Deixe Ela Entrar (2008). A gênese de uma mente psicopata.

Por: Renato Santos.
Aviso: O texto a seguir contém Spoilers importantes.

Estou surpreso com a quantidade de pessoas (principalmente adolescentes) que estão achando que este é um filme romantico, um filme que versa sobre uma estória de amor adolescente!

Acordem, este brilhante filme não é um romance que tem vampiros no roteiro! É uma estória fantástica que aborda de forma simbólica, e não por isto menos precisa e verdadeira, a gênese de uma mente psicopata.

O velho assassino representa o futuro do Oskar. Reparem como os dois manipulam a mesma faquinha, com os mesmos gestos. O velho é Oskar e Oskar é o velho. A “menina vampira” representa o mal absoluto. O mal que seduz e conquista o frágil e massacrado Oskar. O mal que o redime, objeto de culto e paixão.

A “menina” que aliás não é uma menina. Ela diz isto repetidas vezes, mas ele não que ouvir. Na cena em que “ela” troca de roupa isto fica claro, pois ela não possui vagina, e sim uma cicatriz no lugar do antigo pênis – sim, a “vampira” é um menino castrado, feminilizado (isto está colocado de forma explícita no livro, mas no filme a cena é muito rápida e fica difícil de entender). Ou seja, “ela” é o “alter-ego” dele.

A cena em que ele “a” aceita é fantástica. A cena em que comete o primeiro assassinato (ao entregar o vizinho no banheiro). A cena final em que ele conversa com “ela” no trem, em morse, é uma obra-prima. A conjunção de absolutos que caracteriza a mente dos psicopatas: amor x maldade.

Se você quer entender como funciona a mente de um psicopata veja este filme.

Um último comentário: o título em português mais uma vez decepciona: “Deixa ela entrar“. O título original, que em português seria algo como “Deixa o que está certo entrar”, é uma provocação, mas traz o significado do filme (na ótica do psicopata).

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Sombras da Noite (Dark Shadows. 2012)

Desde que eu vi um dos primeiros teasers já fiquei na maior expectativa. Querendo muito ver toda a história contada pelo genial Tim Burton. Como também a performance de Johnny Depp, prometia. Enfim o filme chegou por essas praias. E… Peguem a pipoca no tamanho grande, pois não desgrudarão os olhos da tela. É diversão garantida!

Vi numa entrevista na tv que o filme foi baseado numa antiga Série de tv. Como eu não a conheço, vou me ater ao filme em si. Tim Burton contou, e muito bem, a história da Família Collins. Só pecou num único detalhe, que eu contarei qual é mais adiante. O filme “Sombras da Noite” foi muito bem construído. Fazendo certas homenagens a outros filmes numa ponte entre os de Terror com as Paródias a esses. O que não deixa de ser um show à parte: um quiz para identificar que cena lembra a tal filme. Não querendo estragar a brincadeira, mas deixo um: “O Exorcista” (1973), por exemplo. Se é com alta dose de humor, será fácil matar essa charada. Além da cena clássica desse, uma outra me fez lembrar, mas de um outro filme mais recente, o “A Morte lhe Cai Bem” (1992), pela performance da Meryl Streep, que me fez pensar se uma outra atriz mais tarimbada teria também dado um show em “Sombras da Noite“. Pois nesse aqui, foram outros dois personagens que brilharam.

São pequenas homenagens que abrilhanta a trama, pois afinal, essa Família não tem nada de comum.

Há cenas que me fizeram lembrar do Vovô da “Família Monstro” quando ele tentava dormir em alguns lugares inapropriados. E segue por ai as referências a outras obras. Mas ainda no campo dessas homenagens, Tim Burton não esqueceu de, em vez de lembrar, trazer um ator dos Clássicos do Gênero. Tim deu um personagem para Christopher Lee, que já participou de outros filmes dele. Mesmo num pequenino papel, um grande ator quer é mais continuar atuando. Valeu, Tim!

O filme “Sombras da Noite” vem em dois atos. Ou seria em três? Por conta do final que deixa um gancho para uma continuação.

