escapar dessa situação, e não é em busca de liberdade que ela tenta matar o marido. No fim das contas, parte dela nem quer ser tão livre assim e nem quer vê-lo morto. Ela o faz porque tem a oportunidade. Dessa forma, alguma coisa minimamente interessante passa a acontecer naquela casa. Basicamente, ela o faz para sair da rotina. Tudo bem, a vontade de se ver livre daquele homem e daquela vida chata está lá inconscientemente, mas em momento algum ela racionaliza em relação a isso. Em determinado momento, quando questionada sobre o motivo, ela responde com um comentário: “Você sempre sabe o motivo dos seus atos.” Ela não.

therese-d_04.jpgO que se vê nesse filme é Thérèse falhando em ser a mulher que a sociedade e o matrimônio exigem que ela seja. Ela quer ser essa mulher, ela tenta, mas não consegue. Thérèse não é uma boa mentirosa, ela não consegue blefar. Ela pode até mentir para si mesma e para os outros, mas seus atos não mentem. Curiosamente, encontramos a antítese de Thérèse na divertida comédia Blue Jasmine, que também está entre os melhores que assisti em 2013. A Jasmine do título é puro blefe. Ela faz o máximo possível para não ter uma só gota de autenticidade. Ela precisa tornar real a narrativa de mulher casada, rica e sofisticada ao qual se propõe. Quando essa narrativa é ameaçada, ela perde o controle, pensa apenas em si e toma atitudes destrutivas para todos ao seu redor. Em sua histeria, Jasmine fica cega pela frustração e não mede as consequências de seus atos. Esse é um Woody Allen triste e obrigatório.

therese-d_03Mas voltando à Thérèse: essa é a segunda adaptação cinematográfica do livro de François Mauriac. A primeira é de 1962 e um tanto diferente dessa nova. Enquanto Audrey Tautou tenta expressar por meio de gestos e olhares as angustias de Thérèse, no primeiro a própria personagem narra em off o que ela está pensando e sentindo. Li uma crítica que considera o primeiro um tanto melhor justamente por essa explicação, não ficando satisfeita com a atuação de Tautou. Fui conferir. Nesse, o clima sombrio é um tanto mais pesado, mas a narração realmente deixa tudo muito bem explicado. E é justamente por isso que prefiro a nova adaptação: por Thérèse estar limitada a gestos e olhares, o telespectador pode ele mesmo tentar decifrá-la, ou até completá-la com partes dele próprio. No final, seu entendimento de Thérèse diz muito mais sobre você do que sobre a personagem que o filme tenta apresentar.

Deus da Carnificina (Carnage. 2011)

Parece que Polanski andava engasgado com alguma coisa e finalmente conseguiu vomitar literalmente suas angústias em cima de grandes obras de artes e na frente de estranhos. E não satisfeito, lavou roupa suja em público. Uma chacina moral numa ‘análise grupal’ sendo quatro divãs número suficiente para se economizar no troco, complementando com vozes em off da mamy de um do…s envolvidos. Freud explica? Um dos protagonistas seria vendedor de drogas consideradas lícitas, matando aos poucos seus pobres consumidores, o da poltrona consegue testemunhar pela conversa entre Walter e Alan via aparelho celular; o outro é vendedor de quinquilharias domésticas, e um dos seus produtos seria descarga de privadas.

E as Tulipas não foram escolhidas, como um dos adereços, por acaso. Elas têm um significado singular.

O significado principal da tulipa é o amor perfeito, as tulipas sempre dão um sentido de charme e elegância para qualquer ambiente.

As tulipas vermelhas são fortemente ligadas ao amor verdadeiro, enquanto que a tulipa roxa simboliza quietude e paz; quanto as tulipas amarelas uma vez representam o amor impossível ou a luz do sol generoso. As tulipas brancas são vistas para reivindicar os valores ou emitir uma mensagem de perdão.