Há um prólogo, contando o início de uma família inglesa em solo americano, no ano de 1752. Tendo gostado, e prosperado, por lá resolveram morar, construindo uma imponente mansão. O lugar, por ter se tornado um importante porto de pesca graças a essa família, ganha o nome de Collinsport. E a mansão, de Collinswood.

Numa virada de tempo, com os filhos já crescidos, um deles passa a ser cobiçado por corações femininos. É o então personagem de Johnny Depp: Barnabas Collins. Mas que só tinha olhos para uma jovem. Acontece que uma das preteridas, uma das criadas da mansão, não deixará barato. Tendo ai o início de uma briga secular. Ela é Angelique, personagem de Eva Green. Onde para mim Tim Burton errou na escolha dessa atriz. Pois ela deixou escapar um importante papel: o de vilã dessa história. Mesmo na cena de uma transa ao som de “You’re the First, the Last, My Everything”, de Barry White, cena essa que ficará na História do Cinema, mas o brilhou ficou mesmo com o “partner” e os efeitos especiais. Teve momentos que ela me fazia lembrar da Anne Hathaway. E quando isso acontece, já são pontos a menos para a atuação. Além do que, não esteve à altura da performance de Depp. Esse foi fenomenal!

Após uns rounds, Angelique põe o belo príncipe para dormir, mas diferente do Conto da Bela Adormecida, ele vira um vampiro e Collinsport continua viva, não “adormece” com ele.

Passando então para o segundo ato, que na verdade é quase o filme por inteiro. Nessa passagem de tempo, Collinsport se encontra no ano de 1972. A cidade prosperou. Em contrapartida, a mansão entrou em decadência.

Junto com ela, os membros da Família Collins: a então nova matriarca Elizabeth (Michelle Pfeiffer); sua adolescente e rebelde filha, Carolyn (Chloë Moretz); um irmão que tenta manter uma pose de lorde, Roger (Jonny Lee Miller), com seu filho David (Gulliver McGrath), que todos acham que pirou após a morte da mãe.

Morando também na mansão: – Há dois empregados: o faz tudo Willie (Jackie Earle Haley), que depois será um mordomo para o Barnabas; muito boa a cena onde ele escuta e canta “The Lion Sleeps Tonight”, de The Tokens. E uma senhorinha cujas cenas são hilárias depois com o Barnabas de volta à mansão, nas que ele tenta dormir; merecendo também o registro do nome da atriz: Ray Shirley. Ainda na residência dessa estranha Família, uma convidada que fora contratada para tratar do pequeno David, mas que acabou por lá ficando: a Dra. Julia Hoffman, personagem da Helena Bonham Carter. Uma Psiquiatra, diria que “aditivada”. Uma outra jovem chega à mansão, e que será a governanta do David. É Victoria Winters (Bella Heathcote), que ao longo do filme vamos conhecendo a sua história, e porque foi parar ali. Só a Dra. Julia que não morreu de amores por Victoria.

Além de Depp, outras das excelentes performances foram com as atrizes Michelle Pfeiffer e Helena Bonham Carter. Excetuando Eva Green que eu daria uma nota 6, aos demais, estiveram ótimos.

Cenário, Maquiagem, Figurino, Fotografia, Efeitos Especiais, além claro desse trio primoroso – Direção, Roteiro e Trilha Sonora -, dariam ao filme uma nota máxima. Mas… Pelo o que já contei acima, darei nota 8. E o personagem do Depp deixou uma vontade de vê-lo num Number Two.

Então, é isso! Peguem a pipoca, pois terão diversão garantida!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Sombras da Noite (Dark Shadows. 2012). EUA. Direção: Tim Burton. +Elenco. Gênero: Comédia, Fantasia. Duração: 113 minutos. Baseado em Série de Tv.

Deixa Ela Entrar – Um dos melhores (e mais assustadores) filmes que já vi

É com surpresa que vimos o filme mais fascinante sobre vampiros surgir da Suécia. Desde “Nosferatu” do Murnau e “The Hunger” do Tony Scott não surgia nada tão original, hipnótico e assustador sobre o tema. Tomas Alfredson orquestra brilhantemente um elenco afiadíssimo (especialmente as crianças) calcado num roteiro preciso e envolvente sobre Oskar, um menino solitário que conhece uma vizinha estranha e noturna. A criatura o ajuda a ter mais autoconfiança para enfrentar seus agressores no colégio enquanto terríveis mortes acontecem no lugar.

A fotografia é um espetáculo à parte ajudando a compor um clima gélido e assustador com um enquadramento singular, cheio de contrastes e closes inéditos. A música também é perfeita e caminha junto com toda esta perfeição técnica compondo situações apavorantes que enchem a tela a cada instante com imagens de gelar o sangue sem abusar dos efeitos especiais. É preciso estar atento para não perder detalhes preciosos como sons de fome e a besta oculta pelas sombras ou subindo pelas paredes feito um inseto rastejante. Esqueçam os clichês óbvios como cruzes, dentes pontiagudos, alhos e caixões embora a essência da lenda esteja completa na estória. A releitura inteligente acrescenta elementos psicológicos e sexuais que impregnam a trama com uma verossimilhança impressionante tocando em temas delicados como a difícil transição para a adolescência, longevidade, ambiguidade, longevidade e luta pela sobrevivência. Tudo manipulado com habilidade, sensibilidade e sutileza raras para o gênero.

Em dias de crepúsculos e sanguessugas lésbicas, “Deixa ela entrar” será um marco para uma nova era de filmes sobre vampiros se as portas continuarem abertas para a qualidade.

Carlos Henry

Deixe Ela Entrar (Låt Den Rätte Komma In. 2008)

letrightonein_finalAntes  de ser um filme sobre vampirismos e suas transformações, é um filme sobre as diferenças e suas aceitações.

A diferença é naturalmente uma ameaça para aqueles que não tem auto-confiança em seus espaços; é preciso, portanto, que se reconheça como uno e como diferente de todos os demais para abrir espaço pro novo.

Oskar é um exemplo que acontece em qualquer escola do mundo: um menino que é maltratado e apanha dos colegas no colégio  por não ser igual à maioria, por ser nerd [????], por ser diferente, melhor dizendo. Faz amizade com sua vizinha Eli, a menina-estranha que só aparece à noite.

Acima de mostrar a “chateação” prática em ser vampiro, ou seja, não poder se expor à luz, só se alimentar de sangue etc – isso que outros cinemas mostram à exaustão – , esse filme  mostra bem mais o que é uma vida sem socializações: não poder ter amigos, não poder ir à escola, não poder sair à luz do dia que já é tão fraca na Suécia e maior parte da Europa, não poder envelhecer e passar anos a fio com a mesma idade e tamanho… Já imaginaram o sofrimento disso?

Têm sofrimentos que são mais leves de serem carregados quando se tem um amigo…

Por: Deusa Circe.

Deixe Ela Entrar – Låt den Rätte Komma In

Direção: Tomas Alfredson

Gênero: Drama, Terror

Suécia – 2008

Deixe Ela Entrar (Låt Den Rätte Komma In. 2008)

let-the-right-one-in_posterUma das invenções mais espetaculares do imaginário popular é toda a mitologia e misticismo que rodeia a cultura do vampirismo, afinal o mesmo é fonte de inspiração para inúmeros livros, canções, filmes, séries de televisão e jogos eletrônicos. Sobra até mesmo espaço para algumas lendas e relatos de pessoas que juram de pé junto a existência das abomináveis criaturas. Aqui no Brasil também temos vasto material de ficção acerca do tempo – basta ver que em todas as livrarias tem, ao menos, um livro de destaque do gaúcho André Vianco que, assim como Annie Rice, se especializou em escrever romances vampirescos.

vampire_by-clyde-caldwellO que faz um vampiro se tornar tão interessante é que ele é uma criatura das trevas, porém extremamente humano – tanto em feições, como na grande parte dos seus hábitos. Ele é alérgico a luz, imortal e tem sede de sangue. Geralmente vive uma vida reclusa e o mais discreta possível. De resto, é em tudo parecido conosco. Porém ele leva uma vantagem: como é imortal, já passou por mais coisas na vida do que o mais velho de todos os seres humanos, também é mais culto e, por isto, mais romântico e sedutor.