Não se iluda: gente elegante também quebra barraco… e com classe! É questão de oportunidade.

E tudo começou num parque de diversões… brincadeira de criança grande…

Clap,clap clap! Roman POLANSKI sempre nos surpreendendo com suas deliciosas inovações.

Karenina Rostov

Deus da Carnificina (2011). Mostrando Quando Um Peso Tem Duas Medidas

Uau! O texto da Yasmina Reza, aliado a sagacidade de Roman Polanski mete o dedão na ferida e com vontade! É de um brilhantismo ímpar! Onde nos deparamos com a desconstrução da sociedade atual na pele de dois casais. Por uma fachada de que se vive em prol da coletividade, são os valores individuais que irão imergir. Será muito mais do que um lavar a roupa suja, irão se despir ora dos conceitos, ora das armaduras, mas numa troca muito rápida de posicionamento. Será um mergulho profundo e individual que não ficará pedra sobre pedra. Um dia que lembrarão para sempre.

A trama do filme é calcado em diálogos que variam do desconcertante para os massageadores de ego. Se foram edificantes, só saberão no day after. O melhor de tudo é que temperada com muito humor. Para nós, é claro!

Onde ainda no início parece que alguns deles não se deram conta de que usam de um peso com duas medidas. Mesmo ela sendo mostrada numa simples fala de um dos personagens. É o óbvio encoberto por: “coisas do passado“, “agora os tempos são outros“, “vivemos num mundo civilizado“… O Roteiro é tão genial, que essa cutucada vem com essa simples fala: “– Não é tão diferente.”. Acompanhem a cena, e tirem as suas próprias conclusões.

Claro que desde o início do filme há muito mais questões levantadas, até nas entrelhinhas. Onde todo o contexto parte de um ato entre dois adolescentes: um, portando um galho de árvore, agride um outro, e tendo como testemunhas oculares um grupo na mesma faixa etária. Na área recreativa de um Parque. Aliás, essa cena é mostrada meio de longe. Numa de que seu parecer ficará em cima do que os seus olhos viram, mas sem ouvir as partes envolvidas. Ouviremos sim, mas relatados pelos pais. E ai, com o peso e medida deles.

Para mim, em “Deus da Carnificina“, Polanski nos coloca em cadeiras de um corpo de jurados onde a sentença também levaria em conta os nossos próprios valores. E é ai que eu digo que esse filme deveria ser visto pelas pessoas de mão única. Que nem mostrando por a+b que estão se contradizendo, não aceitarão. Até porque seguem a máxima que seus valores são irrefutáveis.

Houve uma agressão, num local público, onde há danos físicos, e entre dois adolescentes. Após esse incidente, caberia aos pais que papel nessa história? Até porque não estavam presentes no tal parque. Um local que para a mãe do agredido era imune a violência como essa, por ser frequentado por uma classe social de mais posse.

Claro que não dá mais para banalizar a violência do dia-a-dia, como em algo já decantado por João Bosco: “Sem pressa foi cada um pro seu lado…“. Mas por outro lado não se deve fechar questão entre o que está certo ou errado. Acima de tudo, ainda não passam de crianças onde o instinto fala mais alto que a razão. Mesmo que o ato seja reflexo do que se sente em sua própria casa, há algo cultural, milenar, de que na rua é o instinto de sobrevivência que fica em alerta. Quando se sente ameaçado, usará as armas que tem, no ali e agora. E é aqui, nesse ato-reflexo, que entrará também como bagagem quem ele é na essência. Voltando ao fato de que se fechar a questão poderá não ver alguém que fez o que fez porque só quis ser aceito pelo grupo.

– Crueldade e esplendor.
– Caos e equilíbrio.”