Porém esta imortalidade, que a principio parece ser um bom negócio, se converge em maldição: ele não pode se apegar a ninguém, pois logo esta pessoa irá morrer. Como o lado emotivo humano fala mais alto, nem sempre é possível não se apegar, afinal ele é uma figura solitária e sempre se apaixona por pessoas que compartilham sentimentos com ele. Por isto mesmo ele é obrigado a conviver eternamente com lembranças dolorosas. Além disto, só a noite pode mostrar as caras, ou seja, sua vida é mais melancólica do que as demais: a luz da esperança jamais irá brilhar para ele e enquanto todos estão nas ruas ele está a dormir, quando todos vão dormir e ele está acordado.

Enfim, com um personagem tão complexo disponível para domínio público muitas histórias extremamente competentes e bonitas surgem em nossa cultura. Recentemente tive a feliz oportunidade de prestigiar o filme sueco Låt den rätte komma in – em inglês Let The Right One In – baseado num livro de John Ajvide Lindqvist, que trata com maestria o belo romance melancólico deste fascinante tema. Em meio ao clima sombrio de um intenso inverno e de cenas fortes de assassinatos, temos uma história de amor muito bonita contada com elegância. Estamos diante de um clássico gótico e que certamente figura entre os melhores filmes vampirescos de todos os tempos!

let-the-right-one-in_kare-hedebrantOskar é um menino de 12 anos que sofre com os atos de bullying de seus colegas da escola. Não há um dia em que ele não seja agredido, sendo que o ódio lhe consome internamente: ele sonha com o momento em que ele se vingará de seus agressores. Simultaneamente ele esconde os ferimentos de sua mãe e cria desculpas para que ela nunca desconfie das coisas que acontecem. Paralelamente, uma menina da mesma idade – Eli – se muda para a casa do lado, ao mesmo tempo em que um homem passa a assassinar moradores do vilarejo e enche um galão com o sangue das vítimas.

let-the-right-one-in_lina-leandersonOskar irá conhecer a menina numa noite gélida e irá estranhar o fato que mesmo estando tão frio ela anda de pés descalços pelo gelo, é tão branca como a neve e têm certos hábitos que faz com que pense que ela seja alguém problemática. Porém nesta estranheza surge uma certa paixão entre os dois: ele pela curiosidade e ela por encontrar uma amizade numa vida que é totalmente solitária. Paralelamente a sede por sangue é cada vez maior. Conseguirá o amor prevalecer sobre um vício quase incontrolável? Conseguirá a pequena vampira não ceder ao desejo de abocanhar o pescoço do garoto?

Em meio à mortes, investigações, atos de bullying e selvageria, temos este romance onde a dúvida paira sobre nós o tempo inteiro, sendo que a garota não consegue sucumbir aos seus desejos e acaba, inevitavelmente, envolvida sentimentalmente com Oskar. Porém, ela sabe que uma hora tudo isto acaba: Eli viverá eternamente com 12 anos de idade, enquanto o menino irá envelhecer – O assassino do galão de sangue sabe bem do que estou falando – porém como frear a paixão? Como controlar os sentimentos? Questões humanas para um paradoxo vampiresco!

Por: Evandro Venâncio.   Blog:  EvAnDrO vEnAnCiO.

Deixe Ela Entrar (Låt Den Rätte Komma In / Let The Right One In). 2008. Suécia. Direção: Tomas Alfredson. Elenco: Kåre Hedebrant (Oskar), Lina Leandersson (Eli), Per Ragnar (Håkan), Henrik Dahl (Erik), Karin Bergquist (Yvonne), Peter Carlberg (Lacke). Gênero: Drama, Romance, Terror, Thriller. Duração: 114 minutos.

Freud, Klein e os Vampiros

Por: Eduardo S. de Carvalho.
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Você já reparou como as pessoas se identificam com personagens de filmes de terror? Normalmente, espera-se que o espectador vibre com as peripécias do herói, mas essa é uma visão superficial do tema. Os vilões, em geral, aparecem como mais fascinantes. E esse fascínio inexplicado vem de longa data. Ainda antes de Freddy Krueger e Jason, uma figura legendária vinda da literatura do século XIX foi quase unanimidade nas primeiras produções de terror do início da história do cinema.

O sanguinário Conde Vlad Drácula foi um personagem real, conhecido como grande nacionalista e implacável com seus inimigos. Conhecido como “O Empalador”, Drácula teve sua figura livremente modificada por Bram Stoker em sua novela, e ganhou uma interessante introdução na produção de Francis Ford Coppola.