E é por ai, uma das premissas em “Deus da Carnificina“: pesar os atenuantes expostos. Tentar ser impessoal porque serão os pontos de vistas de cada um dos personagens que estarão em julgamento. Só que não em um Tribunal de Júri e sim numa Sala de Estar que até poderia ser em um Lar qualquer se não pertencesse ao casal Penelope (Jodie Foster) e Michael Longstreet (John C. Reilly), pais do filho agredido, recebendo o casal Nancy (Kate Winslet) e Alan Cowan (Christoph Waltz), pais do filho agressor, para o que na cabeça de Penélope: se houve um ato condenável deve haver um castigo.

Mas a lição que fica é: “Conte até 10, até 100… antes de entrar numa contenda entre crianças.”

Um filme Nota 10 em tudo! De não querer perder nem um gesto dos personagens, muito menos das falas. Os quatros atores estão soberbos. Em nenhum momento eu pensei em outros. Aliás, é um filme que se piscar corre o risco de perder algo. No filme todo, só há duas cenas externas. A do início, que eu já mencionei. E a outra que fecha o filme com chave de ouro. Explêndida!

Preferi não trazer spoiler. Muito embora cada um dos quatros personagens daria análises mais detalhadas. Onde como argumentavam seus posicionamentos me levaram a sonorizar baixinhos uma interjeições meio impróprias. Como também, o personagem do Christoph Waltz me fez lembrar do filme “Obrigado Por Fumar“. Ele parecia ser o advogado do diabo dessa história. Seu cinismo foi bárbaro, bem condizente com sua profissão. John C. Reilly transitava entre um Fred Flinstones e um político daqueles cheios de “agrados”, muito embora seja um vendedor de itens domésticos. Kate Winslet soube pesar bem um hamster com a agressão que seu filho praticou. Jodie Foster com suas caras e bocas meio histriônicas, mas bem de acordo com “uma mulher à beira de um ataque de nervos” pelo casamento que levava. Será que os opostos se atraem de fato? E quem teria rodado a baiana em primeiro lugar nessa contenda? Hilária, por sinal!

Então é isso! É mais um filme que entrou para a minha lista de que vale a pena rever. Ô! E como vale!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Deus da Carnificina (Carnage). 2011. França. Diretor: Roman Polanski. Roteiro: Yasmina Reza. Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, John C. Reilly, Christoph Waltz. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 80 minutos. Adaptação da peça homônima de Yasmina Reza.

Lola (Lola. 2009)

Creio que fui acelerada ver esse filme. Talvez embalada pelas ótimas críticas. O lance foi que me senti incomodada com a lentidão do início, e logo eu que não ligo para isso, desde claro que faça parte do contexto em contar a estória devagar. Foi só quando numa tomada longa com uma chuva que acordei. Pensando até em que eu gosto de olhar a chuva. Então, após esse tapa-na-testa, desacelerei. E dai para o final, acompanhei atenta. Não posso dizer que encantada com o drama narrado, mas sendo pela maneira como foi mostrado, ai sim. O Diretor Brillante Mendoza merece todos os aplausos.

Lola” significa avó na língua local, em Filipinas. E o filme conta a estória de duas avós. Duas mulheres endurecidas pela vida. Duas mulheres inflexíveis em seus sentimentos. Duas mulheres determinadas em seus propósitos. Uma tragédia faz com que fiquem frente à frente. O neto de uma, da Puring (Rustica Carpio), mata o neto da outra, a Sepa (Anita Linda). O roubo de um celular + uma reação + o porte de uma faca = uma morte + uma prisão.

Alagados, Trenchtown, Favela da Maré / A esperança não vem do mar / Nem das antenas de TV / A arte de viver da fé / Só não se sabe fé em quê

Esse drama não se abateu na Manila dos cartões postais. São todos moradores de um lado pobre de lá. Mas do que viverem, são sobreviventes. Onde essas duas avós são mais dois exemplos do que está acontecedo no mundo atual. Se até há pouco tempo os anciões eram jogados em asilos, hoje suas parcas pensões sustentam a família. Sepa morava numa região alagada, em casas que mais parecia um túnel, estreito em todos os sentidos. O jovem assassinado seria um a sair dali, e quiçá, tiraria a todos, pois estava recém empregado. A alegria em ter um celular, levou a tristeza de vê-lo sair sim dali, mas num caixão. O que elevou a ira de Sepa, e em querer que o assassino de seu neto apodrecesse na prisão.

Já Puring vivia em “terra firme”, numa casinha quase um beco. Ajudava a um outro neto a vender legumes pelas ruas. Sempre de olho no “rapa”. Em casa, ficava o filho adoentado. Ao neto trabalhador, sua única diversão era ver televisão. Aparelho esse que será motivo de discórdia entre ele e avó. Questionando-lhe valores. Mas Puring também é a mãe deles, dai não difere das demais: os cuidados maiores vai para o filho que está no desvio.

Sepa também termina por esquecer de outro neto, Jay-jay. Um menininho que ama e é o companheirinho dessa avó. Sepa acaba descontando nele a sua ira quando se vê frente a frente com Puring pela primeira vez. Diante do caixão do neto, a outra vem pedir perdão. Para a filha de Sepa, a vida deve continuar, até por Jay-jay e o irmãozinho. Mas parece que nada amolecia o coração da mãe.

Em “Lola” além da pobreza, e até por ela, conhecemos um pouco do Sistema Judiciário de lá. Com celas lotadas, mesmo para um assassinato, se houver um acordo entre as partes envolvidas, o caso se encerra. Ao mesmo tempo que espanta, se leva a pensar em que tipo de ressocialização um jovem teria caso fosse condenado. Puring então passa até por cima de seus valores morais para conseguir juntar uma quantia que compre o perdão para o seu neto. Por querer lhe dá uma nova chance. Em sair do desvio.

A Religião em muita das vezes penaliza os de baixa renda. Todo um cerimonial de um enterro é uma delas. Se não há dinheiro para um caixão, por que não envolver o corpo num tecido? Para Sepa, mesmo o caixão mais barato está muito aquém dos seus rendimentos. Então sai em busca de dinheiro para enterrar o neto. E um pequeno milagre acontece ainda durante o velório. Como a abençoar a batalha de ambas.

E o filme também veio mostrar que elas ainda têm vez e voz em seus lares. É a velhice sendo respeitada! Um libelo às lolas de todos nós. Um excelente filme! Mas não me deixou vontade de revê-lo.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Lola (Lola. 2009). Filipinas. Diretor: Brillante Mendoza. Gênero: Drama. Duração: 110 minutos.

LUZ SILENCIOSA (2007). A Manutenção da Tradição pela Paixão

Por: Pedro Moreira da Silva Neto.
A ideologia de Luz Silenciosa participa de uma situação eminentemente moderna para uma organização que se determina na tradição. O contraponto entre ordem estabilizada e modernidade em seu abrupto tempo não determinado, não esperado se acondiciona na paixão.

Novamente se estabelece no relacionamento a condição de se petrificar, isto é, de se manter na ordem. Essa aparência é deslocada quando se percebe que é a troca conservadora por outra, a ação de um passe, de situação estruturada para outra é também tradicional no sentido de retificação do sujeito na perda de uma seguridade vivida na tradicionalidade.

Não ser tradicional, não pertencer a uma ordem não conservadora é uma atitude, por assim dizer estritamente tradicional e conservadora já que a tentativa de uma liberalidade de amor está também presa, petrificada no sentido de paixão, isto é, de uma determinação voluntariosa que se organiza na perda. Quero dizer que a perda de uma referência, de uma posição tal frente à comunidade, no caso Menonita (mas poderia ser outra) se encontra nessa dualidade entre ganhos e perdas, legitimação de um bem paixão pela morte. Que mesmo é isso, no sentido cristão que a representação do amor exacerbado se encaminha, à morte, à transmutação.