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A estória é conhecida: o nobre que luta pelo cristianismo em suas terras, e ao retornar da guerra, encontra sua esposa morta. Ela teria se matado, ao ser falsamente avisada da morte do marido na batalha contra os infiéis. Revoltado contra Deus, por quem havia lutado, o conde volta-se para Satã e torna-se um vampiro imortal, dono de presas que lhe permitem alimentar-se das vítimas, ao sugar-lhes o sangue do pescoço. Obcecado pela mulher perdida para os domínios de Deus, Drácula é dono de grande poder de persuasão e sedução, que utiliza para procurar a amada reencarnada pelos séculos afora.

Esse preâmbulo da estória por Coppola é o foco de nossa atenção, que acredito ser útil no entendimento desse fenômeno. A aura de mistério que cerca o vampiro gera até hoje grupos de admiradores. Há vários elementos que provocam tal identificação, e que justificam um aprofundamento no tema.

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A princípio, um personagem quase mítico é depositário de muitos desejos inconscientes. O que Freud diria sobre a estória do vampiro? Sem dúvida, a face sedutora de Drácula atrai tanto o homem que gostaria de possuir esse talento, quanto a mulher que sente-se desejada por essa figura. Essa busca pelo gozo imaginário esconde o lado trágico de Drácula, condenado à eternidade sem seu objeto de desejo.

O que vemos aqui, acredito, é uma antecipação pela literatura do triângulo edípiano proposto por Freud em sua teoria sobre o desenvolvimento da sexualidade. Drácula, sua esposa e Deus são os vértices desse Édipo estrutural. No caso, a mulher “morta”, objeto de amor de Drácula, perdida para sempre, e que ele busca de maneira obsessiva em outras relações, é a mãe da criança; a figura masculina de autoridade, que ele respeitava e admirava como divina, é o pai.

Assim, o vampiro é a metáfora aterradora da criança que não aceita a perda da mulher amada para o pai-rival, e torna-se fixada (“imortal”, na visão de Bram Stoker) em seu desenvolvimento libidinal nesse início de formação do sujeito desejante. Tal fixação no complexo edipiano acarretará demais falhas no desenvolvimento e nos processos psíquicos ligados às relações objetais.

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Porém, a visão freudiana não explica a escolha de Stoker pelos caninos de Drácula. O próprio Freud admitia a intuição dos escritores, ao anteciparem o que ele foi descobrindo ao longo de seu trabalho clínico e da elaboração teórica. Portanto, temos que recorrer a um complemento, se aceitarmos as idéias contidas no romance.

Freud situava a elaboração do complexo edipiano na criança por volta dos 5 a 6 anos. Nessa idade, a criança já teria passado pelo prazer essencialmente oral, e teria outros focos libidinais. É aqui que entra Melanie Klein: tendo trabalhado durante anos com crianças – coisa que Freud jamais fez – , ela percebeu traços do Édipo já aos 6 meses de idade. Nessa fase, o bebê descobre o prazer ao sugar o seio da mãe. Ao longo de seu trabalho, Klein identificou também uma enorme gama de fantasias violentas e sanguinárias na psique infantil precoces, e mesmo que a criança ainda não tenha dentes, tem a fantasia sádica de morder e destruir o seio. O ponto é que o bebê ainda não identifica o seio à mulher por trás dele, e ao descobrir que os dois objetos são um só, a sua mãe, surge um sentimento de culpa que ele procurará aliviar através de processos de reparação.

É provável que tal fantasia seja “realizada” com o surgimento dos primeiros dentes ainda na fase de amamentação. Não havendo um crescimento psíquico natural e o sujeito permanecer fixado em tal situação erótica, estará criado o vampiro na psique do bebê e que poderá perdurar em tal estado.

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Unindo essas duas teorias libidinais que se complementam, é possível uma (re)constituição da gênese de tal fascínio pela figura aterradora do vampiro. E entender o porquê de tanta atração pelas presas de Drácula, Nosferatu e tantos outros, em nossos próximos retornos à sala escura do cinema.

Por: Eduardo S. de Carvalho.