O que define por fim, essa condição de perda é, portanto, o despojo do amor, o desencontro que ocasiona a irracionalidade e a organização. Nesse sentido, penso que esta necessidade da perda é uma construção de perdas que, sem retorno se encaminha à entrópica situação do sujeito frente ao meio, uma localização geográfica da morte no território da paixão.

Luz silenciosa não é para mim uma luminosidade ascendente, senão a perda da clarificação do estado de ser. A ética amorosa, com ou sem conservadorismo é a lógica da permanência reestruturada e não do corte, da amarra, mas de uma impossibilidade de ascensão cultural do indivíduo, de sua autopercepção enquanto falho, enquanto criador de oportunidade, e relacionado não ao objeto individual do desejo, mas da transmutação do amor paixão pelo amor. O sentido de amor maior que é perdido para uma criatura que não consegue, portanto, se estabelecer.

A aculturação, ou a inversão de valores, ou o racional e emocional num embate de qualificação. A perda da memória afetiva, interna, e a percepção externa de uma realidade sociocultural, entre tudo, filhos, futuro, posição, conhecimento, atividade produtiva, fatores que são substituídos por uma posição diversa, mas muito comum e conhecida: amor paixão, indefinição às ordens culturais, motivações emocionais, pouca percepção ou um individualismo que é levado por outro que apesar de conhecido é indeterminado, contrariedade ao controle social da cultural estabelecida, entre outros aspectos.

O que se percebe que Luz Silenciosa não trata do direito de amar, mas a ocasião da paixão e a perda sim de um olhar referencial ao estado do sujeito em sua comunidade. Uma posição do indivíduo -vestido de mundo, em sua mundanidade- que necessita de uma opção de qualidade para si, de um desejo seu e não de uma relação do sujeito frente a seu universo de conhecimento, ou de pertencimento local, ou de sentido comunitário, e mesmo de realização.

A modernidade implanta um sujeito deslocado do cotidiano da vida relacional num casamento com a fratura do sentido sociocultural. A opção é mais um acontecimento na vida da individualidade frente à ordem familiar e cultural.

Elizabeth Fehr faz o papel da mulher traída por Johan (Cornelio Wall Fehr) menonita (comunidade religiosa que defende o pacifismo radical e rejeitam o progresso) se apaixona por outra mulher. O ator é de fato também um menonita e se espantou em se ver no vídeo. No filme não está em cheque a questão de opção comunitária, mas as esperanças de uma família, de organização apaixonada pela paz ontológica de se realizar bem por reciprocidade. A comunidade onde foi realizado o filme está ao norte do México. Uma comunidade menos radicalizada nos preceitos, mas determinada em prover o sentido comunitário em sua tradição. Apesar de possuírem carros, e outros equipamentos tecnológicos a comunidade de Johan se mantém na direção de sua crença e organização.

O fato de se apaixonar por outra é antes de tudo um acontecimento humano, mas também é um símbolo de que os fatos exteriores invadem a mais estruturada organização tradicional. Por outro lado se faz como uma definição de que havendo o senso de poder, isto é, o sujeito está em posse de algo que o mobiliza, talvez implícito pela concussão tecnológica, pela impregnação da vontade que o faz redentor, o apaixonado. A vontade de poder então é mais uma presença na vida de todos nós como nos diz Nietzsche e a sua relação com o futuro nos torna vagos e independentes, nos faz a caminho sem direção, mas justificados por aquilo que nos permite realizar a paixão e dentro dela a sua alteração com a morte. Morre com a fé o homem, e nasce do homem a fé em sua condução inexorável à morte.

No espaço estruturado finito não é possível o engano, a mentira e não pode haver perda sem a reposição ideológica presente no outro.

A morte da mulher é o resultado da paixão (alguém deve morrer mesmo que de forma simbólica), morre para que a outra se anteponha à ordem, para que continue a estrutura desejada e amada, para que sublime o amor e retorne à tradição.

A quem assiste ao filme percebe que está inclinado a partir que é em última instância um desejo de permanência que é “obliterado” pela partida.